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E nós sabíamos que o Jaime Neves ia sair com os tanques e recebemos uma ordem para lhe barrar o caminho. Barrar o caminho ao Jaime Neves, ou morríamos todos ou dava guerra civil. Não sei o que poderia ter sido, mas nós do quartel não saímos. Se eles cá vierem tentar tomar o quartel, isso é diferente. Isso aí teremos que ripostar, teremos que defender a unidade. Agora, sair para a rua para travar o Jaime Neves, foi votado contra. Dias depois, estávamos a receber ordens para entregar a farda, entregar as armas. Tive a sorte de sair.

Olá, bem-vindos ao "A Vida em Revolução". Eu sou Rui Ramos, historiador, e comigo está o Pedro Jorge Castro, jornalista. "A Vida em Revolução" é um programa em que vamos falar com pessoas que viveram a revolução em Portugal em 1974 e em 1975, para tentar perceber como foi o seu cotidiano nesses tempos de mudança e de confronto político, e o que pensam hoje, 50 anos passados, sobre essa experiência.

Neste episódio vamos falar com o músico Tozé Brito. Antes do 25 de Abril, exilou-se em Inglaterra, onde ficou a trabalhar como tradutor para não ter de combater na guerra de África. Voltou a Portugal em 1974 e teve que cumprir o serviço militar, a dar instrução de armas pesadas, o que lhe permitiu, aliás, viver as várias tentativas de golpe militar de 1975 dentro dos quartéis. No 25 de Novembro, estava colocado em Queluz, onde receberam ordens para sair à rua para travar Jaime Neves, mas votaram contra. Participou também em campanhas de alfabetização no interior, onde encontrou um homem que vivia tão isolado que ainda lhe perguntou como estava o rei, 65 anos depois do fim da monarquia. Aos fins de semana dava concertos com o quarteto 1111, que continuou a fazer músicas sobre o amor, quando a maioria dos cantores já só apostava em música de intervenção. Vamos então ouvir Tozé Brito na primeira pessoa. Bem-vindo, Tozé Brito, ao programa "A Vida em Revolução". Gostava que começasse por nos contar como é que foi o seu 25 de Abril em Inglaterra.

É verdade. Obrigado pelo convite. O meu 25 de Abril em Inglaterra foi uma surpresa, como foi para quase todos os portugueses. Não diria uma surpresa total, eu já tinha umas indicações de que alguma coisa se iria passar.

Como é que lhe chegaram essas indicações?

Por uma razão simples: eu fiz em 72 recruta nas Caldas da Rainha, quando fui incorporado no serviço militar. Fiz três meses nas Caldas à espera de ser incorporado num serviço, o alerta está, que era um serviço onde estavam os meus amigos todos. Estavam os músicos, estavam os atores, a gente toda do espetáculo, chamemos-lhe assim.

Era um serviço nas Forças Armadas?

Nas Forças Armadas. Havia um maestro, o Silvio Pleno, muito conhecido de muita gente nessa altura, que dirigia esse serviço.

E dos artistas havia algum mais conhecido?

Passou por lá o Paulo Carvalho, o Fernando Torres, gente muito conhecida. Dessa altura, eu penso que quase todos passaram. Eu não passei porque tinha canções proibidas pela censura. Eu não, o Quarteto 1111, do qual eu fazia parte. Depois vim a perceber que a razão porque não fui incorporado, chamado para esse batalhão, para esse serviço, foi o facto de ter realmente canções censuradas e de ter sido considerado um potencial elemento subversivo, coisa que eu nunca teria sido. Tive muita pena, porque realmente fazer esse serviço militar teria sido simpático. Simpático no sentido que eu não teria que dar tiros a ninguém, ninguém me iria dar tiros, em princípio. Porque organizavam-se espetáculos para as tropas, Angola, Moçambique, mesmo Guiné. Acontece que quando se sai, em 72, e voltando a essa altura, quando se sai as especialidades, e era aí que nós víamos para onde é que íamos, a minha era armas pesadas. Eu iria para Tavira, onde acabei por ir mais tarde. Eu tinha preparado tudo e disse: "Se eu não for para este serviço, eu irei abandonar o país."

Como é que abandonou? Também tem peripécias a contar.

Abandonei com um membro da PIDE, porque os elementos que trabalhavam nas fronteiras eram elementos da DGS.

A Polícia Internacional de Defesa do Estado.

Ligados à DGS.

Então pagou-lhe?

Paguei. Pagou o meu pai, que eu não tinha dinheiro para pagar. 10 mil escudos, na altura.

Muito dinheiro.

Em 72. Por uma razão curiosa, também se conta facilmente. Os meus pais tinham casa em Moledo do Minho, na fronteira com Espanha. Rio Minho, do outro lado o Monte Santa Tecla e a Galiza ali do lado. E nós conhecíamos muitos guardas-fronteiriços que ali vinham tomar o café a Caminha, que era a dois quilómetros de Moledo, e toda a gente se conhecia. Eles tinham casa durante 30 ou 40 anos, foram para lá passar férias até o meu pai falecer. Havia esses conhecimentos de café. E quando chegou a altura, eu já tinha falado com o meu pai, como é óbvio, e disse: "Olha, vou precisar da tua ajuda." E ele falou, tratou de tudo e eu passei no carro com ele. Ele apanhou-me em Valença, do lado de cá, porque os meus pais deixaram-me. Na altura eu tinha 21 anos, não tinha sequer carta de condução, nada, zero. Deixaram-me em Valença, entrei para o carro, ele disse: "Vamos embora." Atravessei a fronteira, ele disse para os colegas da fronteira: "Olha, vou ali comprar um não sei o quê a Tui e volto já." E eu ao lado.

Ora bem, quase legalmente.

Quase, perfeitamente à vontade, porque eu sabia que ia seguro. Deixou-me do lado de lá em Tui e disse: "Pronto, a partir de agora cada um é seu." E os meus pais deixaram-me em Madrid e eu felizmente, porque com o Quarteto 1111 tinha rodado muito o mundo todo, desde Tóquio, desde festivais em Tóquio, no Japão, percorremos o Oriente todo. Na Europa íamos muitas vezes viajar. Eu tinha passaporte e o meu passaporte estava cheio de carimbos Porque um dos problemas que eu enfrentava na altura e que me preocupava, sinceramente, esse era o grande problema que eu podia ter encontrado. Entre Portugal e Espanha havia acordos de extradição. E se eu tivesse embarcado como embarquei em Barajas para ir para Londres viver, e se me tivessem travado ali, eu teria tido problemas, porque eu era desertor, para todos os efeitos, a minha condição era essa. Mas como o meu passaporte estava cheio de carimbos, porque eu tinha andado pelo mundo todo, eles olharam para o passaporte e acharam perfeitamente normal: "Este está a viajar, parou aqui e agora vai para o outro lado qualquer". Lá fui para Londres e lá estive dois anos.

Ok. E a notícia do dia, como é que chegou?

A notícia do dia, exatamente, voltemos a esse ponto. Eu fiz muitas amizades quando estive nas Caldas, inclusivamente entre milicianos, alferes, tenentes, por ali fora. Eu tinha uma vantagem, na realidade, havia duas circunstâncias em que nós éramos favorecidos. Éramos recrutas, mas tínhamos algumas liberdades que os outros não tinham. Uns eram os jogadores de futebol. Eu tinha jogadores de futebol do Benfica e do Porto comigo, lá nas Caldas.

Algum mais conhecido?

O Simões, que foi central do Porto, por exemplo, o Simões era o mais conhecido de todos. Esse então saía quando queria, entrava quando queria. Não havia tropa para ele, mas os outros também não faziam grande tropa. E havia os músicos, nos quais eu estava incluído. E realmente, tínhamos uma relação muito simples, muito fácil e até de amizade com alguns oficiais da altura. De quem eu me despedi? De todos eles, porque na semana em que saíram as especialidades e eu percebi que ia para armas pesadas, eu não fiz aquilo que era habitual fazer-se, até por uma questão de cautela e de cuidado, que era não dizer a ninguém que iria sair do país. Fui-me despedir de todos.

Foi-se despedir mesmo.

Abraço a todos aqueles que eu tinha ficado a conhecer durante aqueles três meses.

Sem ter medo que o mandassem prender ou que fossem avisar a PIDE para não fazer a coisa.

Podiam ter feito, certeza, porém eu sabia com quem estava a falar e inclusivamente foram pessoas que disseram: "Não faças isso, não te vás embora". Mas de ter as hipóteses de ficar cá, eu sabia que não havia hipóteses. Era muito complicado, porque em geral, os mais bem classificados na especialidade ficavam cá depois a dar instrução, etc. Mas em armas pesadas quase todos acabavam na Guiné ou em Moçambique, em Tete ou na Guiné. O pior que podia acontecer, realmente, em termos das tropas dos serviços militares mais complicados. E nesse momento eu fui-me despedir deles todos e disse: "Eu vou-me embora". Aliás, a minha mulher era inglesa, eu já estava casado há uns meses e já estava tudo praticamente falado e combinado. Eu disse: "Se eu tiver que ir, vamos para a Inglaterra". Tinha lá a família dela, que foi como uma segunda família para mim, fantástico. Estudei, estive na faculdade, trabalhei, toquei, fiz música, fiz tudo aquilo que pude fazer. Mas esses contactos que eu fiz nas Caldas, mantive contacto com alguns deles por telefone. Há histórias muito curiosas à volta disto, porque depois a Polícia Militar ia à casa dos meus pais. Eles faziam isso quando as pessoas desertavam, de vez em quando passavam por nossa casa para ver se nós lá estávamos, se estávamos lá escondidos, etc. Mas os policiais militares também eram meus amigos, jogavam andebol no Belenenses, onde eu tinha jogado também. António Mendes, etc.

Um país pequeno.

Chegavam lá à porta e faziam sempre a mesma pergunta à minha mãe, diziam: "Então, onde é que está o seu filho?" E ela tinha uma notícia de jornal, que eu tinha estado a gravar com os Green Windows em 72, no Natal, um álbum, que gravei com o Zé Sid e com o resto do grupo. E ela mostrava-lhes a notícia e dizia: "Eu não sei. Tanto quanto sei, está em Inglaterra, é o que eu sei, nunca mais soube dele". E eles claro que sabiam. Todas as semanas falávamos ao telefone, mas ia-se embora. E sabiam que eu estava em Inglaterra, toda a gente sabia. E um pouco antes do 25 de Abril, quando se dá o 16 de Março.

Sim, nas Caldas, em 74.

Que é aquela tentativa abortada de marchar sobre Lisboa, à espera que outros regimentos saíssem do quartel. Não saíram, eles voltaram para trás e depois pagaram as consequências disso, como é evidente. Mas entre essas pessoas havia muitas que eu tinha conhecido quando lá estava. E então foram dizendo: "Isto foi um golpe abortado, isto abortou, mas espera-se muito em breve que volte a haver movimentações". E elas aconteceram um pouco mais de um mês depois.

Portanto, não o surpreendeu.

Não me surpreendeu.

E eles diziam isso por telefone, telefonavam-se?

Eu falava só por telefone.

Claro. Telefonavam. Não havia cartas. Por carta até era perigoso, não é?

Até porque cartas tinha que pôr a morada, podia não pôr.

Ou podia ser interceptado.

Mais fácil, não havia problema nenhum. Eu sabia que eles sabiam, toda a gente sabia que eu estava em Inglaterra, não era segredo para ninguém. Até porque eu gravei lá o álbum com o grupo e depois apareceu o meu nome como compositor das canções e na capa do disco. Eu estava lá. Fiquei lá. Eles foram lá gravar o álbum nesse Natal, 72, precisamente quando eu atravesso por Valença com o guarda-fronteiriço que me passou para o lado de lá e depois fui para Londres. E logo em seguida, passada uma semana, eles chegaram e gravamos esse álbum, esse disco, onde estão os 20 anos, canções conhecidas de muita gente. E eles voltaram para Portugal e eu lá fiquei. E fiquei dois anos à espera que acontecesse alguma coisa. Não tinha expectativas nenhuma, poderia ter lá ficado cinco ou 10. Estava preparado para tudo. Quando acontece, como falamos aqui, o 16 de março, eu tive então a noção de que as coisas podiam estar próximas, mas o próximo podia ser um mês, como poderia ser seis meses, um ano. Também não tinha noção nenhuma de quando seria o próximo.

E soube no dia pelas notícias ou por familiares?

Não, por telefone. Ligaram-me para casa era 07:00. Eu estava em casa e ligaram-me a dizer: "Pá, isto aqui durante a noite deu-se aqui um Digamos que um tumulto. Vamos dizer assim. Falar em revolução era muito cedo. Até porque não se sabia ainda o que poderia dar. Houve ainda dúvidas durante umas horas.

Esses são amigos seus que lhe telefonaram?

Amigos meus, não ligados ao serviço militar, às caldas.

Amigos que estavam em Lisboa e que perceberam que estava a acontecer.

Sim, amigos com quem eu falava e mesmo família minha.

Pois.

Que logo de manhã estavam a dar notícias a dizer: "Virou!". E eu disse: "Não". E houve muita gente que o fez e eu não tive vontade nenhuma de ir fazer, sinceramente.

Não teve o instinto de voltar logo.

Não, aquela coisa: "Vou correr, ver o que é que se passa." Eu disse: "Não, vamos ver o que se passa." Ainda por cima, a minha mulher estava grávida. Eu disse: "Não, eu vou ficar por aqui." E fiquei até outubro. A minha filha mais velha, a Ana, nasceu a 1 de outubro de 74. Eu esperei depois até novembro e voltei em novembro para passar o Natal. Passei a fronteira como um herói, porque todos os que chegavam e eram refratários ou eram desertores ou fosse o que fosse daqueles que tinham evitado a guerra colonial. Eram recebidos na fronteira como heróis, mas 48 horas depois recebemos uma guia de marcha a dizer: "Apareça em Santavira para fazer o serviço militar."

Já vamos mexer isso, mas primeiro ter a perspectiva da revolução desses primeiros meses a partir de Londres. Presumo que tenha havido muito mais interesse sobre aquilo que ia acontecendo cá, até através dos órgãos de informação britânicos.

Todos. Foi notícia de primeira página. No dia seguinte, dia 26 de abril, os jornais ingleses todos tinham em primeira página: Portugal, tinha havido um golpe de Estado. Tudo indicava que o governo iria ser derrubado e haveria um novo governo. Enfim, tudo aquilo.

Começou a haver um interesse muito maior, também da sua parte, por notícias de abril.

Da minha parte, claro, sim. Eu aí já estava a telefonar à vontade, telefonava quando queria, telefonavam-me quando queriam. Todos os dias eu falava com Lisboa ou com Cascais. A minha família estava em Cascais, portanto era igual, amigos em Lisboa, em Cascais, etc. Todos os dias eu ia tendo novidades, todos os dias ia sabendo o que se estava a passar cá. Houve alturas em que eu, por aquilo que se estava a passar cá, pensei duas vezes se era de voltar ou não voltar, porque apesar de as coisas terem mudado, podiam ter ido por um caminho que também não me agradava absolutamente nada e, portanto, teria ficado muito bem em Londres. Até porque felizmente eu tive essa facilidade e realmente posso dizer que fui um homem de sorte, porque eu não fui para Londres sozinho, perdido, a bater às portas. Eu tinha a família da minha mulher, que me recebeu como um elemento da família, como é óbvio. Os irmãos dela, todos os meus cunhados, cunhadas, etc. Vivi estes dois anos tranquilamente.

Trabalhava como tradutor, não era?

Fui tradutor.

Que tipo de traduções é que fazia?

De português e espanhol para inglês, numa empresa, num broker de seguros, que tinha um ramo marítimo fortíssimo. Curiosamente, eu não fazia ideia nenhuma que havia, mas havia imensos acidentes com barcos na América Latina. E os comandantes desses barcos mandavam os relatórios, escreviam os relatórios, ou em espanhol, a esmagadora maioria em espanhol, alguns no Brasil em português. Que chegavam lá e eles como brokers estavam envolvidos. Não sei se vocês conhecem o sistema de seguros, que eu também não conhecia, mas fiquei a conhecer na altura. Quando os seguros são muito altos e quando o risco é muito grande, eles dividem o risco por várias companhias ou por vários brokers, neste caso. E eu estava num deles. Portanto, quando havia um barco que ia ao fundo, com a carga, estávamos a falar.

Era uma tradução administrativa pouco criativa. Não havia nenhum trabalho mais nos vários.

Era a coisa mais chata do mundo e com termos muito técnicos que eu desconhecia e tinha que me agarrar aos dicionários, que não havia Google, não havia inteligências artificiais. E portanto, era mesmo dicionário na mão e tirando pelo sentido muitas frases, mas era o suficiente para estar à vontade, até porque o meu inglês também era muito bom. E portanto, eu traduzia de espanhol, fundamentalmente de espanhol para inglês, às vezes de português para inglês. E fazia isto das 9 às 15. Às 17 eu ia a correr para Malet Street, para o Borough College, onde das 18 às 21 tinha aulas. Estudei psicologia e sociologia. Os cursos em Inglaterra não são exatamente como cá, era um curso combinado e depois ao fim dos três anos a pessoa optava por ir para psicologia ou para sociologia. Só fiz dois anos, acabei por deixar o curso a meio, quase, dois terços. Mas não foi preciso, depois acabei por voltar, como é óbvio. Mas nessa fase, como eu estava a dizer, as notícias que me iam chegando não me davam garantias de que me apetecesse voltar para Portugal. Por um lado, apetecia-me muito vir cá e já podia vir. Mas eu sabia uma coisa, sabia que, como vos expliquei há pouco. Eu chegava, batia muitas palmas à chegada na fronteira, mas 48 horas depois estavam-me a bater à porta a dizer: "Olhe, você apareça em Tavira no dia tal que está mobilizado." E era assim que as coisas passavam. E portanto, eu tinha dúvidas, dizia: "Não, não vou. Não vou até perceber que as coisas estão minimamente seguras e que aquilo que me espera é uma situação completamente diferente daquela que eu deixei".

Isto para um jovem, apesar de ser um artista, que já tinha mundo, até como referiu, mas havia um contraste muito grande entre aquilo que via em Londres e o Portugal que tinha deixado.

Eu já me tinha apercebido disso muito antes. Eu vou a Londres a primeira vez com 18 anos, portanto três anos antes. Em 69 é a primeira vez que eu vou a Londres. E nós fomos a Londres na altura para comprar instrumentos. Havia imensos instrumentos. Já estava vindo do Porto, onde nasci e onde toquei com o Pop Five, um grupo do Porto com algum relevo no Porto E até vínhamos a Lisboa tocar, mas era um grupo com muito menos visibilidade que o Quarteto 1111. Quando cheguei ao quarteto, a convite do Cecílio, íamos muitas vezes a Londres comprar instrumentos, porque eram instrumentos que não existiam cá. Não eram só instrumentos, eram amplificadores, era tudo aquilo que nós precisávamos para fazer um espetáculo com o nível que cá não se conseguia fazer, porque não tínhamos acesso a esse tipo de aparelhagens, de instrumentos, etc. E, portanto, eu começo a me aperceber muito novo. Eu até 68, confesso que não tinha qualquer formação política, nem ideias políticas, absolutamente nenhuma. Eu vivia num país onde vivia bem. Os meus pais viviam bem. Eu era um rapazinho de classe média, puro e duro, não tinha grandes morosidades, mas também não tinha grandes problemas. Vivia tranquilamente.

Confortavelmente.

Vivia a minha vida. O que eu queria era tocar música, era fazer música, que foi sempre o meu sonho, e preocupava-me a música e as namoradas. Pouco mais me preocupava até aos 18 anos, aos 16, 17, 18.

E era um país conservador em termos de costumes também, portanto, namoradas há que ter claro.

Também era preciso ter algum cuidado, era tudo muito controlado, etc. Mas não me posso de forma nenhuma queixar. Eu vivia no Porto nessa altura. Aos meus 16, 17 anos, etc. E não tinha consciência política absolutamente nenhuma. A verdade é essa. Quer dizer, eu começo a ter consciência política quando aos 18 anos começo a sair de Portugal e começo a perceber o fosso gigante que existia antes. Ir a Londres, onde nós íamos muito, a Paris, onde também parávamos de vez em quando. Muitas vezes até fomos de autocarro, atravessávamos, depois em Bilbao apanhávamos o ferry para o sul da Inglaterra e depois voltávamos por França, Espanha, etc. E aí era realmente notório, porque Portugal tinha um atraso, anacronicamente estávamos muito atrasados no tempo, porque fundamentalmente em termos de literacia, em termos de alfabetismo, o problema era complicado.

E pelos ingleses também não era bem visto, não é?

De forma nenhuma.

Estava lá quando foi a visita de Marcelo Caetano, em 73, não? Lembra-se que houve alguns protestos?

Lembro-me sim, mas não estive com ele. Lembro-me perfeitamente, ele lá ter estado.

E dos protestos à volta?

Sim, claro que sim. Mas eu vivia um pouco fora de Londres, ao sul de Londres, em Farnham. Todos os dias, depois quando acabavam as aulas, às 9 h, apanhava o comboio para ir para casa.

Dias compridos, não é?

Eram dias muito compridos e duros, mas também aos 21 anos, 22, toda a gente aguenta isso sem problema. E depois aos fins de semana tocava, divertia-me, era uma vida divertida. Sendo que eu tinha muitas saudades de Portugal. E tinha saudades, porque tinha saudades do meu país. Não era só da minha família, dos meus irmãos, dos meus pais, como é evidente. Tinha saudades dos amigos e tinha saudades do meu país, porque por muito que se chegue a um país que está há muitos anos à frente em muitos aspetos, Inglaterra estava, e a minha formação política é feita lá, é lá que eu me apercebo realmente e aprofundo um pouco essa questão. Pela primeira vez eu estava a viver num país, talvez a democracia mais antiga, como se costuma dizer, que é a inglesa. Aprendi algumas coisas curiosas quando lá estava, porque havia dois partidos, fundamentalmente, o conservador e o trabalhista. Inglaterra é isto, naquela altura, naqueles anos 70, não havia Partido Liberal, nem havia extremas-direitas, nem esquerdas, nada disso. Havia um Partido Conservador e um Partido Trabalhista. E o que eu notei, porque durante o período em que lá estive houve eleições e passamos dos conservadores para os trabalhistas, a diferença não foi praticamente nenhuma. Talvez se sentisse a nível fiscal uma diferençazinha. Nos impostos, havia ali uns ajustes, mas o resto vivia-se perfeitamente da mesma forma. Tanto fazia estar os conservadores no governo como os trabalhistas. Em Inglaterra, eu sinceramente não sentia diferença nenhuma. Eu não sentia. Talvez outras pessoas a outros níveis, sociais e financeiros, especialmente, pudessem sentir essas dificuldades. Dificuldades ou não. Dependia da sua opção política, da sua simpatia política. Mas eu não senti. Nós no dia a dia, a vida em Londres, a vida em Inglaterra, não mudava absolutamente nada. Ok, podiam pagar mais ou menos impostos, um pouquinho mais, um pouquinho menos. As diferenças não eram assim tão significativas. E eu aprendi uma coisa que os ingleses fazem muito, que é: não encaram os partidos como nós encaramos aqui, um bocado como equipes de futebol, como clubes de futebol. Eu sou do Benfica, sou do Benfica para sempre. Eu sou do Benfica, assumidamente. Mas há quem seja do Sporting, também vão ser sportinguistas para sempre, ou portistas. Para não falar dos outros pequenos clubes, que são iguais. A política em Portugal é um pouco como o futebol. Eu acho que as pessoas dizem que são de um partido e depois sentem-se quase na obrigação de ser desse partido para a vida toda e votam PS ou votam PSD, ou votam o que quiserem. Estamos só a falar dos maiores partidos, os que vão alternando o poder aqui. E parece que as pessoas não mudam. E Inglaterra procura-se acima de tudo perceber quem são as pessoas que vão formar governo, quem são as pessoas que se apresentam. Portanto, um primeiro-ministro é um primeiro-ministro, mas depois há todo um programa de governo que eles levam muito a sério. E eles levam muito a sério estudarem isso e perceberem quem são os elementos que vão ser eleitos para o Parlamento, que representam a sua área, a sua jurisdição.

Sim, o distrito eleitoral.

Exatamente. O seu círculo.

O seu círculo eleitoral.

Porque depois há uma ligação muito forte entre a população e o representante desse círculo eleitoral no Parlamento. Isto para eles é fundamental, confiarem na pessoa que os vai representar no Parlamento. Isto faz com que os votos, pelo menos no tempo em que eu lá estive era assim, mudavam com uma velocidade enorme de acordo com a pessoa que iria representá-los em função daquele círculo.

Nessa altura tomou consciência do que era uma democracia a funcionar, do tipo ocidental, e identificou-se com esse sistema.

Identifiquei-me completamente com esse sistema.

E as suas dúvidas há pouco, quando estava a dizer em relação ao que estava a passar em Portugal, eram também no sentido de que provavelmente não era esse sistema que algumas pessoas aqui em Portugal queriam para Portugal.

Essa foi a minha grande dúvida, que aliás confirmei depois, já vamos falar de 75, quando estive a fazer o serviço militar e o Exército estava completamente partido. O Exército, as Forças Armadas, não era o Exército, eram as Forças Armadas completamente partidas e nós apercebermos que isto podia levar caminhos que não me agradavam também nada. Eu poderia ter voltado para Inglaterra para acabar o curso em 66. Por acaso não aconteceu.

Mas nessa altura, para voltar, além de ter de falar com a sua mulher, não é? Porque ela também vai.

Claro.

E ela aceitou ou como é que foi?

Aceitou, com alguma relutância. Ela conhecia Portugal, conhecia cá passar férias e depois aproximamo-nos e ela acabou por viver cá uns tempos e depois foi também estudar e acabar o seu curso em Inglaterra e depois casamos, etc. Mas os problemas, se eu me puser na pele dela, eu percebo perfeitamente o que ela estava a sentir. O principal problema era a saúde em Portugal. Por exemplo, uma das razões porque eu espero até outubro para regressar é porque a Tessa, a minha primeira mulher, tinha vivido em Portugal e sabia que o sistema de saúde em Portugal não tinha absolutamente nada a ver com o National Health Service inglês. E tinha receio, porque não falava a língua, olhava para os hospitais portugueses de lado, não tinha confiança nos hospitais portugueses, enfim, desse Portugal anterior a abril de 74.

Portanto, na verdade, adiou a vinda para ter a certeza de que a primeira filha nascia em condições.

Ela quis ter a nossa primeira filha lá em Inglaterra e eu compreendi perfeitamente os receios dela. Sem falar a língua, cair aqui num hospital ou numa maternidade Alfredo da Costa, uma coisa qualquer desse tipo, não lhe era muito agradável a ideia.

Então vieram quando a filha tinha quantos meses?

Tinha dois meses. Viemos cá passar o Natal, nasceu a 1 de outubro.

Nesse período, alguma das pessoas que tinha cá sofreu alguma coisa com a revolução? Foi perseguida por alguma razão?

Não.

Por exemplo, eu lembro-me que contou que teve um grande namoro, apesar de tudo, de uns dois anos, com a filha de alguém do antigo regime, não é?

É verdade.

Preocupou-se com ele?

Isso é do meu tempo de Cascais.

Novas perseguições a essa família, por exemplo?

Não, as perseguições foram pessoais, porque não me achavam um partido digno da filha.

Isso no vosso namoro.

O nosso namoro houve essas perseguições.

Mas depois não sofreram perseguições políticas, esse elemento do antigo regime.

Não, de forma nenhuma. Eu penso que muitas dessas pessoas, e pessoas muito ligadas ao regime na altura, e a pessoa que estava ligada ao regime era o avô desta minha namorada, que foi presidente da Câmara de Cascais e portanto tinha ligações muito fortes ao regime na altura. Essas pessoas assustaram-se todas muito. Eu acho que, se calhar, até em demasia, mas cada um sabe de si e cada um sentia o que sentia e longe de mim poder saber o que cada uma dessas pessoas estava a sentir. Há, de repente, quase que uma aceitação forçada a dizer assim: "Pronto, ok, isto agora mudou e nós vamos ter que aceitar isto." Nós também vimos o que aconteceu, por exemplo, no Alentejo, com as ocupações de terras, etc. E ninguém deu grande luta. Houve ali quase uma resignação: "Pronto, é assim, tem que ser assim, nós vamos para o Brasil ou vamos para outro lado qualquer."

Também neste período tinha, por exemplo, o José Cid a ligar-lhe, a pedir para voltar, para reagrupar.

Logo que se dá o 25 de Abril, imediatamente começaram a dizer: "Não vens por quê? Mas vem já." Eu disse: "Não vou já, calma. Não vou já sem saber o que se vai passar exatamente, eu não vou. Tenho que perceber o que se vai passar." E depois fui percebendo que as coisas iam caminhando num sentido de alguma tranquilidade. Alguma, não total, porque lá está, em termos de Forças Armadas, havia divisões muito fortes, havia partidos políticos muito ativos e que se sentiam muito confortáveis nessa altura, outros menos confortáveis, apesar de serem democratas, muito menos à vontade, porque criou-se também aqui uma ideia de que havia para o socialismo, que, aliás, está na Constituição. Eu não sei bem como é que aquilo lá está ainda, mas está lá. A verdade é que está lá. E foi isso que quiseram fazer deste país e foi isso que eu fiquei à espera de perceber o que é que se ia passar. Porque eu sou, serei e fui sempre defensor de uma democracia parlamentar, democracia aberta.

Quando voltou, vinha decidido a ficar, fazer vida cá. A sua ideia era voltar à música, eventualmente.

Exatamente.

Mas já sabia que ia ter que enfrentar a disciplina militar.

Sem dúvida. Não sabia o que me esperava em termos de serviço militar. Sabia que teria que fazer a especialidade, isso tinha que fazer, porque não a tinha feito. As tais armas pesadas.

As tais armas pesadas.

E depois sabia que aquilo que me iria naturalmente tocar, como tocou, era dar instrução de armas pesadas aos recrutas que chegavam.

Que país reencontrou? O que é que o surpreendeu mais a ver in loco a revolução de que chegavam os ecos em Inglaterra?

Sinceramente, o país não mudou muito nos primeiros tempos Não senti grandes mudanças. Aquilo que mais me afligia neste país era realmente a pobreza e a necessidade das pessoas emigrarem, que eram pobres, não tinham meios de subsistência, muitas especialmente da província. E não é por acaso que temos a imigração que temos em França, na Alemanha, na Suíça, no Luxemburgo, em todos esses países onde eu toquei muitas vezes para esses imigrantes e percebi que era gente que vinha, muitos deles quase analfabetos. Esse lado chocava-me muito. Quando eu viajava, quando ia a Londres, quando ia à Inglaterra, até aqui ao lado, a Espanha. E em Espanha o regime não era muito diferente, mas o país era completamente diferente. Espanha estava realmente bem à frente de Portugal em muitos aspectos.

Nas primeiras horas em Portugal, depois de voltar, foi matar saudades de alguma coisa?

Claro, a primeira coisa que fiz foi dar abraços à família toda. Os meus pais iam-me ver muitas vezes. Por uma questão de segurança, não iam a Londres, encontrávamo-nos sempre em Paris. Foi curioso. Aliás, havia outra razão para isso: o meu pai vem de uma geração em que falavam muito bem francês e falavam muito pouco inglês. Ao contrário da minha geração, onde o inglês é a segunda língua. E o francês, embora eu tenha apanhado francês a partir do primeiro ano e inglês só a partir do terceiro. Mas mesmo assim o inglês depois passava à frente.

Por causa da música.

Por causa da música, por causa dos contactos internacionais que tínhamos, etc. O francês começava a ficar para trás. Na geração do meu pai, não. O meu pai falava fluentemente francês, chegava à França e sentia-se em casa. Chegava a Inglaterra e ficava atrapalhadíssimo, porque o inglês dele não lhe permitia expressar-se como ele gostava. E, portanto, a nossa combinação era sempre a mesma. Para mim era um prazer, porque saía de Londres, ia para Paris e ficava com os meus pais durante um fim de semana comprido, de quinta a domingo. E Paris era uma cidade supersimpática, superagradável, e era aí que eu me encontrava com eles. Os meus irmãos não, muito menos, são todos mais novos que eu, estavam a estudar, tinham as suas obrigações escolares. No verão lá os via um pouquinho, mas tinha saudades da família, como é evidente, e muitos dos meus amigos também. E aquelas semanas que mediaram entre a minha chegada e a minha ida para Tavira foram duas semanas, foram 15 dias. Foi para matar saudades, foi para estar com a família, com os amigos, com o grupo, com o quarteto. Fui imediatamente reintegrado nos Green Windows e no quarteto. Disseram: "Estás em Tavira, mas aos fins de semana vens a casa." E havia uma certa facilidade, mais uma vez, havia uma certa facilidade quando estávamos de serviço, porque havia o oficial de serviço.

Mas a tropa estava diferente, não?

A tropa estava tão diferente que eu usava o cabelo tão comprido como uso agora e barba. Quando eu saí daqui, ia com o cabelo rapado e a barba tinha que ser feita todos os dias. Portanto, naquela altura não era bem tropa, aquilo era uma tropa fandanga, chamemos-lhe assim. Eu nunca estive à espera que o serviço militar pudesse ser aquilo. Era uma coisa meio estranha. Ninguém percebia bem o que se estava a passar no país.

Nem o cabelo mandaram cortar, nem nada?

Não, nada. Entrei como estava. Havia gente que usava o cabelo literalmente como eu uso hoje. Quando muito, tinha que meter para baixo da boina ou farda, ou boné, se fosse farda de trabalho. E usava-se barba, foi a única vez na vida que, para não ter que fazer a barba todos os dias, não fiz barba. E andei sem fazer barba durante não sei quantos meses, nove meses.

Havia mais sinais surpreendentes nos quartéis, não?

Havia quartéis de sinais contrários, com comandos com ideologias políticas distintas.

Isso notava-se logo?

Notava-se. E eu vim a notá-lo ainda mais quando cheguei a Tavira. Tavira, sinceramente, não me apercebi que houvesse ali nenhuma tendência política para um lado ou para o outro. Era serviço militar, puro e duro. Eu tinha que dar a instrução, dava a instrução, chegava às 17h, ia para a praia, a ilha de Tavira, dar uns mergulhos. Tinha o meu quarto cá fora, não tinha que dormir no quartel. Até nesse aspecto, a tropa estava toda mudada. Nós podíamos perfeitamente sair, alugar um quartinho, dormíamos onde queríamos, depois voltávamos de manhã, tínhamos que estar lá muito cedo para dar à recruta. Vivíamos cá fora, vivíamos à vontade cá fora. E em Tavira não notei nada. Mas quando depois saio de Tavira para Mafra e depois para Queluz, que era uma unidade do COPCON, aí sim. Obviamente que aí sentia-se abertamente qual era a ideologia política que estava por trás dos comandos daquelas unidades.

Totalmente de esquerda, não é? Para não haver dúvidas, era totalmente à esquerda.

Totalmente de esquerda.

Claro.

E realmente, havia comícios. Eu atravessei 75, o 11 de março e o 25 de novembro. Aliás, o 25 de novembro atravessei, logo em seguida fui saneado. Fomos todos saneados, porque estávamos no COPCON, éramos graduados oficiais de COPCON, etc. Houve uma ordem nessa altura, o Jaime Neves sai com os comandos da Amadora. E a Amadora, nós do quartel de Queluz, do Rioce, onde eu estava, víamos os comandos da Amadora. À vista das torres do Rioce via-se os comandos da Amadora. E nós sabíamos que o Jaime Neves ia sair com os tanques e recebemos uma ordem para lhe barrar o caminho Barrar o caminho ao Jaime Neves, ou morríamos todos ou dava guerra civil, não sei o que poderia ter sido.

Quem é que emitiu a ordem? Foi o hotel? Não.

O hotel, foi o COPCON, não sei se do hotel propriamente dito, mas veio do COPCON. Veio o comando do COPCON, que diz: "Saiam e travem. Saiam!" Rapidamente, um comício: "Ninguém sai daqui". Não fui eu pessoalmente, mas eu estive envolvido nessa reunião. E depois os comandos do RIOC disseram: "Não, nós do quartel não saímos. Se eles cá vierem tentar tomar o quartel, isso é diferente. Isso aí teremos que ripostar, teremos que defender a unidade". Agora, sair pra rua pra travar o Jaime Neves, foi votado contra. E a partir do momento em que foi votado contra, dado o desfecho que teve o 25 de novembro, nós não sabíamos se íamos ser, como fomos saneados ou não. Dispensados, saneados, chamem-lhe o que quiserem. Sei que dias depois estávamos a receber ordens pra entregar a farda, entregar as armas e passar à peluda, que era uma expressão, que não sei se vocês conhecem, mas é uma expressão muito ligada à época.

Mas diga uma coisa só: aí nessa assembleia da unidade, o que fez pesar pra não saírem, isto é, pra não irem pro confronto?

Eu penso que o bom senso.

Foi bom senso?

Foi uma questão de bom senso.

E mesmo camaradas seus que eram de esquerda ou de extrema esquerda, também mostraram mais compatividade ou não?

Não. Toda a gente tinha a noção de que seria um banho de sangue, seria uma estupidez tentar travar os comandos da Amadora naquele momento, sabendo nós que eles também não estavam sozinhos e estavam apoiados.

Também houve medo, de alguma forma? Não.

Pode ter havido.

Pragmatismo?

Pode ter havido. Eu não estava em posição de tomar decisões. Eu era um simples miliciano, não passava disso. Mas havia altas patentes. Havia tenentes-corneis, majores, etc., que estavam no RIOC nessa altura. E foram eles que decidiram. Em reunião plenária, dizer assim: "Não, nós não vamos dar esse passo, não saímos, estamos aqui. Se vierem cá, é diferente. Se vierem cá, claro que sim, isso aí seria uma coisa que nós sentíamos que teríamos que ter essa posição, defender o quartel e defender a unidade, mas sair pra rua nem pensar nisso".

Vamos agora fazer uma pausa. Voltamos depois do intervalo. Estamos de volta à segunda parte deste episódio de "A Vida em Revolução". Ainda em Tavira, Tavira era diferente. Por exemplo, a hierarquia militar aquilo funcionava, não havia casos de indisciplina, havia uma certa tolerância.

Completamente.

Mas indisciplina ou até alguém dar ordem

Não, indisciplina não havia, onde eu noto mais isso também é precisamente o 11 de março, quando também se dá uma viragem.

Sim. Como é que foi dessa vez?

A única coisa que nós sentimos foi que as ordens nessa altura eram diferentes. Nós estávamos muito envolvidos em Tavira, curiosamente, em atividades que não eram militares propriamente ditas, chamadas de alfabetização.

Ah, sim.

As campanhas de alfabetização. E eu andei nelas. Nós saíamos do quartel às 03:00, com a G3 às costas, com o cobertor nas costas também, porque fazia frio, mesmo no Algarve, naquela zona de Castro Marim, na serra. E nós andávamos em grupos de três, um miliciano, neste caso era o meu caso, um furriel e um soldado. As Berliet levavam-nos e iam-nos largando em grupos de três. E depois nós íamos orientando e caminhando pela serra, ainda de noite, depois o dia começava a nascer, e íamos à procura de fogos com seis, sete casas, não mais do que isto, perdidas no meio da serra, que não tinham ainda eletricidade, não tinham água potável. E nós andamos durante muito tempo. A minha tropa em Tavira foi muito mais virada pra esse lado, embora tivesse que dar a instrução e quando tinha que dar instrução, lá estava na carreira de tiro a dar tiros pro mar com os morteiros e com as Bredas, com as metralhadoras pesadas e com tudo isso. Mas fundamentalmente andamos muito envolvidos nas campanhas de alfabetização. E foi curioso, porque confirmava-se a ideia de que havia realmente ainda locais deste país onde não chegava a eletricidade, não chegava a água potável. E depois nós fazíamos esse levantamento, transmitíamos isso no quartel e toda a unidade estava muito virada, direcionada depois para ir fazer puxadas de eletricidade. Eu lembro-me de ter visto pela primeira vez uma emissão de televisão num desses locais. As pessoas estavam a olhar pra televisão como se estivessem a olhar pra um quadro. Um ET, um disco voador que tivesse aterrado ali, porque havia gente que nunca tinha saído da serra.

Pois.

É incrível. Eles viviam a poucos quilómetros do mar e não tinham ido ao mar ainda. Viviam na serra e a vida deles era ali, pequena agricultura, etc.

E como é que eles os recebiam? Como é que eles os recebiam a vocês?

Com algo de receio, com muito receio, viam-nos chegar. Num dos sítios onde nós chegamos, houve um velho homem que me perguntou pelo rei.

Pelo rei.

Pelo rei. Eu nunca mais me esqueço disto. Estamos em 75. Ele disse: "Então, o rei, como é que está o rei?" Em 1975. Eu disse: "O rei está ótimo". Não lhe ia explicar, de maneira nenhuma, o que se tinha passado desde a implantação da República até 75.

Era um país fora do tempo.

Eram focos na serra, toda aquela zona de Castro Marim, junto à fronteira, na raia com Espanha. Um pouco mais acima, entrávamos por ali, íamos nas Berliet, nos camiões, largavam-nos, deixavam-nos com uma bússola. E lá íamos nós para ali acima, com mapas onde mais ou menos tínhamos ideia: aqui existe vida. Existe vida no sentido de que existe uma povoaçãozinha. Se podemos chamar povoação. Às vezes não passava de meia dúzia de casas, não era mais do que isto. Com alguma pecuniária, uns animaizinhos. E depois agricultura muito rudimentar e gente com idades muito avançadas ou crianças.

Pois.

Porque a geração intermediária, essa sim, tinha saído embora. Lá eram os tais que emigravam, iam para fora. Muitas vezes não emigravam para o estrangeiro, emigravam para cidades no Algarve, ou para Lisboa, ou para o Alentejo. Mas havia aqueles que sempre viveram lá e que, sei lá, em 75 se calhar tinham 75 anos, nasceram em 1900.

Mas além desse caso extremo da pessoa que lhe perguntou pelo rei, que outro tipo de perguntas é que as pessoas faziam? Que outro tipo de interações havia?

"O que estão aqui a fazer?" Nós dizíamos: "Não, nós vimos cá saber quais são as vossas necessidades". "Nós não temos água." Água era a grande preocupação.

Água.

Muito mais do que a eletricidade, porque a eletricidade eles não sabiam bem o que era. Havia rádios a pilhas, que era uma coisa que para eles era já um avanço tecnológico fantástico, era ligar o rádio a pilhas e ouvir as emissões. Depois viemos a perceber que eram as gerações que não viviam na serra, que lhes levavam pilhas, que os iam pondo mais ou menos ao corrente com o que se estava a passar, mas longe de eles terem uma perceção. Estamos a falar de gente analfabeta também, mais uma vez. E, portanto, não tinham perceção, nem queriam ter, nem precisavam de ter. Quem vive neste esquema quase comunitário rural, é quase como viver na Amazônia. É um bocado indiferente o que se passa na cidade ou no país. Estavam ali, tinham o seu pequeno microcosmos onde eram felizes e não levantavam questões. Foi curioso depois ver o espanto deles quando nós fazíamos puxadas. Não eu propriamente dito, eram os militares da unidade que lá iam. Depois de identificadas as carências que tinha cada uma destas áreas. E eram eles que iam fazer puxadas de água e puxadas de eletricidade dos postes. E de repente ver aquela gente, acenderem-se luzes pela primeira vez. Vocês não imaginam o que é olhar para as caras daquelas pessoas a verem pela primeira vez luz elétrica, em vez de ser um canearinho a petróleo ou umas velas, de repente luz elétrica. Em geral, o que se fazia era: as casas estavam dispostas mais ou menos à volta de uma rua principal ou de um círculo ou de uma pracinha. E era ali que se punha a eletricidade. Ali só, porque depois puxar para cada uma das casas era mais complicado. E a água passava a ser algo onde eles, em vez de terem que andar uns quilómetros para irem buscar água, tinham ali uma puxada a um poço. Eu não sou engenheiro. A minha função era chegar lá e manter aquilo tudo em paz e dizer: "Não tenham problema absolutamente nenhum. Não viemos cá fazer mal a ninguém. Viemos só perceber como é que vocês estão". Era gente de uma simpatia fantástica. Nós muitas vezes não tínhamos que levar nada para comer, porque nos davam tudo o que tinham para comer, partilhávamos da comida deles. Estávamos ali um dia, não mais. Depois passava outra vez, voltávamos aos pontos de recolha, voltávamos ao quartel, fazíamos o nosso relatório. E isto foi um pouco a minha tropa em Tavira. Para além da instrução que tinha que dar, foi muito mais isto do que qualquer outra coisa.

E depois em Mafra, quando vai para Mafra, já começa a sentir a política. Isto é, a política nas Forças Armadas.

Senti, porque eu vou para Mafra numa circunstância muito especial. Tinham chegado, eu não me recordo já do modelo, de Israel, uns morteiros. Foi a primeira vez que eu vi morteiros que, em vez de carregar pela boca, os morteiros carregam-se pela boca.

Pois.

Estes eram como canhões, tinham uma culatra e carregavam-se por trás. Tinham chegado de Israel, tinham sido usados pelos israelitas, pelo exército israelita e tinham enviado esses morteiros para cá. E era um curso de formação para graduados, para altas patentes, inclusivamente, para eles perceberem como é que funcionavam aqueles morteiros. E nós, de armas pesadas e que tínhamos essa especialidade, estávamos ali para lhes darem essa instrução E das conversas que íamos tendo com essas pessoas, estamos a falar de setembro a outubro de 75, sentíamos a tensão, sentíamos as tensões completamente. Uns que queriam definitivamente acabar com o chamado PREC.

Com a revolução, com o processo revolucionário.

Completamente. Outros que queriam mantê-lo. Portanto, haveriam as forças que estavam mais próximas do COPCON, da esquerda, etc. Que esses sim, estavam contentes com a situação e com o Partido Comunista, como é evidente, na altura. E depois haviam os outros que achavam que o caminho não era por ali de forma nenhuma e que queriam o que veio a acontecer no 25 de novembro. Entre estas altas patentes já se sentia nas conversas e nos grupos que eles formavam, porque eles nem se misturavam muitas vezes. Ou seja, havia uns que se juntavam de um lado, havia outros que se juntavam do outro a seguir as palestras e as aulas práticas que dávamos em relação ao armamento que estava em causa. Depois percebíamos que havia ali fraturas muito grandes. Isso também não nos sossegava absolutamente nada, porque não sabíamos o que iria acontecer. E de repente, de Mafra acaba o curso e eu: "Para onde é que vamos agora?" E a mim disseram: "Olha, tu vais para Queluz, para o RIOC. Vais para o RIOC e vais continuar a dar instrução e fazer o que te mandarem fazer." Eu disse: "Ok, vamos embora." Não tínhamos escolha, não era uma questão de opção, longe disso. Fui ali parar, estive ali cerca de um mês, dois, entre um a dois meses. E tive a sorte. Foi realmente uma sorte, porque acabei por fazer um ano de serviço militar em vez de fazer dois ou três.

Teve a sorte de ser sanear.

Tive a sorte de ser sanear.

O RIOC era uma unidade do COPCON e como é que era esse o ambiente nessas unidades do COPCON? Era diferente?

Não era diferente, porque tirando as altas patentes ou tirando os comandos dessas unidades, que esses sim teriam opções políticas absolutamente definidas e seguiam instruções, inclusivamente penso que do comando operacional, todos nós estávamos ali por acaso. Ou seja, o que eu sentia, milicianos como nós, que estávamos ali, ferreiros, sargentos, tropas, praças, etc. Ninguém estava ali por opção e portanto, estávamos ali por acaso a fazer o que nos mandavam fazer. Quer dizer, agora há que fazer isto, há que fazer aquilo, mas não estávamos a fazer nada de revolucionário ou contrarrevolucionário. Não se sentia absolutamente ali nada de especial. O que nós estávamos a perceber é que o país, porque eu saía de Queluz e vinha dormir a casa. Eu vivia em Cascais e portanto, todos os dias eu saía, vinha a casa e voltava. Fiz o mesmo de Mafra também. Nunca fiquei a dormir nesse quartel. Em Tavira tinha que lá ficar, como é óbvio, estava muito longe de casa. Mas nesses quartéis eu vinha a casa. E portanto, eu tinha contacto todos os dias. Quando chegava a casa, eu ouvia as notícias, ligava a televisão, ia percebendo o que é que se estava a passar, ia percebendo que havia realmente movimentos fortíssimos contra o governo da altura, Vasco Gonçalves. E portanto, a minha aprendizagem era mais feita em casa quando saía ao fim do dia e ligava a televisão, como qualquer um de nós nessa altura. Do que propriamente dentro do quartel, porque dentro do quartel não se falava de política. Não havia conversas políticas, não havia discussão política.

Mas há um dia muito importante, que é o dia das primeiras eleições, 25 de abril de 75.

75, exatamente. Para a Constituinte.

Foi votar?

Fui votar, claro que sim.

E envolveu-se de alguma forma na campanha?

Não.

Foi assistir às sessões dos esclarecimentos?

Não, eu tinha muito claro qual era a minha opção política. A minha opção política era por um sistema democrático, não era a favor de extremismos de espécie nenhuma. Aliás, os extremismos da altura eram só de esquerda. Tínhamos que ser honestos. Quer dizer, o pouco que havia de extremismos de direita era o ELP. Eram uns movimentos que não tinham expressão absolutamente nenhuma, nomeadamente em termos de eleições.

Isto foi fácil para si decidir então o partido?

Foi muito fácil.

E não foi aliciado de alguma forma, porque era um cantor, para tentar ajudar alguma campanha, por exemplo?

Não. Foi mais tarde, muito mais tarde, e nunca aceitei, nunca fiz campanha por ninguém. As minhas opções políticas são minhas. O voto é secreto, como se costuma dizer. Só não é para a minha família, para os meus amigos.

Claro. E acompanhou com expectativa depois os resultados? O que é que achou dos resultados naquela altura? Face à realidade que vivia nos quartéis e na rua.

Achei que era normal.

Batia certo com a sua perceção.

Há uma coisa que eu acho que infelizmente mudou imenso. E disso tenho pena. O que eu sentia na altura é que os políticos eram pessoas extremamente bem formadas, com muitas bases e eram realmente políticos no verdadeiro sentido da palavra. Tinham opções políticas, sabiam defendê-las, tinham sentido de Estado. Sabiam defendê-las, mas também olhavam para o país e diziam: "Nós não queremos que isto descampe para questões demasiado fraturantes". Claro que havia os pequenos partidos, fundamentalmente de esquerda, que poderiam ir por esse caminho. O Partido Comunista que teve, quanto a mim, um papel importantíssimo e cumpriu a sua função. Eu continuo convencido que a sua função foi, durante o ano de 75, fazer a descolonização e dar a independência aos territórios africanos, como se deu, como tudo isso aconteceu. Era inevitável, quanto a mim, que isso viesse a acontecer.

Em 75 fazia serviço militar de segunda a sexta e ao fim de semana recuperou a sua carreira de músico.

Sempre, toquei sempre.

Como é que mudou na música o 25 de Abril? Entre os artistas, na sua banda?

Para mim não mudou. É curioso, eu agora pensando nisso. Nós fomos muito mais intervenientes, em termos políticos, antes do 25 de Abril, e falo do Quarteto 1111, que tem vários discos proibidos pela censura na altura, muitas canções, do que propriamente depois do 25 de Abril, porque depois do 25 de Abril houve um movimento, toda a gente passou a cantar o chamado canto livre. E os cantores, quase por obrigação, penso, é minha opinião, não passa disso, mas houve quase um certo receio de continuarem a seguir uma linha musical ou temática, até estética também, ligada ao tempo anterior ao 25 de Abril. Portanto, a música era toda de intervenção social, política. Toda a gente tinha uma opinião, toda a gente expressava a sua opinião de uma forma veemente. E nós achamos que íamos fazer precisamente o contrário.

Mas isso foi discutido entre vocês, foi conversado?

Foi falado entre nós e dissemos: "Já há gente que chega a cantar, a falar dos problemas sociais, dos problemas políticos, daquilo que são as expectativas, e a tentarem com isso também passar uma mensagem para as massas, para o povo, num sentido de orientar voto, etc". Nós dissemos: "O que está a faltar neste momento, para que alguém tenha sucesso, é continuarmos a fazer a música que se fazia, de uma forma diferente, em termos de arranjos, de tecnologia, em termos daquilo que se podia fazer, que já era diferente do que tinha sido feito". Em 69, 70, com o Quarteto 1111, era tudo muito artesanal. Nós gravávamos no estúdio, que eram duas garagens, que nós tínhamos transformado em estúdios. Estamos a falar de 75, 76, 77, Green Windows, Gemini, os grupos por onde eu passei, gravávamos em estúdios analógicos, com grandes condições, já pagos por uma editora e, portanto, as coisas eram diferentes. E nós fomos contra a corrente. O primeiro grande êxito que nós tivemos chama-se "Pensando em Ti", foi uma canção que eu gravei com Gemini, que eu escrevi, inclusivamente, com o Mike, e foi o primeiro disco de ouro oficialmente atribuído neste país, porque precisamente estava toda a gente a cantar a paz, o pão, a habitação, a educação.

Exato.

A saúde. Aqueles chavões que vêm de uma canção do Sérgio Godinho, por sinal um grande músico, que pouco tempo depois já estava a fazer algumas das melhores canções que se escreveram neste país, quanto a mim. Esse tipo de música engajada politicamente começou a saturar. As pessoas já não queriam ouvir essa música.

Porque era o que estava na rádio, estava na televisão.

Estava em toda a parte, era massacrante de estar a ouvir aquilo.

Música de intervenção, não é?

Completamente, Pedro. E depois o que nós fizemos foi: "Então vamos fazer ao contrário, vamos falar de amor, vamos contar uma historinha", contar histórias do dia a dia, do nosso cotidiano. Coisas continuavam a acontecer, mas as pessoas não deixaram de se amar umas às outras, não deixaram de ser casadas, ter filhos e de estarem preocupadas com as suas famílias e com os seus amores.

De uma certa medida, contra a corrente, apanharam uma corrente que era a corrente das pessoas, isto é, aquilo que interessava.

Nós percebemos que, de repente, as pessoas estavam ávidas de ouvir aquele tipo de música, porque ela tinha desaparecido.

Durante dois anos, 74, 75.

Sim, esses anos são anos em que ninguém cantava coisas dessas. E quem cantava era imediatamente rotulado de nacional cançonetista.

Nacional cançonetista, isso.

E eram em geral pessoas que tinham vindo desse tempo. Se nós falarmos, por exemplo, do António Calvário, vamos falar de um nome, que é talvez o mais antigo e um homem que ainda hoje canta, ainda hoje está vivo. O António Calvário, sem saber ler nem escrever, foi rotulado de nacional cançonetista, não pode cantar, não tem espetáculos. Passou as passas do Algarve nessa altura, porque não podia cantar em lado nenhum, porque era insultado, chamavam-lhe fascista. A ele e a muitos outros que vinham detrás. Isso é de uma injustiça brutal, porque essas pessoas não tinham absolutamente nada a ver com o regime. Cantavam as canções que naquela altura se cantavam em todo o mundo. As coronas cantavam as mesmas que o Tony Bennett ou o Frank Sinatra cantavam nos Estados Unidos, ou que em França cantava o Charles Aznavour. Ok, e as pessoas podem dizer: "Mas havia o Jacques Brel que também cantava coisas e o Georges Brassens". Também, mas havia o Aznavour, como havia o Adamo. Havia espaço para todos. E aqui não, aqui só havia espaço para a esquerda. Aqui só havia espaço para a esquerda e para quem cantava a revolução. Quem cantava a revolução, sim, senhor. Quem não cantava a revolução, não tinha espaço. E nós, como éramos novos e não éramos conotados com essa geração anterior ao 25 de Abril, os mais velhos. E, por outro lado, tínhamos a nosso favor e podíamos dizê-lo com toda a honestidade e propriedade: nós até tivemos canções proibidas, tapadas, e muitas, antes do 25 de Abril. Agora, nesta altura, já não vale a pena. Já está tanta gente a cantar a mesma coisa e a dizer a mesma coisa, vamos falar de outras. Vamos falar de coisas do cotidiano, da nossa vida, daquilo que é o nosso dia a dia, porque o nosso dia a dia não deixou de existir.

E isso em termos do público, já referiu que foi bem acolhido. Mas, por exemplo, em termos de crítica musical?

Nós levamos pancada. Levamos pancada por tudo que era lado. Depois, a única coisa que não era atacável, e que nós dissemos sempre, é: os sucessos não acontecem por acaso. De repente, nós recebemos o primeiro disco de ouro oficialmente entregue em Portugal por mais de 50 mil álbuns vendidos. Álbuns vinil, naquela altura, em 76. Isto não pode ser por acaso, é porque as pessoas querem realmente ouvir esta música. Não estou a dizer que a nossa música é melhor que a dos outros. Nunca disse isso, nem nunca ninguém me ouvirá dizer isso. Aquilo que eu penso não é melhor do que o Pedro pensa ou que o Rui pensa. Ou seja, cada um tem o seu gosto. E o que me parece que a única coisa que não é subjectiva é a intemporalidade das obras. Eu sempre disse: eu sei que estou a escrever canções que se vão ouvir hoje, e que eu tenho a certeza que daqui a 10, 20, não diria, como digo hoje, 50 anos depois, as pessoas continuam a cantar e a conhecer. Quando a gente as canta no espetáculo, do princípio ao fim, sabem a letra. E sabem os avós, os pais e os netos, porque vão passando de geração para geração e ouvem em casa. Só pode ser isso, não é? Não pode ser outra coisa. Mas eu sabia que alguma coisa estava a ser bem feita, porque as coisas estavam a ter um sucesso enorme, e não têm sucesso por acaso.

Em 75, e depois ainda nos anos 15, há também uma espécie de politização de artistas, que se tornam também bastante intolerantes em termos das opções dos outros. Quer dizer, aí houve também colegas vossos com quem tivessem deixado de ter contactos durante um tempo?

O tempo esbateu isso.

Mas aconteceu?

Aconteceu.

Mas zangavam-se?

Não zangávamos, deixávamos de falar com eles e muitos deles achavam que nós estávamos vendidos.

Alienados.

Alienados. Achavam que nós não éramos da mesma categoria, digamos assim, não estávamos no mesmo nível deles.

Mas chegou a haver corte de relações, por exemplo?

Corte de relações, digamos, aquele corte de relações de dizer: "epa", passar na rua e virar a cara às pessoas, nunca me aconteceu. Agora, pessoas que foram próximas de mim antes, passavam e diziam: "olá, estás bom?" E seguiam viagem, e não passava disto. Portanto, havia ali um certo mal-estar.

Alguém com quem isso tenha incomodado mais?

Eu não gostaria de focar aqui nomes.

Mas isso desbateu-se depois?

Desbateu-se. Houve pessoas muito próximas nossas, que realmente passaram para o outro lado, e achavam que a única música que fazia sentido era aquela, e que havia quase uma missão, aquela coisa de "a cantiga é uma arma". Claro que a cantiga é uma arma, mas não faz revoluções. O mundo não muda com cantigas. Infelizmente, o mundo não muda com cantigas. Mesmo quando eu as cantei antes do 25 de Abril com o Quarteto 1111, em que só falávamos da guerra colonial, o álbum do Quarteto, que é todo ele proibido, um lado do álbum fala da guerra colonial, cinco canções, e o outro lado fala da imigração forçada, porque a pobreza neste país obrigava a isso. O álbum é todo proibido. Quer dizer, para mim, são canções como quaisquer outras. Era aquilo que nós tínhamos que dizer na altura, porque era aquilo que sentíamos na altura. E nós, na altura, realmente tínhamos consciência de que havia muita coisa que podia mudar neste país. Como tivemos, depois, ao contrário, quando começamos a sentir e a pensar: "já ninguém sabe cantar mais nada, já ninguém é alegre, já ninguém é feliz, já ninguém canta, está tudo muito crispado, está tudo muito engajado, punho no ar, fosse o direito ou o esquerdo. Está tudo aqui muito preocupado com mudar o mundo, quando as canções não mudam o mundo". E as canções que escrevi no Quarteto 1111, as tais canções que eu escrevi, que foram todas proibidas pela PIDE, não mudaram nada. Não foi por causa daquelas canções que o regime caiu. Ok, estávamos a tomar uma posição que sentíamos, como os jovens que éramos, que tínhamos que dizer o que sentíamos. Mas eu sempre tive consciência que as canções não mudam o mundo. O que muda o mundo são outras questões.

Muito bem, Tó Zé Brito, foi um gosto tê-lo neste episódio de "A Vida em Revolução".

Obrigado eu.

Chegamos assim ao fim deste episódio do programa "A Vida em Revolução". Voltamos na próxima semana.

Até para a semana.