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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, é isso.

Ó Bruno, foi desta, terá sido desta, que o Luís Neves esclareceu tudo?

Isso depende da perspectiva, depende de quem estava a ouvir e muita gente estava a ouvir. O que é certo é que Luís Neves falou muito e, como bom polícia que ainda é, disparou para muitos lados. Primeiro, gabou-se de ter combatido o crime, traficantes de droga, crime organizado. Depois, acusou as grandes investigações jornalísticas de terem na origem a inveja de pessoas que o próprio Luís Neves terá afastado da PJ. A seguir, passou para o seu arquiemigo, André Ventura. O Chega quer promover a agenda do caos, segundo Luís Neves, e o partido pretende explorar os medos dos portugueses. E por fim, deixou no ar uma garantia: não o intimidam, não o vão impedir de governar. É difícil olhar para isto tudo e ver aqui algum esclarecimento. A estratégia do governo e do Luís Neves continua a ser a mesma, desvalorizar os casos, segurar o ministro da Administração Interna e esperar que a tempestade passe. Mas há quem tenha interesse em que esta tempestade não se dissipe e ontem vimos mais um episódio dessa novela com André Ventura a deixar no ar a possibilidade de uma moção de censura.

Paula, e quando pensamos que já vimos tudo. Então a despesa pública tem uma forte capacidade para se reproduzir.

Para se reproduzir a si própria. É verdade. Se fosse um ser vivo, a despesa pública era uma daquelas espécies que se reproduzem muito rapidamente e com muita facilidade. Isto a propósito da divulgação pelo governo ontem do primeiro documento, se quisermos, do Orçamento do Estado para 2027. É assim uma tabelinha que se chama quadro das políticas invariantes. Ora bem, este palavrão quer dizer o seguinte: esta é a evolução automática da despesa ou da receita, em função das regras e das leis que já estão em vigor e dos compromissos que o Estado já tem assumidos. Tudo somado, mesmo sem mexer em nada, o orçamento do próximo ano já tem mais 4800 milhões de euros de despesa ou de corte de receita, de perda de receita. Por exemplo, despesas com pessoal vão ser mais 1200 milhões de euros só com as progressões automáticas, com os acordos salariais já feitos nos últimos anos, ou, por exemplo, com o impacto daquilo que se prevê que seja o aumento de salário mínimo previsto. Ou seja, este aumento de 1200 milhões de euros são mesmo ainda sem a negociação habitual dos aumentos normais anuais da função pública. Com as pensões, por exemplo, vão gastar-se mais 800 milhões de euros com aumentos regulares e 1200 milhões de euros com o aumento do número de pensionistas, portanto, para o ano vai haver mais pessoas a entrar na reforma, e com o aumento também do valor médio das pensões. E por aí fora. Com as medidas fiscais que estão em vigor, por exemplo, para a compra de casa, ok, de jovem, os descontos nos impostos, vai-se gastar mais dinheiro. Com os juros da dívida, que o governo também não controla, vão mais 800 milhões de euros, como há pouco já falámos. Portanto, ainda sem ter escrito uma linha sequer do próprio Orçamento do Estado, o Joaquim Miranda Sarmento já tem que encontrar solução para 4800 milhões de euros.

Bruno, isto é assim que funciona? A FENPROF denuncia e o Ministério Público investiga?

Para isso é que as duas instituições existem, uma para fazer barulho, outra para investigar em silêncio, a não ser quando há fugas de informação. A 17 de julho, o sindicato apresentou uma denúncia na Procuradoria-Geral da República devido às falhas técnicas e operacionais que afetaram as correções dos exames e que poderão configurar um ilícito criminal. E o principal ilícito que poderá estar aqui em causa é uma suposta ordem escrita dada aos professores avaliadores para classificarem itens cujas respostas não estavam completas. O Ministério Público ainda não se pronunciou, mas para a FENPROF, isso não é o mais importante. O que conta é continuar aqui a morder as canelas ao ministério, um pouco como o Chega faz com o Luís Neves. Agora que a tempestade, mais uma tempestade dos exames amainou, a FENPROF mostra que está sempre do lado dos problemas, e quanto mais problemas melhor, e nunca da solução.

E o vencedor é... Espera, isto ainda não é hora. Ainda não é.

Ó Paula, o governo já recebeu o envelope mágico sobre a TAP?

É verdade, recebeu ontem. E é um envelope que lá dentro tem o parecer da Parpública, a empresa pública detida, totalmente controlada pelas finanças, o parecer dessa empresa sobre as duas propostas que estão em cima da mesa para a compra de cerca de 45% do capital da TAP. Sabemos que há dois concorrentes, a Lufthansa, por um lado, e a Air France KLM, por outro. Ambos já fizeram as suas propostas financeiras, técnicas, estratégicas. A Parpública olhou para essas propostas, fez agora uma avaliação dessas intenções dos dois concorrentes e deu agora a sua opinião ao governo, que depois tomará a decisão final. O governo vai agora fazer a sua própria avaliação. No fundo, pode fazer ponderações diferentes daquelas que faz a Parpública, ponderar mais aspetos estratégicos ou mais a questão de preço, vamos ver. E até o final de outubro vai tomar uma decisão. Isto não é assim tão rápido como os Oscars, que chega o envelope e anuncia-se logo. Portanto, até outubro, ainda em outubro, vai haver uma decisão. Boa notícia: os prazos deste processo têm sido cumpridos, que é uma coisa rara no país. E no final de tudo, depois das decisões das autoridades portuguesas, ainda falta a aprovação da Comissão Europeia a este negócio. Bom, mas está quase.

Está quase sabemos quem é o vencedor. Exato.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, é isso