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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Bruno, estamos a viver no País das Maravilhas?
Então não estamos? Segundo a líder da Iniciativa Liberal, estamos, mas só na versão do governo e do primeiro-ministro. No encerramento das jornadas parlamentares da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão disse que Luís Montenegro tem apresentado um país em crescimento, com contas certas, impostos a descer, um Estado que finalmente está a modernizar. O problema, segundo a líder da IL, é que esta história não bate certo com a vida e a perceção que as pessoas têm do custo de vida. E não se resolve, também de acordo com a líder da IL, com meia dúzia de euros pela redução no IRS e o bónus das pensões, que, diz Mariana Leitão, só serve para acalmar a opinião pública durante umas semanas. Mas a líder da IL acredita num País das Maravilhas se o governo se comprometesse a fazer reformas e deu como exemplo da inércia reformista o estudo sobre a Segurança Social encomendado pelo governo e que afinal parece que vai ficar na gaveta sem ter quaisquer consequências práticas. De facto, para sermos um País das Maravilhas, parece que só falta termos uma saída de emergência.
Paulo, as trincheiras partidárias já não são o que eram?
Pois, isto anda tudo muito confuso. Deixa-nos muito baralhados, porque no fundo a regra era, e se calhar continua a ser, embora com estas exceções, que dentro de cada partido elogiavam-se uns aos outros. Pelo menos não se criticavam abertamente em público e para os adversários partidários só havia farpas. Mas nos últimos dias já ouvimos Pedro Passos Coelho a criticar o imobilismo reformador de Luís Montenegro e, pasme-se, ouvimos José Sócrates vir em defesa de Luís Montenegro e a criticar Pedro Passos Coelho. À porta do tribunal, o ex-primeiro-ministro aplaude o facto de este governo ter recuperado os grandes projetos de investimento que ele mesmo quis fazer há 20 anos e depois não pôde por causa da troika, claro, não havia dinheiro. Estamos a falar da ponte, o aeroporto, o TGV e por aí fora. E claro que Pedro Passos Coelho apanhou portabela de Sócrates por causa da austeridade. Pelo contrário, o socialista António Mendonça Mendes aplaude Pedro Passos Coelho. Ele faz uma comparação entre Pedro Passos Coelho e Luís Montenegro e diz que pelo menos Passos, pelo menos esse não mentia. Aqui está implícito que Luís Montenegro mente. E a cereja no topo do bolo deste fogo cruzado, a ministra do Ambiente a espetar uma farpa em Passos, ela diz que este governo está a resolver problemas que ele não resolveu quando foi governo. Portanto, se estão confusos, esqueçam o assunto, é para estar. São coisas lá deles, dos políticos, sigam em frente e pronto.
Bruno, nem na hora da morte o PCP perdoa?
É um partido muito parecido com certas pessoas, não perdoa nada e não se esquece de nada. O PSD apresentou na Assembleia Municipal de Lisboa um voto de pesar pela morte de Pavlos Sadok. Foi durante muitos anos presidente da Associação de Ucranianos em Portugal e os deputados do PCP foram os únicos a votar contra, como já fizeram na Assembleia da República quando das mortes de Belmiro de Azevedo e de Adriano Moreira, por exemplo. Mas o partido fez acompanhar o voto de uma declaração pela qual se percebe que, em relação à guerra na Ucrânia, o partido não se moveu um milímetro. Pavlos Sadok é acusado de ter tido uma postura de enaltecimento dos colaboradores com o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial e de apoio a forças de extrema-direita sustentadas por grupos que reivindicam o legado nazi. O discurso é conhecido e é repetido muitas vezes, de vez em quando ressurge. Nisto tudo, só estranhamos que o PCP se refira à Segunda Guerra Mundial e não à Grande Guerra Patriótica, como é conhecida na Rússia. Isso sim, seria coerência de um partido que ainda viva a sonhar com a União Soviética.
E isto, de facto, já entrou no campo da palhaçada.
Já. E com o devido respeito para os mestres da arte, para os palhaços, mas de facto os momentos de palhaçada na política vão-se sucedendo. No Parlamento ocorrem, sabemos com grande frequência, com cada vez mais frequência até. Por exemplo, ainda há poucos dias ouvimos uma bancada parlamentar inteira a gritar "demissão, demissão" e a bater com as mãos nos tampos das secretárias, isto no final da votação da moção de censura. Foi claro, a bancada do Chega. O assunto do alegado assalto ao gabinete de André Ventura também tem traços de uma espécie de uma comédia burlesca. Mas o melhor de tudo é o próprio André Ventura acusar o PSD e o LIVRE de, e citamos, e daí é que vem a expressão, de levarem este assunto do assalto ao gabinete para a palhaçada. Sim, ouviram bem, André Ventura acusa outros partidos de palhaçada e não há palhaçada mais refinada do que essa, certamente.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.