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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

Paulo, as deputadas do Chega andam a abusar do cartão, não é do de crédito.

Pois, não passa cartão a mais.

Crédito político.

Não é do cartão de crédito, mas há duas deputadas, Rita Matias e Madalena Cordeiro, que acabam de ser repreendidas pela Comissão de Transparência da própria Assembleia da República por violação grave do código de conduta, isto em dois processos distintos. Um desses processos foi quando Rita Matias chamou assassina à socialista Isabel Moreira e o outro é mais insólito, mas é também muito revelador. Rita Matias e Madalena Cordeiro foram à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa no dia 18 de março e queriam à força falar com o diretor. Foi-lhes dito que o diretor da faculdade não ia recebê-las e decidiram então forçar o encontro, apresentando a agentes da PSP, que estavam por lá, aquele cartão de deputado de livre-trânsito, que os deputados têm todos. Insistiram e pediram acesso à sala onde o diretor presidia a uma reunião. O pedido foi-lhes negado. Este sacar do cartão deputado é uma das versões da velha prepotência: "Mas você sabe com quem é que está a falar, sabe quem eu sou."

"Põe-se lá para a minha cara."

Exatamente. Não me está a conhecer da televisão, pelo menos. E portanto, deputadas que andam sempre com o povo na boca, mas neste caso a abusarem das mordomias do sistema.

Olha, Bruno, e será que finalmente estamos a apostar na prevenção?

Carla, em Portugal o nosso talento é mais para remediar ou então reagir quando já é tarde demais. Temos visto várias vezes isso acontecer nos últimos anos. Prevenir exige um bocadinho mais de treino ou então de trabalho. Com as temperaturas a subir, o governo apresentou um plano para enfrentar o calor, falou de espaços climatizados para a população, reforço dos serviços de saúde, escalas asseguradas nos hospitais e um acompanhamento mais próximo das pessoas mais vulneráveis. E é uma mudança de lógica interessante, porque durante muito tempo o calor foi tratado como uma chatice de verão. Hoje já é visto como um problema de saúde pública. O excesso de mortalidade quando era conhecido lá por alturas do Natal, era uma nota de rodapé e agora há avisos e faz sentido que haja avisos. Ninguém está à espera do primeiro incêndio para preparar os meios e a ideia é que também não seja preciso esperar pelas primeiras urgências cheias, e é provável que venham a encher, para começar a agir. Não sabemos qual vai ser a resposta. Pode ser mais fogo de vista, mas já sabemos que ninguém será apanhado desprevenido. Ninguém pode dizer que não estava à espera. E é bom que nos habituemos a prevenir neste aspecto em particular, porque ondas de calor, pelos vistos, não hão de faltar.

Não, não são só as ondas do mar agora. A nova Amália nasceu sem voz?

Para o grande público, a inteligência artificial que fala português e que se chama precisamente Amália, não vai poder falar. O primeiro-ministro apresentou ontem esse projeto da inteligência artificial em português, mas desenganem-se de fato os que acham ou que achavam que podiam ir lá colocar questões, pedir tarefas, obter informações, no fundo, escrever lá aqueles prontos, como acontece, por exemplo, no ChatGPT, no Claude, no Gemini e em tantas outras plataformas internacionais. Nada disso, a Amália é só para especialistas, é uma plataforma aberta, mas apenas para quem tiver as competências informáticas e os recursos necessários, no fundo, para a pôr a funcionar como um modelo de inteligência artificial. Vamos ver agora o que a comunidade científica pode fazer dali e que utilidade terá no futuro para a cultura e para a língua portuguesas, porque é disso que se trata, no fundo. Vamos ver se, por exemplo, terá o mesmo destino. Lembram-se daquela app para a Covid que o então primeiro-ministro António Costa apresentou?

Sim, muito bem.

Já não me lembro, mas era qualquer coisa a ver com a distância, não era?

Que ainda não tens no teu telemóvel?

Já desinstalei.

Já. Que avisasse se estávamos na proximidade de outras pessoas com o diagnóstico de Covid.

StayAway Covid.

StayAway Covid, era isso mesmo.

A minha memória.

Era isso.

A Covid não te apagou a memória.

Não, opa.

StayAway. Vamos ver se de fato esta Amália vai ter esse destino, que não foi propriamente muito brilhante. Ou então, como diz Montenegro: "Bom, mais vale tentar fazer e falhar do que adiar."

Vamos ver, então. Está de volta o bom e velho futebol das polémicas, Bruno?

Maria João, nunca se foi embora. Nós é que temos andado distraídos com a seleção, com as polémicas também da seleção. E quando não é com a seleção, é com os reforços dos clubes, que é um tema eminentemente estival. Aí temos os reforços a aparecer nas capas dos jornais todos os dias e por isso mesmo, até já estávamos com saudades de uma boa polêmica de bastidores. Ela aí está. O antigo árbitro Duarte Gomes demitiu-se do cargo de diretor técnico de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, isto na sequência de uma denúncia feita por um árbitro de alegadas ingerências do Conselho de Arbitragem na nomeação das equipas de árbitros. O caso foi enviado para o Ministério Público pela própria Federação, que também abriu uma investigação interna para apurar aquilo que terá acontecido. Entretanto, os clubes começaram a reagir. Benfica e Porto emitiram comunicados a expressar a preocupação com o estado de um setor fundamental para a integridade da competição, o que em português quer dizer: os árbitros andaram a prejudicar-nos e aqui está a prova. Este defeso promete ser animado até para os homens do apito.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus