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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

O Chega é bom a grelhar ministros, Bruno? Na grelhada ministerial. Ministrica.

É o receio do PSD que a estratégia de esperar que o balão noticioso acerca de Luís Neves se fosse esvaziando, acaba afinal por se virar contra o ministro e aí, com uma contribuição muito generosa do Chega, que lá vai soprando o fogo para manter vivas as brasas. A Comissão Parlamentar de Inquérito vai mesmo avançar, uma comissão parlamentar de inquérito acerca da atuação de Luís Neves enquanto diretor da Polícia Judiciária, mas o calendário parlamentar obriga a que o processo se arraste um pouco mais no tempo. Só quase no final de setembro é que deve haver uma data para o arranque da comissão, que no mínimo poderá durar 120 dias, mas esse prazo pode ser prolongado. Ora, quatro meses de escrutínio à ação de Luís Neves à frente da PJ, tanto podem deixar o ministro bem passado como completamente esturricado. Mas independentemente das conclusões, é certo que quatro meses na grelha podem encher a sala de fumo e tornar o ambiente político irrespirável para o ministro e talvez até para o primeiro-ministro.

Bruno, e somos um país traduzido do inglês e com três meses de atraso. Explica lá isso.

Isto é a teoria, foi mais ou menos assim a teoria exposta pelo antigo secretário de Estado e antigo deputado do PSD, José Eduardo Martins, na Universidade de Verão dos Sociais Democratas. Isto a propósito da discussão à volta dos data centers, que já acontece lá fora e que mais dia, menos dia, chegará em termos idênticos a Portugal. O antigo deputado começou por apontar uma contradição do governo, por ter apresentado um plano nacional de centros de dados e um plano nacional de energia e clima que, no seu entender, não batem muito certo. É que os centros de dados são grandes consumidores de energia e a esquerda já começou a contestá-los com esse argumento. O José Eduardo Martins, aliás, deu o exemplo do colunista Daniel Oliveira, do Expresso, que fez críticas aos data centers e foi aí que disse que a nossa esquerda então é previsível. Basta ler o que escreve o Guardian e esperar três meses pela tradução. Bem, às vezes não é preciso esperar tanto, mas num assunto com esta importância para o nosso futuro e para o futuro da economia portuguesa, seria bom, como disse o antigo deputado, não o discutir em termos, e estou a citar, patetas e maniqueístas.

Bruno, 3 de setembro, quase um ano depois, o acidente do elevador da Glória ainda deixa perguntas no ar.

Muitas perguntas sobre a responsabilidade de todos os envolvidos, sobre a responsabilidade de Carris e da empresa que fazia a manutenção do equipamento. O jornal Público hoje diz que a acusação deverá aparecer até o final do ano e que estarão constituídos até o momento três arguidos responsáveis da manutenção da Carris, Filipe Fraga, e o sócio-gerente da empresa externa que fazia a manutenção, Gustavo Pita Soares, e para além deles, a própria empresa, a MMTC, que fazia essa manutenção. Mas há muitas perguntas ainda no ar e que até o momento não foram cabalmente respondidas. Quanto a indemnizações, o processo aparentemente tem avançado. A Fidelidade, a seguradora do ascensor da Carris, confirma que fez acordos indemnizatórios com as famílias de quatro das 16 vítimas mortais. Diz que há sete processos em negociação e só outro dos casos irá avançar para tribunal por falta de acordo com a família da vítima, uma funcionária da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa. Mas hoje também o Expresso entrevistou uma família alemã, vítima deste acidente, e que diz que também vai avançar para tribunal. Ainda há outros casos cujas especificidades derivam de questões legais dos países de onde as vítimas eram oriundas, mas nesses casos, mesmo assim, parece que tudo tem avançado com relativa rapidez. Até por isso mais se estranha o vazio de respostas sobre a responsabilidade criminal do que aconteceu. Mas nós já sabemos que em Portugal a culpa tende a morrer à espera no altar.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.