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A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar. É uma boa pergunta.
E esta quinta-feira falamos de: um dia destes não se pode fazer nada, não se pode dizer nada.
A liberdade de expressão.
Caramba. O julgamento que ele não queria, não candidatos, mas para começar.
Para começar, vamos começar com pragmatismo, se calhar.
É, eu acho que sim.
O pragmatismo, Paulo, venceu a ambição de Augusto Santos Silva?
Eu acho que podemos dizer que sim. Santos Silva queria, insinuou-se a isso várias vezes, fez viver o seu próprio tabu. Foi ele que marcou na sexta-feira a data de ontem para revelar ao país, que parou obviamente à hora de almoço para saber se ele ia ser candidato ou não. Mas depois no final de tudo, pensou melhor e percebeu que a sua candidatura presidencial ia dividir mais do que unir e basicamente não tinha uma base de apoio que lhe permitisse ter a mais leve perspectiva de fazer uma boa figura, basicamente não ia ter muitos votos. Ainda assim, apresentou a decisão de não correr para Belém como um altruísmo de quem se afasta para dar lugar a outro, que seja unificador. Há aqui um problema: e se alguém não existe, pelo menos para já em termos públicos, agora fala-se obviamente de Sampaio da Nova, que é o nome que parece inscrito com aquela descrição de uma figura independente unificadora da esquerda.
E ele está destituído e não apresentou nenhum nome concreto.
Claro, não lhe compete também a ele fazê-lo, de alguma maneira. E assim pode terminar a carreira política da pessoa que em democracia, no país, mais tempo esteve em cargos governativos de relevo. Foi tudo. Ministro da Educação, Ministro da Cultura, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Ministro da Defesa, e por aí fora, presidente da Assembleia da República. E apesar disso, dificilmente terá deixado uma marca. Ninguém se lembra de uma coisa que Augusto Santos Silva tenha feito. Digamos que nem o país, nem a esquerda estavam a suspirar por ele.
Bruno, então e será que vamos ter mais um não candidato às presidenciais?
É possível, Maria João.
Esfregar as mãos. Mais um não candidato.
Mais um não candidato. Já há vários candidatos oficiais. Isso está garantido. Há alguns potenciais, mas o grupo que de facto está a crescer a um ritmo superior é o dos não candidatos. Das pessoas que não se vão candidatar. Somos todos ou quase todos nós.
Depois temos que ver a lista, quem é que são mais, os não ou os que se candidatam.
Que se candidatam. Eu acho que vai acabar por ser esta dos candidatos que depois não se candidatam. São estes os verdadeiros não candidatos. Também aqueles os candidatos que ainda não sabem se se vão candidatar, que estão a ponderar, a ouvir pessoas do círculo íntimo, ou então à espera de uma vaga de fundo que os empurre para alto-mar, mas que entretanto vão perdendo força depois de entradas assim em grande. É o caso do major general Isidro Morais Pereira, que estava a pensar numa candidatura, que nas primeiras declarações enquanto possível candidato, disse que não rejeitaria o apoio do Chega, pudera, mas que agora parece ter ficado em standby, em estado de animação suspensa. Para ontem estava marcada uma reunião entre o comentador de assuntos militares e o Chega, mas a reunião foi desmarcada e para já não há nova data. O que até faz sentido, que é um não candidato que tem uma não reunião. É provável que esteja a caminho de se tornar um ex-futuro candidato a Belém.
Epá, esta complicaste muito.
É hoje. Mas será que é mesmo hoje? Será que é esta?
Vamos ver.
Há um recurso aí.
Mais nada que saia da manga?
Começa o julgamento de Sócrates. Exato. Pelo menos é assim, está marcada a primeira sessão do julgamento da Operação Marquês. Enfim, não se fala de outra coisa.
Também, foi um tirinho.
Foi um tirinho, este caso que envolve, entre outros, o ex-primeiro-ministro. Só passaram 10 anos e meio desde que ele foi tido, porque a investigação é anterior, se não me engano, 12 anos.
Sim, à volta disso.
Depois do início da investigação, o que é que são 12 anos?
É um ato.
12 anos.
É um fósforo. Isto é um fósforo a arder, basicamente. 10 anos e meio desde que Sócrates foi tido, e depois de dezenas de recursos e peripécias processuais, milhares de páginas de peças processuais também, depois de várias prescrições, que entretanto já ocorreram, 12 anos passa num instante, mas as prescrições mais ainda. Aquilo é ainda mais rápido. Cá está, o caso chega finalmente a tribunal. E este é o local certo para se avaliar o que Sócrates e os restantes arguidos fizeram ou não fizeram, e em função disso, serem condenados ou não por isso. É inequívoco que o ex-primeiro-ministro quis evitar a todo o custo a realização deste julgamento, mas não conseguiu e tem agora então a oportunidade para provar a inocência que reclama dentro daquilo que são as regras do Estado de Direito. E vamos ver, mesmo assim, que incidentes processuais é que ainda nos reserva a defesa.
Para já, parece que foram mais de 100 é a notícia que estamos a avançar aqui ao longo de todo este processo. Bruno, e já não se pode chamar bandido a alguém?
Já vi. Já de certeza boas músicas com esta palavra.
Mas não é uma boa ideia, Luís, sobretudo se a pessoa, o alvo da expressão, não tiver sido condenada por banditismo. Muito se tem falado dos limites da liberdade de expressão ultimamente, mas ainda que por vezes os tribunais tenham uma interpretação, os tribunais portugueses, uma interpretação demasiado restritiva do exercício dessa liberdade, e basta pensar nos casos em que o Estado português tem sido condenado no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, geralmente até revela um bom senso. O presidente do Sporting, Frederico Varandas, foi agora condenado a pagar uma multa por ter chamado bandido a Jorge Nuno Pinto da Costa, quando este ainda era vivo. O presidente leonino terá de pagar ao todo 12.200 €, 5 mil dos quais aos herdeiros do antigo presidente do Porto. Será tudo isto uma questão de semântica ou da sensibilidade do juiz? Aqui há uns tempos, não sei se estão lembrados deste caso, o embaixador Seixas da Costa também foi condenado a pagar mais de 6 mil € a Sérgio Conceição, por acaso treinador do Porto, por se ter referido a este numa publicação nas redes sociais como javardo. Portanto, eu diria que para evitar ficar entregue à liberdade e à interpretação dos juízes, será conveniente evitar a utilização destas expressões mais, digamos, coloridas, como bandido, javardo, e usar outros vocábulos que a riqueza do nosso idioma nos oferece.
Pois, mas este também já agora são o tipo de casos que depois levam à condenação do Estado português.
Pois, também é verdade. E é muito provável que também haja recurso neste caso.
A questão é difícil.
Eu acho que a sua questão é muito importante.
Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.
Ficará eventualmente a pergunta no ar. É uma boa pergunta.