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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
É mesmo calma, Bruno. As notícias da morte do bolsonarismo foram exageradas.
Manifestamente exageradas, Carla. Seja o bolsonarismo, de facto, uma tendência política, uma versão tropical do trumpismo e do movimento MAGA, ou uma corrente associada à família alargada de Jair Bolsonaro, a verdade é que a primeira volta das presidenciais, e também as restantes eleições, mostraram que o bolsonarismo não está dependente da figura do antigo presidente. E mostraram também, estas eleições, uma crescente rejeição do PT e da esquerda em geral. Da mesma forma que após as eleições perdidas de 2020, Trump conseguiu regressar à Casa Branca, provando que a primeira vitória não tinha sido um acaso, a vitória de Flávio Bolsonaro na primeira volta, é certo, demonstra que o bolsonarismo está enraizado junto de um eleitorado que sabe bem o que quer ou talvez saiba melhor o que não quer. Lula diz que é muito forte no mata-mata e vai precisar mesmo de todas as forças para dar a volta na segunda volta.
Do Brasil pra Espanha, a jogada de Pedro Sánchez, Paulo, vai render nas urnas?
Essa é, de facto, a grande esperança do primeiro-ministro espanhol. É conseguir, no fundo, inverter aquilo que as sondagens mais recentes vão dizendo. Ele está há oito anos no governo, apoiado numa geringonça, digamos assim, muito mais oportunista e frágil do que a que tivemos em Portugal. O apoio parlamentar de Sánchez ao longo destes anos tem ido desde a extrema esquerda do Sumar até aos nacionalistas independentistas da Catalunha, do Junts, passando pelos democratas cristãos e esquerda nacionalista do País Basco. Todos têm sido agraciados para manter esse apoio parlamentar, com a aprovação aqui e ali de leis para as suas causas próprias. Nestes anos, são também muitos os casos de corrupção que envolvem o círculo mais próximo de Sánchez e agora surgiu, de facto, esta oportunidade das rendas, a reboque do caso Mari Carmen. O governo, que está há oito anos no poder, lembrou-se agora de legislar e de fazer disso um cavalo de batalha. E perante o chumbo das propostas, Sánchez tenta agora o pôquer das eleições. Vamos ver se sobrevive ou se já esgotou as suas sete vidas políticas, porque Sánchez tem tido muitas, como sabemos.
Bruno, então e o turismo de saúde está fora de controle?
É a opinião dos médicos, de quem conhece o funcionamento do SNS por dentro, está no artigo do Tiago Caeiro, no Observador. E a situação que se vive é particularmente grave na área da obstetrícia. Antigamente, as grávidas que vinham para Portugal para ter os filhos em hospitais do SNS eram, na sua maioria, oriundas dos PALOP, mas nos últimos anos começaram a vir da Ásia, em particular da Índia e do Bangladesh. E estamos, claro, a falar de grávidas cujas gravidezes não foram acompanhadas e que deixam os médicos do SNS às escuras, sem conhecer o historial clínico das utentes e com todos os problemas que daí podem advir. E depois, há a questão dos custos, de como cobrá-los, a quem cobrar. É um problema clínico, social e também criminal, porque estas mulheres não vêm sozinhas para Portugal. Chegam a Portugal pela mão de redes organizadas, que têm como objetivo o lucro. Os médicos não se podem recusar a atender, os serviços que já têm alguns problemas ficam sob mais pressão, mas há alguém, no meio de tudo isto, a ganhar muito com esta forma peculiar de turismo.
Sim. Seguro falou, Paulo, os partidos vão responder ao apelo?
Para o bem do país, o que devia acontecer, de facto, era que PSD e PS respondessem afirmativamente e estabelecessem acordos de longo prazo para tentar desatar os inúmeros nós que cada vez mais são evidentes no país. Mas dificilmente será isso que vai acontecer, porque PSD e PS estão viciados naquela pequena guerrilha política, em jogadas táticas para conseguir pequenos ganhos de simpatia do eleitorado, quer no governo, quer na oposição. Eles tentam agradar segmentos da população atirando-lhes dinheiro, que mais não são do que migalhas, que podem disfarçar dificuldades, mas que não resolvem os problemas estruturais. António José Seguro defende o fim desse pântano, diz que seria um crime não aproveitar o ciclo de pousio eleitoral, isto é, este período aqui de alguns anos sem eleições à vista, para procurar entendimentos duradouros para resolver os problemas dos portugueses. Seguro quer ousadia e coragem, porque não há tempo a perder. Isto parece um bocadinho evidente para todos. Menos parece também muito evidente para as máquinas partidárias e para os aparelhos do PS e do PSD.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.