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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

745, 746. Somos cada vez mais, Bruno.

Somos cada vez mais, Carla, e nunca fomos tantos a viver neste retângulo. Onze milhões quatrocentos e vinte e quatro mil e trinta e uma pessoas viviam em Portugal a 31 de dezembro do ano passado. Esqueçam os célebres 10 milhões com que vivemos durante tantos anos. Agora já ultrapassamos a barreira dos 11 milhões e para isso muito contribuem os estrangeiros residentes no nosso país: um milhão quinhentos e noventa e sete mil quinhentos e trinta e nove, cerca de 14% do total da população, sendo que em 2021 os estrangeiros residentes em Portugal representavam à volta de 7% do total. Ou seja, em quatro anos a população estrangeira mais do que duplicou. As regiões do Algarve e de Lisboa são aquelas em que a proporção de estrangeiros é maior, 27,9% no Algarve, 22,6% em Lisboa. Mas nem a entrada de tantos imigrantes trava o envelhecimento do país, embora a população em idade ativa tenha aumentado e a idade mediana, aquela que se repete mais vezes, tenha sofrido uma ligeira redução. Somos cada vez mais, estamos cada vez mais velhos e são muitos os que vêm de fora. Numa penada, é este o retrato da população em Portugal.

Paulo, até que ponto estamos cada vez mais dependentes de mão de obra estrangeira?

Ora bem, João, até ao ponto de nalguns setores os imigrantes serem absolutamente fundamentais. Estes dados do INE mostram que na agricultura 53% dos trabalhadores já são estrangeiros, portanto, mais de metade. Sem eles, certamente teríamos graves problemas para o funcionamento das empresas e explorações agrícolas. E obviamente, depois, uma consequência disso seria também problemas no abastecimento de certos produtos nos nossos supermercados e restaurantes, ou então a necessidade de substituir produtos portugueses por estrangeiros. E em atividades administrativas e serviços de apoio, em alojamento e restauração, construção, setores como a construção também, mais de 35% da mão de obra também é imigrante. Também aqui a dependência é menor, mas já é evidente. Ou seja, a economia portuguesa já precisa mais de imigrantes, certamente do que muitos deles precisam de Portugal, porque os imigrantes podem rumar, certamente, a outros países. Não adianta, neste caso, travar o vento com as mãos. O que é preciso é ter bons sistemas de regularização e de integração.

Entretanto, Bruno, outra questão que ontem tomou maiores proporções, o Reino Unido é a nova Itália.

Com uma diferença, João, é que pelo menos os ingleses foram ao Mundial, a Itália não foi. Mas a demissão de Keir Starmer, o sexto primeiro-ministro em 10 anos, o que significa que vem aí o sétimo, lembra as mudanças de governo que durante décadas foram uma espécie de marca de água do regime italiano. E claro, em Inglaterra a chefia do governo muda mesmo sem eleições, o que dá a entender aqui um problema de fundo do sistema político, porque a culpa não pode ser apenas dos primeiros-ministros que se vão sucedendo a um ritmo de carrossel, capaz de deixar qualquer um com enjoos. Nigel Farage falou mesmo de uma farsa à italiana, mas não foi o único com críticas. Os liberais-democratas dizem que o próximo líder terá de ser diferente, porque o povo está farto de ser desiludido por uma sucessão interminável de primeiros-ministros. Longe, longe vão os tempos da Dama de Ferro, em que o pior que lhe podia acontecer era ganhar um pouco de ferrugem. Agora temos os líderes que duram pouco mais do que o mal faz.

O próximo líder se calhar vai ser um rei, o Rei do Norte, pode ser que dure mais.

Pode ser que dure mais, tenha mais resistências.

Vamos ver. Paulo, e afinal, o que vai ser o fundo soberano anunciado pelo governo?

Ora bem, ainda não sabemos bem como é que vai ser este Fundo Soberano Português. Sabemos que é um fundo soberano. Há muitos países que têm esses veículos de investimento. Também sabemos que o Estado já tem, neste momento, e tem há muito tempo, tem largas dezenas, mais de uma centena de participações em empresas. Elas são detidas pela Parpública, uma empresa pública dependente do Ministério das Finanças, ou então diretamente detidas pela Direção-Geral do Tesouro, é o caso da participação de 100% da Caixa Geral de Depósitos. Portanto, a intervenção direta no capital de empresas não obriga, obviamente, a ter um fundo soberano. Já há instituições públicas que podem desempenhar esse papel. Sabemos também qual foi o anúncio do primeiro-ministro. Ele disse: "Vamos criar um fundo soberano de Portugal junto do IGCP", o IGCP é o Instituto de Gestão do Crédito Público, "que será um instrumento de autonomia e intervenção do Estado em setores estratégicos". Portanto, não há aqui sequer uma lógica de poupança a longo prazo. Há, de facto, a entrada em setores estratégicos. Como é que isto vai ser feito? Com que objetivos concretos? Financiado como e com que regras de transparência e governance? Nada disto ainda é claro. Adivinha-se, obviamente, mais um tema polémico e lá iremos falar dele daqui a pouco no Explicador.

É isso.

Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.