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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, gente.
Calma.
Calma lá com isto.
As mudanças na Segurança Social são uma batalha que o governo não quer travar.
Calma.
Calma, temos tempo.
Sim, para já, isso fica tudo na mesma, não é? Para já, neste caso, quer dizer, pelo menos nesta Legislatura. Ontem foi divulgado esse estudo que o governo pediu, liderado por Jorge Bravo. Não é uma proposta de revolução, avança com ideias que podem ajudar cada um a compor a sua reforma e o governo já reafirmou, já o tinha dito antes e agora volta a dizê-lo, que nesta Legislatura não vai haver mudanças, que o estudo é um estudo independente e apenas vincula naturalmente, nessa medida, os seus autores. E entende-se, de alguma forma. O tema presta-se a grandes doses de polêmica, de demagogia, de divisão de campos, claramente. E permite também que se levantem fantasmas que às vezes são pouco credíveis, como a privatização da Segurança Social ou a colocação das reformas num casino e, portanto, outros temas do gênero. O governo, sabemos também, não tem maioria, não conseguiu sequer um acordo para fazer algumas alterações na lei laboral. E um tema destes requer mais conforto político e mais apoio político no Parlamento, portanto, vai ficar tudo na mesma, para já.
E mudando de assunto, Paulo, a família de Algés, onde aconteceu aquela tragédia que todos sabemos, era afinal acompanhada por quase todas as entidades.
É o que temos vindo a conhecer, a saber, à medida que os dias passam e que alguma informação vai sendo libertada e conhecida. Essa família, onde a violência doméstica era uma prática corrente, sabemos que o desfecho foi o filho de 15 anos matar a mãe com um golpe de artes marciais, um mata-leão, que essa família já estava referenciada e sinalizada, é assim que se diz na linguagem burocrática. E estava, quer pelas entidades que se ocupam da violência doméstica e da proteção de crianças e jovens, como é o caso da CPCJ, quer pela própria PSP, que visitou aquela casa cinco vezes nos últimos dois anos, quer mesmo pela Cruz Vermelha, que acompanhava a situação.
E a Santa Casa também.
A Santa Casa também. Santa Casa e a Cruz Vermelha. É isso, corretos-me bem. É isso mesmo. Era a Santa Casa e eu coloquei aqui Cruz Vermelha. E portanto, sabemos que uma série de instituições conheciam, pelo menos, o que se lá passava. O que é certo é que o sistema judicial também acabou por nada disso impedir, no entanto, que essa tragédia viesse a ter este desfecho, o que mais uma vez nos faz olhar para a forma como tudo se passa e talvez fosse bom rever os procedimentos e a forma de atuar destas entidades, até que ponto é que atuam com mais firmeza em momentos próprios, que é para evitar que estes desfechos aconteçam.
Paulo, e não há maneira de termos cuidado para evitar os fogos florestais? Todos os anos.
É verdade. Todos os anos e as conversas são sempre as mesmas. Imagino que as próprias autoridades, os governos, a proteção civil, por aí fora, bombeiros, já não saibam muito bem o que fazer mais para algumas coisas em concreto. Depois de todos os alertas, de todos os pedidos, até haver restrições e leis sobre queimadas nos dias de maior risco, os dados oficiais mostram que mais de um terço das ignições, isto é, dos acendimentos, do início dos incêndios florestais, daqueles que têm causa conhecida, causa apurada, são precisamente por queimas e queimadas. São 37% dos incêndios provocados por estas atividades agrícolas voluntárias, seja pelas queimas de sobras agrícolas ou florestais, seja por queimadas voluntárias em pastos. E portanto, se a isto somarmos o crime de fogo posto, esse também obviamente de origem humana, mas aqui já estamos na área do crime e da maldade intrínseca, logo, não acontece nas queimadas. Mas se juntarmos isto, temos aqui mais de metade das origens dos incêndios, de acordo com os dados oficiais do Instituto de Conservação da Natureza e da Floresta. E o que fazer perante tal incúria? Aqui falando novamente das queimadas. É difícil conceber que, apesar de todos os alertas, continue a haver este descuido. Não sei, talvez aumentar as penas para quem as cometer. Talvez isso ajude a travar o desleixo.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, gente.