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Saudade na ponta da língua do poeta. Será que chega para fazer sentido numa canção, para ficar pro dileto na memória? Fica lá com eles, não soa a mim. Vamos fazer uma viagem. Passar o dia a Bangladesh. Ver o sol em Marraquexe, fugir e saber hoje o que é que vem daqui. Sofre com o dilema da composição. Já não está cá hoje quem te deu a mão. E foco nos stories para poderes contar. A ver hoje se isso vai mudar. Vamos cantar sobre as rotinas. Nos dias notam-se as manias. Pouco a pouco vejo o tempo a passar, a correr sem se mencionar. A ver hoje se isso vai mudar. A ver hoje se isso vai mudar. A ver hoje se isso vai mudar. A ver hoje se isso vai mudar.

O Poeta, com Martin Seabra na Rádio Observador, versão ao vivo. Martin, muito bem-vindo.

Boas tardes.

Obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Estava para te convidar há tanto tempo, porque gostamos muito das tuas canções. De resto, já tivemos aqui várias na nossa playlist. Atualmente é a Madalena que anda por cá a rolar com mais insistência. "Vida Selvagem" é o teu disco novo, saiu em fevereiro. De resto, é o teu segundo, porque havia um em inglês primeiro, não é?

Sim.

Depois houve o EP também.

Uma vida passada. Foi um EP que foi com o Fisherman, que foi antes de eu começar a fazer coisas em meu nome próprio. E depois lancei um disco em nome próprio em inglês, que é o "The Desert is Packed". E só depois é que comecei a fazer música em português, com o "Tudo o Que Disseste", foi o primeiro single.

Por que isso aconteceu? Como é que essa mudança se deu na tua música?

Eu sempre fiz música em inglês na minha outra banda, que é os Danny Boy Aliens, e eu comecei a carreira desde muito cedo com eles e nós sempre fizemos música em inglês. E foi todo um processo de aprendizagem, tocar muito ao vivo, fazer muitas canções em inglês. Chegou a um ponto onde eu decidi que estava na altura de experimentar qualquer coisa nova. Achei que fazia sentido tentar fazer músicas em português.

Por que o disco se chama "Vida Selvagem"? Não tem uma explicação?

Eu acho que tem a ver com...

Estavas um dia de manhã, a ver televisão, no fim de semana.

Eu via muitas vezes isso com o meu pai e eu lembrei-me do BBC Vida Selvagem. Eu devia estar a ver, não sei se passa na RTP ou na SIC, mas devia estar a ver um desses canais de manhã, num domingo ou qualquer coisa assim desse género, e estava a passar a BBC e fiquei: "Vida Selvagem, isto por acaso é um bom nome para o disco".

Mas há alguma relação, por exemplo, com esse título e com as canções? Elas têm alguma temática, algum fio condutor que tu achasses que funcionava em termos líricos?

Eu acho que o Vida Selvagem vai dar ao encontro de não haver um fio condutor no disco. O disco é uma amálgama de vários anos daquilo que eu fui fazendo desde que comecei a escrever músicas em português. Tem ali canções que eu já tinha feito em 2022, mas que só foram regravadas para este disco. E depois foram canções que eu tinha feito na altura em que lancei um EP, o "Mais Vale Tarde". E este Vida Selvagem tem uma canção que se chama "Mais Vale Tarde", que eu fiz para esse EP, mas acabei por não lançar. Eu acho que faz sentido o nome ser Vida Selvagem, porque o disco é meio desconexo a nível de temática musical, mas acho que liricamente ele conecta-se melhor do que instrumentalmente. Eu tive cuidado com a sonoridade para ela não ser muito dispar de canção para canção.

Mas em termos das letras, as tuas canções falam de quê? Eu gosto muito desta, "O Poeta", sinceramente.

"O Poeta" é sobre a dificuldade de escrever canções. É sobre não ter tema, o que é que eu vou cantar? Vou cantar sobre Bangladesh?

Mas tu tens esse problema. É-te mais natural criar uma melodia do que escrever uma letra para uma canção?

Sim, muito mais. O que eu normalmente faço, porque antigamente, como eu escrevia em inglês, eu tenho muito a, como é que se diz?

Podes dizer em inglês, se quiseres.

Começar logo a cantar coisas em inglês. E eu tive que fazer aquele processo todo de desaprender a fazer isso. Então a maneira que eu encontrei para não ficar logo preso a 10 segundos de canção e não conseguir trabalhar mais nisso, porque estava a fazer em inglês, porque queria fazer em português, foi cantar só melodias e eventualmente esperar que me viesse alguma letra. Não forçar, logicamente, porque eu já tentei forçar e nunca gostei daquilo que saiu forçadamente, mas tentar esperar que essas melodias se tornem de fato em letras que construam uma canção.

Continuas a sentir-te mais guitarrista do que cantor?

Certamente.

Ok, é engraçado.

Eu adoro tocar guitarra.

Como é que estão os Danny Boy Aliens? Estão ativos? Como é que está agora também os próximos tempos da banda?

É assim, nós tocamos em abril, voltamos a tocar todos juntos. Eu tinha saído da banda, entretanto eu regressei para a banda.

Foste despedido?

Não, eu demiti-me.

E foste reintegrado?

Não, eu demiti-me. O contexto é que nós éramos muito miúdos quando fizemos a banda e quando chegamos à idade adulta de 22 anos, depois de dar centenas de concertos, não só em Portugal, mas pela Europa e gravar discos em Inglaterra, fazer 1001 coisas, nós percebemos que Quatro pessoas queriam fazer um estilo de vida dentro da banda e eu que queria fazer outro. Eles queriam continuar a dar concertos e fazer muita estrada, que faz todo sentido. E eu queria estar no estúdio e continuar a fazer músicas novas e melhores, que também faz todo sentido. Então, nesse desentendimento, eu achei que era melhor deixá-los e eles fazerem a carreira deles. E eles fizeram muito bem. Aliás, eles conseguiram ter o melhor sucesso da banda até agora, que foi depois de eu ter saído da banda.

Não sei se isso quer dizer alguma coisa, Martinho.

Se calhar não. Nós, entretanto, voltámos a falar todos juntos. Nós sempre fomos muito amigos.

Isso é engraçado, porque eu não relaciono muito as tuas canções com o Xani Bar and Alien. São dois universos bem diferentes, não é?

Mas eu escrevia muito para a banda. Eu, o Carlos e o Filipe escrevíamos muito para a banda. O Ricardo também começou a trabalhar nas canções mais tarde, mas eu, o Filipe e o Carlos éramos os que escrevíamos mais as músicas. Mas lá está, como nós sempre tocamos todos juntos, mesmo depois de eu ter saído da banda, ninguém ficou chateado. Somos amigos desde os cinco.

Deram um tempo, só.

Não, e foi mesmo a música, da banda, porque, na realidade, eu continuei a tocar com o Filipe, um ano depois.

O Filipe Carlson.

Sim, com o Carlson, porque eu acho que ele começou a lançar as coisas dele um ano depois de eu ter saído da banda, um ano e meio, e eu fui logo tocar com ele ao vivo.

Ele é ótimo, tem uma grande sensibilidade pop. Aquela pop mais colorida, eu acho que ele é um dos melhores a fazê-la.

O que eu acho que é curioso é as pessoas verem o Filipe Carlson como ele é agora e eu saber que aquele rapaz ia no carro comigo ouvir Melvins e ouvir Deep Purple, nada a ver com aquilo que ele faz agora. E eu acho isso brutal, na realidade. Eu acho que é impressionante a capacidade que ele tem para fazer música, não é para fazer música diferente daquilo que ele ouve, mas é para saber pegar nas melhores partes de qualquer coisa que ele ouve e saber mandar aquilo tudo para um saco e fazer-

Tu tocas também com o Velhote do Carmo. Ele já esteve aqui no ao vivo da Rádio Observador, gosto muito das canções dele. É um outro formato também diferente para acompanhá-lo.

O Ricardo Velhote, para mim, eu sinto que é mais próximo daquilo que eu faço. Eu gosto igualmente de tocar com todos, não é problema, mas eu acho que é num sítio mais comum tocar com o Ricardo, porque eu também o ajudei a fazer as músicas do EP, que ele está errado, ajudei a gravar e a dar uma ideia aqui e ali, porque ele na altura já tinha a maior parte das músicas feitas. Mas eu gravei as baterias do EP dele também, gravei acho que uns baixos, umas coisas assim, mas também estivemos ali numa de bater ideias para as músicas dele na altura. Aquilo é um sítio muito comum para mim, que eu já conheço, já sei o trabalho. Eu e o Ricardo temos uma maneira muito semelhante de olhar para a música, neste caso, no geral. Sinto-me mais em casa, se calhar, a tocar com o Ricardo.

Vocês são todos mais ou menos da mesma zona? O Filipe, tu, o Xani Bar, o Velhote do Carmo.

Antigamente éramos todos da mesma zona, hoje em dia é que já não é.

É engraçado, sentes que há esta coisa de haver uma determinada ao pop rock da vossa zona. Sei lá, há o do Porto, houve a malta de Coimbra e houve ali um foco em Alcobaça também, e há os de Lisboa, à margem sul.

Bem, mas no Estoril não.

Vocês são a malta do Estoril, não é?

É, nós somos do Estoril, mas lá está, isso nunca aconteceu porque não havia nenhum sítio para nos dar oportunidades para fazer isso ali na linha. Nós tínhamos sempre que vir tocar a Lisboa. Nós tocamos 10 vezes no Sabotage. O único sítio que havia em Lisboa para tocar, que nós podíamos tocar para além do Music Box, era o Sabotage e em Cascais era o Stairway Club, que hoje em dia já nem sequer existe, acho que hoje em dia é até uma discoteca, que era mesmo no centro de Cascais, onde os turistas estão todos. E aquilo, como vocês devem imaginar, era dificílimo de meter lá a malta, porque para além daquilo ser super descentralizado do meio de Lisboa.

Estamos a falar de uma coisa que fica para 20 ou 30 km de Lisboa.

Sim, mas é longe.

O que dirá um tipo de Bragança ou de Viseu?

Nós íamos a Bragança tocar. Eu lembro-me que nós íamos a Ponte de Lima tocar.

Ponte de Lima tem um belo teatro.

É, tem. Já tocamos lá com o Carlson, é muito fixe esse teatro. E nós fomos a Ponte de Lima tocar várias vezes. Não quero dar números, mas tocamos para as cinco ou seis vezes em Ponte de Lima e foi muito fixe tocarmos lá, porque eu não sei porque a malta lá do Minho, não é do Norte, é do Minho, essa malta gosta mesmo de rock. E não é rock Franz Ferdinand, é rock. Rock tipo Deep Purple, Led Zeppelin, AC/DC, coisas assim mesmo antigas.

São os tios. Os tios dessas pessoas tinham melhor gosto musical e impuseram.

Não ficaram em Portugal durante a ditadura, foram para França.

Sim, se calhar.

Facilitou-lhes o acesso a mais música.

Mas como é que olhas também para este cenário atual? Temos claramente cada vez mais sítios, alguns abrem, outros fecham, mas há mais sítios para tocar em Portugal do que havia há alguns anos atrás. No entanto, temos esta proliferação de festivais de verão, que também me parece que este ano já tivemos alguns festivais que não aconteceram, outros que, ao contrário do habitual, não esgotaram. Estamos a passar aqui alguma transformação também neste cenário da música ao vivo?

Eu não diria que estamos a passar por uma transformação, eu diria que nós simplesmente temos muito mais acesso a ver que as coisas estão a acontecer, a essa informação de, de facto, as coisas estão a acontecer. Porque eu, desde que sou miúdo, sei que existem não sei quantas milhares de festas pelo país inteiro, onde há sempre artistas a tocar lá todos os anos, durante três ou quatro meses do ano. Portanto, esses para mim são os festivais de Portugal. Os festivais de Portugal para mim não são os grandes festivais com os grandes nomes. Aliás, porque esses festivais nem sequer dão prioridade a bandas portuguesas. Eles dão prioridade a bandas que vendem bilhetes, digamos assim, bandas estrangeiras. E então para mim esses festivais sempre existiram. Acho que não há mais sítios para tocar. Eu acho que não há sequer mais sítios para tocar, eu acho é que simplesmente os espaços têm mais condições para terem mais concertos ao vivo nos sítios que já existiram. Porque eu lembro-me quando eu comecei a tocar, há 10 anos, mais ou menos. Começámos a tocar a sério mais ao vivo quando eu tinha 18, 19 anos. E nessa altura eu lembro-me que nós tocámos em sítios onde não havia PA, tínhamos que ligar o microfone do Carlo, ainda no Johnny Bar, a um amplificador para ele cantar. Nós parecemos que estamos a viver nos anos 60. Eu nem sei como é que a banda Os Chutos conseguiu fazer carreira em Portugal. Se já era assim há 10 anos, imagina nos anos 70 e nos anos 80. Mas a realidade é que eu acho que sempre houve estas festas e agora os festivais continuam os mesmos. Nós temos é mais acesso a saber que em Marinhas vai haver sete a oito festas durante três meses, onde vão ter cinco artistas em cada dia. E isso é mais um espaço.

"Vida Selvagem", o novo disco do Martim Seabra. Ouçam, que é um dos melhores deste ano aqui na música nacional. E eu queria saber como é que olhas para este disco, ele já tem alguns meses, ainda pensas fazer mais concertos com ele?

Depende do que aparecer. Eu gostava muito de tocar, mas este disco é complicado, porque também tem muitas coisas. A mim interessa-me muito mais fazer um bom disco e lançar o bom disco e saber que eu tenho ali um bom disco para mostrar às pessoas do que estar a tocar repetidamente.

Claro.

Eu gosto de tocar.

Como é que este disco se apresenta ao vivo?

Este disco tem que ser apresentado com pelo menos cinco pessoas em palco. Idealmente, era fixe ter mais uma ou outra pessoa para fazer as segundas partes de guitarras ou as terceiras, mais os teclados, mais as backing vocals. Não é um disco fácil de se tocar ao vivo. E então eu acho que só compensa tocá-lo quando eu sei que vou conseguir dar a melhor performance possível imaginária para o público, ainda por cima se tiver que pagar bilhete, que vai estar a ver. Por isso, para já, acho que não vá tocar nenhum concerto em formato banda, mas talvez algumas coisas acústicas, que eu adoro tocar em guitarra acústica, é assim que eu faço as minhas músicas todas. Eventualmente, haverá de haver mais um concerto ou outro para apresentar o disco.

Fico à espera dessas datas. Sigam também o Martim Seabra nas suas redes sociais. O disco está no Spotify, claro, e nas plataformas habituais. "Vida Selvagem", desse disco ouvimos "O Poeta". Vamos um bocadinho atrás, a uma canção já de 2024, que é o "Bela Mar", que também já andou aqui pela playlist da Rádio Observador. Não sei se não a vou recuperar para estes meses agora de verão. Martim, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador, aqui também com os cuidados técnicos do Bernardo Almeida. Martim Seabra com "Bela Mar", nosso convidado no Ao Vivo. Foi um prazer, obrigado.

Obrigado. Já é tarde em Bela Mar. Aqui não há confusão, nem solidão. Fica perto do ideal. Aqui ninguém leva a mal. Ela encanta com o nome, deixa memórias de um fim. Aqui eu vou ficar, aqui em Bela Mar. Aqui eu vou ficar, aqui em Bela Mar. Paga a quota pra poderes ficar. Longe do que te trava. E se um dia te esqueceres, tens a vida pra rever. Tudo aquilo que marca, fica, tens que prosseguir. E sorrir por um tempo invicto, mesmo sem saber. Aqui eu vou ficar, aqui em Bela Mar. Aqui eu vou ficar, aqui em Bela Mar. Por ti eu vou esperar, aqui em Bela Mar. Aqui eu vou ficar.

"Bela Mar", Martim Seabra na Rádio Observador, ao vivo no nosso estúdio nesta sexta-feira. Muito obrigado, Martim. Até breve.

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