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Ao vivo, na Rádio Observador. "Hás de sempre estar longe demais. E eu nunca vou chegar. Onde não posso estar. E não há outra forma de ir embora. Se não esta de ficar. Se não esta de adiar. A bruta tempestade. Que me espera. E que nos vai levar. Ou para a terra ou mar. Se o jardim secar e for a hora. Como desfaço a morte. Não se desfaz a morte. Então prende-te ao meu corpo e faz amor comigo. E nada mais importa. E nada mais me falta. "

"Se o jardim secar" é a canção nova de Milheiras, de resto já se ouve há algum tempo aqui na Rádio Observador, e ela está de volta ao nosso ao vivo. Milheiras, muito obrigado por teres regressado.

Obrigada.

É um prazer ter-te cá agora já com este segundo disco cá fora, chama-se "Surto". Diria que o disco anterior, o "De Sombra a Sombra", tinha uma densidade e uma melancolia um bocadinho mais marcada. Em "Surto", parece-me que estás um bocadinho mais livre. Há menos dor e drama e mais aceitação.

É verdade, que bom que passou. Era o grande objetivo.

Foi isso que eu ouvi.

É verdade, eu acho que foi uma fase, deu-se um ponto de viragem muito engraçado em que de repente a vida ganhou uma perspectiva diferente. Eu não consigo considerar este disco mais feliz ou mais solar que o outro. Acho que a nível temático até há algumas canções que eu acho até bastante mais violentas a nível lírico, mas acho que a forma um bocadinho de olhar pro lado escuro e pra essa melancolia que eu era tão obsessivamente apaixonada por, mudaram muito neste disco. Teve um bocadinho a ver, se calhar, com a forma como eu também comecei a levar a vida menos a sério, no bom sentido. Portanto, acho que tem uma carga quase mais irônica. E acho que isso é a grande transformação e que lhe dá esse lugar mais leve, mais imperfeito.

O disco abre com aquela intro, que funciona como uma espécie quase de bilhete de identidade. Que vai da tua infância, passa pelo Fausto à poesia de Fernando Pessoa. É uma espécie também de ponte entre isso que estavas a explicar do primeiro disco para este um bocadinho mais leve, não no mau sentido.

Sem dúvida, eu quis muito que houvesse uma canção que ainda pusesse os pés no universo do "Sombra a Sombra" e que fosse fazer exatamente, como disseste, a ponte. E acho que a intro acabou por fazer isso. Porque no fundo eu acho que há muitas coisas que continuam a coexistir entre os dois discos. Eu acho que eles conseguem descansar no mesmo espaço. Ou seja, a tristeza permanece, é só a forma de olhar pra ela que é diferente e eu acho que era isso que eu queria mostrar. Eu não quis renunciar ao lado negro, ao lado escuro, simplesmente quis retratá-lo de uma forma diferente, porque também o encaro de forma diferente na vida. E, portanto, essa introdução, acho que é a única canção do disco que ainda põe os pés naquela fase e depois partimos então pra outro lugar.

Isso sente-se de alguma forma. Também pelo que percebi, até pelo que fui lendo sobre o "Surto", este novo trabalho, há aqui um lado até mais cinematográfico que serve de inspiração para estas novas canções. Esta estética mais cinematográfica mudou a tua forma de compor e começaste, de alguma forma a pensar nas canções como cenas, personagens ou planos de rodagem de um filme?

Sem dúvida, foi um processo muito desafiante e muito divertido, embora se calhar não seja a melhor palavra Para oferecer a um processo criativo. Mas a verdade é que o que antes acabou por protagonizar o mundo das referências do primeiro disco foi a poesia. E neste disco foi absolutamente o cinema, em todos os níveis. Até a parte lírica veio em grande parte de guiões de filmes pelos quais eu me apaixonei. E, portanto, essa viagem de, de repente, olhar para cada canção como uma história isolada, de lhe querer oferecer, a nível de produção, um ambiente cinemático, de pensar onde eu estou, para onde eu vou. Se eu estou a cantar esta canção, estou com uma luz branca, estou com uma luz amarela, estou com uma luz exterior, estou com uma luz interior. Isso foram tudo perguntas que eu não fiz às canções do primeiro disco e que neste, dado muito a esse universo novo que chegou do cinema, acabei por fazer e acho que deu toda uma outra dimensão, que não significa que seja melhor ou pior, seria pretensioso assumir que sim, mas que foi um processo muito desafiante e muito bom de se viver.

Queria voltar um bocadinho atrás à canção que ouvimos há pouco, o "Se o Jardim Secar", porque me pareceu, e diz-me se eu estou enganado, que é o tema mais pop da Milheiras até agora.

Sem dúvida. Entre essa e o "Algo Mais", não sei qual será. Sim, mas o "Algo Mais" tem ainda a vertente mais-

Mas há ali um lá lá lá lá lá.

É verdade, nunca ninguém estava à espera de um lá lá lá. É verdade.

Eu gostei, acho que resulta muito bem. Fiquei muito contente de teres feito essa canção.

Que bom. Tem graça, porque a canção quando começou, para mim era, sem dúvida, antes de ter música, já tinha letra, e é a letra, para mim, mais violenta deste disco. Acho que é uma tristeza.

É essa contrapartida engraçada.

Sim. E é engraçado porque eu queria tão pouco que ela ficasse associada a uma canção triste que lhe quis dar o universo absolutamente oposto a nível musical. E acho que também foi esse, de levá-lo ao extremo, de querer os dois mundos a coexistir na mesma canção e, portanto, quis mesmo: "Ok, então se não é para ser uma canção triste, vai ter um lá lá lá, sim, senhora, porque é para eu nunca associar esta história a um lugar triste".

Faz-me lembrar, acho que é um meme na internet que tem as canções dos Smiths, do Morrissey, e então é uma casa toda preta em que diz lyrics e uma casa às cores que diz melody.

Sim, exatamente.

É um bocadinho o mesmo exercício que fizeste aqui neste single. Este ano está a ser muito interessante porque tens este novo disco, mas o ano começa, quer dizer, em março recebeste o prémio José da Ponte, da Sociedade Portuguesa de Autores. Como é que olhaste para esta conquista ou para esta atribuição?

Fiquei mesmo muito feliz, principalmente porque me foi atribuído um prémio como compositora e eu sou um bocadinho insegura. Como é que eu explico? Portanto, receber esse prémio foi muito gratificante, porque eu realmente acho que ainda tenho muito caminho para percorrer enquanto compositora, mais até do que intérprete, embora também tenha um grande e longo caminho pela frente. E portanto, foi muito gratificante, principalmente porque estava então a começar a fase de criação e foi um golpe de-

Uma validação, quase

Sem dúvida, claro. Sabe sempre bem.

Fala-me um bocadinho dos concertos. Eu estava aqui a tentar confirmar. Tu tens dois concertos agora em novembro, pelo menos aqui no Spotify está Pombal e Braga, 21 e 27. Vais ao Teatro Circo.

Vou, estou tão feliz.

É um sítio espetacular, um sítio lindíssimo.

Estou tão feliz. Por favor.

Como é que funciona este disco em palco e como é que convivem as canções deste com o anterior, já que falamos tanto das diferenças entre um e outro?

Há muita gente que odeia este tipo de pessoas, mas eu pelo menos nesta fase inicial, vou tocar quase exclusivamente só o "Surto". Porque há muita gente que não gosta, porque a verdade é que há canções que ficam e que têm que ser tocadas para sempre, mas eu gosto mesmo de encarar isto como uma história, capítulo novo. Portanto, nestes primeiros concertos vai ser quase só exclusivamente o "Surto". Acho que estou a descobrir como é que este concerto acontece ao vivo, mas estou muito feliz com esta descoberta, porque a verdade é que é um concerto que à partida, ou pelo menos perspectivá-lo, faz mais sentido ao vivo. Ao vivo no sentido exterior, em Engranda. Do que propriamente em auditório.

Outdoor?

Outdoor, porque é uma coisa que tem muita jarda.

Sim.

E, portanto, estamos a ver como é que o adaptamos para um concerto em auditório sem lhe tirar o veneno. Mas está a ser um processo engraçado e acho que estamos a encontrar um sítio de consenso bonito.

Acho que vai funcionar muito bem, especialmente no Teatro Circo, que é uma sala que eu conheço bem e que gosto muito. Espero que mais concertos surjam em breve. Recorda-me só quem é que te está a acompanhar aqui também nas teclas.

O Manuel Oliveira.

O Manuel Oliveira. Um abraço também para o Manuel e obrigado por ter vindo. A Milheiras tem ainda uma outra canção deste novo disco, "Surto", "O Tanto Que Eu Posso" ou "Tanto Que Posso"?

"Tanto Que Posso".

"O Tanto Que Posso". Estava aqui a ler mal. Muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Muitos parabéns. É uma viragem muito interessante que fazes neste novo trabalho e espero que todos aqueles que nos estão a ouvir o possam descobrir com o prazer que eu tenho feito. Obrigado, um abraço.

"Eu vivo à tua espera e para mal de mim eu sei que um dia vais chegar, mas para te despedires bem sei não vais ficar, mente-me".

Atrasa a despedida, diz que este é o teu lugar. Eu juro que fico e vou amar-te o tanto que posso. Ter nos meus olhos a bela certeza de um tempo que é nosso. É para sempre advertir, rein do meu profundo desejo. Ver nos teus olhos a bela certeza de um tempo que é nosso. Eu vivo à tua espera e para mal de mim eu sei, que um dia vais chegar. Mas para te despedires, bem sei, não vais ficar. Mente-me. Atrasa a despedida, diz que este é o teu lugar. Eu juro que fico e vou amar-te o tanto que posso. Ter nos meus olhos a bela certeza de um tempo que é nosso. É para sempre advertir, rein do meu profundo desejo. Ver nos teus olhos a bela certeza de um tempo que é nosso. Eu vou amar-te o tanto que posso, o tanto que posso, o tanto que posso. Eu vou amar-te o tanto que posso, o tanto que posso, o tanto que posso.

Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.