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Eu, só por entender a forma de não ver, aprendi mal. Pensei que fosse fácil e nem quis. Eu nem dei, mas sei, há quem se viva mal. Tempo em que volto perto e quis ser. Só por entender que o meu devia morrer. A farsa em que eu entrei, discreta e sem ninguém pra me contar. Era parte de um vendaval, incerto, mas tão normal que adormeci.
Eu, pra corresponder, de vez ao ser mais plural, sonhei que era o certo e nem vi. A maré parou, há quem se sinta mal. Tempo em que voltam o medo e o pó. Só por não querer, que o dia volta atrás. A farsa que eu encontrei, sentada e sem distanhe procurar. E lembra-me o sonho mau, o neve, o meu olhar trágico, o meu deixar.
É uma das novas canções de Noiserv, "Um Dia como Tantos Outros", participação de A Garota Não, neste novo disco do Noiserv. Estava aqui a ler sítios em que diz 7305 ou 7035.
É 7305.
Ok, então os e-mails da vossa comunicação estão certos. Alguns jornais escreveram 7035. Olha, Noiserv, muito bem-vindo à Rádio Observador.
Obrigado!
Muitos parabéns por este novo disco, também aqui cheio de convidadas. Surma, também Milhanas e A Garota Não, que estávamos a ouvir aqui em fundo. Queria ouvir aqui algumas das tuas novas canções, também aqui em jeito de trilha, enquanto conversamos um pouquinho. Como é que nasceu este álbum, que me parece também faz aqui um pouquinho resumo de carreira. Vinte anos. Ninguém diria, porque quem olha para ti, estás com ótimo aspeto.
Obrigado.
Vinte anos na música para muita gente, levou-os à morte. Não é o teu caso.
Acho que consegui passar aquela altura dos 27 e desde essa altura percebi que não seria para ser, espero eu. Mas eu acho que este disco tem diferentes valências, ou seja, é um disco novo porque o disco anterior tinha sido em 2020. Acaba por ser um disco novo porque o anterior já era muito antigo. E depois no ano passado, quando podia ter lançado o disco, eventualmente percebi que se lançasse este ano, seria um disco que iria fazer pandem com esta ideia dos 20 anos. E isso acabou depois até por justificar todo o conceito que o disco tem, todo o conceito da forma como as músicas se relacionam umas com as outras. E portanto, acho que é um disco que surge da necessidade de fazer um disco novo e depois de entender que iria bater nesta data.
Mas há aqui algum conceito de comemoração ou estas músicas ligam-se de alguma forma, não sei, pela temática?
Eu acho que as músicas acabam por se juntar sempre, pelo menos acreditando eu no formato de disco, acabam por se juntar, porque são todas feitas num mesmo período. Portanto, há sempre ali um período de um ano, dois anos, em que as músicas são todas feitas e eu acho que isso acaba por ser uma união que depois estará sempre em toda a parte de composição. Acho que o facto de eu saber à partida que era um disco que iria sair quando são os 20 anos, quando comecei a pensar no conceito do disco, o próprio título, ou seja, este número que é o nome do disco, são o número de dias que compõem 20 anos, ou pelo menos desde 19 de março de 2005, quando foi o primeiro concerto, até 18 de março de 2025, quando foram os 20 anos do primeiro.
Onde é que foi o primeiro concerto?
Foi no Porto, no Contagiarte. Na altura, numa semifinal do Tour Mountain Play.
Ok, era só pra confirmar que tinha estado lá a ver esse concerto.
E estavas?
Sim. Tu depois foste à final.
Não fui.
Não foste à final nesse ano?
Eu acho que quem ganhou esse ano foi o Mazgani e eu acho que ele estava na minha eliminatória também.
Mas no ano seguinte foste convidado para fazer com mais malta, um concerto em trio
Fiz com os Dead Combo. Não sei se foi no ano a seguir ou se foi dois anos depois, mas já foi na LX Factory.
Isso já foi na LX Factory.
Esse foi o primeiro.
Saudoso Cantagiarte também.
Era daqueles espaços que não se sente que foi ocupado de uma maneira mal feita, mas eram uns prédios que não eram salas de espetáculo, mas que ganhavam vida para as pessoas usarem o sítio para usufruir de uma série de coisas. Não só música, mas aquilo tinha uma série de coisas. Quando percebi que queria fazer um disco novo e que o disco iria bater nestes 20 anos, comecei até a pensar de que forma é que isso podia conceptualmente ligar-se às músicas. Não só o fato das músicas terem sido todas feitas no mesmo período. As músicas, se tu reparares atrás do título, têm sempre um número, que se tirares aquele ponto do meio, acaba por ser um ano. Tirando as duas últimas, que são, entre aspas, músicas de uma previsão de futuro, eventualmente, todos esses anos são os anos em que eu lancei algum disco por Noiizero. O 2005 foi o primeiro EP, depois teve o disco de 2008, 2010, 2013, 2016, 2020 e depois 2025. Eu acho que as músicas conceptualmente começaram a ficar dentro deste projeto do disco novo. Depois tentei também que a própria composição pudesse ser influenciada por isto, que são eventualmente as muitas perspectivas que o Noiizero foi tendo ao longo destes anos. Tentei que cada uma dessas músicas, que tem esse tal código atrás, por exemplo, a primeira que é 20.05, que será 2005, a música é feita com uma base de guitarra e depois tem apenas vozes.
Que era mais a tua origem.
Que era como era a minha composição em 2005, depois 2008, que é esta música que estamos a ouvir agora por trás. Não tinha a Surma em 2008, mas tinha este universo de guitarra, depois com melodias muito simples, algumas mais infantis, outras não tão usuais. A "Bullet Train Parade" do disco de 2008 tinha uma máquina fotográfica. Esta música tem uma caixa registradora de plástico também. As músicas foram seguindo conceptualmente esta ideia. Não que eu tenha ficado preso, acho que depois as músicas acabaram por se transformar elas próprias, mas o mote inicial foi sempre esse. E dessa forma eu senti que estava eventualmente a respeitar ou a homenagear essas diferentes fases que o Noiizero passou.
E sempre gostaste de dificultar a vida aos radialistas que têm que dizer os nomes das tuas canções ou os nomes dos teus discos, é uma coisa que tens especial prazer em fazer. E continua neste trabalho.
Eu acho que quando as coisas não são simples ou dão mais trabalho, a pessoa fica mais perto delas. Não é por isso que pus um título mais complicado. A questão dos títulos maiores vive muito de uma ideia de eu achar que se pode transmitir uma ideia logo com o título. E se for só uma palavra ou duas, se calhar não se transmite tão bem. Mas é verdade que se de repente, como estavas a dizer, um radialista vai passar uma música e se engana sempre naquele título, para todo o sempre aquela música vai ficar mais ligada àquela pessoa. E nem que seja por isso, já valeu a pena também.
Fala-me um bocadinho destas colaborações. A Milhane é uma das grandes vozes da atualidade, tem um grande vozeirão. A Garota Não instituiu-se também como alguém que já conquistou o seu espaço de culto. Gosto muito da colaboração, estávamos aqui a falar ainda antes desta entrevista que fizeste com a Surma, que estamos aqui a ouvir em fundo. Como é que nasceram estes três convites? Porque é que os escolheste?
Quando estava a falar há bocado que queria lançar um disco e percebi que o disco iria sair no marco dos 20 anos, não pensei se o disco iria ter convidados ou não. Normalmente gosto de ter alguns conceitos pré-definidos, gosto quando o disco sai, ter tudo muito certo ou sem pontas soltas, mas quando o disco está a acontecer e quando estou a compor as músicas, gosto que a coisa seja mais solta ou mais livre de mudanças bruscas. Isso às vezes pode ser um problema, porque depois posso não ter tempo para conseguir concretizar as coisas todas que me vou lembrando. Mas os convidados foram um bocadinho assim. Além destas três músicas em que elas são as três convidadas, a primeira música que estava a falar de 2005, tem um coro de vozes de muitos músicos, mas acima de tudo de muitos amigos meus. E na altura em que estava a fazer essa música, ainda com aquela ideia, queria que fosse só voz e guitarra, mas podem ser vozes e guitarra. Pensei: "Posso fazer só vozes minhas, mas isto era mais giro se fosse um coro de amigos meus. E porque não amigos meus que eu conheci na música?" E quando todos eles disseram que sim, e quando eu digo foi a Selma, o Hammu, a Bia Maria, o André Tentugal do We Trust, os First Blood After Coma, os Best Youth, o Afonso Cabral. Quando todos eles disseram que sim, de repente este disco ganhou um novo lugar, que era o lugar dos convidados, que não tinha acontecido, ou pelo menos não acontecia há muito tempo. No disco de 2008, o Luís Nunes, o Benjamim, tinha participado em algumas músicas, mas desde aí o Noiizero tinha ganho este lugar quase mais solitário. Mas é verdade que a minha vida não ficou mais solitária por eu fazer sozinho e eu fui conhecendo sempre muitas dessas pessoas. Acho que depois de abrir essa hipótese ou de ficar até entusiasmado com esta ideia de entrar no disco de celebração, ter amigos meus que vêm da música a colaborar, é até bastante bonito. Acho que isso abriu ali um lugar, que depois à medida que as músicas foram avançando, essas três convidadas, a Surma, a Milhanas e a Kate, a Garota Não, apareceram nesses lugares. Podiam ter aparecido mais convidados ou terem sido menos, mas por exemplo, a da Milhanas, em particular, eu lembro-me de estar a tocar a música no piano, a música que começa logo com o refrão e é assim densa. E eu tinha feito uma coisa com ela há pouco tempo e andava, ainda ando um bocado. É como tu dizes, a voz dela é mesmo muito bonita e acima de tudo ela diz as palavras de uma maneira muito intensa que eu acho muito bonita. Eu quando estava a tocar e a começar, pensei: "Ipa, isto era incrível se ela entrasse comigo". E quando lhe perguntei, a minha ideia até era ela fazer comigo só a entrada, porque aquilo ia ganhar uma profundidade grande. E perguntei-lhe e ela disse que sim. A Surma foi outro motivo, a música Eu sentia que precisava da luz que a Surma dá sempre, não só enquanto voz, mas enquanto pessoa. Se a pessoa vai numa rua comprida e a Surma vai lá à frente, parece que já se vê ali uma coisa a brilhar à volta.
Sim, ia pensar uma coisa cândida, no bom sentido, na voz da Surma.
E portanto, surgiu dessa forma. Da garota foi dessa forma. As músicas iam acontecendo e as pessoas foram me aparecendo.
Olha, vamos olhar para estes concertos, estamos aqui a ficar sem tempo. Próximo dia 16, há concerto no CCB em Lisboa, dia 29 no Teatro Aveirense, dia 6 de dezembro na Casa da Música do Porto. Como é que são estes concertos? Tens malta contigo, eras muito apresentado também como aquela coisa do one-man band. Como é que está o formato ao vivo hoje em dia de Noiserv?
Está o one-man band, mas a band é maior só porque há mais instrumentos. Eu comecei com três faces à minha volta preenchidas, eventualmente de um hexágono, e agora com este disco tenho mais duas faces fechadas atrás. Já só consigo entrar ali por 40 centímetros, o resto está tudo cheio de instrumentos. A maneira de tocar este disco, e não só este disco, mas as músicas antigas estão nesse formato agora. Depois vou ter um convidado ou uma convidada, neste caso, em Lisboa e outro no Porto, mas não tenho nada a dizer, que acho que é mais giro ser surpresa. Mas claro que é um concerto que tem um foco maior neste disco, mas não vou tocar o disco inteiro, até para dar tempo ou espaço a que as outras músicas que fazem parte deste percurso todo também apareçam. É um concerto mais longo do que têm sido, porque há muitas músicas novas. E portanto será isso, até posso dizer, destas nove músicas vou tocar sete. Só há duas que não toco.
Muito bem, estão todos convidados para estes concertos de apresentação de "7305", é o novo disco de Noiserv, que assinala 20 anos de carreira. Muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Muitos parabéns por este disco. Ainda durante alguns minutos temos aqui a Casa das Rodas Quadradas com a Melianas. Um abraço, David, e obrigado.
Valeu, abraço.
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