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Muito bem-vindos a mais um episódio especial de "As Histórias da Bíblia". Todas as semanas, às quintas-feiras, respondemos a uma pergunta dos nossos ouvintes sobre a Bíblia e têm chegado muitas à nossa caixa de e-mail: ashistoriasdabiblia@observador.pt. Já sabe, pode ouvir-nos todos os domingos às 9h00 na Rádio Observador e sempre em podcast. E aqui às quintas-feiras, num episódio mais curto, é exclusivo em podcast e respondemos às dúvidas dos ouvintes. Não se esqueça, portanto, de seguir o nosso podcast na plataforma que usa para nos ouvir, para não perder nenhum destes episódios. Todos aqueles que quiserem colocar perguntas aqui aos padres João Bastos e Daniel Nascimento sobre a Bíblia, podem escrever-nos para ashistoriasdabiblia@observador.pt. Ora bem, nós no episódio do último domingo estivemos a falar sobre Esdras e Neemias, os homens que reconstruíram Jerusalém depois do exílio. Se não ouviu na Rádio Observador, pode encontrar o episódio em podcast em todas as plataformas. Esta semana vamos responder a uma pergunta que nos foi enviada pela nossa ouvinte Paula Mourato. Ela escreveu-nos este e-mail e eu vou aqui ler a pergunta que a Paula nos enviou por e-mail: "Existe uma questão que permanece no meu espírito". A Paula diz que tem ouvido todos os nossos episódios e que continua com esta pergunta: "Por que Deus escolheu este povo para ser o seu povo? Sei que não estão na sua mente para o saberem, mas será que existe alguma razão mais humana e não apenas divina?" Ora bem, Daniel, de todos os povos que viviam naquela região, naquela altura, por que Deus foi escolher aquele? Ou, em contrapartida, será que todos os povos da região acreditavam ter sido escolhidos por Deus, todos contavam a sua história e por alguma razão esta foi a narrativa que sobreviveu?

Eu penso que a resposta mais correta para este porquê, por que Deus escolheu este povo e não outro, é porque sim.

Estou até para rir.

Não é um motivo. É interessante. Permitam-me citar aqui Deuteronómio 7:7. "Não foi por serdes mais numerosos que os outros povos que o Senhor se agradou de vós e vos escolheu. Vós até éreis o mais pequeno de todos os povos. Foi porque o Senhor vos amou", etc. Este é um ponto importante, parece-me. Não é por mérito, não é porque eram muito bons, não é porque eram muito santos, não é porque eram muito capazes, mas porque sim, no sentido em que há uma graça, há uma escolha de Deus livre e, portanto, não condicionada por serem um grande povo. E de facto não eram, nunca foram e nunca serão, no sentido talvez numérico, certamente. Parece-me isto importante. Não é uma conquista humana que dá direito a uma recompensa, que seria esta eleição, mas há aqui um movimento gratuito da parte de Deus. Isto por um lado. Por outro lado, esta dimensão de ser um povo eleito pode nos parecer uma coisa um bocadinho, como dizer, chauvinista, até egoísta, do gênero: "Nós somos bons, nós fomos escolhidos e vós sois uma coisa inferior". Mas na melhor tradição bíblica, veterotestamentária, eu diria que esta escolha não é tanto para que se inchem, mas pegando nesta expressão que é dita por Deus a Abraão, para ser uma bênção. Para utilizar uma expressão de Isaías, para serem luz das nações. Esta ideia de uma escolha para estes que são escolhidos levarem uma bênção, levarem uma luz, levarem algo de bem aos outros. E nesse sentido, não é algo marcado por um egoísmo de quem se sente escolhido e, portanto, superior aos outros, embora a própria Bíblia mostre muito dessa tentação.

Sim, nem sempre essa parece ser a prioridade do povo.

Claro, mas é para se tornarem uma bênção. Acho que este filão que encontramos nas narrativas dos patriarcas é interessante. Esta ideia de que Deus escolheu este povo para que ele se multiplique e para que ele seja um sinal de bem no mundo à sua volta e, portanto, este particularismo de um povo eleito contém, de certa forma, em si, um universalismo de que todos são chamados a fazer parte deste chamamento.

Até porque nós temos alguma dificuldade, parece-me, em reconstituir exatamente quem era este povo. Ou seja, olhando para o Antigo Testamento e considerando que temos ali, obviamente, relatos míticos, relatos lendários, alguns relatos históricos, enfim, alguma dificuldade em perceber o que é exatamente histórico, o que faz parte do caráter lendário daquele povo. Ou seja, o que nós conseguimos reconstituir sobre exatamente quem é este povo que estamos a falar, de onde ele aparece, onde é que ele vive?

Acho que há aqui uma dificuldade grande em tornar a coisa um discurso racial, como depois se torna, porque, por exemplo, as narrativas do Êxodo falam de um Israel que de certa forma nasce no Egito e vai para a Terra Prometida. A arqueologia hoje mostra-nos que a história é muito mais complexa e, portanto, esta gente que chega em números

Muito menores do que aqueles descritos nos textos bíblicos, como já falámos noutros episódios. Poderá ter um elemento exógeno, de fora, mas tem também, por descobertas de ADNs e métodos mais modernos que a arqueologia hoje serve, um elemento autóctone. As narrativas bíblicas mostram-nos uma idealização de um processo que na realidade terá sido muito mais complexo.

Mais complexo.

Esta autodescoberta, este próprio conceito de povo eleito, é algo que vai tendo filões diversos nos próprios textos bíblicos, porque eu referi Abraão e esta ideia de ser uma bênção, de ser uma espécie de porta de entrada em que todos são chamados a entrar, mas há outros textos bíblicos de um nacionalismo um pouco mais estreito e que quase que convidam, sobretudo em leituras mais fundamentalistas, a uma agressão ou uma espécie de guerra santa a outros povos. Não é essa a única ideia e não me parece ser essa a ideia central.

Até porque a ideia de povo eleito ou povo escolhido acaba por ser um pouco posta em causa por esse processo que estavas a falar de cruzamentos, migrações, etc. Na verdade, estamos a falar de um conjunto de povos que se foram contactando uns com os outros, que foram cruzando e, portanto, o eleito versus o não eleito pode ser uma coisa um pouco mais difícil de compor. João, o que é que tens a dizer aqui ao nosso ouvinte?

Gostei da resposta. Quando nós associamos povo eleito a ser um povo escolhido, na medida em que há uma ideia que depois redunda numa espécie de pureza ética e étnica, eu acho que não é bem isso que se quer passar. Acho que a própria noção de eleição e de escolha também vai sendo desenvolvida e vai tendo até nuances e contradições dentro da própria Bíblia. Não é propriamente uma espécie de escolha mágica. Há aqui uma progressividade. O povo a entender-se a ele próprio como um povo amado por Deus e por isso escolhido por Deus e, como dizia o Daniel, depois responsável. O Emmanuel Levinas, que é um filósofo importante do século XX, de origem judaica, tinha esta ideia que desenvolveu muito da alteridade e da resposta ao rosto do outro, que deriva precisamente desta escolha. Nós somos escolhidos e eleitos e por isso isso transforma-se numa responsabilidade diante do outro, numa responsabilidade infinita diante do outro. É importante para retirar esta carga muito bélica e nacionalista de um povo eleito face ao conjunto de pessoas completamente desgraçadas.

Que não foram eleitas.

Que não foram eleitas.

Para terminar, no contexto do politeísmo que antecedeu esta ideia do monoteísmo, imagino que muitos povos considerassem ser escolhidos pelo seu deus. A dada altura, também há aqui esta dimensão.

Nem todos. Não conheço a fundo as religiões politeístas clássicas greco-romanas, mas acho que isso não existia propriamente, esta noção tão desenvolvida como existe na região judaica e como é desenvolvida, eu acho que os gregos não entendiam que tinham sido o povo escolhido por Zeus.

Pelos seus deuses.

Pelos seus deuses. As coisas são mais mitigadas. Esta ideia de que toda a gente entendia nas suas religiões que eram escolhidos por Deus e que estes são os que sobreviveram, acho que não é assim tão clara quanto a Israel. Tanto que, por exemplo, no budismo, no hinduísmo, esta noção não existe de maneira tão clara, pelo menos.

Muito bem, nós temos aqui um outro programa na Rádio Observador que se chama "Porque Sim Não é Resposta", mas possivelmente é assim que vamos ficar.

Em minha despesa, eu desenvolvi um pouco.

É verdade. Claramente verdade.

Há variedade aqui.

Fica por aqui este episódio especial em que procurámos responder à dúvida que foi enviada pela nossa ouvinte Paula Mourato. Muito obrigado, Paula, por esta pergunta. Já sabe, se quiser enviar uma pergunta para o podcast "As Histórias da Bíblia", escreva-nos para o nosso e-mail ashistoriasdabiblia@observador.pt. Pode também deixar um comentário no YouTube ou na plataforma de podcasts onde nos estiver a ouvir. Nós voltamos no próximo domingo com mais um episódio desta nossa terceira temporada. Vamos falar sobre os irmãos Lázaro, Marta e Maria, três amigos de Jesus que têm um papel muito importante nos evangelhos. E na próxima quinta-feira voltamos para responder a mais uma pergunta dos nossos ouvintes. Até domingo.