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Bem-vindos aos "Bairros com História". Este podcast é uma parceria da Gebalis, a empresa municipal de Lisboa responsável pela gestão da habitação social, e o Observador. Isto por ocasião dos 30 anos do Plano Especial de Realojamento. O PER envolveu o Estado central e algumas autarquias na década de 90, com o propósito bem definido de acabar com a generalidade das barracas que existiam, sobretudo nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. Hoje vamos conhecer dois protagonistas com uma obra social e comunitária a todos os títulos notáveis nos bairros lisboetas, que são dois empreendedores sociais com trabalho inspirador, sobretudo junto das camadas mais jovens. São o Jorge Spina, o fundador e presidente da Associação Jorge Spina, e o Eugénio Silva, que fundou também e preside à Associação Passa Sabe. Muito obrigado por terem vindo. Bem-vindos ambos a este podcast. É um gosto tê-los aqui. Antes de mais, eu começaria, Jorge Spina, por perceber como é que nasceu a associação com o seu nome, o que é que faz, enfim, como é que todo este projeto nasceu?

Este projeto nasceu em 2009, 2010, mas conseguiu se estabilizar estatutariamente em 2011. Nasceu depois de eu ter tido uma fatalidade ou sorte, nem sei como é que hei de dizer, de perder a visão.

Não será uma sorte, certamente.

Não será uma sorte, mas a sorte é quando a gente consegue ver melhor agora do que via antes, quando tinha dois olhos.

Isso é fantástico.

E resolvi agarrar no boxe, a modalidade que me ensinou e transformou a minha vida, com um projeto nos Lóios, e depois ir crescendo, ir podendo dar a conhecer a modalidade e a associação. E depois ela começou a crescer.

E o que faz agora a Associação Jorge Spina?

A Associação Jorge Spina agora trabalha com crianças e jovens, e já não é só crianças e jovens. Temos projetos em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa para pessoas com deficiência e pessoas com mais de 55 anos, o projeto Movin e o Mais 55. Também temos projetos com outras associações que temos algumas atividades com jovens dentro do BIP ZIP. E o nosso trabalho é transformar jovens, transformar crianças e poder dar-lhes um caminho.

A vários níveis. Vamos já saber depois em detalhe. Eugénio Silva, bem-vindo também, é um gosto também tê-lo aqui. Também conhecer um pouco da história da Associação Passa Sabe, quando nasceu, o que é que faz.

Ok, bom dia. A Associação Passa Sabe nasceu em 2014, no Bairro do Rego. Foi mais no intuito de nós termos uma voz na comunidade e termos um espaço. Foi na altura que o Instituto Padre António Vieira foi para a comunidade com projeto da Gulbenkian, que era para trabalhar os bairros dali da freguesia, na altura era Nossa Senhora de Fátima. E na altura, nós ainda mais jovens, estávamos sempre lá no bairro, não fazíamos nada e começamos a perceber que o IPAV começou a ocupar a nossa comunidade com lojas. E nós já vivíamos lá há alguns anos e nunca tivemos nada que era nosso. Parávamos sempre ali embaixo a jogar cartas e falar. E foi daí que começamos, de uma certa forma, a reivindicar o nosso espaço. Nós éramos dali da comunidade, sempre vivemos ali, nunca tivemos um espaço nosso. Entretanto, vieram pessoas de fora e começaram a ocupar a nossa comunidade. Entretanto, à medida que o tempo foi passando, fomos criando uma relação entre nós e IPAV. Então aí que surgiu a ideia de criarmos uma associação, porque na altura nem a câmara, nem outra entidade ia dar uma associação a mim, nem a pessoa qualquer.

Nem a ninguém do bairro.

Exatamente. Tínhamos que nos oficializar. Então a ideia foi: criamos uma associação na comunidade, porque nós também nunca tivemos ninguém que nos representasse. Então foi aí que surgiu a ideia e fomos bater em várias portas, porque na altura ainda tem que se pagar para abrir uma associação. Pedimos cada pessoa €5, muita gente aderiu e conseguimos abrir a associação. E na altura, nós, como não sabíamos nada, a nossa vontade era só ter um espaço e não tínhamos um espaço ainda. Começamos a fazer trabalho comunitário, trabalho voluntariado. Limpezas do bairro, ajudar os idosos com compras, entre outras coisas, levar crianças a passear por Lisboa, entre outros lados. Estivemos no voluntariado durante um ano e tal, um ano e meio. Só que depois as pessoas tiveram que fazer vida. Voluntariado não sustenta ninguém.

Não paga as contas.

Exatamente. Uns emigraram, outros arranjaram trabalho. Eu, entretanto, fui contratado pelo IPAV.

Mesmo pelo Instituto Padre António Vieira.

Exatamente. Comecei a trabalhar no IPAV. Depois, passando um ano, dois anos, surgiu a ideia de ativarmos novamente a associação. Então o IPAV conduziu um projeto BIP ZIP, que era capacitar os membros da associação. E na altura o IPAV ganhou o projeto e eu passei a trabalhar diretamente para a associação. Deixei o IPAV, comecei a trabalhar diretamente para a associação e basicamente na altura era fazermos uma atividade por mês na comunidade.

Que envolvesse, sobretudo, a malta mais nova.

Exatamente. Entretanto, eu e a minha colega Joana, pois a Joana também trabalhava no IPAV, ela começou a trabalhar metade do tempo, part-time, na associação. E o que nós fizemos? Fomos a várias associações começar a perceber como é que eles trabalhavam

No fundo, para criar um leque de atividades que pudesse, de alguma forma, envolver, ensinar de alguma maneira e dar ferramentas às mãos das outras.

Ensinar, exactamente. Porque já algumas associações já estavam no terreno.

Já vamos ver com detalhe o que é que fazem, percebo também com o Jorge Spina. Concretamente, hoje, o que vocês têm no terreno? A Associação Jorge Spina, o que oferece às comunidades ou à comunidade com quem trabalha?

A Associação Jorge Spina começou com um projeto de boxe.

De treino, basicamente, de preparação.

De boxe, preparação. E depois, como eu já não conseguia praticar boxe e virei-me para o atletismo, tornei-me atleta paralímpico.

E nas Olimpíadas também.

Sim, eu estive em três Jogos Paralímpicos. Estive nos Jogos Paralímpicos de Pequim, estive nos Jogos Paralímpicos de Londres, estive nos Jogos Paralímpicos de Rio. Era para ir para Tóquio, só que foi na altura do Covid.

Já pandemia.

Apanhei Covid, pandemia, tive um colapso nas vértebras e não conseguia correr mais. E agora estou a tentar outra atividade, que é o ciclismo.

Impressionante.

Depois de me aperceber que já os atletas estavam a ter uma certa idade e resolvi criar uma escola de atletismo adaptado. Temos uma escola de atletismo adaptado.

Para pessoas com deficiência?

Para todo tipo de pessoas, com todo tipo de deficiência, desde deficiência intelectual, visual e motora, que funciona aqui no Parque de Jogos do Inatel, com a parceria da Fundação Inatel. E agora, há cerca de um ano, que consegui abrir a Academia Jorge Spina, que fica situada no bairro do Armador, em Marvila. Um projeto enorme, um sonho realizado, porque durante muito tempo não tive espaço, andei trabalhar e apanhar jovens com uma carrinha. Fui muitas vezes ao Rego buscar jovens do Rego com uma carrinha.

É o meu filho.

O bairro do Eugénio.

O bairro do Eugénio, não.

Mas acho que o bairro é meu.

Como eu disse, o nosso bairro, porque o meu bairro não é só o Marvila, não é só o Rego. A gente pode trabalhar em todos os bairros. O nosso bairro é Lisboa, é Portugal, é o mundo. Nós somos cidadãos do mundo.

É impressionante essa forma de olhar para as coisas. Aliás, o Jorge e o Eugénio já se conhecem há muito tempo.

Sim, eu conheço o Jorge há 40.

Exato.

O Jorge é mais novinho, ele está com 50.

Eu estou quase 50.

O Jorge disse, na conversa que tivemos para preparar este podcast, que andou com o Eugénio ao colo.

Andei com o Eugénio ao colo. Ainda lhe dei umas palmadinhas no rabo. O Eugénio era um traquina do caralho.

Exato, uns carolos. É verdade. Por acaso, o facto de o Jorge estar a dizer é verdade. Nós falamos muito assim, a comunidade está no bairro, mas a comunidade é de todos. Não é a associação do bairro, não, a associação é de todos.

E qualquer pessoa, exatamente. Isto é, pessoas de fora do bairro podem, obviamente, também dirigir-se às vossas associações.

Exatamente. Ou se tiver um projeto, pode ir ter conosco, nós podemos tentar fazer um projeto com outra comunidade.

Eugénio, já percebemos que a academia e a associação do Jorge Spina está muito focada no desporto, de alguma maneira. E qual é a abordagem da Associação Passa a Sábia? Que atividades é que vocês têm?

Nós trabalhamos muito na necessidade, aquilo que nos aparecer. Nós não estamos lá para inventar nada. Imagine, no início, nós abrimos o ATL. Abrimos o ATL por quê? Porque começamos a reparar que as crianças passavam muito tempo na rua. Depois de virem para a escola, os pais estariam em casa ou estariam a trabalhar, as crianças estavam na rua. Apesar de ser um bairro seguro, mas é sempre melhor estar ao pé de nós. Abrimos o ATL. Depois começamos a reparar que depois das crianças passarem na escola ou passarem no ATL da junta, chegavam nós com ainda alguma dificuldade em termos escolares. Então montamos uma equipe do voluntariado para dar apoio ao estudo. Depois também começamos a reparar que as senhoras da comunidade, tanto cigana como a negra e a portuguesa, já estavam reformadas, não tinham nada para fazer. Fizemos um inquérito. "O que vocês precisavam, o que gostariam de fazer?" "Um ateliê de costura." "Ok, bora montar um ateliê de costura." Conseguimos montar o ateliê de costura, já temos há cinco anos o ateliê de costura. Trabalhamos muito assim. Muitas das vezes não inventamos projetos, não, nada. Trabalhamos muito na necessidade.

Na base da necessidade. Primeiro detectam a necessidade, fazem a audição da comunidade e criam depois os programas à medida. Quantas pessoas, Eugénio Silva, com quem vocês trabalham, o impacto neste momento, vocês atingem quantas pessoas nessas atividades todas, no total?

É um bocadinho difícil dizer, porque nós trabalhamos com as escolas. Cada turma tem 30, 40 alunos. É um bocadinho difícil, ronda os 150 mensais, a contar com a escola. A comunidade é muito menos pessoas, porque o bairro é pequeno. Porque nós trabalhamos tanto com a escola 44, como a Marquesa de Alorna. É primário e o secundário. Envolve bons jovens. No dia a dia, nós temos 10 jovens a trabalhar conosco. Os jovens começaram conosco no ATL.

Isso são pessoas mesmo que são empregadas, se não me esqueci.

Exatamente. Eles começaram conosco no ATL, depois começaram a fazer trabalho voluntariado e hoje já trabalham mesmo conosco. Recebem uma bolsa de voluntariado, trabalham conosco. E isso é importante por quê? Porque além de nós estarmos lá, estamos a criar postos de trabalho.

Claro, sem dúvida. Além de todo o trabalho que fazem na comunidade.

Exatamente. Depois também temos uma parceria com o projeto COI, que é um projeto espanhol, que é para entregar encomendas de bicicleta, que a ideia deles é entregar a encomenda de uma forma sustentável e amiga do ambiente. Então eles vão de bicicleta ou vão a pé.

Fantástico.

Então temos lá mais dois jovens da comunidade, aqueles jovens que não estavam a fazer nada no dia a dia deles. Entretanto, eles estão lá a trabalhar conosco, têm salário e têm contrato. Eles estão mesmo bem empregados.

Isso funciona quase de uma forma 360.

Exato.

Exatamente.

E depois praticamente eles trabalham sozinhos, que não têm chefe. Eu no início estive sempre em cima deles.

Têm autonomia.

Exatamente. Tive que fazer as rotas, eles tiveram que aprender as rotas. Entretanto, eles já sabem o que fazer. Eles chegam lá de manhãzinha, eles pegam a encomenda, fazem as rotas, começam a picar as encomendas e vão à vida deles.

Fantástico.

E ninguém tem que estar em cima deles. Eles não têm patrões.

Jorge, a mesma questão. Quantas pessoas é que neste momento a associação impacta?

A associação e a academia impacta perto das 500 pessoas. Com a academia, aquilo tem sido cada vez aumentar o número de participantes, porque como nós na academia temos várias atividades viradas para os desportos de combate, para além de termos um ginásio. Nós temos desde boxe, kickboxing, jiu-jitsu, MMA, crossfit, wrestling. Temos duas pistas de 60 metros indoor, de tartan dentro do ginásio, temos uma box crossfit, temos um espaço de tatame, temos uma sala de musculação Uma sala onde os miúdos saem da escola e vão estudar, uma sala de tempos livres. Temos uma sala de formação e para reuniões comunitárias do bairro. Ainda temos um espaço para meditar, orar ou rezar, seja o que for, porque o corpo e a mente têm que estar ligados.

Sem dúvida.

E eu como sou um pouco beato.

Claro. Jorge, vocês têm a noção do impacto que isso que vocês fazem causa na comunidade? Isto é, qual é o efeito positivo, seguramente, não consigo encontrar aqui.

É difícil.

Qual é o efeito? É difícil medir isso.

É difícil, mas eu sei que causa um grande impacto e eu acho que nós que trabalhamos em associações, o nosso objetivo é conseguir dar e proporcionar felicidade, alegria a estes jovens e a essas pessoas e o retorno que a gente recebe não há descrição para a satisfação e o prazer que nós tiramos com aquilo que nós fazemos. Eu gosto de servir, servir a comunidade, servir os bairros, servir as pessoas. É para isto que eu estou aqui e eu encontrei o meu propósito de vida. Sinto feliz por conseguir fazer isso.

Nota-se o entusiasmo com que o Jorge fala. Eugénio, em relação ao impacto, o que vocês fazem, no fundo, também é preparar pessoas, de alguma forma, para a vida. Alguma formação. Isso que impacto é que tem naquela comunidade ou naquelas comunidades?

Acho que tem um grande impacto, até posso ver por mim, porque eu imagino, quem me dera ter uma associação, porque na altura só tínhamos a igreja do BB, lembras quando estava lá no bairro, Jorge?

Sim.

Era a única instituição assim que nós íamos jogar à bola, mas era uma vez por mês.

Íamos quando era nas férias para o Algarve.

Exatamente, para o Algarve, só que eu nunca tive isso. Imagina, se eu tivesse algo desse gênero, muitas coisas eu não fazia na vida. Por exemplo, eu estive preso, estive muito tempo inativo e muitas vezes nós não estar a fazer nada na vida é perigoso.

Claro.

Mete-se em tudo. Então hoje eu vejo nesses jovens que nós trabalhamos, eles nem têm a hipótese de quer meter outras coisas.

Estão tão ocupados convosco.

Estão tão ocupados, exatamente.

Se distraem um gajo dá-lhes um caldinho.

Às vezes até dá pena deles, coitados, que estão na escola, depois vão estar conosco, depois ainda têm que ir pra casa. Até dá pena, mas a vida é assim, temos que preparar eles. Eu até já sei qual é o perigo da vida. Porque como eu disse, eu estive preso.

Da experiência própria.

Experiência própria, exatamente. E o que nós fazemos com nossos jovens, como eu tinha lhe dito, nós temos um projeto que é o Rally Futurista, que muitas das vezes eles estão na escola, na faculdade, não sabem o ponto de se virar e não sabem o que vão fazer. Então nós vamos a vários trabalhos ou empregos visitar e eles ficam a estagiar mesmo. Normalmente, acontece sempre nas férias deles, da Páscoa, de Natal.

No fundo, para eles conhecerem como é que funcionam as empresas, os vários setores, como é que se faz isto ou aquilo.

Para eles começarem a perceber também o mercado do trabalho, porque às vezes eles estão ali conosco, eles não percebem que é trabalho, é porque é o Moxu ou a Joana está ali e eles estão no bairro, eles não conseguem perceber muitas das vezes, temos que ser mesmo rígidos. Não, não podes vir trabalhar com capucho ou de chinelo, está a perceber? Muitas vezes, porque eles como estão lá no bairro, eles pensam que aquilo é uma brincadeira. Não é uma brincadeira. Aqui é um trabalho como todos os outros, por isso temos que respeitar, porque a qualquer momento pode aparecer câmara ou junta de freguesia, ou outra entidade qualquer, tira-nos logo ali o: "Olha, esses aqui estão aqui a brincar, é uma sala".

Claro, vocês têm regras a cumprir também.

Exatamente.

É prepará-los para a vida, em todas as áreas.

É isso.

Saberem estar, saberem respeitar.

É isso.

E como é que devem andar no seu posto de trabalho.

Pois, porque só uma questão, eu pelo menos eu não tive isso. E é uma sorte eles terem isso, alguém mesmo de fora, que às vezes os pais estão a trabalhar. Na comunidade sempre foi assim, na ausência de pais, os vizinhos que eram os pais, mas hoje em dia já não acontece assim.

É um espírito comunitário a funcionar de uma forma nata, mas não de uma forma tão estruturada.

Exato. Hoje em dia há é do vizinho que reclame com o filho do outro.

Claro.

Lembras-te, Jorge? Antigamente...

Mas o bairro tão bom. O que a gente corria lá no bairro.

Exato.

E brincávamos tanto na rua.

Sim, hoje...

De outra forma.

E de outra forma. E os vizinhos todos preocupavam-se uns com os outros. Batiam à porta, iam perguntar alguma coisa. O que eu sinto diferença é que os vizinhos eram mais ligados uns aos outros naquela altura. Agora entra-se no elevador, não se fala.

Nem bom dia, nem boa tarde.

Nem boa tarde. Naquela altura, o vizinho ia lá: "Vizinho, tem comida? Quer isto? Tenho aqui isto para si que eu fiz hoje, quer isto?" É aquela saudade do bairro, preocupar uns com os outros.

Hoje o termo que eu utilizo é: hoje nós já não somos um bairro, somos uma rua qualquer de Lisboa.

Perdeu-se esse espírito.

Perdeu-se esse espírito.

O espírito da ligação.

Se calhar mais pessoas começaram a trabalhar, os horários são mais complicados.

Eu também acho que os valores também não foram transmitidos pra outra geração.

Vocês que apoios é que têm? Jorge Pina, que apoios é que a associação tem? Apoios oficiais públicos, não sei se câmara, não sei se outras entidades públicas.

Câmara Municipal, Junta de Freguesia, IPDJ. Estes são os institucionais. Depois candidatamos a projetos BPI. Temos o mais. Depois temos as empresas que nos apoiam, Rexona, Multiópticas, Love Tiles.

Decathlon.

Decathlon, que é o nosso parceiro agora também.

Claro.

São vários. Nós temos que ir bater às portas, temos que ir à procura, porque ninguém nos vai dar nada a nós.

Temos que ir furimingar.

Exato.

E muitas pessoas queixam-se: "Ai, dão a este, não dão..." Não, a gente tem que procurar, temos que estar bem estruturados, temos que ter os relatórios de contas, temos que ter tudo certinho. Temos que estar com as coisas bem onde qualquer pessoa possa ir lá e ver para onde é que este dinheiro vai, porque todos têm os mesmos direitos. Não é só para mim, não é só para o Moxu, não é só para as outras instituições. Temos é que cumprir as regras e os regulamentos e preparar-nos, irmos às candidaturas, irmos à procura, porque há para todos. Têm é que estar bem estruturados e ter trabalho feito e credível. A mim qualquer pessoa entrar ali e ver o trabalho, e ver que se trabalha, ver o que se faz, o que se está a fazer. E mesmo assim, o que nós recebemos é pouco.

Claro, para aquilo que fazem.

Para aquilo que fazemos. Projetos a 60% para uma pessoa que tem que ir buscar os outros 40.

Os outros 40.

Onde é que vamos buscar? Se nós trabalhamos, muitas das pessoas que estão ali, não temos liberdade de lhes pagar uma mensalidade Nós temos que arranjar em algum lado.

É evidente.

Nós queremos ser um braço da Câmara, da Junta. Nós queremos servir a comunidade e servir as comunidades. Para isso precisamos que nos ajudem, para nós podermos ajudar da melhor maneira possível as pessoas que necessitam de nós. Nós não queremos substituir ninguém, nós queremos é ajudar.

Porque o retorno é fundamental. Eugénio, também a mesma questão sobre a Associação Passa Sabi, apoios que têm.

Sim, os apoios que nós temos é da Câmara, temos um fundo europeu este ano, temos da Gulbenkian, temos também do BPI, e é só. E todos os anos é assim, temos que ir sempre à procura.

Têm que renovar os pedidos.

Renovar não, é ir à procura. Porque às vezes a maior parte dos projetos é sempre anual. Por acaso temos um do fundo europeu que foi três anos, conseguimos ganhar esse. Mas é um trabalho injusto, porque nós temos que estar sempre a ir à procura, como o Jorge disse, temos que estar sempre a ir bater à porta e muitas das vezes estamos a fazer o trabalho do Estado. Nós somos tudo, somos psicólogos, somos pais. Não é, Jorge? Somos tudo.

São escola, são clube desportivo.

Exatamente. Depois somos os que andamos a pedir, a mendigar, todos os anos. Não sabemos qual é o próximo ano, como é que vai ser. Só que nós agora estamos a trabalhar de outra forma, estamos a tentar arranjar forma de sermos sustentáveis para não estarmos a depender de projeto, porque é muito complicado.

No fundo, entrar numa nova fase de empreendedorismo social, que é a autossustentabilidade dos projetos.

A criação da Academia Jorge Pina foi mesmo criada para isso, para que uns que possam pagar, poderem pagar, para os que não podem, não poderem e que a gente consiga canalizar dali da academia dinheiros para os nossos projetos, para conseguirmos ser autossustentáveis. Mas pronto, vamos continuar aqui, graças a Deus.

Sem dúvida.

Temos conseguido e temos tido os apoios da Câmara Municipal, da Junta, dos outros nossos parceiros institucionais e não institucionais, que acreditam no nosso projeto, que acham o nosso projeto credível e é isto.

Estamos mesmo a chegar ao fim desta nossa conversa, mas imagino que o maior retorno, Jorge e Eugénio, deve ser de facto ver o impacto daquilo que vocês fazem ali na comunidade.

Claro que sim, porque como eu tinha dito há pouco, nós antes não tínhamos ninguém. Nós hoje somos a voz da comunidade. Qualquer pessoa que precisa de falar com as GEBALIS ou com a própria Câmara, é só ligar: "Doutor, olha, está aqui uma família, está com essa necessidade". É tudo muito mais fácil com a nossa presença lá. Não quer dizer que nós conseguimos resolver tudo, não vamos conseguir, mas pelo menos tentamos. Alguém que está lá a tentar e com amor, porque muitas das vezes estão lá certas entidades que não querem saber da comunidade, só vão lá buscar os financiamentos e tirar fotos, e tudo mais.

Jorge, essa alegria de viver também vem daqui, não é?

Vem daqui, vem disto tudo e continuamos a sorrir e a querer fazer os outros sorrir, que é importante, e encontrar sinergias mesmo dentro dos bairros. Às vezes há muitas instituições também que gostam e que fazem um bom trabalho. Nós temos connosco o Criativ, também que é de outro rapaz do bairro, do Varela, do Nuno Varela, e temos agora também a VES, que está lá a ajudar da Maria João, e temos juntado sinergias. O que a gente não consegue, eles conseguem e fazem. E é isto, entre todos, conseguimos chegar a um objetivo que é sempre a comunidade e as pessoas.

É fantástico. Resta-nos agradecer a vossa disponibilidade, a vossa partilha aqui das vossas experiências. Sublinhar o trabalho notável em termos sociais e comunitários que vocês fazem. Houvesse assim mais Associações Jorge Pina, mais Associações Passa Sabi e mais Jorge Pinas e Eugénio Silva e seguramente teríamos comunidades melhores. Obrigado a ambos. Este episódio de Bairros com História termina aqui. Eu sou o Paulo Ferreira e voltarei brevemente com mais convidados e com outros protagonistas do PER, o Plano Especial de Realojamento que faz 30 anos. Até lá.