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Cá estamos mais uma vez. Pedro Lino, bem-vindo. Se nós olharmos pra um gráfico do Standard & Poor's 500 do último século, vemos uma linha quase continuamente a subir, mas depois quando fazemos o zoom, há ali umas crises que vão caindo: a Grande Depressão, Segunda Guerra Mundial, depois os crashes dos anos 80, por aí fora, até mais recentemente. Mas o que é certo é que os mercados a longo prazo sobem. Estamos a falar de ações. Por quê?

Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. É verdade, a longo prazo, os mercados sobem. Isso não significa, como referiste bem, que subam todos os anos.

Claro. É assim que os investidores se assustam. Quedas de 20, 30% por ano.

Exatamente. O ano passado tivemos uma queda de 20% quando foram anunciadas as tarifas entre março e abril.

2025.

E foi uma queda muito substancial. Isso quer dizer o quê? Que o caminho de subida faz-se, mas não é linear.

Parece uma serra dentada, não é? Pequenos dentes, mas sempre a subir.

É, porque nós vivemos num mundo que reage às notícias. Cada vez que temos algum novo fato, ele é incorporado nos mercados e os mercados refletem a ação humana. E quando nós temos medo, os mercados baixam porque vendemos. Quando as notícias são boas e nós até estamos positivos, os mercados tendem a subir.

Claro.

Por isso, o que acontece é que os ativos refletem duas coisas: o crescimento da economia real e também mais dinheiro em circulação. E por isso é que os mercados também continuam a subir a longo prazo, é porque nós vemos os índices em máximos históricos e temos que perguntar: as empresas estão muito melhor ou é o dinheiro que vale menos? É que se calhar é um bocadinho dos dois, mas temos que perguntar qual é a componente da desvalorização do dinheiro que faz com que os ativos subam.

A inflação, neste caso.

Sim, a inflação. E eu acho que é mesmo a dívida pública, que é o elefante na sala de todos.

Eternamente, de alguma maneira.

Eternamente. Lá dizia alguém que a dívida não é para pagar e é para ir gerindo. E o que realmente hoje os países vivem é com déficits estruturais, seja os Estados Unidos, até a Europa, vemos que a França não consegue baixar o déficit dos 5%. A dívida pública cresce e há necessidades constantes de financiamento. Por isso é que há uma tentativa de pressionar a Reserva Federal pra baixar os juros para ver se isto alivia. Os governos emitem dívidas pra quê? Estimular a economia, responder a crises, financiar a defesa, despesa militar, etc.

Vai sempre aparecendo. Nós olhamos pra Europa e percebemos que foi a pandemia e o PRR à escala, agora é a defesa. Portanto, vem cada vez mais dívida pra isso tudo.

Ela nunca é paga, é sempre aumentada. Isso significa o quê? É verdade que há muitas pessoas que se preocupam também com o voto da dívida, mas também temos que olhar pras oportunidades. E dívida significa mais dinheiro em circulação. Se há mais dinheiro em circulação na economia, em princípio, vamos ter mais inflação, mas também as empresas vão faturar mais. E é por isso que o dinheiro, à medida que vai aumentando, vai parar mais cedo ou mais tarde aos resultados das empresas. E é quando olhamos pra um gráfico muito longo prazo que vemos, seja da bolsa americana, das bolsas europeias, eles podem não subir todos no mesmo ano, mas a longo prazo acompanham-se, porque nós estamos a falar que cada vez há mais dívida e mais dinheiro. Por isso, as empresas são uma forma de conseguir fazer uma cobertura e uma proteção face à inflação, que no fundo, o que nos traz é a desvalorização do patrimônio.

Certo. De qualquer forma, essa é a constante, os ativos financeiros vão subindo sempre, não é?

Sim, porque no mundo onde a dívida cresce, estímulos recorrentes, como referiste bem, a dívida nunca é paga. A moeda está sempre a perder o poder de compra. O que nós vemos? Vemos que o balanço dos bancos centrais está sempre a aumentar. Em termos históricos, é verdade que nos últimos dois anos a Reserva Federal tentou diminuir o balanço, mas já começou a aumentar outra vez, já começou a comprar dívida. Por isso, quais são os ativos de refúgio que nós temos que investir pra nos protegermos da desvalorização do dinheiro? São ativos reais, como imobiliário, ouro, prata, que também tem vindo a subir. As ações, de uma forma diversificada, são um ativo muito interessante. E depois, no fundo, é tentarmos diversificar por forma a termos o mínimo possível de dinheiro em depósitos a prazo e depósitos à ordem, porque esses sim, estão sempre a perder dinheiro.

Esse é garantido que se perde, não há dúvidas.

Esse é garantido.

Aí não há risco, aquela noção de posso ganhar ou perder. Não, aí não há incerteza. Perde-se.

Perde-se o poder de compra, é que perde-se pra inflação. As pessoas às vezes pensam, quando falamos de perde-se dinheiro nos depósitos, pensam: "Eu tenho lá mil euros, vou ter mil e um. Eu não perdi dinheiro". Mas perde, porque comparando com outros ativos, seja com as ações, até com obrigações, esse dinheiro em depósitos a prazo ou depósitos à ordem, que não vale nada, que não rendem nada, perderam poder de compra.

Claro, e a inflação, e as pessoas quando vão buscar, mesmo esse mil e um já não compra aquilo que as pessoas compravam no início com os tais mil.

Sem dúvida. E por isso é que temos que olhar numa perspectiva de longo prazo e perceber que os mercados são uma alternativa muito interessante e temos que perder o medo em Portugal de investir, porque o dinheiro parado é que é um problema.

Muito bem, aqui mercados de ações.

Sim, mais os mercados de ações a longo prazo.

Mas isso significa que os mercados vão subir para sempre? Não, não é?

Não, tal como vimos há pouco, há correções, há crises, há períodos difíceis.

No momento da correção, parece que o chão desaparece baixo os nossos pés, mas depois olhado a longo prazo, aquilo foi um pequeno solavanco.

Sim, é verdade. Paulo, o que eu acho que nós temos que ver é: a dívida global vai continuar a crescer? Vai. O sistema vai continuar a depender de moeda criada, ou seja, imprimida artificialmente? Vai. Então, se isso vai acontecer, os ativos reais continuam a subir, os financeiros também, e estão a refletir, no fundo, essa desvalorização. Por isso, o risco não é tanta volatilidade, que é essas subidas e descidas de 10%. É ficar parado no mundo que está em movimento e, principalmente, cada vez temos mais oferta de dinheiro. Ele pode até não ser distribuído igualmente pra todas as pessoas, mas há mais dinheiro. Por isso, investir é a forma de defender o nosso patrimônio. E os mercados não sobem apenas porque o mundo fica melhor. Têm uma subida muito substancial porque o dinheiro vale menos. E é isso que nós temos que perceber. Dinheiro parado vale menos, e os mercados são uma excelente alternativa de nos protegermos.

Muito bem, Pedro Lino, cá estaremos para a semana com outro tema. Até lá.

Obrigado, bom fim de semana.