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Já está connosco Pedro Lino. Bom dia, de novo, Pedro. Bem-vindo. Vamos regressar ao tema da dívida, se quiser, nós já falamos disso há duas semanas. As obrigações voltaram, estão de volta?

Bom dia, Paulo. Bom dia a todos. É verdade, parece que sim, mas vamos só recordar realmente qual é o conceito. Quando compramos uma ação, estamos a tornar proprietários de uma empresa. Quando compramos uma obrigação, estamos a ser credores. Estamos a emprestar dinheiro a Portugal, aos Estados Unidos, à Alemanha, etc.

Ou a uma empresa.

Ou a uma empresa. E em troca, estamos a receber juros e a empresa vai pagar o capital que emprestamos e os juros. Agora, existe uma questão que também é preciso as pessoas saberem. Uma obrigação também pode perder dinheiro quando os juros sobem.

Essa é uma questão.

E isso está a acontecer.

Claro, e já vamos explicar por quê. Porque não há muito essa noção. As pessoas pensam que a obrigação pode render menos, e rende, de facto, muitas vezes menos do que outros tipos de ativos, mas quando se compra e transaciona em mercado, pode-se perder dinheiro com a obrigação. De que forma?

O fundamental é as pessoas perceberem que tudo o que está cotado no mercado, seja ouro, seja petróleo, seja ações, obrigações, tudo que está cotado varia de um dia pro outro. Por isso é possível perder. E neste caso, este conceito é o mais importante de todos, que é por que uma obrigação pode perder valor, ou pelo menos momentaneamente. Imagina, Paulo, que compras uma obrigação por 1.000 € que paga 2% ao ano.

Vamos já traduzir isso por miúdos. No fundo, estamos a emprestar 1.000 € à entidade que emitiu a obrigação e essa entidade, porque lhe estamos a emprestar esses 1.000 €, está-nos a pagar 2% ao ano.

2% ou 20 € ao ano.

De que nos dá de juros, certo.

No dia seguinte, se as taxas no mercado sobem, e sobem, por exemplo, pra 4%, o que acontece? Significa que eu no dia anterior comprei uma obrigação que só me vai dar 2%, mas as novas vão dar 4. Ou seja, ninguém vai querer comprar a minha obrigação que só dá 2, porque neste momento há outras que só dão 4. Então o que tem que acontecer pra minha obrigação que eu comprei ontem se tornar atrativa? O preço tem que desvalorizar, porque eu tenho que, de forma direta ou indireta, atingir os 4%, que é o novo preço do dinheiro no mercado. Claro que se eu mantiver a obrigação dos 2% até à maturidade, eu vou receber os 1.000 €.

Até o fim do prazo.

Até o fim do prazo, vou receber os 1.000 € e os 20 € por ano, mas estou a perder a diferença dos 2 pros 4%.

Do rendimento. Naquele momento, já há no mercado instrumentos semelhantes que dão 4%.

Sim, por isso é que se diz, quando os juros sobem, o preço das obrigações existentes tende a descer e quando os juros descem, o preço tende a subir. Por quê? Porque foi o que explicamos, se os juros sobem, a obrigação que paga menos tende a ficar mais desfavorecida.

Neste exemplo teórico, Pedro, só pra termos uma ideia, o preço da obrigação teria que cair pra metade para passar dos 2 pros 4% da taxa de rendimento.

Depende da maturidade, dos anos. Se fosse um prazo muito longo, mais de 20 anos, provavelmente sim, se fosse um prazo mais curto, se fosse dois, ou três, ou quatro anos, não é preciso essa ordem de grandeza, mas lá está, esperando até a maturidade, tínhamos o que falta.

Muito bem. Já explicamos então aqui porque o preço da cotação das obrigações desce quando os juros sobem. Vamos agora perceber, há aqui conceitos nas obrigações que são menos comuns. Uma coisa é o yield, que é no fundo a taxa de juro até à maturidade, e o cupão é o pagamento regular de juros, não é?

Exatamente. Então o cupão é o juro que está definido à partida. Seja juro fixo ou juro variável, a metodologia é definida e todos os seis meses ou todos os anos eu recebo esse montante. O yield ou o rendimento relaciona este cupão que a obrigação paga com o preço a que ela pode ser comprada. No exemplo anterior, quando a obrigação desvalorizava, com os juros subindo dos 2 pra 4%, eu vou ter um rendimento do juro do cupão dos 2%, mais uma diferença do preço. Por isso, o yield soma o cupão mais a variação do preço. Por isso é que às vezes ouvimos falar: "A yield da dívida portuguesa subiu". Isso não significa que o Estado português alterou o cupão ou os juros. Significa que o preço da obrigação, a componente do preço, alterou-se no mercado e, por isso, o rendimento total alterou.

No fundo, é a taxa inerente àquela obrigação, dadas as características todas, nomeadamente o preço de mercado.

Exatamente.

É quanto que receberemos de rendimento. O prazo também acaba por ser um risco. É aquele conceito também menos habitual, que é a duration.

É, e estamos a ver agora isso nas obrigações francesas e nas obrigações de longo prazo da Europa. Vamos ver um exemplo: uma obrigação que se vence dentro de um ano e outra que se vence há 20 anos. Se ambas pagam 3% e os juros sobem pra 4%, qual é aquela que vai sofrer mais? Normalmente vai ser a obrigação de 20 anos. Por quê? Porque o preço vai ter uma duração ainda muito longa. Por isso, quando há uma variação de 3 pra 4%, uma obrigação de um ano tem esse impacto de um ano, a obrigação a 20 anos tem este 1% impactado em 20 anos. Por isso, tem uma variação superior. E é preciso ter, às vezes, cuidado, porque as obrigações de curto prazo protegem mais o capital porque variam menos. As obrigações de longo prazo, como estão sujeitas a muito mais anos, têm maior volatilidade e maior variação.

E depois, se nós mantivermos a obrigação até o fim do prazo, até à maturidade, se quisermos, ou até o seu vencimento

Se mantivermos até ao vencimento, na realidade vamos receber o montante que emprestamos. Imagina que emprestas diretamente € 1000 a uma empresa e manténs até ao vencimento. Se o preço do mercado baixar, por exemplo, pra 950 e não precisares vender, isso não tem relevância nenhuma, porque na maturidade irás receber na mesma os € 1000 e os pagamentos previstos relativamente aos juros.

Muito bem, mas isto significa que maior juro é sempre igual a melhor investimento?

Nem sempre. Imagina, por exemplo, uma obrigação alemã que paga 3,5%, uma empresa portuguesa que paga 5% e outra que até paga 9%. A tentação é escolher imediatamente os 9%. E é aqui que as pessoas às vezes cometem o erro, que é querer o juro mais elevado de todos. Mas temos que fazer a seguinte pergunta: por que uma empresa precisa pagar tanto, 9%, pra que lhe emprestem dinheiro, se o preço do dinheiro está entre os 3% e os 5%? Ora, provavelmente, é porque existe maior risco. E é aqui que as pessoas têm que perceber e não irem atrás da tentação do juro muito alto. E no passado, tivemos vários casos em Portugal, os juros elevados servem pra atrair dinheiro, ou seja, quanto maior a taxa de juro oferecida, maior a probabilidade do emitente, ou seja, da empresa ou do Estado, ter dificuldades em cumprir. E nós queremos algum tipo de segurança.

Muito bem, Pedro, para fechar este tema das obrigações, mensagens finais?

Eu acho que chegamos a uma oportunidade criada nas obrigações pelo atual ambiente de juros. Nós temos o Banco Central Europeu a subir os juros, temos os juros na Europa a subir, a França está quase nos 5%, Portugal há 10 anos atingiu os 4% e durante muitos anos era difícil ou quase impossível obter rendimento, porque as taxas do Banco Central estavam a zero ou até negativas. Por isso, neste momento, até pros perfis mais conservadores e pra quem tem depósitos a prazo ou depósitos à ordem, pode ser muito interessante agora olhar pras obrigações como um instrumento pra obter rendimento. Temos taxas mais elevadas e o investidor volta a ter alternativas. Temos é que compreender o que estamos a comprar. O prazo, o risco de crédito, a taxa de juro implícita ou a yield, que nós explicamos aqui, e a capacidade das empresas ou dos Estados pagarem. Por isso, nas obrigações, não se pode perguntar só quanto é que eu vou receber. Temos que perguntar também que risco é que eu estou disposto a aceitar pra receber aquele nível de juro. Mas neste momento, existem oportunidades muito boas no mercado que suplantam os certificados de aforro e os depósitos a prazo. Por isso, acho que é de aproveitar.

Claro, sem nunca esquecer que as obrigações também variam de preço.

Exatamente.

Muito bem.

Também têm risco.

E têm risco, exatamente. Obrigado, Pedro, por este mergulho no ABC do investimento em obrigações. Ficamos por aqui. Até pra semana.

Obrigado, bom fim de semana. Até pra semana.