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Boa sorte, boa sorte ao mais forte e ao mais sortudo. Boa sorte, boa sorte e um chocho bigalhudo. Boa sorte, boa sorte ao mais triste e ao mais chizudo. Boa sorte, boa sorte e um chocho bigalhudo.
Eis o dia em que Fatinha vai para o ar na Rádio Observador, com uma rubrica própria que há muito havia pensado, pelo menos no título: as dicas da Fatinha. Na sala de produção, Beatriz Severo assistia expectante a este momento disruptivo para a rádio. Habituada à seriedade que o jornalismo exige, este novo conteúdo poderia ser ou um grande desastre, ou um tremendo sucesso, mas não depositava grandes esperanças nesta última. No entanto, algo mais forte a impelia a apostar na Fatinha. Junto de Beatriz, está Peninha, à espera que Fatinha falhe redondamente, porque o ciúme fá-la esquecer da sororidade que pauta uma sociedade melhor. Mas Peninha não é melhor, nem maior do que isso, e só deseja que Fatinha saia do estúdio imediatamente para informar o mundo com assuntos que realmente importam: as notícias e o eclipse.
Será que eu estou a cometer um erro?
Sem dúvida.
Como assim, Peninha?
Ela é maravilhosa e eu só quero que isto acabe. No dia em que tudo ficar às escuras, Beatriz, só conseguiremos ouvir e sentir os outros e aí pode ser que finalmente alguém, o Amâncio, alguém me veja.
Ó Peninha, vão ser cinco minutos de eclipse sana, relaxa. Olha, vai pra casa, deves estar a arder em febre.
Não, não estou.
Não te quero aqui. Estás estranha.
Bebi leite de manhã, não sei se é isso.
Tu por acaso juntaste-te a alguma seita? Eu começo a ficar um bocado preocupada com essa história dos eclipses, tanto eclipse.
Beatriz, não é história nenhuma e o eclipse pode ser muito mais do que-
Cala-te, vai-te embora. As dicas da Fatinha vão começar. É para te sentares. A natação ensinou-me a respirar fundo, mas fora de água. Vai lá fora, aluga uma scooter, faz qualquer coisa, mas desaparece-me da vista, Peninha.
E a 16 minutos das 16h30 teríamos absolutamente uma nova rubrica na Rádio Observador, da autoria da Fatinha. Para quem não a conhece, pode sempre encontrá-la na caixa do mini-
Dos álbuns que vou lançar, amor. Não só com músicas, mas também com as minhas dicas, com muitos chochos bigalhudos.
Fatinha, vamos deixar que os ouvintes te conheçam um pouco melhor. Tu tens uma prima muito famosa, se não estou em erro. Como foi crescer com a Luciana?
Bem, começamos mal, não é? E se te metesses na tua vidinha, amor, na tua vidinha simplória, com pouco sal, a precisar de açúcar como o meu? Fogo, não sabes estar calado.
Estás que não sei. Pagam-me pra falar, até. Antes de ouvirmos as dicas da Fatinha, repare, caro ouvinte, como pela primeira vez, Fatinha parece querer esconder alguma coisa. O que faz? As suas raízes familiares. Estará Fatinha com vergonha de se mostrar ao mundo com tudo aquilo que faz dela a pessoa que realmente é? Gabriel fica um pouco confuso, mas prossegue a conversa com a alegria e o tempo contado que só os animadores de rádio têm. Seguimos em frente, vamos então à estreia absoluta das dicas da Fatinha.
Olá, meus amores! Daqui é a vossa Fatinha. Chochos bigalhudos!
Neste momento, também Amâncio, no supermercado Paredes Meias com a rádio, ouve com orgulho e dor no peito a sua Fatinha. A dor no peito é pelo amor não correspondido. O orgulho vem do caratê e da convicção que terá sido essencial na contratação de Fatinha. Até já tinha um encontro marcado com Beatriz. Ela queria muito vê-lo fora da grelha. Ficaram de se encontrar num restaurante de meia-luz, com a sombra perfeita para quem esconde segredos ou a idade. Pensando melhor no assunto, Amâncio começava a ter medo de Beatriz, mas por enquanto, podia deleitar-se a ouvir Fatinha.
Então, a primeira dica pra todos os ouvintes é: ai, ui, ai, ai, ui, ui, que eu até estou a suar das mãos. Fogo! É, pá, isto nunca me aconteceu.
Calma, Fatinha, é normal, primeiro direto. Se bem me recordo, o tema era desculpas pra dar quando se está atrasado, não é assim?
Isso, pois. Claro! Imagina, Gabriel, que estás atrasado pra uma reunião e que... Ui. Ai, eu não estou bem, eu estou-me a sentir mal. Por acaso, não me podem dar uma garrafinha do Dia Purifica? Já agora, até com uma rodela de limão lá dentro, que assim eu faço dois em um, amor, e vou queimando a gordura.
Mas por que esta agora não fala? Alguém me explica o que se passa com esta mulher?
Beatriz, temos aqui a chamada de um ouvinte, é pra pôr no ar, não pomos?
Qualquer coisa é melhor do que este embaraço. Mete no ar, já.
Bom, enquanto a Fatinha bebe água, por acaso temos a enorme sorte de ter ao telefone alguém que diz conhecer a Fatinha e tem uma dúvida que gostava de colocar. Boa tarde, Vincent, Vincent, Vincent, não sei, é português, amigo?
No, sou francês e vivo em Portugal, em Saint-Pierre de La Bouirade. E eu queria perguntar uma coisa à Fatinha.
Ora, faz favor de dizer, amigo.
Eu conheço très bien a Fatinha, acompanho a sua carreira e digo já parabéns à rádio, agora por também dar a possibilidade ao mundo de ouvir a Fatinha e o que ela tem pra dizer. Olá, Fatinha.
Olá, Vincent. Ai, olha, obrigada pelas tuas palavras, amor, porque eu realmente não estou a ver quem sejas Mas diz-me, em que é que eu te posso ajudar?
Fatinha, eu sou apaixonado por uma madame, mas ela não me liga nenhuma para nada. Eu sei que ela é demais, é lava mais para o meu vulcão, mas entretanto, recentemente fiquei com um encontro marcado com outra pessoa. Muito interessante, mas tenho um bocadinho de medo. O que eu devo fazer, meu anjo? Fatinha, me diga.
A chamada disfarçada de Amâncio acabou por salvar o momento. Fatinha tinha muito a dizer sobre amor e desamor. Também ela sofria na pele os efeitos nefastos de um amor não gurado. A dica de Fatinha acabou por agradar também à diretora Beatriz, que depois de sentir o seu coração aos saltos com os silêncios penosos em rádio, continuava a saltar, mas agora ao pensar naquele encontro marcado num restaurante de meia-luz.
Olha, Vincent, o que eu acho, o que eu te aconselho, é que enquanto a gente não encontra o prato da nossa vida, o melhor é a gente ir comendo rodízios. Percebes, amor? A gente pica aqui, pica ali. Imagina que o amor da tua vida, afinal, é essa misteriosa, que tu tanto lhe dás. Com medo. Que lhe dás com medo, ainda. Ou então que te aguça o apetite, que te dá aí coisas. Se a outra não quer saber de ti, amigo, siga para bingo, arrede, say bye bye, que já se faz tarde. Percebes, amor? Olha, Vicente, o que eu te digo é vai fundo. Vai com tudo, vai com força, dá-lhe nessa cabalona. E outra coisa, eu desejo-te boa sorte. Desejo-te tudo de bom. Não esquecer. E chochobigalhos.
Fatinha não percebeu, mas Beatriz sim. Vincent era o disfarce de Amâncio. A primeira dica de Fatinha já estava a render, e muito, à rádio em geral e a Beatriz em particular. Quem diria que um breve sonho com tiras de entrecosto podia esconder uma verdade tão erótica? Prepara-te, Amâncio. A partir de hoje, essa carne maturada que a Beatriz quer comer à mão. Cuida-te, homem. Boa sorte, não sejas bife tártaro. Até ao nosso próximo encontro. Um encontro, quiçá, a meia-luz.
Boa sorte, boa sorte, ao mais forte e ao mais sortudo. Boa sorte, boa sorte e um chochobigalho. Boa sorte, boa sorte, ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte e um chochobigalho. E um chochobigalho. E um chochobigalho.