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Boa sorte, boa sorte ao mais forte e ao mais sortudo. Boa sorte, boa sorte e o chocho ganhou. Boa sorte, boa sorte ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte e o chocho ganhou.
Meus caros, boa sorte só se for a vossa. Maldito dia em que esta radionovela deixou de ser uma salganhada amorosa para passar a seguir os parâmetros do CSI Miami. CSI Merdami, para isto, digo eu. Antes andavam à caça uns dos outros, agora andam à caça de um bandido imaginário. E isto, que já se afigurou como um quadrado amoroso, é agora um quadro de cortiça, ao estilo do FBI.
Amâncio, meu bom homem da grelha, eu estou sem óculos, mas aquilo ali atrás de ti não é um puzzle, pois não?
Não, Beatriz, é o meu quadro de investigação. Está tudo com a conversa de que: "Ah, foi o gás". Não me cheira. A explosão da Fatinha foi intencional. Alguém lhe quer mal.
Eu concordo contigo, Amâncio. A história da fuga de gás e o conto do edifício mal desenhado pelo arquiteto mentiroso, aquele que foi cuparo do Niemeyer e tinha uma fotografia de Souto de Moura na carteira, aquilo não cola, Amâncio.
Exatamente. Isto é a narrativa oficial, Beatriz. Alguém quis deliberadamente fazer mal à Fatinha. Como diz Mark Twain-
Agora não, agora não tenho tempo para isso. Temos o mau da fita, mas quem, Amâncio? Quem?
Sabe o que eu tenho andado a investigar? Há aqui uma ponta solta no primeiro episódio desta seta. Um cliente que barafustou com a Fatinha.
Olhe, é só para lhe dizer que eu não me esqueço do que a menina fez à Banda Filarmónica de Cumes de Cima. Foi criminoso. O rancho nunca mais soou igual.
Olha, amor, Deus disse: "Haja luz", e eu nasci. E brilho até hoje. Ouviu? Por isso, sempre que quiserem acabar e apagar com a minha luz, eu lembro-me, eu não sou uma vela. Eu sou um sol. Por isso, anda a Orvioleta da minha caixa, senão vais fazer a bicha.
Ui, o que eu cresci desde aí, Amâncio. A prisão muda uma pessoa. Mas caramba, homem, foste ao primeiro episódio. Isso é uma paixão antiga. Tu queres mesmo salvar a Fatinha, não queres?
Sim, e que aí a Beatriz não quer salvá-la?
Eu não, eu quero é saber que cada um ou salva a si mesmo ou não salva. Eu quero é apanhar o criminoso, Amâncio.
Pronto. Então, Beatriz, com toda a humildade, eu lhe peço: vamos trabalhar juntos nisso?
Vamos.
E assim, Beatriz e Amâncio se fizeram o Dupont e Dupont da vida um do outro. Nem por acaso, Gabriel, o azarado rapaz dos tomates cherry, já tinha lido todos os Tintins. Nem parece meu. Que piada maldita. Perdoe-me, é para meu próprio deleite. Sigamos com a história, até.
Ó boss, olha aí. Tu diz-me cá uma coisa. Alguém me está a tentar fazer mal, não está?
Não, Fatinha. Como assim, mal? Por que alguém te haveria de querer fazer mal? Tu és brilhante, Fatinha. És, de todas as coisas, a mais cintilante. As pessoas só te querem lapidar, meu diamante. Ninguém te está a tratar mal.
Então por que foi esta explosão? Tu não me avisaste?
Ó Fatinha, tu bem sabes que às vezes o casino chama por mim. Não estou aqui o tempo todo. O vício fez de mim um homem fogaz. Olha, é isso. Foi do gás. A explosão foi do gás, de certeza.
Não foi, que o Amâncio já foi aos bicos. E não me venhas com a construção, porque não foi a porta que desabou. Aquilo explodiu! E tu aí em cima não viste nada? Nada? Quando é que tratas o vício, ó buzeirão do poço sem fundo?
Eu prometo que não vou mais ao casino nos próximos tempos. Acredita em mim, este mês já perdi a mesada toda da mãezinha na roleta e já só tenho as rendas das pedreiras de mármore do meu bisavô. Sabes que eu sou sincero contigo, tu sabes tudo sobre mim, Fatinha. E pensa bem, por que alguém te haveria de querer mal?
Mas isso também é verdade, não é? Isso também é verdade. Será que foi um fado das minhas dicas?
Olha, o John Lennon não descartaria a hipótese.
Ah, não me digas. Ai, boss, será?
Fatinha, eu digo-te algumas coisas. Outras, para meu azar, tu descobres por ti, mas há coisas que não podes mesmo saber. Nem queres. E guarda para ti o segredo que me conheces.
Olha, chama a polícia. Não? Eu não percebo. Por que ninguém chama a polícia? "Chamem a polícia", se eu vou lhe dizer.
Não dá. Isto é uma radionovela. Em princípio, aqui todas as autoridades são incompetentes. A começar por mim, que sou a voz disto e me deixo interromper por ti. Fatinha, chamada à caixa número um. Vai. Esquecendo, caríssimo amigo, todo este percalço, sigamos então até à rádio, onde Peninha começava a fazer nascer algo mais do que ternura na cabeça de Gabriel.
Agora a Beatriz vai se pôr a investigar a explosão, vai passar a vida metida no Minipreço e eu só queria dois minutos com ela para falar da cobertura do eclipse, Gabriel.
Só dois minutos? Isso nem chega a ser um eclipse, ó Peninha. E um eclipse é já em si uma cobertura. Tu ainda queres ir lá fazer a cobertura? É isso que vamos ter em direto aqui na rádio, não é? A cobertura da cobertura.
Sim, o crème de la crème do fim das nossas córneas, sim. Bem dito, Gabriel, mas continuas. Continuas a desvalorizar o eclipse.
Porque é só a lua a cobrir o sol. São sete minutos É só não olhar para cima se não se quiser, ou se quiser é pôr uns óculos e fazer isso.
Está bem, Gabriel. Mas os curiosos muitas vezes andam desinformados. E há pessoas que podem achar que aquilo é Mercúrio a ficar retrógrado e depois olham e lá se foi o sistema ocular.
E isso é a única coisa que te preocupa, Peninha? A saúde ocular da população, não há mais nada no mundo?
Não sei, Gabriel, mas também eu sou daquelas pessoas que não acredita muito nos astros, mas depois sai-me com cada misticismo.
E o que tu achas que este eclipse tem de especial? O que é diferente dos outros?
Não sei. A Beatriz já falou do Napron e de nódoas, mas eu não acho que seja por aí. Eu acho que isto é só um sinal. Não é nada de bordados, nem isso que eu gosto. Napron é uma coisa que tapa. Uma nódoa mancha um tecido como a lua mancha o sol, Gabriel.
Espera, Peninha, não percas o raciocínio. Eu vou só ali buscar os búzios.
Que gracita que ele tem. Escusas de pôr aí com as tuas piadas.
Mas quais piadas?
Tu acreditas nos búzios?
Não acredito, mas ando sempre com dois. Encostas um ao ouvido e ouves o mar. Assim vê se te calmas. Experimenta.
Ouve-se, pois ouve. Está cheia a maré. Deviam substituir os headphones. Mas espera aí, Gabriel, eu achava que tu não eras religioso.
E não sou, Peninha. São búzios.
Então o que é isto os búzios?
São só isso, são búzios.
Mas interrompeste-me. Eu acho que a explosão e o eclipse hão de ter aqui a sua ligação, mas é só uma intuição. Precisava de factos. O eclipse tapa o sol. A explosão impede a Fatinha de brilhar no encontro com o Amâncio.
Dava um bom filme. Eles no fim encontram-se à sombra do eclipse. Já sei, tem nome e tudo: "E tudo o eclipse assombrou".
Caramba, Gabriel, pareces o Nicholas Sparks. Paraste na fila do Blockbuster.
É verdade.
Nós vivemos na era do streaming, isto devia ser uma minissérie fotodocumental de duas temporadas.
Isso é demasiado e tu estás demasiado preocupada com a coisa, que não vai durar tempo nenhum. Isto são cinco, sete minutos, como dizia o outro.
Olha, Gabriel, eu já te disse que o eclipse e o lusco fusco são dois fenómenos totalmente diferentes.
Mas o lusco fusco é que é. Eu gosto muito mais e é como dizia o outro: são cinco, sete minutos e depois uma pessoa vai para casa, não anda por aí preocupada com o-
Estou para ver depois quando precisares dos teus olhos, onde é que eles vão estar.
Olha para eles, tão esotéricos. A cara da Peninha eclipsou-se de vermelhidão. Ninguém queria ir atrás do feeling dela. Ela, como Amâncio, começava a saber muito, mas por outra via. Será demasiado? O certo é que a explosão aconteceu perto da nossa iluminada, aquela que me ouve. Será que alguém quer bloquear a luz que emana de Fatinha? Eu, que até sou supersticioso, não me negarei aos meus fantasmas. Os caminhos começam a tornar-se perigosos. Mais do que nunca, boa sorte.
Boa sorte, boa sorte. Ao mais forte e ao mais sortudo. Boa sorte, boa sorte. E o Xoxo bigodudo. Boa sorte, boa sorte. Ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte. E o Xoxo bigodudo. E o Xoxo bigodudo. E o Xoxo bigodudo.