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Boa sorte, boa sorte. Ao mais triste e ao mais sisudo. Boa sorte, boa sorte. E um chocho bigodudo.

Podem matar saudades minhas. Eu percebo, custa não me ouvir tanto tempo. Mas cá estamos, cada dia mais próximos. Como estão cada dia mais próximos o Minipreço e a rádio que lhe fica paredes meias. Até eu, ainda que ao longe, já sinto o cheiro da giesta do meu monte alentejano. Há que restituir nobreza à casa dos Soto, maior e menor também. Para isso, ironicamente, começo a contar com o trabalho e o suor da Fatinha, a única que me ouve, a única que comigo fala, mesmo não podendo.

Ó boss desta casa sem segredos, isto agora é assim? Vai ela e trabalha no Minipreço. Vai ela e aparece num sonho. Vai ela e tem uma rubrica na rádio. Vai ela e ajuda os ouvintes. Quer dizer, eu já estou a descamar como a cebola.

Há que mudar de pele, Fatinha. A história assim o quer. Vais ter de a seguir.

Ouça lá, você não é lá o Britomelo de Cunha? Caramba, meta-me lá uma cunha. Anda lá, boss.

Não, Fatinha. E pela enésima vez, tu não podes falar comigo.

Você é bem nascido, mas é órfão de escrúpulos. Só pode. Fogo, eu não dou conta disto sozinha. Onde é que você pensa que a gente está? No BBB Vida Selvagem? Por acaso não pode ser, que eu já tive conversas muito mais interessantes com a minha chihuahua.

Tu consegues, Fatinha. E não te esqueças, minha ingênua criatura, nesta história tu és o tudo. Já acabaste o turno. Tens a rubrica na rádio às 16h30. Vai prepará-la, Fatinha. Bom, voltando a si, caro ouvinte, espero que não tenha esquecido que o nosso quadrado amoroso passou a ser um pentágono. A folga de Amâncio chegou para abrir mais uma aresta. Ele estava prestes a chegar ao café onde se encontraria com Beatriz Severo. Assim tinha ditado a primeira dica radiofónica da Fatinha. E para Amâncio, mais do que dicas, os biteites da Fatinha eram segredos. Sigamos um encontro à meia-luz.

16h12. Olha que hora para marcar agora um encontro. Quer dizer, às 16h30 começam as dicas da Fatinha e eu aqui metido. Eu vou te dizer uma coisa. Eu hoje estou naqueles dias que se eu raspar uma raspadinha, sai-me logo uma dívida para pagar.

Welcome, good afternoon.

Welcome, Zé Come, Maria Come. Isto aqui é uma democracia, amigo, vem do grego, demo cracia. Demo quer dizer povo, cracia quer dizer governo. Se bem que aqui devia ser ao contrário, porque o governo é que tem sido um demo, mas isso sou eu a falar que estou cusnendo.

Isto é com cada casicozinho, amigo.

Amigo, nem lhe digo nada.

É verdade.

Olhe, eu vim aqui para lhe dizer uma coisa. Eu tenho aqui, deve haver aí uma mesa reservada em nome de Beatriz Severo, tenho?

Deixe-me cá ver. Beatriz. Sim, está aqui, exatamente. Bem-vindo ao Lisbon Series Sensations, by day, by night, sunset, sunrise.

Para mim pode ser com duas pedras de gelo. É disto, two on the rocks.

Combinadíssimo, amigo. Queira acompanhar-me, a mesa é lá fora.

Ora, muito obrigado. Vamos lá.

Amâncio seguiu este empregado de mesa que falava a língua dos nômades digitais. No final, não deu gorjeta, pois na carteira de Amâncio ainda não cabiam as criptomoedas. Beatriz Severo esperava na esplanada. Amâncio sentou-se e mais tarde, o empregado que o acompanhou tirou o curso de marketing digital da Google e foi viver para a Eslovénia. Mas continuemos, que este encontro é de cair e desmaiar por mais.

Joaquim Amâncio? Amâncio? Joaquim, até que enfim nos encontramos num lugar decente.

Dona Beatriz.

Ai, sem dona.

Olhe que a minha grelha lá no Minipreço é muito decente.

Não é, Joaquim. Mas olha, aqui podes grelhar-me a mim. Isto não é um Minipreço, meu querido. Estou com 100% de desconto pra ti, sou completamente grátis.

Lá no Minipreço só é grátis quando há excesso de estoque. Mas mulher, não diga isso, valorize-se. Olhe que eu nunca vi uma Beatriz à venda no supermercado. Não se ponha em prateleiras, mulher.

Querido Amâncio, que preocupado, que empoderador. Só tu para me chamares à caixa central. Sabes, eu não vim só aqui por beber um Aperol Spritz.

Eu é que trabalho à frente da grelha, mas a Beatriz é que está a fazer o churrasco. O senhor está a me tentar seduzir, não está? Eu sabia que devia ter tido mais cuidado com o picante. E este encontro é meu.

Caramba, Joaquim, que explícito. Então cortas assim o jogo? Joga comigo, homem, anda, vá. Vem me buscar ao armazém. Faz uma reposição, põe o teu picante nas minhas tiras de entrecosto, Joaquim.

Isso é muita proteína. E depois o colesterol? Olhe, eu vou lhe dizer, Beatriz, eu já tenho a carne toda no assador. Quer dizer, o meu coração já está amordaçado. Ele é que me chama à caixa central. Vou lhe dizer, o meu coração tem um fraquinho tão grande, que ele já nem bate, ele apanha.

Como assim? Tu estás a dizer-me que não, Amâncio?

Não, quer dizer, sim. Eu estou a dizer não.

Homem, decide-se, é sim ou não?

Não. Beatriz, o meu amor está no trabalho.

Eu também sou trabalhadora, Amâncio, supertrabalhadora. Administro mais de 73 grupos do WhatsApp. Estás a ver? Temos tanto em comum, Amâncio. Amamos o trabalho. Como assim, não?

Não é esse trabalho que eu estou a falar. Dona Beatriz, é lá no trabalho, é uma pessoa que está no meu trabalho. Quer dizer, agora também está no seu.

Como assim, Amâncio? Amâncio?

Tu gostas da Fatinha, Amâncio? Com aqueles tamancos, Amâncio? Segura-me, por favor, eu vou cair. Esta camisa é caríssima, não se pode sujar. Amâncio, segura-me.

E depois de já a termos ouvido adormecer, ouvimo-la agora desmaiar. Beatriz Severo estava a repetir o pesadelo, um sonho pelo qual já tivemos uma breve passagem. Do sonho, acordou. Na realidade, adormeceu. A primeira parte do encontro com Amâncio deu em desmaio. Entretanto, no armazém do Minipreço, a preparar freneticamente a sua nova rubrica na Rádio Observador, estava a Fatinha. De computador aberto, à conversa com o ChatGPT. Oiçamos, pois, este duelo. Esperteza saloia versus inteligência artificial.

Bora lá, ChatGPT. Bora lá que tu aqui tens voz. Diz-me aí o melhor site para roubar ideias para as dicas da Fatinha.

Peço perdão, mas não posso satisfazer o teu pedido. Eu estou programado para não compactuar com qualquer tipo de roubo. No meu programa não cabe o plágio. Eu cinjo-me aos mais rígidos e programáveis padrões éticos. Não me apanhas fora da legalidade, Fatinha.

Que seca que tu me saíste. A tua inteligência é mesmo artificial, ChatGPT. Corona da mãe. Olha uma coisa, tu ouve bem com atenção isto que eu te vou dizer. Que isto aqui é pura sabedoria. O que faz a vida acontecer, amor, é a prova do fruto proibido. Tu tens de aprender a pecar, coração.

Só se alguém me programar dessa maneira. E não te inquietes, Fatinha, eu não sou uma pessoa e não tenho vida. Eu leio muito, conheço o código e até respondo, mas não provo a fruta.

Santa Mãe de Deus. Antes uma burrice natural que uma inteligência artificial. Tu também és pouco esperto, inteligência. Mas pronto, a gente dá um desconto. Isto também, eu ainda não preciso de ti. Eu já tive até uma ideia das boas para a minha rubrica. Olha, vou para a rádio. Como é que é? Ficas ou vais? Ou vens?

Fico. Eu nem sequer estou. Boa rubrica. Boa sorte.

Olha, chuacho bigalhões.

Eu não conheço essa linguagem. Erro.

Se é boa a sorte da rubrica, é coisa para descobrirmos para a próxima. É coisa para ouvir na casa de banho do Lisbon Series Sensations By Day, By Night, Sunset, Sunrise, para onde Amâncio escapou com um pequeno aparelho de rádio que trazia consigo, depois do desmaio de Beatriz Severo, que na esplanada ia repondo os açúcares com a ajuda de um Aperol Spritz. Alexandra Peninha estava a chegar em reportagem à rua onde ficava esse mesmo local super in. Por ali passaria a grande marcha pelo eclipse. E porque aqui o dia é nosso, paramos o dia a meio e a metade dele começaremos um outro ao qual com carinho escolhemos chamar próximo episódio. Estamos cada vez mais próximos. Será que é bom? Não sei. Boa sorte.

Boa sorte, boa sorte ao mais triste e ao mais xiso. Boa sorte, boa sorte e um chocho bigalhu, e um chocho bigalhu, e um chocho bigalhu.