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Ser ou não ser, eis a questão. E aceitar ser o que não sou, isso não. Não sou de aço nem de betão, de carne e osso, sou tão mole o coração. E logo em ti eu tinha que encalhar. Um iceberg à solta em alto-mar. Ter ou não ter a razão não devia ser sequer nossa questão. Não se muda do pé pra mão, nem se impõe à força uma opinião. Nos dias que te julgo derreter. Já sei que qualquer coisa há de surgir. Que logo nos fará desentender. Se pra ti amar é teres-me sempre à disposição, apresento já a minha demissão, apresento já a minha demissão. Com justa causa e sem mais volta a dar. Com justa causa e sem mais volta a dar. Com justa causa e sem mais volta a dar. Com justa causa. Ser ou não ser, eis a questão. Aceitar ser o que não sou, isso não. Não sou animal de estimação, dar a pata não é minha vocação. E logo fui contigo engraçar. Gelado tão difícil de trincar. É duro, mas é hora de optar. Se pra ti amar é teres-me sempre à disposição, apresento já a minha demissão, apresento já a minha demissão, apresento já a minha demissão. Com justa causa e sem mais volta a dar. Com justa causa e sem mais volta a dar.
"Com Justa Causa" é o novo single do Beato, projeto do Bruno Vasconcelos, que é nosso convidado hoje para o Cabeça de Cartaz. Bruno, bem-vindo à Rádio Observador. Bem disposto?
Olá, boa tarde. Obrigado eu pelo convite, muito bem disposto. Tá um dia de sol maravilhoso, portanto, como não?
Pois tá. Prepara-te que sábado já chove.
É possível.
Após só ter um dia tão positivo.
É verdade.
Sim, é verdade. Sábado chove.
Por acaso não sabia.
O meu telefone diz 60% de probabilidade de chuva em Lisboa no próximo sábado. Por isso ainda vamos gozar aqui uma sexta-feira de bom tempo.
Tudo pode mudar.
Também acredito nisso.
É verdade.
Força com isso, aquecimento global.
Exato.
Olha, bela canção, esta nova "Com Justa Causa". Bruno, já vamos falar um bocadinho dela e também da anterior, "Beira-Mar", mas eu tinha aqui uma dúvida: de onde é que nasceu este nome de Beato para o teu projeto? Tu que já passaste por outros, Pinto Ferreira, Ultraleve, derivas de alguma forma o Beato destes teus últimos projetos ou é um projeto que não tem comparação com as coisas que fizeste anteriormente na música?
O nome de Beato, na verdade, vem de uma fase da minha vida.
Que era achar questão. Não.
Como?
Que era achar questão.
Exato.
Era uma boa história. Isso era uma boa história.
Não, poderia ser, também seria interessante. Mas não, tem a ver com o facto de me ter instalado no Beato, na zona do Beato.
Ah, ok. É geográfico.
Sim, e de forma mais permanente, e está a ser uma descoberta o bairro. É um bairro muito bonito.
Onde é que comem no Beato? Não vamos ter esta conversa.
Não vamos ter essa conversa?
Eu posso dizer pelo menos dois.
Então vá!
Posso dizer. Olha, há um sítio maravilhoso que se chama o Café com Calma.
Ah, pois é.
Atrás do cantinho do vintage, não é?
Exato, que já não está lá. E também há a Hamburgueria do Chacal, que é também pizzaria, que faz umas pizzas ótimas. Aconselho vivamente. Ele também faz uma carnuça bem boa, carne argentina também que é muito boa.
Tu fizeste a Adorers aqui a tirar apontamentos.
Sim.
Boa carninha.
Não, carnuça. É muito melhor carnuça.
Os artistas estão a mudar-se pra aquela zona, não é? Os artistas de Lisboa estão a mudar-se pra esta zona.
Está há algum tempo a tornar-se muito...
São as rendas, são baratas ainda, não é?
É, e há espaço. Já há algum tempo. Eu lembro-me de vir aqui gravar já em 2010 pra um programa pro Canal Q, e já se sentia aqui. Havia muitos estúdios aqui, continua a haver muitos estúdios.
Os lofts, não é?
Exato, há muito espaço. E isso é ótimo pra determinadas atividades relacionadas com a cultura. E sente-se que existe muita coisa a mexer, mesmo a nível imobiliário, com todas as coisas boas e más que isso possa representar. Mas a verdade é que existe também uma população muito interessante a localizar-se aqui. Eu tenho vizinhos, desde atrizes, editors de vídeo, também tenho músicos.
Estás bem acompanhado.
Tem os direitos altos, são bons para plantar coisas.
São bons para fazer mezaninos.
Mezaninos. Era o que eu estava a dizer.
O "À Beira Mar" rodou aqui na Rádio Observador.
Eu sei. Muito obrigado.
É um ótimo single de verão, foi a primeira apresentação para o teu trabalho. A canção nasceu, não como desprestígio, pergunto se é uma canção sazonal, por um lado, e como é que ela nasceu?
É uma canção sazonal, porque efetivamente foi localizada na altura da praia, portanto fala de verão, mas na verdade nasceu durante o inverno. Aliás, foi na altura mesmo da pandemia.
Eram ânsias.
Eram ânsias, completamente. Ainda por cima eu venho de uma zona que é perto do mar, portanto a praia sempre foi uma coisa muito presente para mim e para toda a gente, acho que para todo o português.
O Beato faz como os estilistas, no verão já está a preparar o inverno, faz o primavera-verão.
Primavera-verão, exato.
Para quem não é de Lisboa, há sempre a sensação de que o mar fica muito longe. Não sei se vocês sentem isso, eu sinto.
Mas é muito psicológico, porque eu sou natural de Cantiniete, estamos a 20 minutos da praia e na verdade, em Lisboa, aqui onde eu estou, se for preciso, estou a 20 minutos da praia. Desde que não vá na hora de ponta.
No Beato, podes-te sempre atirar ao rio e esperar que ele te leve à praia.
Há lá uma placa que diz que não convém tomar banho. Portanto, eu estou sempre pelo não, não tome banho.
Sim, também não aconselhava, claro.
Agora os músicos já cumprem as regras e tudo.
É malta profissional e fazem eles muito bem.
Eu tenho medo é que me nasça um terceiro braço, alguma coisa assim, depois de um banho.
Claro, grande tema para um álbum.
É verdade.
Grande assunto. Há uma filmagem muito conhecida de Marcelo Rebelo de Sousa a tomar banho no Tejo.
Já falamos sobre isso aqui.
Mas há muitos Tejos.
Não desejemos a mesma sorte ao Beato.
Já tivemos um cassete 60 sobre nós. Olha a quantidade de vacinas que ele teve de tomar.
Isso já foi perto do mar. Mas também foi numa altura em que o Tejo era bastante mais porcalhão do que hoje em dia.
Aliás, era essa a reivindicação enquanto candidato à Câmara de Lisboa. Com ele, o Tejo ia ficar limpinho outra vez.
Muito bem. Nós estamos a gostar também muito desta "Com Justa Causa". De resto, vão começar a ouvi-la aqui na playlist da Rádio Observador. Fiquei curioso também, como é que nascem as canções de Beato? Tu que já pertences a outras bandas, as canções de Beato nascem a solo ou tu tens sempre músicos com quem colaboras nas composições?
É assim, no caso de Beato, é mais uma compilação de músicas que cresceram, que foram feitas mais recentemente, tipo a "À Beira Mar" e o "Com Justa Causa" também. Mas existem músicas também que de alguma forma me perseguem já de alguns anos e que nunca tiveram espaço para entrar em nenhum dos outros projetos, e foram músicas que eu sempre gostei. Aparecem de várias formas, pode ser coisas que eu começo a escrever ou então coisas feitas em colaboração com alguém. Este disco tem a colaboração nalgumas letras do Nuno Figueiredo, do Jorge Ferreira, do Pedro Malaquias e do Vítor Lindegaard e do Pedro Silva Martins também numa música, que normalmente também acontece que eu começo uma letra e depois começo a ficar a embolar e não consigo acabar, então peço a algum dos amigos letristas.
Uma solução.
Alguém me desate este nó, faz favor.
Mas é bom, e eu gosto porque normalmente também depois acabas por ser surpreendido e acabas por ver um potencial num mote que se calhar não estava lá quando estavas inicialmente a pensá-lo. E eu gosto muito de colaborar sempre. Não sou muito de ficar fechado na bolha e fazer as minhas coisas sozinho. Gosto de sempre colaborar e ter input de vários músicos. E felizmente este disco, estive muito bem rodeado com o Nuno Rafael na produção também, com o Jorge Costa na bateria, Mariana Camares. Foi uma festa. E agora estou sozinho, já acabou o disco, agora nada.
Muito bem. Este teu segundo single anuncia um disco que chega no próximo ano.
É, no início do ano.
Dirias que este tema revela mais do que será esse álbum ou qual destas duas canções, destes teus dois singles, cumpre melhor esse desafio de identificar as principais características do disco?
Hum, ok.
Nós tiramos. Incrível.
Impressionante.
Não. Eu acho que esta música, por acaso, acho que foi com esta música que eu percebi que queria gravar este disco e começar este projeto do Beato de uma forma mais permanente também na minha vida e daqui para frente. Eu sempre gostei de fazer muitas coisas, já passei por outros projetos e sempre foi um bocado aquela ânsia de querer experimentar várias coisas, vários gêneros. A vida é demasiado curta para conseguirmos fazer tudo. Mas cheguei a esta conclusão que Beato era, de facto, uma coisa que eu não poderia prescindir, porque acho que é o projeto mais pessoal que eu já fiz. Acho que esta música é que representa melhor o disco.
O "Com Justa Causa"?
Sim.
Ficaste nesta dúvida de qual destas irias revelar primeiro ou também a sazonalidade da "À Beira Mar"?
É, precipitou, sim. O "À Beira Mar" precipitou. O Beato não existia há sete meses atrás e nós tínhamos que dar uma primeira apresentação do Beato ao mundo e pensámos: "Olha, não vale a pena estar a esperar pelo próximo ano, este tema está pronto, vamos lançá-lo e ver como é que corre". E pronto, sim, eu gosto muito da música, ainda por cima é muito autobiográfica também, da minha imaginação, do meu imaginário de praia, dos momentos felizes, isso tudo. E acho que foi uma boa forma de exorcizar aquela nuvem negra do Covid e de isolamento em que nós estávamos, foi uma boa forma de expurgar aquilo de mim.
Sem dúvida. Olha, para além de músico, já percebi que está aí uma carreira paralela de realizador. Tu assinas o vídeo para esta nova canção, gravado também no Braço de Prata. Como é que foi fazer isto? E se de alguma forma também tens particular gosto na adição audiovisual às canções?
Tem um bocado a ver também com a forma como as músicas nascem. Já falei com muitos colegas músicos e compositores e em entrevistas que eu ouço, acho que isto é uma coisa muito transversal, que muitas músicas são escritas e é inevitável que começamos logo a fazer imagens na cabeça. E a parte do vídeo para mim sempre fascinou. A minha infância foi passada nos anos 80, com cassetes videobetas cheias de videoclipes dos anos 80, em que os videoclipes eram histórias, eram filmes, eram altas produções e aquilo criava um imaginário à volta da música e, para mim, acho que se calhar por causa disso, a parte do vídeo sempre se tornou uma coisa muito fascinante. Houve a hipótese de eu ter mais intervenção no vídeo, e também foi divertido por causa disso. Foi gravado numa manhã, na verdade. E depois a edição foi feita nos três dias seguintes, portanto, foi uma coisa assim rápida.
Isso é tudo muito giro, mas apostaste na tecnologia errada, porque as cassetes eram beta. Não é?
Eram beta.
Pois, não eram VHS.
Exato.
Eram beta, sim, na altura.
Eu lembro-me de ter umas cassetes beta, que era aquela série italiana, que era "O Povo".
"O Povo", "La Piovra".
Sim, tinha isso em beta.
Que era melhor que isso!
Que era superior a VHS, mas não vingou.
É verdade.
Pois não.
Mas o meu pai sempre foi muito irresponsável na minha educação.
Era para o violentinho.
Era.
E dava, acho eu, a seguir ao "Domingo Desportivo", ao domingo.
Dava ao domingo.
Domingo à noite.
Depois do futebol.
Depois do futebol.
Também não havia muito mais para a gente se lembrar. A nossa idade não era muita.
Muito bem, já ficamos a conhecer "Com Justa Causa".
Corrado Catani.
É que pois é.
Era o nome do inspector, agora de repente lembrou-me.
Tu falaste e eu lembrei-me imediatamente daquele senhor com o cabelo grisalho e o rosto fechado sempre. Beato, Bruno Vasconcelos, nosso convidado hoje no "Cabeça de Cartaz", aqui para destacar "Com Justa Causa". Já podem ver o vídeo, já está disponível nas plataformas de streaming, este novo single do Beato. Só para terminar, já tem nome e data o álbum apontado para 2022? É só o que diz o press: novo disco, 2022. E agora a gente que adivinhe.
Exato. Agora imagina.
Já há uma data.
Não, também deixar o pessoal todo alerta.
Claro.
É marketing.
É fazer suspense. Não, mas é assim, será no início de fevereiro. Já existe uma data, mas com estas novidades dia a dia, se bem que eu acho que agora vai ser mais tranquilo. Estamos um pouco expectantes, mas será em fevereiro, logo no início de fevereiro de 2022. O nome do disco? O disco vai se chamar "Bonança".
Bonança?
Sim.
Ok.
Continuamos no universo de beta e de séries.
É verdade.
É o Bonanza.
Exatamente.
Sim, mas olha, tenho que dizer que quando era miúda, havia uma diferença. Podia ser uma coisa, podia ser outra. O meu irmão confundia sempre, dizia Bonanza, quando queria dizer Bonança.
Bonança.
É que Bonanza é outra coisa. Bonanza é um restaurante bastante bom no Porto.
Então justifica-se. Muito bem, Bruno Vasconcelos, muito obrigado por teres vindo à Rádio Observador. Muitos parabéns por estas duas canções. Ainda conhecemos poucas, estou com vontade de conhecer mais coisas do Beato, mas quanto mais não seja, lá em fevereiro vamos conhecer o primeiro disco com esta designação. Bruno, parabéns, obrigado por teres vindo à Rádio Observador.
Muito obrigado pelo convite.
Ficas aqui apalavrado quando chegar o disco em fevereiro, vens aqui à rádio fazer um pequeno showcase com estas canções.
Com muito prazer.
Nós temos agora um espaço fantástico aqui.
Está fechado.
E não vou referir nomes, mas há malta que faz muito bem segundas vozes nesta equipa.
Ah, é? Então vamos a isso. Eu gosto sempre de participação. Vamos a isso. Podemos fazer uns ensaios antes.
Sem ensaiar. É como sai.
Live on tape.
Bruno, Beato, ouçam as canções do Beato. Há tema novo, "Com Justa Causa". Vamos passar aqui mais um bocadinho desta nova canção. E tudo de bom. Vamos falando. Bruno, obrigado por teres vindo. Um abraço grande.
Obrigado.
Olá, eu sou o Nelson Ferreira. Obrigado por ouvir. Se gostou, pode subscrever este podcast e se gostou mesmo muito, pode partilhá-lo. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM. 98.7, na Grande Lisboa, 98.4, no Grande Porto.