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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Com que então o presidente não gostou do que viu.
Não gostou. Agora já sabemos que não gostou, porque finalmente António José Seguro falou. Agora, pergunta: não terá gostado da carga policial? Não terá gostado da forma que os protestos assumiram? Não terá gostado da acampada? Não terá gostado das bastonadas? Poderá não ter gostado de nada. Na verdade, tudo aquilo lhe pareceu indigno de uma democracia consolidada, onde, segundo o próprio presidente, se deve privilegiar o diálogo. António José Seguro só não explicou também quem deveriam aqui ser os intervenientes no diálogo. O primeiro-ministro deveria receber representantes dos manifestantes em São Bento ou deveria deslocar-se ao Rossio e dialogar com os manifestantes em clima de assembleia popular? O presidente falou, é verdade. Sabemos que não gostou do que viu. Também sabemos que é pelo diálogo. Agora só não sabemos como é que ele acha que esse diálogo pode acontecer.
O Luís Montenegro também falou. Nem um passo atrás por parte do governo, Paulo.
Nem um passo atrás, firme ali. O primeiro-ministro fez o elogio da polícia, criticou os atropelos à lei praticados pelos acampados, elencou as medidas para o setor da habitação que o seu governo já tomou e atirou as responsabilidades políticas dos desequilíbrios do mercado da habitação para a inação dos governos de António Costa. Portanto, as vozes da rua não atrapalham Montenegro e parece que vamos ter aqui um braço de ferro continuado entre essa rua, as manifestações lideradas claramente pela esquerda, e este governo da AD, que promete manter a linha dura no cumprimento do que diz a lei em relação às manifestações. Este não é um assunto que se resolve em dois meses. A questão da habitação, a questão central, não se resolve em dois meses, nem em dois anos, diria eu, realisticamente. Se for em duas décadas, já vamos com sorte. Portanto, vamos ter aqui matéria-prima infindável para animar social e politicamente o país durante muito tempo.
Da habitação para a educação, Bruno, o governo quer resolver o problema da falta de professores com professores?
Foi essa a proposta do ministério para resolver o problema da falta de professores, permitir que os licenciados em ensino básico deem aulas ao primeiro ciclo antes de concluírem o mestrado ou a profissionalização em serviço. E os sindicatos aceitaram a proposta, um tanto contrariados, é certo, mas disseram que aqui estavam entre a espada e a parede e que entre alunos sem aulas e professores sem mestrado a dar aulas, preferem esta última solução, que não será a ideal. É possível que não seja. Dar aulas a crianças no primeiro ciclo exige aqui um domínio de certas ferramentas pedagógicas essenciais, mas também, e este é o outro lado da questão, não estamos aqui a falar de licenciados em astrofísica ou engenharia florestal que depois vão ensinar crianças a ler. Estamos a falar em licenciados em ensino básico, educação básica, que depois poderão fazer a profissionalização ou tirar o mestrado posteriormente. E a falta de professores obriga mesmo a medidas de recurso e é este o entendimento entre o ministério e os sindicatos.
E no Brasil, Paulo, aquela linha que separa um presidente de um foragido pode ser muito ténue?
Muito ténue mesmo. Bastam menos de 24 horas para se passar de condição de candidato presidenciável a fugitivo à Justiça. Flávio Bolsonaro esteve muito perto de ser eleito no domingo, sabemos, esteve mesmo a vencer a primeira volta das eleições presidenciais brasileiras, mas perdeu para Lula e ontem fugiu do Brasil para os Estados Unidos. Ele está a ser investigado por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro. Estava proibido de sair do Brasil e teria também, de acordo com indicações das autoridades, de entregar o passaporte à polícia, isto por ordem de Alexandre de Moraes, mas preferiu ficar com o passaporte, claro, sem o entregar e aproveitar o passaporte, obviamente, para fugir ainda sem resistência para os Estados Unidos, utilizando os seus documentos. Saiu com a mulher e com as duas filhas e também diz que com a ajuda de Marco Rubio, o secretário de Estado norte-americano. Espera-se ou especula-se que possa pedir asilo político a Donald Trump, que o deverá acolher. E fica agora claro também que Bolsonaro filho iria usar o cargo presidencial não só para se livrar a si da Justiça, mas também ao seu pai, que está detido.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.