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Eram 27 dias e paraste. Não pensaste, não contaste, não agarraste. Eram 27 partes de um olhar, aquele que tu nunca vais querer parar. Mas eram 27 metros de salto. Voltaste a casa sem saber por onde entrar. Sei que ainda seria aquele o teu lugar. Acreditei que tudo era mais fraco. Acreditei que tudo era mais fraco.
O David Santos é o nosso convidado esta tarde no "Cabeça de Cartaz". Ele é mais conhecido como Noiserv. Estávamos aqui a ouvir "Eram 27 Metros de Salto", é uma das canções que tem rodado aqui na Rádio Observador. O David tem andado todo o último ano também a apresentar o seu último disco, "Uma Palavra Começada por N". Mas precisamente nesta terça-feira vai apresentar mais logo, às 19h, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, o seu primeiro livro "3 vezes 10 elevado a 8 metros por segundo". David, bem-vindo à Rádio Observador. Boa tarde.
Boa tarde.
David, continuas com esta dificuldade em dar nomes simples às tuas obras. Isto é para dificultar quem as apresenta aqui, como por exemplo, os locutores da rádio. De resto, como todas as outras, esta também tem uma explicação. E a explicação para este título deste livro é meia científica.
É assim, acaba por ser um pouquinho, porque este título é por extenso aquilo que é a velocidade da luz. E essa ligação à história, não é porque a história depois se torne científica, mas o livro fala muito da velocidade a que nós nos vemos uns aos outros ou da maneira que às vezes não nos vemos. E a velocidade que a luz tem é precisamente aquilo que nos permite olhar para uma coisa e ver essa coisa à nossa frente. Se a luz não se mexesse ou não tivesse uma determinada velocidade, nós não nos conseguimos ver. E como o livro fala precisamente dessa necessidade que eu acho que nós temos de nos encontrar uns aos outros, daí o título ter sido este. Acaba por não ser um livro científico, mas a descrição do título é.
Todos os artistas têm o seu método de criação, de composição. Como é o teu com a música e é o mesmo que seguiste para a escrita do livro?
Sim, eu acho que é sempre um processo ligeiramente obsessivo naquilo que eu acho que é até um bom sinal. Ou seja, é sempre uma procura muito grande de conseguir chegar a um resultado final que para mim próprio seja perfeito. E se calhar, quando numa música essa perfeição vem nas camadas serem suficientes para eu achar que está suficientemente preenchida, ou que a música já está a dizer aquilo que eu quero, nesta ideia de escritas de um texto maior, não só de uma letra, vive muito, não só daquilo que o texto está a dizer, mas também do próprio ritmo quando estás a ler o texto. E portanto, o processo de criação, de haver um momento inicial em que há uma pequena ideia em que surge, neste caso, o livro, em que se calhar surgem três, quatro páginas e depois haver um processo muito longo de ver e rever, e por mais um pouquinho e tirar um bocadinho, que é o que acontece em todas as músicas, no livro também senti isso. Portanto, o processo acaba por ser muito parecido, embora o livro não seja tão musical.
Portanto, tu já decidiste em que prateleira este teu livro vai figurar? Se é nos livros científicos, nos romances, thrillers, autoajuda. Era um pouco disto tudo.
Eu acho que uma das perguntas mais difíceis de responder na música é sempre qual é o gênero da minha música. E eu acho que no livro até é um pouquinho mais difícil, porque inicialmente, por ser uma história, por ser um pequenino conto muito imaginado, com um bairro que tu vais percebendo que existe, mas que é todo muito imaginado, poderia até ser meio infantil, mas depois toda a dinâmica que está lá por dentro é tão metafórica e até se calhar um pouquinho filosófica que acaba por ser mais adulto do que infantil. Agora, eu acho que científico, nunca é muito, a não ser nesta explicação do título e na própria explicação do que é também a velocidade da luz. Mas depois tudo o resto é uma história com personagens que vão aparecendo e que reagem a um acontecimento principal, que é a partir daí que surge a história toda. Agora, não sei muito bem qual é que há de ser a prateleira. Ainda não consegui chegar a essa conclusão.
Vais deixar as livrarias escolher.
Se for um livro de autoajuda, vai estar em estações de serviço. Se não for, não vai, só vai pra livrarias.
Maior probabilidade de venda, se tiver em estações de serviço. Há pouco falavas desse teu lado um pouco obsessivo, de atenção ao detalhe, voltar atrás, ao pormenor. E isso também fala da tua música, que é feita de camadas sonoras. As histórias que contas neste livro também elas são pormenorizadas, são detalhadas, são meticulosas?
Eu acho que uma das, se calhar a palavra brincadeira pode ser até depreciativa, mas eu acho que uma das brincadeiras que o livro tem é precisamente isso. Eu acho que a história é como se tivesse vários níveis de profundidade. Portanto, eu acho que tu se calhar se leres a história uma vez, meio na diagonal, percebes uma coisa e quando lês outra vez, percebes muitos dos pormenores que eu estou sempre a referir. E, portanto, eu acho que essa pergunta é engraçada, porque eu acho que isso acontece precisamente. Ou seja, eu quando digo que no livro estou a olhar pra frente e pra esquerda, eu a seguir vou explicar o que é a esquerda. Porque a esquerda pode não ser a esquerda normal que estamos habituados, porque depende se estás direito, se estás a fazer o pin, depende muitas coisas. E, portanto, eu acho que o livro tem muito esse jogo de: "eu acabei de referir isto, mas espera aí, eu estou a dizer isto, mas isto pode não ser bem aquilo que tu pensaste, isto pode ser uma outra coisa". E esse jogo existe em quase todas as palavras do livro Há muito esse pormenorizar o que já está pormenorizado.
Eu fiquei curioso, porque conhecendo a tua música, David, ela tem também um lado bastante cinematográfico, assente em imagens, em ambientes visuais, coloridos ou não. Fiquei com esta dúvida, sempre achei que primeiro farias mais rapidamente cinema do que literatura e acaba por agora sair um livro. Tiveste outros escritores que te inspiraram também a fazeres esta que é a tua primeira obra?
Não, aqui eu acho que não. Eu não é que seja uma pessoa de ler muito, porque eu acho que cada pessoa vai tendo os seus ritmos e os seus hobbies. Eu acho que não sou muito de ler, porque acabei por não criar esse hábito. Portanto, eu acho que não existe nenhum autor ou nenhum escritor que me tivesse influenciado. Eu leio muitas vezes muitas coisas de Fernando Pessoa, mas muito pela dinâmica de metáfora que ele tem em tudo. E isso às vezes inspira-me em várias coisas, não neste caso, mas muito nas letras. As coisas terem sempre um duplo e um triplo significado é das coisas que mais gozo me dão de ler. E eu acho que o livro também acaba por ter isso, de uma maneira até muito transversal. Mas acho que respondendo à tua pergunta, não acho que haja um autor que tenha influenciado muito. Eu acho que tudo aquilo que me vai acontecendo e tudo que eu vou fazendo, e neste caso, muito também toda a minha vida musical, acho que a grande influência está nessa experiência toda.
E muito rapidamente, desculpa, Tiago. David, imaginas uma banda sonora para este filme? Para este livro, desculpa.
Todas as histórias ou todas as leituras, ou o que quer que seja, funcionam sempre bem com diversos tipos de música. Neste caso, e como estava a dizer há bocadinho, o livro vive muito de uma descrição muito pormenorizada de muitos momentos. Eu acho que se eu puser uma música, vou condicionar ligeiramente a imaginação das pessoas quando estão a ler esses pormenores. Portanto, eu acho que, e é o que vai acontecer hoje aqui no lançamento no Maria Matos, eu pensei muitas vezes se deveria tocar alguma coisa, se não devia, mas pensei que isso iria estragar um bocadinho a leitura do próprio conto ou a leitura daquilo que vai acontecer.
Ou condicioná-la, não é? A interpretação.
Sim, porque isto é um bairro pequenino que existe dentro de um outro espaço. E a única coisa que pode existir é um género de sonoplastia com esse outro espaço, onde poderão passar carros, passar aviões, pode ser uma vila, pode ser uma aldeia, pode ser uma cidade muito grande. Mas dentro do bairro onde a história acontece, aí eu acho que são as próprias pessoas que com a sua imaginação vão criar os seus próprios sons. Se eu puser uma música mais triste, mais animada, vou condicionar esse caminho que poderia ser feito só pelas pessoas.
Então dirias que depois de um último ano passado em apresentações do disco "Uma Palavra Começada por N", precisavas agora de uma pausa da música para te dedicares à literatura ou são duas coisas que convivem e acontecem ao mesmo tempo, se bem que às vezes, por opção, não exatamente ao mesmo tempo, como estavas a dizer?
Eu acho que são duas coisas que funcionam em paralelo e eu não sinto, como você disse há bocadinho, o disco é do ano passado e eu tenho estado, felizmente, com muitos concertos a promover o disco e ainda é nesse sítio que tenho a minha cabeça. Eu acho e espero que até possa eventualmente vir a acontecer mais pra frente, este próprio conto possa ganhar uma outra vida, se calhar até num pequeno espetáculo em que isso que estávamos a falar de sons, ambiente ou não ambiente, possam ainda completar mais aquilo que o espetáculo possa ser. Mas acho que neste caso, uma coisa não choca com a outra. Eu acho que acaba por ser sempre o meu universo, mas não preciso de me distanciar de um pra chegar ao outro. Acho que criativamente a cabeça está em todos os sítios.
David, hoje na apresentação do livro no Maria Matos, é às 19h, contas também com a atriz Isabel Abreu. Ela será uma espécie de diseuse de serviço nesta apresentação. E gostei do fato de ter já desvendado que música de Noiserv não vai acontecer. Pensaste numa apresentação diferente que não influencie também a interpretação de quem te vai ler, neste caso.
Sim, a minha ideia foi: eu acho que muitas vezes os lançamentos dos livros acabam por ser uma conversa com o autor e acho que isso também faz sentido acontecer. Neste caso, e tendo em conta que a história ou o livro não é muito grande e que tem uma leitura que pode acontecer rápida, em 20, 30 minutos, o que vai acontecer é precisamente isso. Ou seja, partilhando a leitura eu, mas mediaticamente a Isabel, vai ser feita uma leitura integral da história, porque como o livro também sai hoje, ainda ninguém terá tido a oportunidade de o ler. Portanto, isto é tipo uma primeira vez, é quase como se fosse o concerto de apresentação das músicas.
É uma reading party, não é? Do tipo listening party.
Eu costumo fazer a reading party do disco, mas aqui neste caso, do livro. Portanto, vai acontecer isso, ou seja, vai haver uma leitura. Há também um desenho de luz feito pelo Berto Pinheiro, que me costuma acompanhar sempre nos concertos.
O Berto? Adoro o Berto, é um light designer incrível.
Ele está aqui também, fizemos um desenho.
Sabes que eu sou amigo de infância do Berto. Nós jogamos à bola na rua. Sim, é verdade. Há uma máfia daquela região. Somos nós.
E portanto, imagina, isto não vai acontecer com aquela dinâmica público-palco, vamos estar todos em cima do palco, e quando as pessoas entram, é como se elas entrassem um bocadinho dentro do bairro onde tudo acontece. E depois, acontece um fenómeno, que é o que puxa a história, e a partir daí é feita toda a leitura do conto. Basicamente, o que vai acontecer é isso.
Fiquei com curiosidade suficiente para conhecer este "3x10⁸ m/s". É este o título do primeiro livro do Noiserv. Lançamento precisamente nesta terça-feira e foi um prazer ter o David Santos precisamente neste dia aqui no "Cabeça de Cartaz". Há esta apresentação mais logo às 19h no Maria Matos em Lisboa e depois procurem por este primeiro livro do Noiserv. Aguardamos também mais notícias sobre a música do Noiserv, sucessora deste seu último trabalho, "Uma Palavra Começada por N", e se calhar, quem sabe, um segundo volume ou continuação desta sua primeira obra que fica hoje disponível. David, muito obrigado e muitos parabéns por este teu trabalho.
Muito obrigado.
Um abraço.
Muito obrigado. Um abraço, um abraço.
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