Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
K7 60.
Quando os crimes de guerra voltam a fazer parte das notícias do dia a dia. Ontem Joe Biden acusou Vladimir Putin disso mesmo. O K7 60 recua até ao passado e até ao homem que se sentou no banco dos réus no Tribunal Penal Internacional e foi condenado por genocídio e crimes contra a humanidade. Ratko Mladić, conhecido como o Carniceiro dos Balcãs, foi sentenciado à prisão perpétua em 2017.
Ratko Mladić, que foi muitas vezes também apelidado disso mesmo, Carniceiro dos Balcãs, apesar de preferir que lhe chamassem Deus. No último dia em tribunal, há cinco anos, acabou arrastado para fora da sala enquanto o juiz lhe lia a sentença.
"Court orders that you be removed from the courtroom. Could security please escort Mr. Mladić out of the courtroom. Could Mr. Mladić..."
Foi uma pena leve quando comparada com os que sofreram às suas mãos. A sentença de Mladić é longa. Por um lado, foi condenado pelo genocídio de Srebrenica. Não sou a melhor pessoa a dizer esta palavra, o Bruno é muito melhor do que eu. E também pelo seu papel na execução do Cerco a Sarajevo, o cerco mais longo da história moderna da Europa, durante o qual os cidadãos foram alvos de morteiros, granadas, tiros de franco-atiradores, de snipers, sem distinção entre alvos militares ou civis. Um ataque sem precedentes à resistência dos habitantes que viveram sem água e sem eletricidade.
Mladić não estava na sala do tribunal quando a sentença foi lida. Foi condenado por 10 dos 11 crimes pelos quais estava acusado. Mas em Srebrenica, os familiares das vítimas assistiam em direto ao julgamento. Houve palmas, choros e abraços, depois de estar desde 2012 em tribunal.
Mladić cedo enveredou pela carreira militar, estudou na Academia de Belgrado, quando a Jugoslávia ainda era uma federação, e juntou-se ao Partido Comunista e chegou a general muito rapidamente antes da desintegração do país em 1991.
É preciso perceber que Mladić era o chefe militar das forças bósnias e sérvias contra as tropas croatas. E o tribunal percebeu que Mladić contribuiu significativamente para o genocídio em Srebrenica em 1995, quando morreram mais de 7 mil bósnios, sobretudo homens e rapazes. Foi considerada a maior atrocidade na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
Segundo o juiz presidente Alphons Orie, sob o seu comando, as tropas cometeram-
Cometeram violências em massa, sim
...violências em massa, mantiveram cativos bósnios em condições desumanas, fome, sede, doenças, eram torturados, cometiam terrorismo contra civis em Sarajevo, atingindo-os com snipers no meio da rua, fizeram-se deportações em massa e destruíram-se várias casas e também várias mesquitas.
Ratko via-se como um ser superior e começou a auto intitular-se Deus. Quando pedia permissão ao controle aéreo para aterrar o seu helicóptero, declarou: "Daqui é Ratko Mladić, o Deus sérvio".
Perceber esta guerra não é difícil. A Bósnia e Herzegovina era a mais multiétnica das seis repúblicas da Jugoslávia. As primeiras eleições multipartidárias na Bósnia em 1990 levaram ao poder uma espécie de uma frágil coligação de partidos nacionalistas. E esta coligação foi eleita com um bósnio como presidente e era composta pelo Partido de Ação Democrática, Partido Democrático Sérvio e pela União Democrata Croata.
À medida que o Estado jugoslavo continuava a desintegrar-se com a Eslovénia e a Croácia à procura da independência, a situação da Bósnia tornou-se cada vez mais perigosa. Em suma, o SDS de Radovan Karadzic desejava permanecer jugoslavo, qualquer que fosse a forma, enquanto que o SDA e o HDZ
Queriam a independência.
Durante discussões acaloradas em outubro de 1991, a SDS saiu do Parlamento e montou uma assembleia sérvio-bósnia paralela com sede no Hotel Holiday Inn.
É um recurso como qualquer outro. A Jugoslávia era um Estado socialista criado após a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial e teve uma amarga guerra civil. Uma federação de seis repúblicas reunia sérvios, croatas, muçulmanos, bósnios, albaneses, eslovenos e outros sob um regime comunista relativamente relaxado. As tensões entre esses grupos foram suprimidas com muito sucesso sob a liderança do presidente Tito. Só que depois...
Só que depois, após a morte de Tito, em 1980, as tensões ressurgiram. Os apelos por mais autonomia dentro da Jugoslávia por parte de grupos nacionalistas levaram, em 1991, a declarações de independências na Croácia e na Eslovénia. O exército jugoslavo, dominado pelos sérvios, atacou primeiro na Eslovénia e depois na Croácia. Milhares foram mortos neste último conflito, que foi interrompido em 1992, sob um cessar-fogo que foi monitorizado pela ONU.
A Bósnia, com uma mistura de sérvios, muçulmanos e croatas, foi a próxima a tentar a independência. Os sérvios da Bósnia, apoiados por sérvios em outras partes da Jugoslávia, resistiram. Sob o comando do líder Radovan Karadzic, ameaçaram derramar sangue se os muçulmanos e croatas da Bósnia, que superavam os sérvios em número, se separassem. Apesar da bênção europeia para a mudança num referendo de 1992, a guerra chegou depressa.
E no início do banho de sangue nos Balcãs, Mladić, voltamos a ele, estava na Croácia a liderar as tropas jugoslavas em Knin e em 92 assumiu o comando do Segundo Distrito Militar do Exército, que se tornou no exército bósnio-sérvio. Liderou até ao acordo de Dayton, que estabeleceu a paz na Bósnia em 1995.
A guerra na Bósnia terminou com a assinatura deste acordo de paz, embora o cerco de Sarajevo não tenha sido levantado até fevereiro de 1996. Como parte do acordo de paz, a grande maioria da cidade tornou-se parte da Federação da Bósnia e Herzegovina, uma das duas entidades do país. Isto iniciou a partida da maioria da população sérvia dessa cidade.
Em 1995, o exército bósnio-sérvio invadiu o enclave muçulmano de Srebrenica, protegido pelas Nações Unidas. O massacre, destinado a dizimar a população muçulmana, matou 7 mil pessoas, sobretudo rapazes e homens. Horas antes, tinham distribuído doces pelas crianças que se juntavam na praça principal da cidade e asseguraram-lhes que tudo ia ficar bem. Foram estas mães e mulheres que aplaudiram, mais tarde, a sentença de prisão perpétua transmitida em direto.
Depois do massacre, Ratko Mladić fugiu para Han Pijesak, um antigo complexo militar na Bósnia que tinha sido construído ainda por Tito para servir como abrigo em caso de ataque nuclear. Em conjunto com a mulher, Bosa, conformou-se com a vida caseira e doméstica e passava os dias ocupado com a criação de abelhas e cabras. O jornal Independent conta que dava às cabras os nomes dos políticos ocidentais que detestava e, segundo se sabe, uma delas chamava-se Madeleine Albright, que na altura era a secretária de Estado norte-americana da Defesa. Mas Bill Clinton não desistiu. Enquanto Ratko não foi levado à justiça e ofereceu cinco milhões de dólares por informações que levassem à detenção ou à condenação de Mladić em qualquer país. Rádio Observador