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Todos unidos é coisa que não se vê no PSD nos últimos tempos, mas as crises de liderança são recorrentes, assim como as noitadas em conselhos nacionais ou os congressos muito animados. Há exemplos ao longo de quase cinco décadas de partido. No tempo de Cavaco Silva, com o PSD no poder, acalmaram-se as críticas, mas em 95 o cavaquismo estava nas últimas e o Coliseu de Lisboa viu aquela que terá sido a maior pateada de sempre. Já vamos a isso. Dizia: Cavaco Silva estava de saída, as legislativas ao virar da esquina e era preciso encontrar um novo líder. Perfilaram-se Fernando Nogueira, Durão Barroso, Santana Lopes. Santana desistiu e só Nogueira e Durão avançaram. Na altura, Fernando Nogueira era Ministro da Defesa e Barroso tinha a pasta dos Negócios Estrangeiros. Os militantes estavam divididos, à procura de um líder forte para as eleições que iam acontecer dali a meses, mas a escolha não era óbvia. Cavaco, durante a campanha interna, ainda pregou uma rasteira a Fernando Nogueira, mas ainda assim Nogueira ganha por uns escassos 33 votos.

Mas então e a tal pateada no Coliseu de Lisboa? Isso é que me interessa. Tinhas-me prometido.

Exatamente. Não se promete assim pateadas para depois não... Exato. Vamos a isso. Este é o congresso em que Luís Filipe Menezes profere a célebre frase: "solista, elitista e liberal", para descrever a candidatura de Durão Barroso. E a sala quase vai abaixo.

Se ganhar o doutor Fernando Nogueira, talvez alguns digam que ganhou o aparelho, mas muitos dirão que ganhou o Partido Social-Democrata inteiro e nacional. Mas se ganhar o doutor Durão Barroso, não é por culpa dele, mas em política o que parece é. Ganhou um eixo solista, elitista e liberal, que tem pouco a ver com o verdadeiro Partido Social-Democrata.

Menezes ainda tenta corrigir a mão, mas já não havia volta.

Meus caros companheiros. Meus caros companheiros. Meus caros...

A sala não o deixa falar, vai gritando: "Fora, Cavaco, PSD", e Menezes sai do púlpito, dirige-se à mesa do Congresso. Não tem condições para continuar, não se consegue fazer ouvir, mas acaba por voltar com o presidente da mesa a pedir aos militantes que se comportem.

Senão suspendo os trabalhos. Calem-se! Eu não queria mandar evacuar as galerias.

Menezes ainda consegue falar por uma última vez.

Eu tenho um filho nascido em Lisboa. Eu tenho um filho nascido em Lisboa. Eu vivo em Lisboa e, portanto, não é com demagogia fácil, nem com apupos que impedem de me dizer o que eu penso.

Disto já não me lembrava, de ter sido assim tão animado.

Realmente. Foi de tal forma que Menezes saiu do Congresso de lágrimas nos olhos. A verdade é que este episódio fez correr tanta tinta que Luís Filipe Menezes ganhou uma notoriedade instantânea. Pouco depois, foi líder da distrital do Porto, venceu as eleições para a Câmara de Vila Nova de Gaia, escreveu um livro em que usou como mote esta frase, que ficou célebre, e ainda chegou a líder do partido. Lá está, não terá sido de propósito e na altura passou as passas do Algarve, mas acabou por correr-lhe feição. Tal e qual.

As passas de Boliqueime.

As passas de Boliqueime, especificamente.

Bela história. Quando há esta animação em congresso, eu gosto sempre de recordar. E desta não me recordava assim muito bem, por acaso.

Não interessa nada, exactamente. Bem dito.

Isto foi tudo em 1995. Meus amigos, vamos a uma nova viagem. Podem temer tudo o que há de, há aqui coisas boas, vamos lá ser justos, mas 1995 é um ano em que a música portuguesa foi mordida por um bicho. E se calhar já chega. "Dance Music", de Iran Costa, foi dos discos mais vendidos no nosso país em 1995 e por culpa desta canção, porque ninguém se lembra de mais nenhuma, para além do bicho.

Não, o disco era todo muito bom.

Eu não me lembro, mas acredito.

Mas há ótimos lançamentos na música em 95. Por exemplo, a 2 de outubro foi editado "What's the Story " dos Oasis, com esse megasucesso que foi "Wonderwall".

Esta é uma característica engraçada desta canção é que parece que não passa de moda. Parece que não envelheceu. É um clássico instantâneo.

Não passa de moda, tal como os bons penteados e os fatos de treino. Esses voltaram. Depois voltaram. Então agora com o "Squid Game" está tudo fato de treino. Pois é, tudo fato de treino. Olhem, também pela música britânica, 1995 marca o desaparecimento de Richey James Edwards, letrista e guitarrista dos Manic Street Preachers. O músico nunca foi encontrado, o que fez nascer o mito à volta do homem que dizem que foi avistado várias vezes, em vários pontos do globo, mas nunca com uma confirmação oficial do seu paradeiro. A Design for Life saiu no ano seguinte, já sem Richey na formação dos Manic Street Preachers. Em 95 realizou-se a 37ª edição dos Grammys. Bruce Springsteen foi o grande vencedor com o quarto prêmio, mas o de gravação do ano foi para Sheryl Crow.

Também rodou muito esta em 1995.

Sim, vamos deixar rodar um pouquinho. O que foi tudo isso, Sheryl Crow?

Não sei. A Sheryl Crow envolveu-se numa polêmica algum tempo atrás, que não é muito boa, porque ela queria que as pessoas usassem menos papel higiênico, achava que era um dos grandes poluidores do planeta.

Como o Bolsonaro, se calhar, ia ao encontro daquela ideia do Bolsonaro, que só fazer dia sim, dia não.

Por causa disso. De resto, não sei mais nada de Sheryl Crow.

Não, mas sabes o importante. Apesar deste prêmio para Sheryl Crow com All I Wanna Do, esta música não figura sequer no top cinco das mais vendidas de 1995, que tem no primeiro lugar um tema que vem da banda sonora de Dangerous Minds, com Michelle Pfeiffer.

Gangsta's Paradise, de Coolio. E sabem que o Coolio entrou em muitos filmes, em Batman depois. Eu não sabia que ele tinha tantos papéis pequenos, tornou-se um ator de papéis secundários. Mas esta terá sido mesmo a música de 1995 que liderou muitos tops em todo o mundo.

Não era assim tão coolio. Só um pouquinho.

Boa. Bem, vamos fechar com Björk. Eu gosto muito da Björk. A cantora islandesa editou em 1995 aquele que foi seu segundo álbum, chama-se Post, saiu a 13 de junho de 95 e deu-lhe projeção mundial com muitas canções, mas esta terá sido a mais famosa. It's Oh, So Quiet, para o fecho do K7/60, que regressa segunda-feira.