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K7 60.

Pela música já perceberam, com certeza, que vamos ao período revolucionário que tantos K7 60 inspirou. Hoje vamos ao 28 de setembro de 1974 para falar de uma manifestação que não chegou a acontecer.

Falamos da famosa maioria silenciosa que apoiava o então presidente da República, António de Spínola. Vivia-se o rescaldo do 25 de Abril e o setor mais conservador da sociedade decidiu organizar uma manifestação para esse 28 de setembro.

O símbolo fica para a história, uma figura que no lugar da boca tinha escrito: "maioria silenciosa". Do outro lado da barricada, à esquerda, representada pelo MDP/CDE, distribuiu panfletos em que o mesmo boneco tem nos lábios escrito: "maioria tenebrosa" e tinha uma suástica ao peito. Tendo perdido peso no movimento das Forças Armadas, o general Spínola e os seus apoiantes queriam garantir que mantinham o apoio da maioria da população e decidiram fazer um teste, convocando uma maioria que permanecia silenciosa e afastada das ruas, por causa da extrema-esquerda que dominava no período a seguir ao 25 de abril.

Ironicamente, é no Campo Pequeno, numa corrida de touros, que Vasco Gonçalves sente que Spínola está a ganhar. Para o Presidente da República, aplausos e uma pateada para o Primeiro-Ministro.

Mas o verdadeiro teste, apesar de marcado, não chegou a acontecer. Otelo Saraiva de Carvalho, do COPCON e o movimento das Forças Armadas reagem, são montadas barricadas à entrada de Lisboa e todos os carros passam a ser revistados em busca de armas. Na manhã do dia 28, o MFA detinha o controle da situação e a manifestação da maioria silenciosa calava-se para sempre.

O prestígio político de Spínola fora dizimado. O general recebera de Marcelo e para que não caísse na rua, o poder estava numa situação insustentável. Retira-se, por isso, para uma reserva mais tarde conturbada, descrevendo como caótica a situação portuguesa, acusando de desvirtuado o programa do MFA.

No dia seguinte, a 29 de setembro, na manchete do Diário de Notícias, podia ler-se: "Malogrou-se a tentativa reacionária contra o MFA e o governo provisório". O jornal dizia que na madrugada anterior, com barricadas em vários pontos, o clima esteve próximo da guerra civil, mas ao final do dia, Otelo, comandante do COPCON, anunciava que o MFA controlava completamente a situação.

O jornal dizia ainda que havia dezenas de detidos por suspeita de ligação com a tentativa de conspiração reacionária. Outro título de uma primeira página totalmente dedicada ao tema, referia que tinham sido acordadas medidas concretas para reforçar e garantir a democratização do país.

Tanto o PSD como o CDS, seguros de que Spínola não reuniria apoios suficientes, recusam participar na manifestação, duplamente silenciosos, ficando assim esta demonstração ligada a nível partidário a setores da extrema-direita, como o Partido Liberal e o Partido do Progresso. O Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves decretava então a vitória sobre a reação e o país iria viver mais um ano conturbado. Como consequência máxima, no dia seguinte, o General Spínola demite-se da Presidência da República e é preciso entender a camisa de forças em que se encontrava o chefe de Estado. Spínola sentia que tinha perdido o poder como presidente, não tinha qualquer controle sobre o governo provisório, a descolonização não decorria nos moldes que defendia e o país estava prestes a cair numa crise econômica. Mas o apelo à maioria silenciosa de nada lhe valeu. Essa só se fez ouvir quando foi às urnas nas primeiras eleições democráticas, um ano depois. Seguiu-se o verão quente de 75 e o 11 de novembro do mesmo ano, que colocaria fim à indefinição política, embora os tempos agitados prosseguissem até o ano seguinte.

Viajamos hoje até 28 de setembro de 1974 e a história da maioria silenciosa aqui trazida pela Judite França. Eu fiz uma viagem por este ano, mas lá por fora, na cultura pop, olhamos para o mundo do cinema, que em 74 andava rendido a filmes sobre desastres. Entre os sucessos de bilheteira encontramos: Aeroporto 1975, que era já uma sequela, apesar deste título, é de 74, Terremoto e ainda A Torre do Inferno, este com Steve McQueen e Paul Newman nos papéis principais.

E o filme venceu o Oscar de melhor canção original com We May Never Love Like This Again, porque ia tudo para o inferno.

Claro.

Interpretada por Maureen McGovern.

Aquilo no início podia ser uma música do James Bond, não era? Às vezes.

Se calhar devia. Sabes que há várias histórias de canções que foram-

Pararam outros filmes.

Exatamente. Ainda pelos Oscars, a edição de 74 premiou em grande O Padrinho 2, com várias estatuetas. Robert De Niro ganhou, por exemplo, para melhor ator secundário e Francis Ford Coppola vence nesse ano o Oscar de melhor realizador, com este segundo capítulo da saga mafiosa, mas também venceu a Palma de Ouro do Festival de Cannes com O Vigilante, um filme interpretado por Gene Hackman.

Alguma vez isso tinha acontecido, um realizador ganhar no mesmo ano com dois filmes diferentes?

Com dois filmes diferentes eu acho que não. Aliás, até com o mesmo filme não é muito frequente.

Também não creio.

Na música, os Grammys de 74 premiaram Stevie Wonder com o álbum do ano para Innervisions e Roberta Flack venceu as estatuetas de gravação e canção do ano com esta Killing Me Softly with His Song.

One time. Os fuges aí, a bombar.

Destaque ainda em 74 para o primeiro disco de David Bowie depois da morte da sua persona artística, Ziggy Stardust. Diamond Dogs é um novo começo para o britânico e um regresso ao trabalho com o produtor Tony Visconti.

Que, de resto, o acompanhou quase até ao final da vida. "Rebel Rebel" faz parte desse disco, editado a 24 de maio de 1974. Cassete 60.