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Cassete 60.

Hoje o Cassete 60 vai dedicar-se a António Mega Ferreira, jornalista, escritor e um dos mentores da Expo 98. Foi o comissário executivo da grande exposição mundial que transformou a zona oriental de Lisboa. Primeiro, liderou a candidatura, depois presidiu à Park Expo, ao Oceanário de Lisboa e ao Pavilhão Atlântico. Ficará também conhecido pela presidência do Centro Cultural de Belém. Morreu hoje, aos 73 anos.

Terminei o curso em 1975, numa altura em que já estava plenamente envolvido, do ponto de vista profissional, no jornalismo, que era o que eu gostava muito de fazer. Tinha começado em 68, no jornalismo, no Comércio do Funchal, na delegação de Lisboa do Comércio do Funchal.

Ele que formou-se em Direito, mas nunca exerceu. Em entrevista a um programa de televisão da Universidade Aberta, contou que começou a fazer jornais com carimbos desde que começou a ler e que depois vendia esses exemplares ao pai. Continuará essa paixão no Expresso, na RTP, no Jornal de Letras. Foi chefe de redação da RTP2 e do Jornal de Letras e, a par com o jornalismo, foi também escritor e poeta, mas tinha métodos diferentes para a prosa e para a poesia.

Escrevo tudo em computador, exceto poesia. Poesia escrevo à mão e depois é que passo a computador. Agora, prosa, escrevo diretamente no computador, quer sejam crônicas, artigos de jornal, quer sejam livros, novelas ou contos ou ensaios, escrevo diretamente ao computador e revejo pouco. Normalmente, revejo pouco.

Noutra entrevista, dizia escrever por impulso, andava com um livro na cabeça durante muito tempo e depois escrevia de seguida. Era obsessivo na investigação. Aliás, dava-lhe tanto gozo investigar quanto escrever. Escreveu e publicou mais de 30 livros. Dizia-se que se tivesse escrito mais romances, o veriam mais como escritor.

Apesar de escritor, ensaísta, tradutor, será a Expo 98 a marcar definitivamente a vida e obra de Mega Ferreira, no dia em que Lisboa ganhou a Toronto pela Organização da Exposição Mundial, apesar do favoritismo do Canadá, explicava o porquê da vitória.

O braço da razão, neste caso, o braço dos argumentos e o braço da nossa posição como país europeu, foram decisivos e deram-nos um ombro de avanço sobre o Canadá e foi isso que justificou a vitória.

A ideia de organizar uma exposição internacional veio de Mega Ferreira e Vasco Graça Moura. Os dois estiveram à frente das comemorações dos 500 anos dos descobrimentos portugueses. A ideia veio de um almoço. Diz-se que foi à mesa do restaurante Martim da Arcada. Rapidamente, o projeto entrou em fase de desenvolvimento. Boa parte do programa passou pelas negociações para conquistar terreno naquela zona de Lisboa, onde viria a decorrer a exposição. Depois, foram anos de construção, não só da Expo, mas também dos acessos da rede do metro, até às primeiras campanhas publicitárias. Os meses da Expo foram um sucesso e apesar de muito se ter explorado a questão do custo, Mega Ferreira sempre garantiu que os ganhos eram muito superiores. Já para não falar nas outras exposições mundiais.

O prejuízo da exposição de Hanover é quatro vezes superior ao de Lisboa, para já não falar no de Sevilha, em que o prejuízo foi 12 vezes superior ao de Lisboa. Portanto, não se gastou à vontade. Se tivesse gastado à vontade, teria com certeza sido o prejuízo da exposição muitíssimo maior.

Foi cara a exposição?

Não, foi barata. Eu, aliás, devo dizer que já cá não estaremos, eu pelo menos não estarei, com certeza, e ainda há de haver alguém que faça a conta final da exposição para provar. A exposição é um bocadinho como a Torre Eiffel. Quando foi feita, foi caríssima. Porém, hoje em dia, é o ex-libris de uma das maiores cidades do mundo. Isso não tem preço. A Torre Eiffel, só com o movimento comercial que já gerou, já se pagou 100 vezes, não a ela própria, à exposição da qual ela foi o ícone. Esses investimentos de longo prazo, eu acho que devem ser investimentos que só podem ser medidos no longo prazo.

Mega Ferreira achava que faltava fazer uma conta: quanto dinheiro estava a ser e seria arrecadado pelo Estado em impostos ao longo dos anos, só com os equipamentos e imóveis que foram construídos naquele local. Dizia que talvez as pessoas se surpreendessem com o valor.

Mas o programador cultural sabia que aquele momento era irrepetível. Dizia que nos dias de hoje seria impossível fazer uma Expo 98 por falta de dinheiro e mobilização de esforços. Foi na década de 90, disse nessa entrevista, que Portugal deixou de se ver como um país de atrasados para ver como um país ao nível dos outros, porque nos deixamos de ver como uns coitadinhos, dizia, e porque havia um desafio.

O facto de ser um homem de ação enquanto gestor, primeiro na Expo, depois no CCB, mais tarde na Metropolitana, retirou-lhe tempo à escrita. Mas no site da presidência, Marcelo Rebelo de Sousa, amigo de Mega Ferreira, chamou-lhe um dos melhores da sua geração e acrescenta a informação de que nas últimas duas décadas o escritor tinha voltado à superfície, quer nos poemas, romances biográficos, livros de crônicas ou de viagens, até ao seu último livro, um dicionário de palavras que deixamos de usar, mas que mantém o travo da história vivida e da história coletiva. Mega Ferreira, aqui recordado no Cassete 60 de hoje, pela pena de Judite França.

Pela pena.

Bela viagem também a um homem que sempre teve também esta vida pública por causa da sua característica de gestor, mas que foi muito para além disso. E essa tua viagem de hoje fez-me, de facto, ir à Expo 98, a um dos maiores acontecimentos do século IX em Portugal, mas é também uma iniciativa que vai além dessa componente de exposição mundial ou até de revitalização urbana da zona da cidade. Mas foi também um grande acontecimento cultural e a oportunidade para ver ao vivo nomes da música que não eram tão habituais no nosso país.

E nesse capítulo, a Praça Sony foi o grande palco musical da Expo. No espetáculo de encerramento, por exemplo, atuou um dos maiores nomes de sempre do rock and roll, Chuck Berry.

Dias antes desse encerramento, a Praça Sony recebeu nomes como Sérgio Godinho, Manoel Azevedo, do Splend, e General Dee, numa noite de 23 de setembro, que ficou, no entanto, marcada pela atuação de Lou Reed.

Quem também passou pela Expo foi Ringo Starr. O antigo baterista dos Beatles apresentou na Praça Sony o álbum "Vertical Man", 16º da sua carreira a solo, acompanhado pela sua All Star Band. Foi em agosto, mês que iria fechar na Expo com a atuação, no dia 29, de David Byrne.

David Byrne, aqui em dueto com Caetano Veloso. Ele também passou pela Expo.

O Caetano, juntamente com outros nomes como B.B. King, os Garbage, Joaquin Cortes, Foo Fighters ou Cesária Évora. Todos nomes internacionais que passaram pela Expo, que teve também uma atenção especial à música nacional, que para além da Praça Sony, passava também pelo Palco seis, esse sim, mais dedicado aos novos valores nacionais e lusófonos.

E uma das maiores concentrações de talento nacional que aconteceu na Expo foi a 11 de agosto, num concerto de solidariedade para com a Guiné-Bissau. Nessa noite actuaram Dulce Pontes, Rui Veloso, Sara Tavares, Jorge Palma, Bernardo Sassetti, Pedro Caldeira Reis, General Dee e os Culip Noise, entre muitos outros. Os Culip Noise, que de resto escolhi aqui para o fecho do Cassete 60, porque eu acho que os Culip Noise, assim como a Expo 98, também simbolizam uma certa nova Lisboa, que também terá passado pela cabeça de Mega Ferreira.