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Car7, 60.
4 horas, 14 minutos, João Vale e Azevedo sai do Tribunal de Instrução Criminal numa coluna da Polícia de Segurança Pública.
Este é o momento em que João Vale e Azevedo saiu do Tribunal de Instrução Criminal, depois de ter sido interrogado durante 12 horas. Numa altura em que o Benfica está sob investigação por suspeitas de corrupção, recuamos a 16 de fevereiro de 2001, há precisamente 21 anos, quando o antigo presidente do clube encarnado foi detido pela primeira vez.
Ora Vale e Azevedo foi conduzido num veículo descaracterizado, no meio de uma coluna de cinco carros, até sua casa, nos arredores de Sintra, onde ficou em prisão domiciliária, sob vigilância da GNR, 24 sobre 24 horas, e só podia sair para se deslocar à Polícia Judiciária.
Recorde-se que nesta altura, Vale e Azevedo já não era presidente do clube da Segunda Circular. Que surpresa!
Aliás, tinha deixado o cargo quatro meses antes.
Foi depois da eleição de Manuel Vilarinho, e foi a partir de um pedido de auditoria de Manuel Vilarinho que foram detectadas as irregularidades. Vale e Azevedo ficou indiciado pelo crime de peculato no caso da venda do passe do jogador Ovchinnikov, o guarda-redes russo, mas muitos outros casos se seguiram.
A investigação da Polícia Judiciária, que tinha mais de um ano, continuou e mais um se juntou ao caso EuroÁrea. Meses mais tarde, em agosto, a medida de coação foi agravada por receio de fuga. Vale e Azevedo ficou então em prisão preventiva.
Este caso gerou alguma comoção nacional. Os jornais desportivos escreviam à época que não era habitual determinar prisão preventiva para crimes econômicos e até o primeiro-ministro António Guterres decidiu fazer declarações sobre o tema para garantir a total separação de poderes.
Enquanto primeiro-ministro, há um respeito total pelas decisões do Poder Judicial. Isto é, há uma separação de poderes em Portugal. O governo não interfere nem na investigação criminal, nem nas decisões dos tribunais e respeita as decisões dos tribunais, sejam elas quais forem.
E foram graves. Em abril de 2002, Vale e Azevedo é condenado a quatro anos e meio de cadeia.
Mas em 2004 é libertado de imediato por não ter sido ouvido no âmbito de uma diligência processual no tal caso EuroÁrea.
E esse é o momento que fica para a história. O antigo presidente do Benfica saiu em liberdade durante apenas alguns segundos. Pelas 18h30, as televisões filmavam ao longe o ex-dirigente, saco na mão, à porta do estabelecimento prisional anexo à PJ, quando foi abordado por dois agentes da Judiciária e notificado para ser presente a juiz no dia seguinte, às 11h00.
O Público escrevia a 20 de fevereiro de 2004 que formalmente Vale e Azevedo não ficou em prisão preventiva, mas detido para assegurar a comparência no Tribunal da Boa Hora.
E enquanto Vale e Azevedo cumpria pena de prisão pelo caso Ovchinnikov, decorria esse tal julgamento do EuroÁrea. Foi acusado, começou a ser julgado em 2003, na sequência desse processo relacionado com a venda de terrenos do clube, a que se juntou o negócio da Quinta de Ribafria e ainda evasão fiscal.
Ui, tanta coisa. Com isto, a detenção prolongou-se por mais cinco meses, mas também foi solto por pouco tempo, porque em 2005 voltou a ser condenado, agora a mais um ano e meio de cadeia. No caso do antigo presidente do Benfica, é um pouco difícil manter o fio à meada nos processos judiciais.
Certo. Querem que fique por aqui?
Já agora, e aquela fuga para Londres.
Claro.
Saltamos o caso Dantas Dacunha e vamos diretos às cauções falsas de 1,3 milhões de euros que Vale e Azevedo prestou para fugir do país.
Viajou num jato privado, instalou-se no bairro de Chelsea, num condomínio de luxo, e assim ficou vários anos. Em 2012, à TVI, disse que pretendia voltar.
Se tivesse uma garantia que Portugal me deixava, não me chateava mais por um ano de prisão, seis meses de prisão, dois anos, três, cinco, ia já.
Não voltou já, mas ainda nesse ano entregou-se às autoridades portuguesas para cumprir a pena que faltava. Foi nessa altura que se tornou sacristão na igreja do estabelecimento prisional da Carregueira.
Digam lá que isto não é melhor do que ficção.
É ótimo.
E além disso, ainda foi condenado em outros processos, preso outra vez e quando voltou a estar em liberdade condicional, viajou de novo para Londres.
Pois, com certeza.
E não temos tempo para mais, que isto já vai longo, mas houve casos prescritos e recursos atrás de recursos no que toca à carreira jurídica de Vale e Azevedo.
Aparentemente, há um tribunal que o quer notificar já há vários anos, mas não consegue.
Não sabe a morada.
Sim, não sabe onde ele está.
Muito bem, isto dá-nos mote também para uma viagem a 2001, e é um ano de muitas tragédias, mas já lá vamos. Até porque algumas delas até tiveram influência em alguns eventos culturais deste ano. E um deles foi o Português Festival da Canção. Ora, nesse ano, em 2001, a RTP não transmitiu a final do concurso em direto. Essa final aconteceu em Santa Maria da Feira, mas só foi para o ar uns dias mais tarde. E tudo por causa da queda da ponte de Entre os Rios, que dominava as atenções televisivas por esses dias. Quanto às canções, a vitória foi para "Só Sei Ser Feliz Assim", dos MTM. O que me leva a esta pergunta: quem eram os MTM?
MTM significa Marco, Toni e Música. Marco Quelhas e Toni Jackson eram os elementos do grupo, mas convém lembrar que Marco Quelhas já tinha participado no Festival da Canção de 1990 com os Caramuru e em 1993 foi um dos coautores do tema "A Cidade até Ser Dia", que valeu a vitória nesse ano à Anabela. Quanto ao MTM e ao single vencedor de 2001, deixo as avaliações ao vosso critério. O teu beijo abraçado a mim. Eu só sei ser feliz assim.
Alguém quer avaliar? Não.
Zero points.
Ficou em 17º na Eurovisão.
A música fala por si. Bom, 2001 foi um ano de altos e baixos para Whitney Houston. A 31 de março foi banida para sempre do Bel Air Hotel, em Hollywood, depois de uma violenta discussão com o marido, Bobby Brown. Os dois acabaram mesmo detidos pela polícia. O quarto onde estavam hospedados ficou destruído e obrigou a obras durante vários dias. A conta não deve ter sido barata, mas meses depois, Whitney Houston assinou um contrato discográfico, o mais lucrativo até essa data, 100 milhões de dólares por seis álbuns. Mas enfim, só gravou três.
2001 também vê partir artistas como a cantora de R&B, Aaliyah, vítima de desastre aéreo nas Bahamas, o rei dos blues, John Lee Hooker, de velhice, e George Harrison, vítima de cancro do pulmão. O ex-Beatle tinha 58 anos.
2001 é um ano aziago. Ainda no dia 11 de setembro, a tragédia do 11 de setembro, que acontece exatamente no mesmo dia em que Bob Dylan editou o álbum "Love and Death". Vários eventos são cancelados na sequência dos atentados e até os canais MTV e VH1 suspendem a programação para transmitir a emissão noticiosa da CBS. Não me lembrava disto.
É verdade.
Sting também tinha previsto para esse dia uma transmissão via internet de um concerto em Itália, mas devido aos ataques terroristas, reduz a atuação a apenas um tema. Foi este, "Fragile".
Bem apropriada para estes dias que se viveram no 11 de setembro de 2001, mas vamos fechar aqui a cassete num tom mais positivo e com cinema. Até porque 2001 vê nascer alguns dos franchises mais lucrativos da história dos filmes: "Harry Potter", "O Senhor dos Anéis", "Velocidade Furiosa", "Ocean's Eleven" e "Shrek". Todos têm os seus primeiros capítulos no ano de 2001, mas é também nesse ano que surge um filme surpresa. "O Fabuloso Destino de Amélie" revela ao mundo a atriz Audrey Tautou e o realizador Jean-Pierre Jeunet. Realizador que, consta, queria Michael Nyman para a banda sonora, mas em boa hora se decidiu por Yann Tiersen, que, como se viu, até não correu nada mal.
Nada mal.
Cassete 60.
Rádio Observador