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Professor Carlos Filhais, olá.

Olá, João Miguel.

Professor, uma das memórias científicas mais antigas que eu tenho é a de olhar através de um vidro escuro para o sol e contemplar um eclipse solar. Já não me lembro que idade é que tinha. Também não me lembro se era um eclipse total ou parcial. Sei que foi mágico, tão mágico que ainda hoje me lembro. Também se lembra do seu primeiro eclipse solar, professor Carlos Filhais?

O total lembro perfeitamente. Antes já tinha visto eclipses parciais, mas o total lembro perfeitamente, porque eu fui de propósito a um sítio do país para ver o eclipse.

Onde?

Miranda do Douro.

Miranda do Douro? Lá em cima?

Sim. O eclipse só se via ali no nordeste do país, no ano da graça de 2005. Acho que foi em outubro. Será que terá sido esse que viu lá com o vidro? 2005.

Não, deverá ter sido nos anos 80.

Isto foi há 17 anos. Eu até tenho uma fotografia minha com os óculos de ver eclipse, porque de facto não se pode olhar para lá diretamente. E foi uma coisa maravilhosa. Aquilo demora poucos minutos, mas é um espetáculo, porque estamos de dia, aquilo era de manhã, se bem me lembro, e começa a escurecer. Não fica totalmente noite, mas o sol fica tapado por um disco escuro. Era um eclipse total, que é uma coisa relativamente rara. Pelo menos entre nós, porque acontece noutros sítios. E já aconteceu depois disso em vários outros sítios, mas não aqui. E então eu estive ali um fim de semana à espera do eclipse e deu-se exatamente, isso é que é fantástico, à hora prevista. Os físicos, os astrónomos, têm essa capacidade de saber exatamente, porque aquilo resulta de movimentos dos astros no céu.

Acertaram na hora e no minuto?

Tudo! Os eclipses são das coisas que a física newtoniana consegue prever com enorme precisão. Os animais, até pássaros, às vezes é que não estão à espera, de repente falta-lhes a luz e há uma estranheza. Os animais respondem, às vezes os cães, de uma maneira. Mas é muito interessante ver as sombras das árvores quando não há sol, por exemplo.

Por quê?

Porque há um efeito especial daquela luz, que é uma luz diferente, ao projetar-se nos ramagens das árvores. E você olha para aquilo e o mundo passa a ser muito estranho durante um tempo, mas depois passa logo e volta ao normal.

Muito bem. Falou da estranheza dos animais. Também há estranheza ou houve estranheza entre os humanos. Nós hoje sabemos, e ainda bem, o que é um eclipse do sol, graças à ciência, mas nem sempre foi assim, professor. Os eclipses estão associados a um sem fim de crenças, inclusive o fim do mundo.

Sim. Os antigos gregos, por exemplo, foram os primeiros a pôr alguma racionalidade. E foi na antiga Grécia que alguém diz que o sol num eclipse não é roubado por um deus, numa brincadeira dos deuses. Há um astro simplesmente que tapa o outro. Não sabiam, na altura, fazer previsões, não tinham essa capacidade. Mas o nosso conhecimento dos eclipses, porque há registos disso, é milenar. Até na China, 3, 4 mil anos antes de Cristo, há registros da ocorrência de eclipses e nessa altura, as explicações só podiam ser mágicas. Faltar de repente, para eles, de um modo completamente imprevisível.

De um momento para o outro, ficar tudo numa penumbra.

Só podia ter uma explicação mitológica. Eu não sei quais são os deuses chineses, mas na Grécia eram os deuses do Olimpo que andavam para lá a fazer umas brincadeiras, como a gente vê aqui nessas histórias. Mas depois, foi precisamente a partir da observação dos astros que a ciência, a física, que é a primeira das ciências, começou. E hoje fazemos previsões, quer de eclipses do sol, quer de eclipses da lua. Houve aqui há pouco tempo um em Portugal, visível de Portugal, e até eclipses, porque há mais outros tipos de eclipses. Por exemplo, as luas de outros planetas podem passar à frente desses planetas. E de algum modo, é também um eclipse. Ou, um exemplo que temos muito moderno, já descobrimos outros sistemas solares, vamos chamar-lhe assim, fora do sistema solar, portanto, exoplanetas à volta de outras estrelas. E uma das maneiras de a descobrir é quando o planeta passa à frente da estrela, diminuindo a luminosidade dessa estrela.

Já aqui explicou esse princípio.

De modo que uma das maneiras até de encontrar novos planetas é precisamente devido aos eclipses.

Muito bem. Professor, e quando é que se encontrou uma explicação científica para os eclipses?

No tempo da astronomia moderna, há um astrónomo alemão, Johannes Kepler, que já era capaz de fazer previsões de eclipses. É ele o autor das leis do movimento planetário. Ele conseguiu matematizar o movimento planetário e a partir do momento em que uma pessoa sabe a matemática dos movimentos dos planetas, uma pessoa vai saber quando é que há essas conjunções. Quer dizer, quando é que um fica a tapar o outro e, portanto, desde o século XVII.

Muito bem, desde o século XVII, então, que sabemos com rigor o que é um eclipse.

Agora, com certeza, é um fenômeno interessante, mas já pouco traz de novo à ciência. É sempre interessante, e em particular é motivador.

É fascinante. E cria boas memórias científicas.

Sim.

Antes, qual era a explicação dada? Já falou um pouco aqui disso. Não se racionalizava o acontecimento.

Claro, era uma coisa mágica e, portanto, conforme a cultura, conforme os deuses que eram invocados em cada cultura, e nós sabemos como era na Grécia, mas havia outros sítios, os povos nórdicos da Europa, os povos antigos da Europa, etc. Eles tinham histórias, contavam histórias à volta do Até posso contar uma história que aconteceu com o Cristóvão Colombo.

Conte.

Que ele, em 1504, eu sei exatamente o dia.

Mas aí foi com o eclipse...

Lunar.

Da Lua, não é? Lunar.

Lunar. Em 29/02, era um ano bissexto e tinha um dia a mais, é fácil de fixar, e tinha um dia a mais, e portanto, era o último dia de fevereiro, 29/02. E ele estava na Jamaica. Olha onde há agora uns corredores muito bons, da Jamaica.

Também.

Estava na Jamaica e teve lá umas dificuldades com os indígenas. E ele já nessa altura, século XVI, embora mais tarde, com o avanço da ciência, se soubesse melhor, tinha a capacidade de saber que ia ocorrer um eclipse da Lua. E o que ele fez foi assustar os indígenas, dizendo-lhes que a Lua ia ficar vermelha de sangue. E de facto, nos eclipses lunares, como a luz do Sol, tendo atravessado toda a atmosfera da Terra para iluminar a Lua, há uma luminosidade diferente, ela fica avermelhada.

Esperto o Cristóvão Colombo.

Ele conseguiu safar-se de umas confusões com os indígenas porque sabia de eclipses. Portanto, isso de saber de eclipses.

Dá jeito.

Já agora, essa história do Colombo, depois é usada de algum modo, mas em tempos mais modernos, numa história do Tintim. Há um álbum do Tintim em que há também um eclipse e é muito interessante. O Hergé sabia muito e pode ter edificado Cristóvão Colombo. Mas voltando às causas dos eclipses. Nós temos o eclipse Sol, que é o mais espetacular, e aí a causa é muito simples: a Lua põe-se no caminho da visão do Sol. Agora, o que é fantástico e que não há uma razão objetiva pra isso, é uma coincidência, é que a Lua está muito mais perto que o Sol. E tem um tamanho muito menor que o Sol. O Sol é muito maior que a Lua. A Terra é muito maior que a Lua. E, no entanto, os discos, na distância que está a Lua, o tamanho que tem, o disco tapa exatamente o do Sol.

Perfeito. Fazendo aquela aureolazinha.

Há certos casos em que há uma auréola, mas há casos em que não há auréola. E, portanto, há os eclipses totais e há os eclipses que estão rulares. E nos eclipses da Lua, que são de algum modo mais frequentes, não são tão espetaculares, enquanto que no eclipse do Sol, é uma parte apenas da Terra que o pode ver. São visíveis apenas em certas regiões geográficas muito localizadas, por exemplo, naquele caso, à volta de Miranda do Douro, e claro, regiões maiores. Mas em Portugal era só no nordeste. Nos eclipses da Lua, há regiões maiores do globo, porque a Lua é mais pequena, consegue ver. Ocorre sempre na fase de lua nova, mas entra na sombra da Terra e a luminosidade da Lua diminui. Houve um há muito pouco tempo, eu suponho que em maio, há poucos dias. É consultar aí no observador, tem as notícias de ciência e de certeza que noticiaram, porque sendo mais frequente que os do Sol, é uma coisa muito interessante sempre pra observar.

Professor, quando é que podemos olhar para o céu e ver um eclipse solar?

Aqui em Portugal, eu sei a data. Está prevista. Antes disso, vai haver noutros lados, por exemplo, em 8 de abril de 2024, vai haver um eclipse total, mas vai ser no México e por aí. Em Portugal, 12 de agosto de 2026. Estamos em 2020, daqui por quatro aninhos. Mas é que não vai falhar. Não trago aqui, mas podia.

Repita.

12 de agosto de 2026, vai haver um eclipse de sol.

Muito bem, senhores ouvintes, 12 de agosto, daqui a quatro anos.

Nas férias, portanto, o sol vai ser roubado da nossa vista.

A que horas sabe, professor?

Não sei, mas vejam na internet, é muito fácil encontrar na internet isso. Há listas, não só esse, como os seguintes, etc. Mas em Portugal vamos ter essa sorte de poder ver em 2026.

Muito bem. Não devemos, no entanto, olhar diretamente pra lá.

Evitar sempre isso, porque os nossos olhos ficam, como é evidente, queimados, por usar uma palavra. A luz do sol é muito intensa e é dos piores disparates que se pode fazer, olhar pro sol. Mas há óculos especiais. Ou então pode-se projetar a imagem do eclipse, e eu fiz isso lá em Miranda do Douro, projetar numa tela. Através de um sistema de lentes, projetamos e vemos sem problema nenhum a imagem projetada numa tela.

E assim fazem a partilha social.

Para cima, pode-se olhar com lentes. Na altura, havia óculos que se distribuíam.

Sim.

Mas projetar numa tela, uma pessoa vê também, e é de facto algo imperdível. Portanto, quem não viu, em 2026 não perca.

Muito bem. ouvinte@observador.pt é o e-mail pra onde podem enviar questões, dúvidas, perguntas dirigidas ao professor Carlos Filhais. Professor, até pra semana.

João Miguel, até pra semana. Ficamos à espera.