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Este é o som da Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje são nossos convidados Pedro Benevides e Tomás Toscano. São os autores do novo podcast do Observador, "Adivinha Quem Vem Jantar?" Bom dia, bem-vindos.
Bom dia.
Bom dia.
Pedro, tu já sabes como isto funciona. Avisaste o Tomás?
Avisei, o Tomás está aqui cheio de nervos.
Eu estou um bocado nervoso. Sobretudo porque sei que não posso contar com o Pedro, que o Pedro vai adorar que eu faça má figura.
Não.
Vai ficar todo contentinho.
Não, isto é muito fácil, as perguntas são fáceis.
Sempre muito acessíveis.
Um porta-voz? Quem é o porta-voz?
É o Pedro.
Não é nada. Vou explicar porque é que eu estou a dizer que é o Tomás o porta-voz. Porque isto é um podcast sobre cozinha. Eu não sei que coisas é que são as perguntas que vocês vão fazer. E acho que o Tomás, sendo, de nós os dois, a única pessoa que tem efetivamente formação em cozinha, eu sou só amador, acho que deve ser ele, em benefício da equipa, acho que deve ser ele.
Eu acho que vai dar jeito a formação na cozinha na primeira pergunta.
Ok, vamos ver.
Vamos ver?
Vamos tentar impulsionar.
Só para terem uma ideia, esta semana o máximo foram 19 pontos, foi a tua pontuação, Pedro, quando cá estiveste sozinho. 19. Vamos ver se conseguem bater.
Vamos tentar sim, mas eu tenho a certeza que sim, com o Tomás aqui ao meu lado, vamos pelo menos duplicar esta pontuação.
Com certeza. Vamos lá. Que atriz ganhou o Oscar pelo papel no filme com o mesmo nome que o vosso podcast, "Adivinha Quem Vem Jantar?" É recente, é de 1967.
Pois, nós fomos ver e tudo.
Foram.
Fomos.
Ela esteve nomeada.
Não, o Sidney Poitier era o ator.
Exatamente, e era ela. Ela esteve nomeada 12 vezes, ganhou quatro Oscars. É a mais premiada de sempre.
Então posso dizer?
Podes.
Só para...
Eu nasci muito mais tarde.
Katharine Hepburn.
Exatamente. Sim.
Agora é tudo só para o Tomás.
Repara que o Tomás disse assim: "Fala, porque eu nasci muito mais tarde."
Muito mais tarde.
Exato. Eu já era nascido há algum tempo.
Eu confesso que eu nem sabia que existia esse filme, só quando chegámos a este momento.
Isto é a Comissão de Inquérito, respondes apenas àquilo que te perguntam e não dás informação a mais que possa comprometer. É claro que sabias que este filme existia, é claro que o vias, é um clássico, tu já o tinhas visto três vezes com a tua família.
Como é que surgiu a ideia para este podcast, Tomás?
Esta ideia surgiu porque nós os dois gostamos mesmo muito de cozinha e falamos imenso de cozinha. E temos aqui características muito diferentes, porque o Pedro é muito organizado a cozinhar, segue as receitas à risca.
E tu inventas mais.
E eu sou o oposto. Eu sou o que abre o frigorífico: "Deixa cá ver o que é que eu posso juntar aqui", e vou fazendo e sai qualquer coisa.
Não, faz uma coisa ainda pior, que é: há uma receita que existe, que foi testada e que funciona, e ele pega na receita e diz: "Não, vou fazer antes isto e vou fazer antes aquilo", que é uma coisa que a mim me deixa com alguma ansiedade.
Não se nota nada que ficas irritado.
Quer dizer, às vezes corre à mó, outras vezes corre mal.
E falo e o Pedro fica todo contente, por ser que eu estava aqui muito nervoso de fazer más figura aqui, porque já sabia que ele ia ficar mesmo contente.
Não, mas a mim faz mesmo impressão, porque eu não tenho este dom. Eu gosto imenso de cozinhar, mas prefiro-
Segue à risca.
Sim, porque não sinto confiança nem tenho conhecimentos que me permitam inventar. E o Tomás tem. E depois, tem um gosto especial, que é essa parte que talvez me irrite mais, que é de se isto está assim, eu vou dar o meu toque, não vou fazer como está assim. E irrita-me só porque tenho um pouquinho de inveja.
Tomás, tu também dás workshops.
Por acaso, durante a pandemia, fiz isso, porque eu neste momento trabalho como fotógrafo de eventos e não havia eventos para fazer. Então cheguei a dar uns workshops de cozinha. Já agora, ia a casa das pessoas.
Online?
Não, ia a casa de pessoas com quem eu tinha alguma proximidade e, portanto, não era tão grave. Com alguns cuidados, mas ia lá dar workshops de cozinha, isso cheguei a fazer durante a pandemia.
E que convidados vão receber para jantar no primeiro episódio? Tiveram o chef Kiki Maria. Podem revelar outro convidado?
Olha, já esta semana vamos ter o Vítor Sobral, também chef, que nos vai falar sobre uma coisa que é interessante, que é o gore na cozinha portuguesa, tipo as entranhas, os sangues, vísceras.
Os miolos.
E vai ser ótimo, porque o Vítor Sobral veio com uma lista de nutrição de cada um desses alimentos.
É ótimo.
E é um defensor incansável. Diz que, na verdade, é uma coisa cultural já. Que nós, em países como o nosso, é aproveitar tudo e aproveitar ao máximo. E nós humanos temos essa capacidade para aproveitar as coisas e, portanto, não sei se toda a gente vai ficar convencida, mas pelo menos vai ficar informada.
Eu saí um bocadinho convencido de experimentar algumas coisas que ele sugeriu.
Olha, vamos ter episódios com historiadores que nos vão explicar, por exemplo, como é que se comia no tempo dos reis em Portugal e temos lá coisas incríveis sobre, por exemplo, desvendando aqui um bocadinho, sobre pássaros que eram incluídos dentro de empadas, que era para quando se abrisse a empada, ele se animar.
O Pedro memorizou este, porque o Pedro tem uma ótima relação com as aves. Não, eu tenho uma ótima relação com aves.
Eu e aves não é uma relação simpática, portanto eu fugiria desse banquete.
Os convidados não vão ser só chefes ou pessoas ligadas à área.
Não, nós temos historiadores, neurocientistas, temos pessoas de áreas muito diferentes.
A ideia é falar, não é um podcast de receitas. A ideia é falar sobre a forma como a cozinha nos junta a todos, nos juntou culturalmente, historicamente, como é que a ciência também explica algumas coisas que acontecem na cozinha. Por exemplo, por que há uma ligação tão grande entre a comida e a memória? Por que um prato, um sabor, um cheiro nos remete à infância? Ora, aqui está, é a ótima deixa para a próxima pergunta.
Cinco pontos já são vossos. São teus, Tomás.
Exatamente. A responsabilidade é tua, Tomás.
Com as tuas respostas, eu vou te ganhar.
Vamos falar de um filme que trata precisamente dessa questão da relação da memória com os sabores da infância. Como se chama o chef do filme "Ratatouille"?
Eu vi há pouco tempo com a minha filha.
É o chef.
O chef.
É o Gusteau?
Certíssimo.
Gusteau. Acho que estás de parabéns.
Estou contente, orgulhoso.
Está 5 x 5 aqui no vosso campeonato. Está muito bem, 5 x 5. Esta é a primeira equipa que está a competir uma contra a outra.
Muito bem, 10 pontos até ao momento. O lema do filme deverá estar recordado, é: qualquer um pode cozinhar. Acreditam nesse lema?Da minha experiência pessoal- Uns seguindo a receita à risca, outros com mais liberdade ...atenção, o que eu ia dizer é: não é da minha experiência, porque eu seguindo a receita e aprendendo coisas, sinto que consigo cozinhar. Mas olhando para o exemplo que eu tenho em casa, eu sou casado com uma pessoa que é muito esforçada.
Mas não tem jeito nenhum. Ela está a ouvir.
É possível que vá ouvir. Portanto, eu agora estou aqui um pouquinho medo.
Manda um beijo.
Os pontos domésticos estou a pôr para eles.
Eu acho que aqui somos parecidos, porque de fato eu também sou casado com uma mulher que usa o fato de eu ser formado em cozinha como desculpa pra não ter que cozinhar.
Porque é graças a ela que tu escolheste.
Uma pergunta muito importante: o vosso sofá é confortável? É. O meu dá pra dormir lá. Aliás, não me arriscaria assim tanto também com esta resposta. Mas não, por exemplo, a Francisca tem uma coisa que é: o Tomás estava a explicar, abre o frigorífico e vê o que é que tem e sai um prato. A Francisca tem uma receita que leva batatas, cenoura e brócolis, vamos imaginar. Abre o frigorífico, não tem nenhum desses ingredientes e pensa: "Bom, então não tenho, posso fazer com limão, beterraba e morango." E depois faz. E depois que nós estamos a comer-
Mas é um espírito criativo
...ela diz que realmente tem criatividade, isso é verdade.
É importante.
A criatividade não faz tudo.
Não, não faz.
Mas então qualquer um pode mesmo cozinhar? Depende do que entendes por cozinhar.
O conceito de cozinhar.
Cozinhar é a alteração química de determinados alimentos e determinados ingredientes e a apresentação pública desse resultado? Sim, acho que qualquer um.
Muitas vezes vem da necessidade de se cozinhar. Tu próprio aprendeste a cozinhar por necessidade, não é?
Sim.
E acho que se vai descobrindo e vai se desenvolvendo. Claro, depois há pessoas que têm mais aptidão e mais gosto.
E mais gosto em fazê-lo. Quando vivi sozinho, eu tinha que efetivamente cozinhar.
E vocês são mais de comida de tacho ou gostam daquela nouvelle cuisine?
Eu sou mais de comida de tacho.
E tu, Pedro?
Gosto de tudo.
Eu acho que eu sou team comida geral.
E a nossa é tão boa.
A nossa é ótima e não somos esquisitos. Comida de tacho, como nouvelle cuisine, como old cuisine. Alimenta-se tudo. Sirvam-me tudo bem feito e eu adoro.
Nós gostamos de estar à mesa, com boas conversas e pelo menos eu associo mais isso à comida de tacho.
Pois é.
Sim.
A comida é um ato social, não é?
Completamente.
Completamente. Aliás, é aquela coisa estranha que é quando tu vês alguém a comer sozinho.
Dás vontade de ir falar ao lado.
Olha que isso é um tema pra uma segunda temporada.
Há esse tabu, se quiserem. Não é esse estigma. Hoje em dia está a mudar um pouquinho, mas, por exemplo, a mim faz-me imensa impressão.
Mas no Japão já há restaurantes próprios pras pessoas irem jantar sozinhas, com umas palas em que fazem o pedido por um ecrã, a comida chega num tapete rolante e a pessoa come e vai-se embora.
No Japão também há cabines de karaokê by yourself.
Mas isso não é nada mal pensado. Às vezes há pessoas que viajam bastante e estão só a fazer ruído.
Não encontravam mais ninguém.
Exatamente. Isto está a correr-vos muito bem. E eu acho que agora também consegue.
Não estragues isto.
Esta vamos conseguir. Vamos ao Herman José, que é uma das personagens do Herman José. A Filipa Vá com Deus, que apareceu no programa "Tal Canal". Como é que se chamava o programa da Filipa Vá com Deus e da assistente, que era a Margarida Carpinteiro? Tinha um nome, esse programa.
Eu só vou responder agora, quebrando aqui um pouquinho a minha generosidade pra com o Tomás Dantas, olha ele, porque ia ser divertido, que ele não faz ideia, provavelmente, do que é o "Tal Canal".
Não, já ouvi falar.
Aí está.
Já me apareceram com certeza uns clips.
Percebem por que ele merece perder vergonhosamente esta comissão de inquérito é isto. Mas esse programa chamava-se "Cozinho para o Povo". Muito bem!
Com imensa páprica.
Imensa páprica.
O papel da mulher na cozinha ainda é aquela que faz a sopa pras crianças e a bolonhesa e depois a parte mais fina e criativa fica pros homens. Isso está a mudar ou ainda é assim?
Eu acho que está a mudar. Tanto que, por exemplo, a chef Marlene foi, penso que o ano passado, a primeira mulher, ou seja, já não acontecia há 13 anos, a ganhar uma estrela Michelin e portanto acho que as mulheres-
É uma resposta muito politicamente correta, mas nós estávamos a falar da vida real. Penso que era isso. A chef Marlene, claro, é uma chef ótima, nós adoramos, vai ser nossa convidada também. Mesmo assim, há uma escassez de chefs mulheres. Há uma grande escassez de chefs mulheres e eu, por acaso, acho que não mudou assim tanto. Eu acho engraçado que a Carla tenha colocado a questão já neste patamar, que eu acho que já o patamar onde tu a colocaste já revela que há alguma mudança. Quer dizer, meu pai não fazia ideia como é que se cozinhava, não era função dele. O Tomás até tem uma história engraçada.
O meu pai, já nos seus 60, penso, ou 50 e muitos, foi tirar um curso de cozinha pra homens que não sabem cozinhar.
Isso é bom. Aprendeu a espelar um ovo.
Não, tem umas coisas mais elaboradas.
Eu acho que nós já estamos na fase em que a mulher faz a bolonhesa e desenrasca o dia a dia e o homem ainda vai pra cozinha e diz: "Vais ver este espetáculo que eu vou fazer." É uma coisa um pouquinho masculina. Nós temos um pouquinho tendência de fazer um certo show off. Olha, visto que eu fui pôr o lixo sem tu me pedires. E portanto, eu acho que ainda estamos nessa fase. Portanto, no dia a dia, aquilo que dá trabalho e não dá assim tanto prazer às vezes a fazer, fica pra mulher. A rotina, aquilo que é efetivamente necessário pra pôr a coisa a funcionar, o homem está talvez menos empenhado. Dito isto, eu cozinho imenso. Grande parte das coisas que eu cozinho são coisas que não têm muita graça. É o que é pra dizer adiar ou pra não sei o quê. Gosto sempre de dar ali um toquezinho, mas nem é tanto para o show off.
Um toquezinho, Pedro. Um toquezinho, mas que vem na receita.
Não. Se for uma coisa do dia a dia, não. Se eu for fazer uma coisa que eu estive a ler durante três dias, a preparar-me mentalmente, a organizar como é que vou fazer isto e faço primeiro isto. Não quero estragar a coisa. Aí não vou estragar. Agora, as coisas do dia a dia, quer dizer, se eu estiver a fazer uma omelete, lembro-me de qualquer coisa que eu possa incluir ali pra tornar aquilo um pouquinho mais especial, mas não é pra colher elogios do gênero: "Ai, o pai cozinha muito bem." Isso também é um pouquinho. Mas é para também levar um pouquinho a experiência. Pronto, vamos comer a omelete, mas esta omelete vai ser um pouquinho diferente. Mas já tem o twist.
O que é que não pode faltar na tua cozinha?Além do jeito da tua mulher para arranjar
Ervas aromáticas, para mim é o que faz a diferença. Até porque tu podes substituir o sal e coisas que as pessoas usam, que ainda usa-se muito. A salicórnia é espetacular.
Também estou agora na introdução à salicórnia.
É uma descoberta também relativamente recente.
Fui eu que te introduzi na salicórnia.
Pronto, está bem. Sim, podes compensar isso.
É a verdade.
E no teu caso, Tomás?
Eu diria, não sei se isto é necessariamente bom, e é um básico, mas azeite não pode faltar.
Claro. Quem conhece está aqui com essas coisas. Há ervas aromáticas, vê-se que é um amador que está impressionado e quer impressionar.
Um amador, mas que fala em substituir o sal.
Quem percebe diz logo: "É o azeite." O azeite é um básico.
Não, eu acho que o azeite não falta.
É a T-shirt branca, não é?
Exato.
Vamos à próxima. Vocês estão totalistas até agora. Esta aqui vocês não podem falhar. É só para colocar pressão. No primeiro episódio, vocês já disseram que receberam o chef Kiko e a Maria. O chef Kiko revelou o que seria a sua última refeição preferida, que esperamos que aconteça daqui a 200 anos.
Daqui a muitos anos.
Qual é essa refeição?
Era marisco regado a champanhe.
Muito bem.
Já ultrapassámos. Ainda não, ainda estamos com os 15.
20 pontos.
20.
20, já ultrapassámos o meu recorde.
Boa. E o que vocês são mesmo bons a cozinhar? Já percebemos os métodos. Agora, pratos concretos, vamos lá entrar agora, vamos começar a concretizar.
Pelo menos aquilo que me dão bom feedback.
Exato.
Eu faço um bom arroz de robalo e limão.
Ótimo arroz de robalo e limão, que eu já tenho a receita e que faço muitas vezes.
Eu não acredito, Tomás. Provar para crer.
Eu prometo que da próxima vez que vieres.
O Tomás não é capaz de não vos trazer isso, porque ele vive lá no Porto e depois aquilo fica mais para a zona. Mas eu faço isso com todo o gosto e faço a receita do Tomás. Não foi fácil de conseguir.
Ele tem que passar as receitas. Faz um memorando.
Mas trocamos receitas. O Pedro fica nervoso quando eu passo receitas, porque eu explico à minha maneira. "Isto é mais ou menos assim."
"Depois vai ao forno." E eu assim: "Mas vai ao forno a que temperatura?" "Sei lá."
Sei lá, até ficar, eu olho para lá.
Estão a perceber? A minha ansiedade é essencial.
É cozinhar a olho.
Este prato do Tomás é ótimo, eu já o fiz várias vezes. Então agora no verão é mesmo um prato bom.
Com o frescura do limão, não é?
O frescura do limão, com o peixe e com o arroz de tacho do peixe, que é uma coisa que tanto funciona no inverno, na verdade, como que sabe a verão, porque tem aquela referência ao mar e é espetacular.
E tu, Pedro? Partilhas a receita?
Não, sirvo. Levo-vos a jantar lá a casa. Vocês jantam ou não? Vocês se calhar é melhor marcar almoço.
É almoço. Ou um jantar cedinho.
E faço isso. O que eu cozinho que me sai particularmente bem? Deixa-me pensar. Há alguma coisa...
O cachaço que tu fazes muitas vezes.
O pulled pork. Sabem o que é pulled pork?
Sim.
É aquele cachaço de porco que é cozinhado várias horas no forno e depois tu serves mesmo dentro do tacho e depois aquilo é com dois garfos e tu enterras os garfos.
Olha, pode ser para começar o peixe, primeiro prato e o segundo esse.
Segundo prato, este. Pronto, parece-me que sim.
Para a próxima trazem já preparado.
Não precisamos de sobremesa.
Sabes que nós no podcast... Eu adoro doces também, gosto muito de doces.
E de cozinhar doces?
Gosto muito. Gosto de sobremesas, gosto de fazer bolos.
Doces não é a minha praia.
Não é a tua praia.
Faço um pão de ló do avô, que o meu pai adora.
Como?
Faço um pão de ló do avô, aquele assim molhadinho.
É húmido.
Com ovinhos caseiros. Sim. Isso faço.
Pronto, já temos aqui a refeição toda feita. Uma coisinha leve como vocês gostam.
Com que frequência vens gravar os episódios?
Varia.
Vens na véspera?
Vou na véspera, normalmente, sim.
O Tomás vai estar cá até quinta-feira, atenção.
Até sexta.
Até sexta-feira.
Normalmente gravamos sexta.
E ficas no hotel?
Varia muito. Às vezes fico, outras vezes não.
Queres ir lá a casa?
Para fazer um robalo com limão, arroz de robalo. Há aqui uma copa, na verdade, também.
Sim. Não há banheira. Não, e é muita gente depois para comer.
Só mais uma questão. Vocês são maluquinhos dos instrumentos de cozinha?
O Pedro é mais.
Eu sou completamente.
Eu também perco-me numa loja dessas.
Adoro. O último que eu comprei foi um espremedor de limões.
Que é diferente do espremedor de laranja.
Não, que metes assim o limão. De citrinos. Obrigado, Carla. Não tiras pontos, não me vais tirar pontos, por favor, por isso. Obrigado. E tu metes ali a metade, depois espremes aquilo, tudo vem assim, parece que tem umas torneirinhas de lado. E eu adoro fazer aquilo.
Ficas a olhar para ele assim. E facas são mesmo importantes, não é?
As facas, sim. Eu lembro-me que quando estudei cozinha, tive o meu primeiro estojo de facas e aquilo, eu acho que nós até tínhamos que ter uma licença para andar com aquilo, porque aquilo são armas brancas e nós tínhamos que carregar aquele estojo de um lado para o outro. Mas não há nada como uma faca acabadinha de chegar, novinha, que ainda não perdeu o fio, está imaculada. É uma sensação espetacular.
Vocês têm cinco perguntas aqui na comissão de inquérito.
Mais uma.
Faltou uma.
É a última e agora vamos até a um limite.
Não é a última, porque eu também vou fazer uma. Vocês vão pensar que eu desta vez vim aqui sem estar articulado. Portanto, vamos para isso.
Esta é muito simples: qual o principal ingrediente do goulash? Sopa/estufado. O principal.
Tomás, tu vais obviamente saber esta, porque isto tem a ver com os ingredientes básicos de cozinha.
Vai dar 25 pontos.
Vai dar os 25, que é o total. Sem pressão.
O principal. Leva muita páprica também. O pimentão doce.
Estamos a falar da sopa húngara, não é?
Sim.
Sopa, guisado, sei lá.
Sim.
Sim, sim, o quê? Então esforça-te.
Sim.
Estás com tanta convicção, vamos a isso.
E é uma sopa muito substancial.
É quase uma sopa da pedra.
Exato. Portanto, leva...
O ingrediente principal, não sei.
Querem ajuda?
Querem uma ajuda?
Tu não sabes? Não sabes, certeza.
Mas eu agora não te vou tirar o momento de brilhar.
Eu vou brilhar, estás a deixar-me.
Querem ajuda. Queres mais ajuda? Vá.
Quero ajuda.
Eu queria mesmo que vocês quisessem ajuda, porque a ajuda é: carne de vaca, abacate ou Nutella
Complicado.
É óbvio.
Vamos falar.
Eu tenho uma pergunta para te fazer, para te salvar a face.
Carnívora?
É isso. 22.
É óbvio que é carnívora. Deixe-me só fazer aqui uma pergunta à mesa, mas obviamente que é dirigida a ti. Para ti é fácil, tu vais saber. De onde é e quantos anos têm as receitas de cozinha mais antigas do mundo?
Do macho?
Do mundo.
És da Bíblia que estás a falar?
Não.
Não?
A Bíblia é um livro que factualmente é questionado. Portanto, eu estou a falar de factos.
Tu já fizeste o fact check.
Exatamente. Não sabes? Ninguém aqui sabe?
Não.
É porque estamos a andar a fazer perguntas aleatórias.
Grécia Antiga?
Não.
Não. Está no Código Gilgamesh? Não.
Querem ajudar? Querem tentar adivinhar o número de anos? Há quantos anos é que existem estas receitas?
Não vais dizer que descobriram em Foz Côa umas coisas.
Não, senhor.
Umas pinturas rupestres.
Há mil anos. É um bocadinho mais.
Há mais? Estás a falar de um livro de receitas.
Estou a falar de receitas.
Não é a Da Vinci.
Não é um livro, atenção, não tem necessariamente de haver. É o registo de receitas.
Nós também vimos esse livro.
Mil anos é um bocadinho mais.
1892. 892.
Não, há 5 mil anos, digo eu.
Quase, estás perto. Há 4 mil anos, são receitas da antiga Babilónia, que foram descobertas. Há registos, efetivamente, e os cientistas conseguiram, com historiadores, com uma série de gente, reproduzir aquilo que eram essas receitas e que têm curiosidades como o uso de ervas ou o uso de cerveja. Ou seja, eles tinham uma atenção sofisticada aos sabores e àquilo que podia dar coisas à comida. O que é engraçado é que eles não davam tempos de cozedura, não davam instruções detalhadas. Era tipo: "Usa-se carne, preparas água, juntas sal, juntas os bolos de cevada, depois cebola, chalota, persa e leite. Esmagas e juntas alho-francês e alho." Era esta a receita que eles davam.
É assim que as avós passam as receitas.
4 mil anos depois, é exatamente isso que eu tenho que lidar. Não sei se o Tomás não tem.
Eu não evolui.
Da Mesopotâmia, não sei, mas efetivamente, 4 mil anos, tiveram que juntar historiadores, chefs de cozinha, enfim, biólogos para poder fazer. Estava aqui o Babilónio Tomás.
Eu podia ter feito um dinheirinho com isso.
Vocês não ganharam pontos. Para o próximo.
Lembrei-me dos Boney M. agora, não sei porquê.
Pedro Benevides, Tomás Tuscano, muito obrigada por terem vindo à Comissão de Inquérito. São os autores do novo podcast do Observador "Adivinha quem vem jantar?" todas as sextas-feiras há novo episódio depois do jornal das 20h00.