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E começa agora a Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado o novo colunista do Observador, Miguel Morgado. Bem-vindo, Miguel. Bem-vindo.
Olá, Bruno.
Bem-vindo à Comissão de Inquérito e ao Observador. Muito bem-vindo.
Obrigado a todos.
Sabe como funciona a Comissão de Inquérito? Nós explicamos, são cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir ajuda e acertar, recebe dois. Se falhar- Não recebe nada.
Isto com professores é sempre mais complicado, estão mais habituados a avaliar do que a ser avaliados.
Eu queria levar um carro por acaso, mas já estou a ver que vai ser mais complicado. Vamos começar. A primeira pergunta é bastante fácil. Eu diria que faz parte da cultura geral do cidadão médio em Portugal. Quem é o autor do livro "Argumentos Necessários: Contributos para a Política Europeia e Externa de Portugal"?
Meu Deus, eu não faço a mínima ideia. Coisa tão pomposa, não faço ideia.
Pode pedir ajuda. Quer ajuda?
Quero, mas-
Ajuda, então vamos lá. Jaime Gama, Augusto Santos Silva ou Paulo Rangel?
Eu arriscaria Paulo Rangel.
Tensão. Não. Mas ia arriscar bem. Ia arriscar bem. Não foi bem, senão não constou bem. Ficou desiludido ao saber que Augusto Santos Silva não se vai candidatar a Belém?
Não, não fiquei desiludido, porque os propósitos daquela candidatura eram particularmente sinistros e, como eu tive a oportunidade de escrever aqui no Observador, que haveria poucos acontecimentos mais lesivos das nossas instituições do que ter Augusto Santos Silva na Presidência da República. Por isso foi com um suspiro de alívio, embora eu, apesar de tudo, confiasse na sensatez do eleitorado português, que já tinha tido a oportunidade de lhe dar uma lição nas eleições de 2024, quando ele não foi eleito, o único presidente da Assembleia da República a não conseguir ser reeleito quando candidato a deputado. E agora iria acontecer a mesma coisa. Talvez causasse um dano sério à liderança de José Luís Carneiro, esse sim, que deve ter suspirado de alívio com a não candidatura de Augusto Santos Silva.
Mas a grande motivação de Augusto Santos Silva, no seu entender, era enfrentar ou minar a candidatura de António José Seguro?
Claro, porque o PS está em uma crise que nós não devemos subestimar. Não é uma crise fatal, evidentemente, mas uma crise radical. E é uma crise pela identidade e pela alma do Partido Socialista. E neste caso, a candidatura de António José Seguro representa uma ameaça ao grupo de Augusto Santos Silva, que era o grupo de Sócrates, que em 2011, quando a liderança de António José Seguro acaba por suceder à de José Sócrates, António José Seguro toma uma decisão política, que depois não teve coragem suficiente pra levar até às últimas consequências, mas isso é uma característica de António José Seguro, falta-lhe muita coragem política. Vamos ver se ele a adquire agora nesta campanha. Mas estava eu a dizer que em 2011, ele toma uma decisão que é não reconhecer o legado desastroso de José Sócrates. E isso foi inaceitável para o grupo de Augusto Santos Silva, de António Costa e de muitos que desfilaram depois como ministros de António Costa. Lembro-me de repente de Vieira da Silva, João Galamba, Pedro Nuno Santos. Para todos eles, era uma afronta de António José Seguro não reconhecer que José Sócrates tinha sido um grande campeão, não só da boa governação, mas um homem do progresso, um homem que tinha trazido Portugal para um patamar nunca antes conhecido. E talvez as pessoas já não se lembrem disso, porque na altura houve a troika e havia a contestação ao governo de Pedro Passos Coelho e a propaganda toda, em que os meios de comunicação social também colaboraram. Mas eu recordo muito bem que em 2014, eu estou sempre a recordar este episódio, que desapareceu da memória dos meios de comunicação social, que é uma coisa triste, mas eu cá estou pra recuperar essa memória, que quando António Costa finalmente substitui António José Seguro na liderança do Partido Socialista e escolhe Ferro Rodrigues pra ser o seu líder parlamentar, porque António Costa não era deputado na Assembleia da República, ele tinha feito aqueles mandatos todos como presidente da Câmara de Lisboa. Em setembro, outubro, agora não me recordo bem, mas na preparação do debate do orçamento para 2015, portanto, ainda no outono de 2014, Ferro Rodrigues faz um discurso onde diz que a prioridade do Partido Socialista é reabilitar a figura de José Sócrates, porque tinha sido o grande campeão português contra a austeridade. Por que isso depois tudo teve que ser escondido, camuflado e retirado da memória coletiva dos portugueses? Porque passado três ou quatro semanas, José Sócrates é detido pela polícia e fica preso em Évora e causando aqueles embaraços a toda a gente, inclusivamente ao próprio António Costa. Portanto, António José Seguro é visto por Augusto Santos Silva, Vieira da Silva, João Galamba, António Costa, como um traidor.
Isso explica a resistência do partido a declarar o apoio a António José Seguro.
Claro. E José Luís Carneiro, que parece-me ter um perfil político que também lhe agradaria descolar do negrume, da crispação de José Sócrates e António Costa para um outro Partido Socialista, se calhar até gostaria ter um ambiente favorável a poder dizer, talvez não com grande entusiasmo, mas a dizer: "Olha, não há mais candidatos aqui à esquerda. Temos aqui um que foi líder do PS, por que não? Apesar de tudo, um candidato da esquerda contra estas forças sinistras da direita que podem ameaçar a democracia."
De qualquer forma, olhando para esta candidatura de Seguro-
Só ia dizer isto: se Augusto Santos Silva tivesse aparecido, José Luís Carneiro ficaria em apuros, porque haveria uma fratura no PS se ele se atrevesse a dizer qualquer coisa favorável.
Mas essa ala ainda tem essa força dentro do PS pra condicionar?
Tem a presidência do Conselho Europeu A sala tem a presença do Conselho Europeu.
Mas conta pouco pra política portuguesa neste momento.
António Costa na presença do Conselho Europeu, a querer ser presidente da República daqui por uns anos? Duvido muito.
E essa é a tua aposta, que ele vai querer ser presidente da República.
Claro que vai, é óbvio que vai. Ainda por cima vem de lá um senhor doutor, um senhor da Europa, que todos os grandes líderes europeus respeitam. Era o trajeto de Durão Barroso, se Durão Barroso não tivesse caído como uma espécie de vilão na opinião pública portuguesa, do qual nunca recuperou. Mas os meios de propaganda que António Costa tem ao seu dispor nunca foram os de Durão Barroso. Portanto, António Costa está muito preocupado porque o balanço que agora se faz dos seus governos é particularmente desastroso e portanto isso conta. Mas António Costa também sabe que isto talvez daqui por quatro ou cinco anos vir. E foi António Costa que reagrupou todo este núcleo político, do qual Augusto Santos Silva foi uma das figuras centrais. Portanto, isso continua.
Vamos ter que avançar. Está com zero pontos, vamos ver se consegue agora. Aqui há algum pontinho nesta segunda pergunta e acho que se calhar vai acertar. Em que ano Marcelo Rebelo de Sousa deixou o comentário político?
Em que ano é que ele deixou? Deve ter sido em 2015. Ele decidiu candidatar-se em 2015. Ele foi ao Congresso do PSD.
2015. Está certo! Cinco pontos. Miguel Morgado, tem pretensões de fazer um caminho idêntico até Belém?
Eu? Não, nenhuma.
Isso foi para lhe perguntar, isto do comentário, de ser colunista, é algo importante pra si, é a sua forma também de estar na política?
Eu começo a me preocupar, de facto, com a vulnerabilidade dos partidos políticos e a fragilidade destas candidaturas, porque constato que neste momento, ser comentador político, com alguma visibilidade, evidentemente, porque também há tantos comentadores políticos, nem todos podem dizer a mesma coisa. Mas vi, por exemplo, o major-general Isidro Morales Pereira dizer, com a inocência que o caracteriza, pelos vistos, dizer que estava a pensar naquilo porque as pessoas disseram: "Epá, conheço-te da televisão e tal."
Sebastião Bugalho.
Sebastião Bugalho também, isso foi um disparate, essa candidatura foi decidida pela liderança, Luís Montenegro, Hugo Soares. Esse foi um disparate, um erro crucial político tremendo, onde o PSD se rendeu. Essa vulnerabilidade dos partidos... eu quero que a democracia portuguesa dependa de credenciais políticas que não a de comentador. Vamos ver, que ninguém que nos está aqui a ouvir. Ser comentador é a coisa mais fácil do mundo.
É ter o palco, não é? É conseguir o palco.
E as pessoas dizem os maiores disparates e se calhar as pessoas que me ouviram disseram: "Olha, a começar por ti, tudo bem, eu aceito isso." Mas dizem os maiores disparates sem qualquer tipo de escrutínio.
Impunemente.
Impunemente. Portanto, ser comentador político são as últimas credenciais que nós devemos procurar pra umas boas candidaturas a grandes instituições, desde logo as chefia do Estado.
Mas o Miguel Morgado está confortável na posição de comentador ou gostava de ter-
Eu estou muito confortável como comentador e não quero ser mais do que comentador e professor na universidade. Mas eu só quero dizer isto: a nossa cultura política é um sintoma da sua fraqueza e da sua quase falência, andarmos à procura de comentadores políticos para ser os nossos candidatos às chefias do Estado, às chefias do governo, à liderança parlamentar ou Parlamento Europeu.
Câmaras municipais também.
Digo-lhe uma coisa, ou câmaras municipais. É muito preocupante. A maior parte dos comentadores políticos são comentadores políticos porque provavelmente não arranjam outra profissão e não se querem dar ao trabalho de ter outra profissão, que realmente exige muito mais empenho, muito mais disciplina, muito mais sacrifícios pessoais. Eu apelo a todas as pessoas que nos estão a ouvir, não confiem para apoiar democraticamente, eleitoralmente, para as grandes instituições, em comentadores políticos. Pode haver comentadores políticos que tenham essas credenciais, mas não por serem comentadores políticos, mas por terem outras qualidades, outras virtudes, que se calhar não são demonstradas no comentário político.
Marques Mendes é essencialmente um comentador político ou o passado político que tem torna mais sólida a candidatura à Presidência da República?
Não, eu não apoio Marques Mendes, que isso fique claro. Nestas presidenciais, não apoio. Mas Marques Mendes é um homem de partido, é um homem de partido político, tal como é António José Seguro, por exemplo. Que depois Marques Mendes tenha tentado obter uma notoriedade que não tinha obtido na sua carreira política partidária propriamente dita, através do comentário político que chegava muito mais rapidamente às pessoas, é uma espécie de síndrome Marcelo Rebelo de Sousa, lá está, é um sintoma da falência da nossa cultura política. Agora, apesar de tudo, Marques Mendes não pode ser caracterizado como comentador político. Ele tem uma carreira muito anterior. As pessoas podem dizer: "Mas nós também não queremos só pessoas de partidos que nunca fizeram mais nada senão estar nos partidos." Eu diria que o trabalho partidário e o trabalho de ser ministro, como por exemplo Marques Mendes foi, é muito mais exigente do que ser comentador político. Comentador político não custa nada. É a coisa mais gratuita que pode haver.
Mas é preciso conhecer alguns assuntos.
A maior parte dos comentadores políticos não conhece assuntos nenhuns. E, no entanto, são famosíssimos, bem pagos e se calhar são aplaudidos. E olha, por que não ser presidente da República um dia?
Miguel Morgado, se não apoias Marques Mendes, pode-se saber quem é que vais apoiar nestas eleições?
Dos candidatos que se perfilam, eu não apoio nenhum.
Voto branco? O voto é secreto, obviamente, mas podemos adivinhar isso?
Sim, e revelar em quem é que eu ia votar. E posso votar por razões puramente estratégicas, mas que eu não apoio nenhum, porque não me revejo em nenhuma das candidaturas presentes até agora, acho que isso não é segredo nenhum. E quero sentir-me livre para, lá está, como comentador político, poder criticar todas as candidaturas do modo mais honesto e transparente e sem esconder uma agenda que eu favoreço secretamente. Portanto, eu não apoio nenhuma candidatura das que está atualmente no terreno, nem daquelas que se fala que virão a aparecer E sentir-me totalmente livre para criticar todas elas ou elogiá-las quando fizerem coisas bem, de uma maneira transparente com as pessoas que me ouvem.
Sem conflitos de interesses. Muito bem, cinco pontos, Miguel Morgado. Vamos para a terceira questão: em quantos distritos foi o Chega o partido mais votado nas últimas eleições?
Isso é mais fácil. Temos que contar: foi o meu, Setúbal, um, foi o Algarve, foi Faro, dois, foi Beja, três e foi Portalegre, quatro. Está certo.
Certíssimo. Quatro distritos.
Falharam Évora, para ficarem com o sul todo.
Foi o PS em Évora.
Mas difícil.
Sim, não foi à vontade. Como é que o PSD evita que daqui a uns anos poucos lhe aconteça a mesma coisa que aconteceu agora ao PS, ser ultrapassado pelo Chega?
Paulo, eu sou um homem do sul do país.
Setúbal.
A minha camaradagem aqui com o Bruno. Sou um homem do sul, sempre fui, a minha família é toda do sul, uma costela algarvia, outra costela alentejana, são as minhas referências, é a parte do território que eu conheço bem. Atualmente vivo no sul, até. E a mim sempre me preocupou no PSD, enfim, vocês não são do PSD, mas eu, por enquanto, ainda milito no PSD, até ver. E as pessoas do PSD também ninguém me pode ouvir já, porque há anos que eu ando a dizer que o PSD desprezou o sul do país. Desprezou o eleitorado do sul do país, não quis saber do sul do país pra nada. As estruturas locais, as estruturas nacionais, nunca quiseram saber do sul pra nada. Portanto, o Chega já ultrapassou, antes de ultrapassar o PS, o PSD. Portanto, pra mim a dor é dupla. Bem, eu não estou muito particularmente doloroso com ter ultrapassado o PS. Mas quando o Chega apareceu sem grande custo, quase imediatamente a seguir, ultrapassou o PSD no sul. Em 2024 foi uma vergonha. A comparação dos resultados do Chega para o PSD foi uma vergonha. Eu sei que ficou tudo encantado no PSD nacional, porque tinham ganho as eleições por meia dúzia de votos ao Partido Socialista. Tudo encantado, foi uma grande vitória da democracia. Para mim foi uma vergonha os resultados que o PSD teve em 2024. E agora com esta ascensão do Chega, que defenestrou o eleitorado da esquerda, o PSD é um partido insignificante no sul.
Mas sempre foi de alguma forma.
É verdade.
Primeiro estava entregue ao PCP.
É verdade. Por isso, havia aquela fratura do sul do país, com a qual as pessoas à direita como eu se conformaram durante anos, que era o sul, a começar pela minha terra-
Setúbal.
Mais virada à esquerda, enfim, não se pode fazer nada, isto é um problema geracional, vai durar muitas gerações, o legado do 25 de abril e o Estado. Aquelas conversas que nós dizíamos uns aos outros. Bem, aparece um partido-
O Chega demonstrou o contrário.
O Chega demonstrou o contrário e de uma maneira que era tão simples para o PSD aprender, que a mim custa-me.
Como é que se evita que isso agora aconteça em Santarém, Leiria?
E o que eu vou dizer não é sabedoria em retrospectiva, porque eu disse isto ao presidente do PSD chamado Rui Rio, e disse isto a um presidente do PSD chamado Luís Montenegro, quando Luís Montenegro chegou à liderança em julho de 2022. É muito simples, se o PSD renunciar conscientemente, e acrescento, estupidamente, porque foi um sintoma de estupidez política o que o PSD fez, se renunciar a falar ao eleitorado português sobre temas que lhes são caros, por inibição ideológica, por desconhecimento do terreno, que também acontece. Se aparecer concorrência, como estava na cara que depois da saída de Pedro Passos Coelho ia aparecer concorrência, liberal de um lado e populista, digamos assim, do outro, que o PSD iria ser desfeito.
Aconteceu.
Agora, no governo, há seis meses, perceberam que se calhar não seria tão difícil ao PSD, em 2018, em 2020, em 2022, não agora, mas muito mais cedo, ter começado a falar dos temas que o PSD agora está a começar a falar no governo.
Imigração, por exemplo.
Mas não só. O discurso que tem feito, agressivo até de descida do IRS, é óbvio que esvazia uma parte da agenda da iniciativa liberal. Agora, se tivermos presidentes no PSD, como foi o caso de Rui Rio, durante três anos, e depois Montenegro, durante dois, que dizia esta coisa absurda em termos políticos, que é um líder do PSD dizer assim: "Nós não somos liberais e não queremos cá liberais." Que estupidez política é esta? Como se o PSD não tivesse tido, desde a sua fundação, uma ala informal, desorganizada, não interessa, de pessoas de inspiração liberal. Como se grande parte dos sucessos políticos do PSD não tivessem tido sempre uma inspiração liberal. Tiveram também outro tipo de inspirações, mas tiveram inspiração liberal. O que é a revisão da Constituição de 89? Por imposição europeia, com certeza, mas o que é essa revisão senão uma revisão de inspiração liberal, privatizações, etc. Um líder do PSD dizer uma coisa destas é tão absurdo, pagou-se a fatura. Pagou-se a fatura pequenina no lado liberal. Do lado do Chega, era evidente que se o PSD não tivesse um discurso agressivo contra a corrupção, sobre a segurança, e não ir atrás das mistificações da esquerda, que é: segurança em Portugal? Há problemas de segurança em Portugal? Claro, na Lapa não há. Na Lapa e na Foz, no Porto, também não há. Mas é só sair da Lapa e da Foz, que é capaz de haver problemas de segurança. Não para os senhores deputados, não para os senhores líderes políticos, que vão passar férias para as Caraíbas ou sabe-se lá onde é, e não frequentam os bairros sociais. Pronto, mas se o PSD foi atrás dessa mistificação, agora aparece Luís Montenegro a dizer que há, ou Carlos Moedas. Há problemas de segurança? A sério? Por quê? Porque o Chega foi buscar esse eleitorado. E finalmente, o problema da imigração, que é um tema político em todo lado. Claro que foi agravado pelo descalabro, descontrole total, por incompetência e por consciência ideológica também, da Geringossa. Mas por que o PSD aceitou os termos do debate em Portugal que a imigração era um tema proibido? O último líder do PSD que chamou a atenção para isto foi Pedro Passos Coelho.
Durante a campanha eleitoral.
E é uma boa deixa para passarmos para a próxima pergunta, que é: qual era o cognome do rei Dom Sebastião?
É o Desejado?
É o Desejado, está certo. Esta era fácil. Eu tinha aqui previsto uma outra, mas achei por bem passar para essa, para o cognome do rei Dom Sebastião, o Desejado, porque a pergunta vai mesmo nesse sentido. Pedro Passos Coelho continua a ser o desejado por uma ala importante dentro do PSD ou já perdeu o comboio da política ativa?
A vida política das pessoas mais ativas, dos grandes protagonistas, depende muito da oportunidade. Se deixam passar oportunidades, podem não ter outras lá mais à frente.
E Passos Coelho deixou passar?
Das presidenciais, a meu ver, deixou, mas as escolhas são dele, não sou eu que decido por ele. Ele é que decidiu, não queria ser presidente da República, não se queria candidatar. Fui lá com ele, ele fez essas declarações com muita antecedência e depois não valia a pena estar a insistir. Agora, eu não sei o que é que o futuro trará, mas pode acontecer, como pode acontecer, por exemplo, a António Costa, que quer ser presidente da República, evidentemente quer, pode não ter a oportunidade para isso. Eu acabei de dar o exemplo de Durão Barroso. Durão Barroso também andou aqui anos a contar que depois da Comissão Europeia teria uma oportunidade, e acho que já não vai ter. Portanto, Pedro Passos Coelho, se ignora oportunidades que lhe aparecem, por razões válidas, com certeza, pode não ter outras oportunidades lá pra frente.
Seria o líder capaz de esvaziar ou pelo menos aplacar este crescimento do Chega?
Claro, mas isso é óbvio, porque o Chega só existe, e a Iniciativa Liberal também, são dois fenômenos que fazem parte da mesma orfandade em que a direita política caiu a partir do momento em que Rui Rio se tornou presidente do PSD. Mas sobre isso não há dúvida nenhuma. E eu volto a dizer, que ninguém me diga, pelo menos a mim, não é só a mim, outras pessoas estiveram ao meu lado nessa altura, mas a mim ninguém pode dizer que é dizer isso quatro ou cinco anos depois de acontecer. Isso não é verdade. Eu disse ao Rui Rio, fora apropriados no PSD e fora na comunicação social também, em 2018, que isto era óbvio, que aquela estratégia de tentar ser uma espécie de sobreposição do Partido Socialista era completamente absurda. Se Rui Rio quisesse ser líder do PS, então podia se desfiliar do PSD, filiar-se do PS e depois tentar ser secretário-geral. Agora, tentar fazer aquilo tudo com o apoio daquela gente toda, Paulo Mota Pinto, Pacheco Pereira, causaram uns belos danos, não só ao PSD, mas à direita portuguesa e à democracia portuguesa. Agora têm o Chega, são os grandes responsáveis por seu crescimento do Chega. O meu ponto foi sempre, e acho que Pedro Passos Coelho também, foi sempre este: o PSD é uma sede política da moderação, do lado direito do espectro político. O PS desempenhou durante uns anos ser o mesmo papel análogo à esquerda, sede da moderação à esquerda, como António Costa, atirou-se pra janela. É um dano muito grave que António Costa causou à democracia portuguesa, mas o PSD foi sempre essa sede de moderação. O que significava que temas, problemas, questões que afetam a população portuguesa tratadas dentro de uma sede de moderação nunca teriam as derivas dessas mesmas questões quando tratadas por outros protagonistas, por outras plataformas, por outros partidos. E as pessoas dizerem: "Não, mas o André Ventura era militante do PSD e o PSD nunca pode falar sobre temas sobre segurança e imigração." Essas pessoas precisam de uma lição de democracia e do papel civilizador e moderador dos grandes partidos populares, no centro-direita e no centro-esquerda. Quando os partidos, o PS com Costa e o PSD com Rui Rio, dizem assim: "Nós já não queremos desempenhar esse papel", muito bem, são escolhas partidárias sufragadas pelos militantes.
Mas depois abrem espaço.
E têm de assumir as responsabilidades pelos danos que causaram.
Miguel Morgado, vamos à última questão.
Está com 15 pontos.
Quinze pontos para chegar a 20.
Vou levar o carro, por causa disso.
Exatamente, está ali à porta já. A última questão é esta: quantos partidos conseguiram representação parlamentar nas primeiras eleições legislativas, as de 76?
Isso agora, deixe-me ver. CDS, PSD, PS, CDP, PCP. Seis?
Não, então vamos lá contar outra vez.
Vamos lá, vamos lá.
Então é o PCP, o Partido Socialista, o PSD, o CDS, a UDP.
São cinco.
Então são?
Não.
São cinco.
Quantos são?
Não foi o que eu disse há pouco?
Não, seis.
Eu disse seis, mas era menos que eu queria contar.
Contaste cinco, disseste seis. São cinco, precisamente. São precisamente esses. Hoje são 10 e os dois partidos centrais, o PS e o PSD, nunca tiveram uma representação tão pequena. Se somarmos o PCP, menos ainda. Isto é uma reconfiguração do sistema partidário português.
Não é. A ascensão do Chega mudou tudo. Agora nunca sabemos se estamos num-
À esquerda também. O Livre hoje tem mais deputados do que o PCP e o Bloco de Esquerda juntos, por exemplo.
É verdade, mas aí a reconfiguração da esquerda começou nos anos 90 com a ascensão do Bloco de Esquerda. Agora é que o Bloco de Esquerda está em vias de extinção, mas é preciso não esquecer que essa reconfiguração vem primeiro. Havia uma grande estabilidade à direita, o PSD e o CDS, havia aqueles momentos em que o CDS parecia quase ali no momento de grande fragilidade, perto da extinção, com o PSD muito grande, hipertrofiado, e depois isso por algum período de crise do PSD, o CDS crescia sempre um bocadinho. Mas eram aqueles dois partidos e não havia outros. No caso da esquerda, não. Nos anos 90 traz essa grande novidade do Bloco de Esquerda, que foi muito importante até pra reconfigurar ideologicamente o PS. O PS sempre se sentiu muito inferiorizado intelectualmente com o Bloco e, portanto, tivemos aquela fase, que depois com o Sócrates tem uma grande explosão, de uma geração mais nova do Partido Socialista radicalizados, que agora estão de crista mais baixa, mas andaram todos radicalizados ideologicamente, a alinhar pelas posições do Bloco de Esquerda. Depois, economicamente, tiveram que se proteger um bocadinho por causa das posições europeistas do Partido Socialista, mas compensaram isso com a questão do wokeismo, dessas ideologias que aparecem pós-modernas, onde basicamente foram copiar a agenda deixada pelo Bloco de Esquerda. Isso agora também parece estar tudo a mudar. O Chega, no entanto, tem uma ascensão tão forte que não reconfigura só a direita, reconfigura o sistema todo. Agora, não sabemos se isto é uma transição pra uma outra coisa qualquer.
Ou se é uma tendência que vai ser reforçada.
Ou se vai ser reforçada. Se for reforçada, nós vamos ter um problema de instabilidade política endêmica. Não estou a ver como é que estas coisas se resolvem assim tão facilmente. E parece-me que o desastre da política de migração de Costa deu uma âncora e uma raiz do Chega na sociedade portuguesa que é mais difícil de extirpar do que se houvesse apenas temas pontuais como a corrupção deste ou os ciganos em determinado território, e seriam coisas muito mais contíveis, muito mais condicionadas. A partir do momento em que a imigração se torna um dos grandes temas políticos do debate português, o Chega tem uma vantagem sobre todos os outros interlocutores. E isso, uma vez mais, é um dano que António Costa causou à nossa democracia, e também por incompetência do PSD em se ter comportado como partido que tinha um papel importante a desempenhar. Agora o Chega traz essa grande mudança.
O certo é que conseguiu 20 pontos.
20 pontos, Miguel Morgado.
Nada mal. Dos melhores podcasters.
São Tomés e Angolas.
É verdade. Não, temos que tratar bem o novo convidado. O Miguel Morgado não vai voltar na próxima comissão de inquérito, mas vai estar semanalmente com o artigo de opinião no Observador. Miguel Morgado, muito obrigado por ter comparecido a esta comissão de inquérito. Obrigado.