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Começa agora mais uma conferência de imprensa das manhãs 360, altura em que destacamos histórias ou artigos da imprensa nacional ou internacional. A hora muda este fim de semana, de sábado pra domingo. É preciso preparar o nosso corpo pra isso. O artigo é da CNN. Adiantar o relógio uma hora parece uma coisa inofensiva, quase todos nós ansiamos por dias mais longos, cheios de luz.
E hoje é preciso com o relógio, mas com a atualização automática.
O nosso telemóvel muda sozinho. É pra nós relógios não mudarem também.
Quem me dera! Os analógicos.
E alguns eletrodomésticos, sobretudo na cozinha, que também têm relógio. E depois não sabemos quais são aqueles que atualizam automaticamente os que não.
Isso pode embaralhar. A vida é muito dura.
É muito dura e a mudança da hora mexe com a nossa saúde e pouco ou nada se pode fazer pra travar o impacto no nosso relógio, o nosso próprio relógio biológico. Há estudos que apontam para consequências dos pés à cabeça, quase literalmente. Nem todos são conclusivos, mas há consenso médico pra importância de haver um só horário o ano todo. Por exemplo, uma investigação da Academia Americana de Medicina do Sono aponta para um aumento dos níveis de cansaço com a chegada do horário de verão, em que o período de claridade é maior, o que direta ou indiretamente aumenta o tempo de estresse. Segundo a Universidade Harvard, estas mudanças de hora trazem várias consequências, não apenas no cansaço, como no apetite e até na concentração. Exemplo disso é um outro estudo que mostra um aumento de 6% em acidentes de carro no dia depois da hora mudar. Não temos noção disso, mas há muitos estudos sobre isto. E apesar de pouco ou nada se poder fazer para travar o impacto na nossa saúde, os especialistas, a Fundação Americana do Sono deixa algumas dicas que podem ajudar a atenuar os efeitos. Já devíamos ter começado, porque é suposto ser três dias antes da hora mudar. Mas antes qualquer coisa do que nada. Dizemos que nos devemos expor a mais luz nesses dias, adaptar a hora de deitar e levantar e moderar o consumo de álcool e cafeína até o dia da chegada do horário de verão. Se resulta ou não, não sei.
Estás a ouvir bem, Bruno?
Talvez, talvez isto seja-
Tens de largar a cafeína.
Isto deve ser importante para quem vai trabalhar no domingo, pelo menos. Quem está a trabalhar no domingo. Há muitas pessoas que fazem.
Mas, na verdade, isto tem mais impactos do que nós pensamos ou que nós sentimos. E há muito pra ler, está na CNN Internacional.
Eu vou aqui uma notícia do The Guardian, tem a ver com o escritor, o argelino Boualem Sansal, que na quinta-feira foi condenado por um tribunal argelino a cinco anos de cadeia e já vou explicar o porquê. E agora o presidente francês Emmanuel Macron apelou à Argélia para que o escritor fosse libertado. Boualem Sansal é franco-argelino. Ele foi preso em 16 de novembro, quando chegou ao aeroporto na Argélia, depois de estar em Paris, onde deu uma entrevista a um meio de comunicação ligado à extrema-direita, o Frontier, e disse que a França tinha cedido ilegitimamente território marroquino à Argélia no período colonial. E foi por isso que foi acusado, de acordo com o artigo 87 do Código Penal argelino, que estabelece penas para quem põe em causa a unidade, a integridade nacional, quem insulta um organismo oficial e também põe em causa a economia nacional. Também foi acusado de ter na sua posse vídeos e fazer publicações que ameaçam a segurança nacional e a estabilidade. Boualem Sansal foi condenado a cinco anos de prisão e a uma multa de cerca de €3.000. De acordo com os meios de comunicação social franceses, Sansal terá dito em tribunal que os comentários que fez e as publicações eram apenas uma opinião pessoal à qual tinha direito, como qualquer outro cidadão argelino. Os procuradores em Argel tinham pedido inicialmente uma pena de 10 anos para Boualem Sansal, que entretanto tinha sido diagnosticado com um câncer e nos primeiros tempos em que esteve detido até tinha estado no hospital. E Macron, o presidente francês, disse agora esperar que as autoridades argelinas mostrassem algum bom senso, alguma humanidade, e que dessem a liberdade ao escritor, até pelas condições de saúde em que se encontra. Ele anteriormente fez parte de governos da Argélia, Boualem Sansal trabalhava para o Estado e criticou desde 2006 a ascensão do Islão, politicamente, na Argélia. E esta prisão, durante algum tempo, não se soube muito bem em que condições é que ele se encontraria, foi criticada por vários intelectuais, como Salman Rushdie, Orhan Pamuk, Annie Ernaux, Prêmio Nobel, que se manifestaram a favor da libertação, a pedir a libertação de Boualem Sansal. E tudo isto também acontece num quadro de deterioração das relações entre Paris e Argel, porque Emmanuel Macron apoia a soberania de Marrocos Sobre territórios do Saara Ocidental, e isto desagrada às autoridades argelinas. Boualem Sansal está no meio desta disputa e destes desentendimentos. Num discurso feito no Parlamento argelino em dezembro do ano passado, o presidente Abdelmadjid Tebboune disse que Sansal era um impostor, que nem sabe quem é, que não sabe quem é o pai e que vem dizer que metade do estado da Argélia pertence a outro país, e esse foi o motivo para ter sido acusado. De facto, houve um grande movimento de intelectuais em todo o mundo a exigir, nos últimos meses, a libertação do escritor, mas só agora, na quinta-feira, é que ele acabou por ser condenado. Vamos ver o que acontecerá. A presidente da Federação de Editores Europeus, Sonia Draga, disse que ficou espantada com esta sentença, diz que Boualem Sansal deveria ser libertado e que o seu único crime foi ter manifestado a sua opinião. Não foi esse o entendimento das autoridades argelinas. É um caso que tem dado muito brado e que tem estado em vários órgãos de comunicação social. Esta notícia em particular está no "The Guardian".
No "Guardian". Eu trago uma notícia do Diário de Notícias, da tradutora de vários autores portugueses para hindi e que fez uma tese de doutoramento sobre um tema improvável: os palavrões em português. O Leonídio Paulo Ferreira falou com a Manjulata Sharma. É uma acadêmica indiana, já traduziu livros de Saramago e agora veio a Lisboa para apresentar a edição em hindi da grande obra de Fernando Pessoa, a "Mensagem". E quando o Leonídio lhe pergunta se foi muito difícil traduzir a "Mensagem", ela responde: "Pra caramba!" E não é por acaso este vocabulário, porque ela esteve seis anos no Rio de Janeiro, no Brasil, a estudar este tema fraturante, os palavrões na língua portuguesa. Como é que isto começa? Ela explica: "Eu ouvia tantos palavrões que não se ensinavam no manual de português para estrangeiros. E há um dia que eu vou à faculdade e vejo escrito, calculo que numa parede, a palavra que começa por P, acaba em A e tem dois Rs no meio." E ela diz que não sabia o que era aquilo, não entendeu, voltou a casa e perguntou a um amigo brasileiro o que aquilo significava. Ele explicou-lhe, mas disse: "Mas isto não é pra dizer". E ela: "Claro, então tudo bem, não falo". Mas depois, chega à estação do metrô, chega ao autocarro, toda a gente dizia não só essas palavras, mas também aquela que começa por C, a outra que começa por M. E então tive a ideia.
Podes ser mais claro.
Não consigo.
Pronto.
Há crianças a ouvir.
Claro. Assim ficamos sem saber. Não, exatamente.
É mesmo difícil de entender. É que nem o DN as publica.
Deixa só umas reticências.
Fica com umas reticências, menos aquela do P, a primeira, mas eu acho que não é necessário.
Sim, depois percebemos.
É preciso apelar à imaginação dos nossos ouvintes. O que acontece? Ela apresentou esta ideia como tema à orientadora. Era uma professora que estava muito perto da reforma e que disse: "Não, vais por aí, é melhor não". Mas passaram uns dias e foi a orientadora que ligou e disse: "Vamos fazer isso". E assim foi. E esta acadêmica indiana diz que não percebe por que essas palavras têm que ser tabu. A verdade é que ela tem, além disso, o rasto de uma vasta obra erudita traduzida para hindi. Traduziu mesmo no ano passado, em 2024, a "Viagem do Elefante", também há muitos anos o "Conto da Ilha Desconhecida", agora acabou de traduzir a "Mensagem". Diz que foi muito difícil, porque não foi só a dificuldade das referências de Fernando Pessoa, como também figuras como o Infante D. Henrique. Ela diz que há contextos históricos que os indianos não conhecem tão bem como os portugueses, mas aí a própria passagem da língua portuguesa para o hindi, calculo, não pode ser literal, teve que trabalhar a visão do poeta, mas dedica-se mesmo aos palavrões da língua portuguesa, no Diário de Notícias. Muito giro, Carla.