Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Sejam bem-vindos. Este é Conquistar o Futuro, um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada, onde olhamos para a forma como estamos a preparar e a formar a próxima geração e as lideranças do futuro mais próximo. Isto do direito à arquitetura, da economia às relações internacionais. Vamos saber como é que os professores de hoje preparam os profissionais de amanhã. Eu sou o Paulo Ferreira e hoje tenho comigo Mário Antão, é professor de gestão na Universidade Lusíada. Mário Antão, bem-vindo, é um gosto recebê-lo. O nosso sistema de ensino, e se quisermos focamos já na gestão, está a preparar bem os nossos jovens para aquilo que são as exigências das empresas, dos mercados de hoje?

Antes de mais, cumprimentar os nossos ouvintes. É um prazer estar aqui. Muito obrigado pelo convite. Se estamos a preparar bem os jovens? Estamos. Eu diria que nós temos sempre um espírito crítico relativamente aos jovens, o que é positivo. Aliás, em Portugal temos um espírito crítico relativamente a muita coisa, o que também é bom, e já explico porque penso isso.

Claro.

Objetivamente, há vários indicadores, um deles, que é um inquérito PISA, que no fundo nos dá informações sobre o nível de preparação dos estudantes com 15 anos, porque esses, de facto, são os que vão chegar à universidade e que nos dão indicação do seu nível de qualidade. Estamos a falar em termos médios. E nós tivemos um período relativamente abaixo dos indicadores da OCDE, depois melhoramos. E depois do ministro Nuno Crato, tivemos um período de tempo com vários ministros, sempre a melhorar. Caímos nos últimos anos um pouco, ainda assim, no nível de literacia estamos melhor, quer em termos matemáticos, quer em termos do português. Há um indicador novo que é muito interessante e que nos coloca num lugar importante, que tem a ver com a criatividade, com a capacidade crítica e hoje isso é determinante.

É fundamental.

Fundamental. E, portanto, eu acho que sim, que em geral, sim.

No caso concreto do ensino da gestão e da economia, se quisermos, são duas áreas próximas, gêmeas quase. Tem havido evolução, imagino, dos conteúdos curriculares, dos cursos. Em que sentido é que essa evolução está a acontecer?

Sim. As universidades em geral respondem àquilo que é o contexto e que são as necessidades que se vão observando. Há uma evolução muito grande, que no fundo, nós achamos sempre que o passado recente é muito mais imprevisível do que era, mas isto acontece desde há muitos anos para cá. É claro que hoje em dia vivemos grandes desafios.

E mudanças muito rápidas.

Mudanças muito rápidas. E aqui, no fundo, essas mudanças levam a que nós passemos de uma lógica de transmitir conhecimentos, eu diria, de forma relativamente estática, para valorizar a capacidade criativa, a capacidade de adaptação e a resiliência dos jovens. Que em termos de resiliência, chegam à universidade um bocadinho em contraciclo com isto que se deseja, porque hoje em dia os jovens têm duas características que têm que trabalhar. Uma é a lógica muito imediatista. Os jovens hoje têm muita necessidade de resolver as coisas de imediato.

Resultados muito rápidos, quase imediatos.

Sim.

Tem muito a ver com a tecnologia e o impacto da tecnologia nas nossas vidas, de alguma maneira.

Também tem. Sim, tem. E podemos falar um bocadinho sobre isso. E tem outra característica que nós lhe incutimos no sistema de ensino, não universitário, mas-

No secundário

...secundário, que é decorarem matéria, saberem a matéria. E a grande mudança é conseguir que eles estejam abertos à mudança, sejam criativos, resistam à mudança de contexto, porque o grande desafio é este, é a mudança de contexto. Isto significa que nós hoje em dia valorizamos matérias e temas diferentes daqueles que valorizávamos no passado. Digamos que há um tronco comum que é essencial e tem que se manter.

Continua a ensinar-se matemática financeira, as matemáticas, e por aí fora. Contabilidades.

Exatamente. É o lastro indispensável. Mas depois é preciso estimulá-los. E para isso nós precisamos de os preparar em termos de capacidade de liderança, em termos de pensamento estratégico, pensamento a longo prazo, assumir ruturas com o passado. Porque nós nas empresas ainda temos muita gente a dizer-nos: "Eu faço isto há 30 anos assim, por que é que vou mudar?" Porque se não mudar, vai deixar de existir.

Claro.

E nós vimos isto nos setores todos, até no setor da comunicação.

Dos media, claro. Comunicação social, sem dúvida.

Em todos. E, portanto, eu diria que hoje em dia valorizamos o pensamento estratégico, a liderança, o trabalho de equipa. Até porque estava a falar há pouco de tecnologia. Há duas maneiras de abordar a tecnologia. Dizermos: "A tecnologia é um flagelo", porque nos engana a todos e nós que fazemos avaliações de alunos do segundo ciclo e do terceiro ciclo, sobretudo, mas também do primeiro, portanto, alunos de mestrado e de doutoramento Temos sempre a preocupação de garantir que o trabalho foi feito por quem nos apresentou o trabalho.

Claro, a integridade académica.

A integridade académica, que não existe plágio.

É um tema muito falado hoje em dia, de facto, a utilização de ferramentas tecnológicas para fazer a tese.

Sim.

Claro. O plágio também antigamente já existia.

É isso que eu ia dizer, o plágio hoje é mais facilmente detetável do que era antigamente. Porque antigamente fazia-se uma tese de doutoramento e a possibilidade dos avaliadores, do júri, poder determinar o nível de plágio era diminuta. Isso hoje em dia há ferramentas que nos permitem, com um grau de certeza muito grande, perceber isso. Eu gosto mais de ver a tecnologia na perspectiva positiva, construtiva. Isto tem um pouco a ver com o que estávamos a falar, ou seja, se eu pedisse, e pedi, há 10 anos aos meus alunos para fazerem um trabalho, provavelmente eles iam gastar 95% do tempo a fazer pesquisa bibliográfica, a fazer recolha de informação. Hoje em dia, se calhar, eles fazem isso em 10% do tempo.

Não perdem tanto tempo nessa parte instrumental, de alguma maneira.

O que é que tem que ser a contrapartida disto? A capacidade criativa, a capacidade de associar realidades, a capacidade de definir um novo contexto, perder o medo da rutura com o passado, que é uma preocupação que nós temos nas universidades. Nós temos muita preocupação de haver uma rutura com o passado e de aproximar os estudantes da realidade empresarial, da realidade da economia. E por isso é que hoje em dia é pouco um aluno, seja de licenciatura, mais ainda de mestrado e doutoramento, mas de licenciatura também, ter como objetivo saber a matéria e reproduzir aquilo que vem dos manuais. Não, nós temos que valorizar a criatividade, a resiliência.

E o ir para além daí. Isso significa, usando aqueles chavões típicos aqui destas áreas, que se dá cada vez mais importância aos soft skills em relação aos hard skills.

Sem dúvida.

Para estimular um pouco essa criatividade e essa utilização de ferramentas em novas circunstâncias.

Sim, é verdade. Eu posso contar rapidamente uma experiência. Nós convidamos uma referência internacional na área do recrutamento para, num anfiteatro, falar com os nossos alunos.

Para uma palestra.

Para uma palestra. E em determinada altura, ele é muito interativo e perguntou: "Então aqui, quem é que já trabalhou? Então o que é que tu fizeste? E tu?" Depois perguntou: "E experiências fora do contexto universitário, o que é que vocês tiveram, o que é que tu tiveste?" E no fundo, ele disse que escolhia três pessoas.

Ele estava ali a simular o recrutamento.

E ele escolheu um aluno que trabalhava na caixa de um hipermercado, escolheu um aluno que tinha tido uma vida com múltiplas experiências, porque em função da atividade da mãe, viveu em vários contextos, e escolheu um aluno que até estava a repetir um dos anos, mas que era um indivíduo que aceitou N desafios de experiências completamente diferentes. E portanto, é isso que hoje em dia se valoriza.

É esse perfil. Nós já falámos há pouco da tecnologia também. É reconhecido em Portugal, penso que de uma forma muito consensual, que temos pouca consistência de políticas públicas, tivemos níveis de gestão de empresas também pouco exigentes. Como é que nós podemos melhorar isto? Isto começa muitas vezes na universidade, de alguma maneira.

Sim, começa nas universidades. Eu acho que há uma questão de fundo que coexiste, quer em termos de gestão pública, quer em termos até de gestão privada, que é uma coisa que nós estudamos muito, mas que ainda não conseguimos pôr em prática, que é: cada vez mais é importante valorizar a performance e os resultados. Mas nós continuamos a avaliar a performance e os resultados muito a curto prazo. Quando nós falamos da área pública, porque há eleições de quatro em quatro anos, é preciso apresentar resultados, é preciso ganhar as eleições e, portanto, tudo o que são medidas de fundo essenciais, mas que têm um payback, um retorno a mais de quatro anos, ficam na gaveta porque são um risco. Nas empresas acontece um pouco o mesmo. Os conselhos de administração são escrutinados entre dois e quatro anos.

Quando são empresas cotadas, até trimestralmente.

Exatamente. Mas no fundo, como nós dizemos, põe-se a cabeça no cepo perante os acionistas, em um horizonte temporal relativamente curto.

Sim, que são mandatos curtos.

E isso condiciona-nos muito em termos das decisões que tomamos nas empresas. Eu agora estou a falar na perspectiva de empresa que também tenha essa experiência. O que eu acho que se pode fazer. Por um lado, a globalização leva a que nós tenhamos alunos que vão para todo o mundo trabalhar. Da mesma maneira que recebemos profissionais de outros países. E isso ajuda. O que nós temos que fazer nas universidades é preparar e demonstrar às pessoas que o paradigma mudou. Um exemplo Daquilo que são as disciplinas de base mais tradicionais. Nós, quando olhávamos pra projetos, ensinávamos os alunos a escolherem o mais rentável.

Está falando de projetos de investimento, análise de projetos de investimento, API.

Sim.

Eu sou de gestão, da minha formação, ainda me lembro, basicamente.

Então percebe perfeitamente o que eu estou a dizer. Nós valorizávamos muito a taxa interna de rentabilidade mais alta, o valor atual líquido mais alto, o payback mais rápido.

Payback é o período de retorno do investimento. Só pra descodificar pra quem nos ouve também.

Sim. Hoje em dia, nós temos que preparar os alunos para indicadores de competitividade a longo prazo. E portanto, se um aluno tiver que escolher, um aluno enquanto estudante, porque há uma preocupação que nós temos, e acho que é muito relevante essa preocupação, e as universidades têm que ter cada vez mais essa preocupação, que é a simulação. Nós fazemos muita simulação empresarial, muito estudo de caso, que é uma coisa que lá fora começou mais cedo.

Claro.

Sobretudo nos Estados Unidos, mas hoje em dia valorizamos muito. Mas portanto, se o aluno tiver que escolher entre um projeto que tem um pouco mais de rentabilidade, mas tem um nível de risco maior e que não nos garante competitividade a longo prazo, claramente hoje tem que escolher o outro. Tem que escolher o projeto que, garantindo a rentabilidade exigida pelos acionistas, e nós sabemos qual é essa rentabilidade, porque os acionistas nos dizem, e percebemos que os fundos de investimento exigem 8,5% ou mais, dependendo depois dos instrumentos que existem. Os contextos também condicionam.

Claro, e de investimentos alternativos.

Exatamente, de investimentos alternativos, com o mesmo nível de risco, tudo isso.

A questão da sustentabilidade de alguma maneira do projeto em si.

Sim, a sustentabilidade é um tema interessante. Posso dar só uma opinião sobre isso. Eu estive nos Estados Unidos há dois anos e fui confrontado com uma realidade que foi surpreendente pelo impacto claro que tem na economia e na forma de pensar nas universidades, em Silicon Valley, foi onde estive, e que me permitiu confirmar uma opinião que eu já tinha, que é: a sustentabilidade tem que ser competitiva. Isto quer dizer o quê? Eu estive nos Estados Unidos nessa altura também porque estive numa mesa-redonda sobre energia.

Que é um setor crítico hoje em dia.

Exatamente. E discutia-se muito o DME, que é um aditivo que se põe no gás propano pra reduzir a emissão de CO₂. Na mesa havia 18 pessoas, das quais três eram americanos, os outros eram europeus, asiáticos. E os americanos diziam assim: "Este projeto tem 15 anos. Andamos 15 anos a investir nisto. Qual é o ganho que eu consigo ter com esse aditivo? Não, isto fica mais caro. É como o biopropano. O biopropano custa 30% a 38% mais, este aditivo custará 26%, 28% mais". E os americanos foram muito pragmáticos: "No dia em que se reduzir o custo, nós alinhamos. Até lá, não".

Acham que o custo, neste momento, a oportunidade não é compensadora. Portanto, há uma visão mais radical nos Estados Unidos, a favor da rentabilidade dos projetos.

E nós na Europa temos, e aqui tem a ver também com economia, valorizado muito as preocupações ambientais. Contribuímos relativamente pouco, contrariamente ao que se pensa, para as emissões de CO₂ a nível mundial. Somos uns bons alunos, e fica-nos bem, mas ao mesmo tempo perdemos competitividade. E, portanto, nós o que temos que fazer é trabalhar no sentido de dizer: vamos valorizar a economia circular, a sustentabilidade, para conseguir que custe menos fazer bem, porque nessa altura nós vamos conseguir.

Claro, equilibrar esses dois valores que estão em jogo. Tem ideia de como é que está a empregabilidade dos licenciados desta área da gestão?

Sim. Os nossos licenciados, e portanto, eu penso que não são só os nossos. Nós temos uma vantagem, porque temos um número de ex-alunos muito grande, temos alunos em lugares muito importantes e portanto isso também cria oportunidades adicionais. Mas mesmo sem ter em conta essa variável, os alunos de gestão e de economia conseguem um elevado nível de empregabilidade. Hoje em dia, os jovens profissionais enfrentam uma realidade diferente daquela que era a clássica, que vivem com menos recursos em termos proporcionais, mas conseguem, claro, com dificuldade, ainda assim continuar a valorizar a questão das soft skills que estávamos a falar há pouco, porque viajam de forma mais barata, porque têm mais mundo, porque conhecem.

Acesso à informação e ao conhecimento muito mais rápido.

Exatamente. Custo muito mais baixo. Eu quando fiz a minha tese, tive que ir pra Madrid, tive que ir pra Paris pra consultar, pra não sei o quê. Hoje em dia estamos à distância de uma tecla, não é?

Sem dúvida. Mário, então e para fechar essa nossa conversa, que conselho que daria ou que dá, porque está nessa posição clara de professor, a um aluno seu do primeiro ano, no fundo, pra que ele venha a ser um excelente profissional nesta área de gestão?

Sim. Eu falo com os alunos todos, porque sou coordenador quer da licenciatura, quer do mestrado em gestão e, portanto, apanho ali as duas fases, além dar aulas aos dois ciclos e também nos doutoramentos.

Para que anos é que dá aulas agora?

Eu dou aulas ao terceiro ano de gestão Dou aulas no mestrado, oriento teses de mestrado e quando temos o doutoramento ativo, porque umas vezes temos outras não.

Apanha-o já numa fase final da formação, se quiser.

Portanto, apanho desde colegas até alunos acabados de entrar na universidade. Para os que entram na universidade, a pergunta era essa.

Quando ainda há muita coisa a moldar, se quiser.

Sim. Eu costumo dizer aos alunos, por um lado, que os melhores alunos não vão ser os profissionais com mais sucesso. Para os abanar um bocadinho.

Para relativizar logo as coisas.

E explico-lhes que eles têm que ter mundo. E quando digo que têm que ter mundo, para fazer aqui um pacote, porque era um conselho, o ter mundo tem a ver com, de facto, conhecer o mundo, conhecer outras culturas, ter experiências fora da zona de conforto, seja em termos de voluntariado, seja experiências profissionais em part-time, no verão. Nós fomentamos inclusivamente estágios e, no fundo, o conselho é que eles sejam críticos e criativos relativamente àquilo que ouvem e que veem, porque isso vai fazer toda a diferença, vai prepará-los para a vida, vai prepará-los para enfrentar dificuldades. Sabemos que as dificuldades são inevitáveis. Nesta área da gestão, não há ninguém, se calhar, que consiga cumprir o seu percurso profissional sem viver direta ou indiretamente uma falência, uma insolvência, sem ter maus chefes e bons chefes, sem ter momentos de grande motivação e momentos de desmotivação.

E sucesso e fracasso também.

E sucesso e fracasso. E os empreendedores aí têm um contributo importante para o conhecimento a este nível, que é: transformam os fracassos em momentos de grande aprendizagem e dão-lhes uma alavancagem enorme. E é isso que eu quero que os alunos percecionem e percebam quando chegam à universidade, é que vão enfrentar isto, esta realidade, e têm que se preparar para ela.

Muito bem, Mário, então foi um gosto recebê-lo aqui.

O prazer foi meu.

Neste podcast "Conquistar o Futuro", é um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada. Voltaremos brevemente com uma nova área do saber e um novo convidado. Até lá.

Muito obrigado.