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Sabia que o aneurisma da aorta abdominal afeta sobretudo homens a partir dos 65 anos? É uma doença silenciosa e potencialmente fatal se não for detectada a tempo. Através de uma simples ecografia, é possível identificar precocemente esta doença e, em casos selecionados, tratar através de cirurgia. É sobre esta doença desconhecida que vamos falar neste "Consulta Informal", um programa que faz parte do Arterial, a secção do Observador totalmente dedicada às doenças cerebrocardiovasculares. Como habitualmente, convidámos um médico e um doente. Ricardo Castro Ferreira é cirurgião vascular e professor da Faculdade de Medicina do Porto. E talvez conheça o doente. Júlio Isidro, um dos mais relevantes nomes da televisão portuguesa, descobriu por acaso que tinha esta doença num exame de rotina, tendo sido submetido a uma cirurgia em 2019. Obrigada aos dois, por terem aceitado o nosso convite. Começo pelo Ricardo Castro Ferreira, para que nos explique que doença é esta, o que é o aneurisma da aorta abdominal e quem é que afeta mais.

Muito bom dia, Cláudia. Bom dia, Júlio Isidro. De facto, o aneurisma da aorta abdominal é uma doença muito peculiar, em que a principal artéria do nosso corpo, por diversas razões patológicas, começa a dilatar e vai dilatando ao longo dos anos. À medida que vai dilatando, as suas paredes vão enfraquecendo, a tensão na parede vai aumentando e o risco de rotura vai aumentar. E aumentar de forma exponencial, até um ponto em que ele acaba por ser proibitivo e rebenta. E ao rebentar, temos uma catástrofe da medicina, com uma mortalidade muito alta. E a peculiaridade desta doença é o facto de à medida que a artéria vai dilatando, não dá qualquer sintoma, mas está ali para o médico detetar, para o médico ver e para o médico seguir atempadamente. Depois há diversos critérios muito objetivos que nos fazem, em determinado ponto, decidir: "OK, é para tratar". E temos tratamentos muito efetivos e de baixa morbilidade, que são eficazes a resolver o problema.

Morbilidade, que significa?

Complicações, acima de tudo.

Associadas a?

Associadas ao tratamento.

À intervenção. Isto não dá sintomas, então leva-nos a pensar que podemos estar a passear e a ter a vida tranquila, sem qualquer indício de que possamos ter esta doença.

Sem dúvida. A peculiaridade desta doença, quando falamos em doença, estamos habituados a falar em sinais, sintomas e a estar atentos a esses sinais e a esses sintomas. Com o aneurisma da aorta abdominal, eles não existem. Nós podemos estar cinco, 10, 15 anos com este assassino, entre aspas, dentro de nós, e não fazemos a menor ideia, não temos qualquer sintoma, estamos a andar, estamos a guiar, estamos a fazer a nossa vida completamente normal. E quando aparece o primeiro sintoma, normalmente é o sinal de rotura ou pré-rotura iminente, e é uma das maiores emergências da medicina e um dos problemas com maior taxa de mortalidade, se acontecer esse cenário. Nós queremos que não aconteça. E temos muitas formas que, de facto, não aconteça, se estivermos atentos e se estivermos conscientes para a doença.

E como é que fazemos isso? Imaginando que as pessoas vão ver este programa e que vão ficar naturalmente assustadas, chegam ao médico de família e falam sobre isto. O médico de família ou medicina geral e familiar deverá pedir um exame em específico? Ou seja, como é que se reverte esta situação?

Exatamente. Pelas características desta doença que estamos a acabar de falar, de não dar sintomas, mas ter esta evolução temporal que nos permite diagnosticar a doença com alguma facilidade. Existem critérios muito bem definidos, critérios escritos e com recomendações fortíssimas da Sociedade Europeia de Cirurgia Vascular e de Cardiologia, que nos dizem que em homens com idade igual ou superior a 65 anos, uma simples ecografia abdominal realizada uma vez, permite-nos diagnosticar e orientar para seguimento, ou então ter simplesmente: "OK, não tenho diagnóstico", as pessoas com a doença. Isto está recomendado para homens com 65 ou mais anos, porque a doença é oito vezes mais frequente em homens do que em mulheres. Então o custo-benefício de rastrear a população está muito estabelecido nos homens, nas mulheres, só mesmo se tiverem familiares em primeiro grau com a doença.

Muito bem. Júlio Isidro, muito obrigada por ter prontamente aceitado este convite. No seu caso, foi uma autêntica surpresa e segundo julgo saber, num exame de rotina.

Foi. Tive uma cólica renal, uma pedra no rim, e quando cheguei ao hospital, para além dos procedimentos que fizeram para a cólica renal, que passou em poucas horas, mandaram fazer um TAC com contraste. E no final, o médico veio ter comigo e disse: "No que respeita à pedra, ela está já a desfazer-se, irá por aí abaixo e vai sair. No que respeita a um aneurisma da aorta, quero-lhe dizer que tem o aneurisma da aorta. Não fique com os cabelos em pé, não se assuste, porque a dimensão do aneurisma não é ainda de SOS. Então, qual é a dimensão? É de 4 cm. Tinha 4 cm.

E tinha já ouvido falar na doença alguma vez?

Não.

Porque aneurisma também associamos muito ao cérebro, correto?

Sim. O aneurisma por natureza já se sabe que é a dilatação de uma artéria. E como ainda por cima a aorta, como dizia o doutor e com razão, é uma peça fundamental do nosso organismo. Penso que é a maior artéria do corpo, se não estou em erro. Mas ele disse-me que tinha 4 cm de dilatação. "Pode ir fazendo a sua vida, mas vá controlando isso." Eu deixei passar um ano, dois anos, três anos.

Nunca voltou. Ou seja, recebeu a notícia.

Não.

Se calhar, passou pela fase de negação.

Andei na corda bamba voluntariamente.

OK, então não procura um médico da especialidade nos anos seguintes.

Depois falei, naquela altura, com o diretor da Cruz Vermelha e ele disse: "Júlio, vamos lá fazer outro TAC". E então recomendou-me um médico cirurgião vascular especialista também em aneurismas, o Dr. António González. Fizeram os exames, e ele disse: "Olhe, o Júlio está com 5,8 cm. Em três ou quatro anos, tinha progredido 1,8 cm. Se tivesse acima dos seis, já não o deixava sair daqui".

Ok.

E pronto, depois foi só tirar as medidas, porque isto é feito à medida. As aortas não são todas iguais, não têm todas a mesma dimensão. Tiraram as medidas e mandaram fazer a prótese na Alemanha, uma prótese quádrupla, porque ia não só para a aorta, como também para as artérias renais e as artérias-

Mesentéricas.

Exatamente.

Que são?

São as artérias que vão para os intestinos, que permitem a digestão.

E, portanto, foi só esperar. Entretanto, ele recomendou-me uma coisa que eu penso que é importante: que a minha pressão arterial se mantivesse baixa. Porque a pressão arterial, isso é questão de física, isso é conhecimento de física. Há um balão que está a rebentar ou que está com as paredes finas. Se começa a ter muita pressão por fora, pode rebentar mais depressa. Felizmente, eu ainda ontem medi a minha pressão arterial, tenho 120/70 e 65 pulsações por minuto.

Que é uma pressão arterial ótima.

Sim, para um senhor da minha idade, é de certeza absoluta.

Para um senhor jovem. E depois a cirurgia-

Portanto, depois fui operado.

Mas foi operado. Ou seja, há uma primeira fase em que espera até pedir uma opinião ou vigiar, mas depois, a partir do momento em que dizem: "Já estamos perto do limite, a cirurgia é uma opção." Como é que recebe essa notícia e depois como é que foi interiorizar essa ideia?

Há duas hipóteses: há o hipocondrio como eu sou, que é o hipocondrio da imaginação, e há o hipocondrio que fica curado no momento em que sabe que tem uma coisa. Eu sou aquele que quando sabe que tem uma coisa, pronto, agora tenho.

Agora não é imaginação, é mesmo que precisa agir.

Agora, quando estou a inventar é que é um bocado preocupante e sob o ponto de vista psicológico, não é agradável. Mas o médico também disse-o, ainda por cima com-

Segurança?

...um espanhol ou um portunhol algo engraçado. Com uma particularidade: ele não fazia a mínima ideia quem eu era.

Ah, ok.

Não fazia a mínima ideia.

Que interessante.

E o que aconteceu foi que na outra consulta, ele veio dizer: "Ai, Júlio, agora soube quem o Júlio é. Eu não posso falhar, porque senão vou preso."

Isto é mesmo correr bem.

Com senso de humor. Demorou uns meses, mesmo assim. Demorou uns meses a vir a prótese e depois fui operado. Ele disse-me logo que já tinha feito várias operações, que tinham todas corrido bem, que naquelas situações de limite, em que tinha conseguido salvar uma vida ou outra, mas não muitas.

Quando acontece o episódio súbito.

O tal episódio limite. E depois fui operado. Evidentemente, as técnicas evoluíram muito. Não tenho nem uma única cicatriz, nem a das virilhas. Às vezes ando ali à procura e nem sei onde estão. E também no braço. E acordei passado umas horas, ele veio ter comigo, eu estava nos cuidados intensivos, e disse: "Olhe, correu tudo muito bem, bati o meu recorde pessoal. A última intervenção tinha demorado oito horas a fazer e agora demorei quatro horas e meia". Não sei se passados estes cinco anos, já. É fantástico. Passados cinco anos-

Já passámos uma pandemia, então.

Se já está ainda a operar mais depressa. E a partir daí, ele disse: "Olhe, agora faça uma. Passado um mês e tal, faça outra TAC". E foi-me explicando que realmente a aorta que está dilatada, que é um balão, entra um tubo por dentro, que eu ainda por cima sou bricoler e sei o que é, que é fibra de carbono e mais materiais relacionados com materiais de epóxi, com alguma dilatação, e que a aorta, uma vez estava dilatada, ia começar a encostar-se à própria prótese para, portanto, o fluxo sanguíneo ser feito só já através da prótese. Entretanto, de 2019 até agora, fiz quatro TACs, porque ele disse para ir fazendo, mas não é preciso estar a sujeitar-me ao contraste e também às radiações. E todos os resultados têm dito que está a aproximar-se, e portanto eu penso que a minha prótese, como é fibra de carbono, vai resistir a mim próprio.

Faz a vigilância regular, que também é importante. Ricardo, ouvimos aqui a questão da cirurgia e da duração. Tenho algum receio que as pessoas se assustem em casa, se por acaso já tiverem algum diagnóstico de aneurisma da aorta abdominal. Como é que funciona a cirurgia? Para que casos é que está recomendada? É sempre assim complexo? Não é, já é mais simples? Como é que tem evoluído a esse nível o tratamento?

Exatamente. O caso do Júlio Isidro, pelo mediatismo da personalidade, foi muito falado entre nós, da cirurgia vascular, e é um caso particularmente complexo. Um caso que exigiu uma prótese ramificada é um caso raro. Na grande maioria dos aneurismas, nós conseguimos fazer com próteses simples e uma cirurgia que, no caso do Júlio, correu bem e durou quatro horas. Hoje em dia, nós conseguimos fazer, nos casos mais lineares, que são os 90%, 95% dos casos, conseguimos fazer com uma cirurgia de uma hora e meia, duas horas, e que também é feita de forma minimamente invasiva, com acesso só pelas virilhas. Muito pela Europa fora está a caminhar mesmo para a cirurgia de ambulatório, em que os doentes entram de manhã, fazem a cirurgia e no próprio dia, ao final da tarde, vão para casa. Ou seja, em termos de critérios para tratar, nós temos isto também muito bem estudado. A partir dos 5,5 centímetros nos homens e cinco centímetros na mulher, há uma indicação formal para corrigir e 90% das vezes dá para corrigir desta forma minimamente invasiva, com uma cirurgia, muitas vezes com a própria pessoa acordada, com anestesia local e que põe uma endoprótese que separa o sangue da parede do aneurisma.

E a prótese também é personalizada, ou seja, adaptada a cada caso?

Todas as pessoas têm uma prótese adaptada ao seu aneurisma, mas às vezes tem que ser mesmo feita à medida, customizada, que foi o caso do Júlio Isidro, precisou dos buraquinhos para as artérias renais e para as artérias mesentéricas no sítio certo. Cada artéria é diferente e aí demora às vezes dois meses a ser feita à medida na Alemanha e vem a própria prótese para o Júlio Isidro neste tipo de aneurismas mais complexos.

Quando as pessoas são internadas, como foi o caso do Júlio, ele já nos vai contar isso, penso que passado 24 horas já estava a andar, correto?

Sim, passado 24 horas. Não foi contrariando os médicos, foi contrariando algum pessimismo que eu pudesse ter. Eu quero testar-me. Então levantei-me, fui pelos corredores fora, encostado à parede, fui andando. Mas no outro dia, uma vez que a sintomatologia já não era nenhuma, pedi para me darem alta e deram-me alta, portanto eu saí passado 48 horas.

Ok, que também é bom para uma cirurgia longa.

Excelente.

E como é que se tranquiliza o doente? O Júlio há pouco dizia que esteve alguns meses à espera que a prótese estivesse pronta, sendo que, e hoje há muito do doutor Google, portanto, as pesquisas não são muito favoráveis para quem decide investigar por si próprio. Como é que se tranquiliza o doente neste tempo de espera? Ou seja, sabemos que pode haver este episódio súbito, ainda não é possível operar, temos uns meses de espera. Como é que se tranquiliza e se gera o medo?

Exatamente. Esta é uma excelente pergunta. Temos que ver que há aqui alguma margem, ou seja, quando nós dizemos que há uma indicação para tratar a partir de determinado tempo, achamos que com esse tamanho, a indicação é para tratar, mas não há o risco iminente de rotura. Ou seja, há aqui uma margem de tempo, em que, a partir deste tempo, o risco-benefício favorece tratar, mas não é um tamanho que temos que internar. Foi como o Júlio disse, a partir de determinado tempo, já não saía do hospital. Ficava a esses critérios de diâmetro que, no caso de acharmos que temos tempo para pedir uma prótese e para fazer a prótese, é porque achamos mesmo, porque senão, há outras formas de tratar imediatamente. Nem sempre podemos esperar por uma prótese deste gênero e temos outras opções para resolver o problema.

O Júlio, neste caso, apesar de ter esperado alguns anos desde o primeiro episódio de urgência por outro motivo, chega mesmo num limite em termos de volume e diâmetro.

Por aquilo que eu sei, os limites foram apertando, como também tem a ver com os limites do colesterol e por aí fora. Porque o doutor González disse-me que noutros tempos o limite era até 8 centímetros, mas com 8 centímetros já era mesmo limite de risco.

Isso é o limite máximo.

De autêntico risco. Mas ele próprio tinha operado um senhor com 90 anos, que tinha 8 centímetros e tinha 90 anos. E ele optou por operar o senhor e salvou-o. Não sei quantos anos é que o senhor terá durado, espero que tenha chegado aos 100, pelo menos. Mas o facto é que ele disse-me que se fosse 6 centímetros, naquela altura, eu tinha que ser intervencionado o mais depressa possível. Portanto, aqueles dois ou três meses que eu estive à espera da prótese, não andava sob tensão. O melhor era não pensar nisso. Também é uma questão de cálculo de probabilidades. Era preciso ter muito azar. Felizmente, e graças a Deus, não tive.

Ricardo, a sua tese de doutoramento fez a comparação com os números que existem em relação a doentes tratados em Portugal, em comparação com outros países europeus, e os resultados não foram propriamente benéficos. Quer resumir as principais conclusões da tese de doutoramento?

Exatamente. Havia uma perceção um pouco subjetiva de congressos e de conversas com colegas. Nós íamos a um congresso e víamos os dados apresentados pelo hospital de Hamburgo, com números incríveis de aneurismas tratados. Depois era uma conta simples, quer dizer, se aquele hospital serve uma população de 500 mil pessoas, e nós temos muitos hospitais que servem populações de 500 mil pessoas, como é que eles tratam tantos aneurismas e nós tratamos tão poucos? E eu tentei ver isso de forma concreta. Colhi os dados nacionais, avaliei os dados publicados de outros países e conseguimos dados de umas dezenas de países. E de facto, Portugal está a tratar, por exemplo, por habitante, por 100 mil habitantes, cinco vezes menos aneurismas que a Alemanha, praticamente metade dos aneurismas da Espanha, país que está aqui ao nosso lado. E esta diferença de números foi tão chocante que me levou a tentar procurar então razões. Será que temos menos aneurisma? Será que o nosso clima? Temos menos aneurismas que os outros? Então procuramos fazer um rastreio experimental, tentar perceber se de facto tratamos menos porque temos menos aneurismas.

Ou porque há desconhecimento e a nossa diagnóstica.

É isso. Então fizemos o rastreio, tentamos perceber os nossos números e vimos que de facto não são diferentes dos outros países. Ou seja, não é por termos menos aneurisma que estamos a tratar menos aneurismas. O que vimos também quando estávamos a fazer o rastreio é que 85% das pessoas não fazia ideia, nunca tinham ouvido falar da doença, o que é impactante. 85% das pessoas não conhecem uma doença que tem estas características de letalidade, de fácil diagnóstico. E de facto, com estes dados, nós procuramos ter alguns dados concretos para chegar às pessoas de decisão e dizer: "De facto, temos aqui um problema, um problema que não é assim tão difícil de resolver". E com estes dados concretos procuramos Alertar e consciencializar as pessoas. Não há nenhum dado que seja tão importante como o caso, por exemplo, do Júlio Isidro, que foi muito midiatizado e que contribuiu tanto para a consciencialização da doença. Ou seja, há a parte dos dados e há a parte das conversas que nós estamos aqui a ter, que devem caminhar no sentido de alertar as pessoas para este cenário.

Para terminar, e já estamos a chegar ao fim da nossa conversa, que mensagens podem ser dadas, por um lado, ao cidadão comum? Porque depois também há aquela questão: eu agora vou ao médico e peço um exame e ele pode não receber bem, pode achar que é uma pesquisa aleatória. Por outro lado, aos profissionais de saúde que podem realmente recomendar este rastreio.

Claro. Há dados muito objetivos que nos dizem que homens com idade igual ou superior a 65 anos devem ter uma ecografia abdominal para excluir a doença. Uma isolada. Um exame que é rápido, é barato e que nós temos capacidade de o fazer. No caso de haver um familiar de primeiro grau com a doença, um irmão, um pai, um tio, a partir dos 50 anos, homens ou mulheres devem fazer o diagnóstico. É uma ecografia abdominal, é um exame simples. Se nós não o fizermos dessa forma, estamos sujeitos à sorte de o encontrar de forma acidental, como o caso do Júlio, enquanto estamos a pesquisar outras doenças, e é sempre uma aleatoriedade.

E muitas vezes não há essa sorte.

Pois, é uma questão de sorte ou azar.

Acha que foi uma questão de sorte, Júlio?

Realmente, eu não tenho dúvidas nenhumas, foi uma questão de sorte. Particularmente, depois de ter tido conhecimento que tinha o aneurisma, até ao momento em que fui operado, mesmo assim esperei quase quatro anos. Viajei, fiz tudo o que tinha a fazer. E não sentia nada, era óbvio. Portanto, a minha recomendação, se é que me pede uma recomendação, não esperem por uma crise de rins para resolver um problema que não tem nada a ver com os rins. Eu penso que é o recado que temos que dar. Porque normalmente é sempre por acidente, um bom acidente, neste caso é um bom acidente, que determina um diagnóstico de algo que não me passava pela cabeça. Aliás, a única coisa que me passava pela cabeça eram aneurismas cerebrais. Isso sim, disso eu sabia. Agora, embora haja um outro muito mais complicado, que é o da crosta da aorta, esse é muito mais complicado.

É na mesma da aorta, mas em anatomias diferentes.

São anatomias diferentes. Portanto, fico agradecido à divina providência, não há dúvida nenhuma, por ter sido minha cúmplice nos riscos que eu corri durante quatro anos.

E a recuperação foi relativamente tranquila. E em termos da vigilância, faz uma vigilância agora que é anual e que é suficiente?

De dois em dois anos, fazer um TAC ou uma ecografia, só para ver se realmente a aorta está em harmonia com o tubo que foi metido lá no meio. Mas acho que sim, acho que tem estado tudo a correr bem. Se eu não sentia nada antes, também não sinto nada agora. Isso é que é um facto. E portanto, sinto-me bem.

Antes de terminar, fico só com uma questão: o Júlio esperou quatro anos. As pessoas que em casa já tenham esta indicação não vão esperar quatro anos depois de verem esta conversa. Mas que especialidade é que devem procurar?

Quem segue e trata estes aneurismas, a partir do momento em que eles crescem, deve ser um cirurgião vascular. Durante muitos anos, eles podem não atingir tamanhos que assustem ao ponto de uma pessoa precisar de um segmento especializado. Nós chamamos aneurisma a partir dos 30 mm ou 3 cm, mas até chegar aos 4,5, 4,6, uma ecografia a cada dois anos, é simples, e pode vigiar o tamanho. E a partir do momento em que cresce, uma opinião de cirurgia vascular será muito importante.

No público é referenciado, no privado podemos procurar a partir do momento em que há isso. À partida, é sempre referenciado para cirurgia vascular.

Cirurgia vascular é a especialidade que trata estes aneurismas.

Muito bem. Em termos de números, não existem números muito concretos em Portugal porque também há muito desconhecimento da doença.

Existem os números que nós conseguimos captar para determinados trabalhos. Neste caso, no meu doutoramento, conseguimos alguns dados e a estimativa é que, grosso modo, haja 26 mil pessoas em Portugal que não sabem que têm esta doença.

E em termos de mortalidade?

Em termos de mortalidade: se não for tratado, se romper, grosso modo, fácil de perceber, metade das pessoas morre antes de chegar ao hospital e metade morre no hospital. Se for detetado e tratado, a mortalidade é inferior a 1,5%.

São números que não são de desprezar. Daí nós também termos escolhido este tema para este episódio. Muito obrigada aos dois. Todos os episódios da "Consulta Informal" estão disponíveis em vídeo e em podcast, no site do Observador e nas plataformas habituais. Pode ouvi-los também na Rádio Observador. Muito obrigada por ter estado conosco.