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Hora de conhecermos do que vai o José Manuel Fernandes falar no "Contra Corrente" desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto, só tem que ligar 91 002 41 85 ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp, 91 002 41 85. Carla.

As tempestades das últimas semanas, sobretudo a Cristine, derrubaram milhões e milhões de árvores, boa parte delas numa zona muito querida dos portugueses, o Pinhal de Leiria, que ainda estava a recuperar dos fogos catastróficos de outubro de 2017. Com tantas árvores no chão, os especialistas falam em riscos acrescidos de incêndio, sendo que dificilmente se conseguirá retirar toda a madeira até chegarem os dias mais quentes e mais perigosos. No "Contra Corrente" de hoje, vamos tentar perceber até que ponto aumentou o risco de incêndio na região Centro, a mais atingida, e também aquilo que, porventura, ainda pode ser feito. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

Acreditas que há mesmo motivo para preocupação? Eu já vi as árvores derrubadas.

Sim, há motivo para preocupação, até porque eu tenho uma noção muito palpável, muito concreta, do que significa a passagem de uma tempestade por uma zona florestal. O ano passado não foi em Leiria, foi aqui na Serra de Sintra, foi a tempestade Martinho. Na zona Centro, estimam-se em milhões o número de árvores que caíram, oito, nove milhões. Aqui na zona de Sintra, estimou-se na altura 100 mil, mas penso que provavelmente foi três ou quatro vezes isso. O balanço final nunca foi feito. Estas tempestades ainda derrubaram mais árvores, mas aquilo que eu verifiquei é que apesar de ser uma zona onde existem meios, porque está sob a gestão de um organismo que tem dinheiro, que é o Parque de Sintra, a verdade é que não foi possível limpar a floresta até chegar à altura em que foi necessário parar tudo, porque nós temos praticamente uma janela de três meses. Porque ao fim de três meses as máquinas não podem andar no meio da floresta, porque senão elas próprias podem pegar fogo à floresta por causa das folhagens e do próprio funcionamento das máquinas, que criam esse risco. Isto ainda está cheio de árvores no chão, ainda está cheio de zonas muito problemáticas. Eu ainda ontem fui verificar, por causa do programa de hoje, como é que estava exatamente. E há de facto situações que são perigosas, só que esta zona, apesar de tudo, não é das zonas mais perigosas do país, por causa da humidade que se mantém durante os meses mais quentes. Não se passa o mesmo, não direi no litoral de Leiria, mas passa na zona mais interior do distrito, quando chegamos a zonas como Pedrógão, que também foi atingido, como Ferreira do Zêzere, como todas as zonas dos pinhais do centro. O que é mais perigoso para que um incêndio se torne catastrófico? É a existência daquilo que se chama materiais finos. Não é terem um tronco deitado ao chão. O tronco deitado ao chão causa outro tipo de problemas. Se ele apodrecer, há doenças que depois se propagam. Mas o tronco não incendeia facilmente. O que incendeia facilmente são, por exemplo, as copas que estão deitadas no chão, é toda aquela vegetação que vai agora crescer seguramente muito rapidamente, porque o chão ainda está muito molhado, muito húmido, e portanto com muitas condições para, havendo sol, haver muito crescimento de vegetação. Nós no ano passado tivemos isso. Recordas que tivemos no inverno, também bastante chuvoso, uma enorme acumulação de material lenhoso e depois um verão que, mesmo sem as árvores no chão, mesmo sem as condições deste ano, foi catastrófico, com incêndios gigantescos. Este ano corremos o mesmo risco. Como é que isto se pode mitigar? Eu creio que é muito difícil, senão mesmo impossível, retirar tudo o que é preciso limpar. Uma coisa foi libertar as estradas, libertar as vias férreas, libertar os meios urbanos, onde também caíram muitas árvores. Outra coisa é entrar nestas matas, há zonas na mata de Leiria, no Pinhal de Leiria, onde os pinheiros tiveram um incêndio relativamente recente, grave, há nove anos, e não tinham crescido ainda e partiram-se como palitos, era uma coisa que fazia muita impressão. Temos aqui uma situação que provavelmente vai exigir medidas também excecionais. Nós vamos ter conosco quem defenda o fogo controlado no programa, especialistas. Vamos tentar perceber o que é o fogo controlado e que riscos é que tem o fogo controlado numa situação em que há muito mais material no solo, muito mais material facilmente incendiável e onde, para poder fazer isto com alguma eficácia, é preciso fazer nas próximas semanas. É um enorme desafio, que não sei até que ponto é que vamos ser capazes de responder, porque eu vi aqui, porque estava a passar aqui perto de minha casa, isto não é chegar e limpar, não é chegar e pôr mossonhos outra vez num telhado ou mesmo estender uns cabos de eletricidade. É um trabalho verdadeiramente ciclópico, porque é preciso às vezes avançar metro a metro, tirar os troncos, tirar os ramos pequenos. Não se pode tirar os troncos e deixar os ramos no chão. É gigantesco. E nem sequer creio que existam meios mobilizáveis para um trabalho deste género no espaço de três meses, que é basicamente a janela temporal que nós temos. Vamos falar um pouco disso e ver se há sugestões sobre a melhor forma de encarar aquilo que é seguramente um dos grandes desafios dos próximos meses e que se tem falado relativamente pouco.

Pois é, e é altura de falar sobre isso. Até já, José Manuel.

Até já.

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