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A altura de sabermos do que vai a Helena Matos falar no Contracorrente desta sexta-feira. Para participar e nos dar a sua opinião em direto: 91 002 41 85. Também pode enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp, o número é sempre o mesmo: 91 002 41 85. Luís Soares.

Hoje sobre o caso Jaison Arday, expôs um currículo cheio de lacunas e fraudes, mas o que torna as circunstâncias de vida e morte deste professor de Cambridge em algo que vai muito para lá de um drama pessoal, é a constatação de que Arday só enganou quem quis ser enganado, neste caso, a academia. Helena Matos, bom dia. O que está a acontecer com as universidades?

Olhando para o percurso trágico deste homem, podemos dizer que está a acontecer algo de muito preocupante, em que as pessoas são usadas quase como se fossem umas marionetes por aquilo que elas aparentemente são, ou dizem que são, como aconteceu neste caso. E em que o resultado só pode ser, muitas vezes, a fraude académica, um resultado que em nada corresponde à procura do saber. Quando algumas dessas coisas são expostas, alguns desses protagonistas, sobretudo aqueles que procuraram ajustar o seu perfil de vida àquilo que sabem que a instituição está à procura, acabam por ser acusados de fraude, como era evidentemente o caso. Tudo isto é uma enorme tragédia, mas dificilmente poderia ter outro desfecho. Porque este homem, que é filho de imigrantes ganeses, vai construir todo aquele currículo que já sabemos. Ele tinha autismo, mas a partir daí vai inventar tudo aquilo que só tinha aprendido a falar aos 11, que só tinha começado a escrever aos 18, mas que aos 20 já era brilhante aluno da faculdade e que depois, aos 37, já era professor de Sociologia. E isto também é uma das coisas que iremos abordar hoje no programa, este tipo de substituição da procura do saber e da crítica por disciplinas que promovem políticas de identidade, ativismos. Isto é muito mais presente nos departamentos ditos de ciências sociais e humanas. Em que medida, ou não, está a chegar também a departamentos como as matemáticas ou as engenharias. E ele, sim, estava no departamento de Sociologia e está no departamento de Sociologia por aquilo que disse que tinha sido a sua vida, não tanto pela sua produção científica, pelos artigos ou pela sua tese de doutoramento. Aliás, um escrutínio, nada de especial, a essa produção de artigos que Arday tinha, permitiria perceber que a maior parte daquilo era tudo plagiado, não tinha qualquer interesse. Mas a verdade é que ele chegou à faculdade, foi aprovado por unanimidade num júri, alegadamente, digo eu, parafraseando a rubrica anterior, alegadamente de grandes sumidades. Há aqui quase que uma pulsão da parte dele, que o leva a compor esse currículo com feitos absolutamente extraordinários, que era campeão de snooker, corredor de maratonas. Mal começava uma, já estava a correr outra. Ele disse que teria feito 30 maratonas em 35 dias. E que tinha sido vítima de racismo, que alguém o tinha atacado duas vezes no campus com uma faca, que lhe tinham enviado uma bala, uma banana pelo correio, a cabeça de um porco à porta de casa dos seus pais. É curioso o poder que as coisas têm, às vezes, em termos de televisão. Qual é o momento em que as coisas se tornam insustentáveis para Arday e também para Cambridge? É quando ele diz que tinha participado numa série televisiva, só que a série televisiva tinha sido produzida 20 anos antes do seu nascimento. De repente, a evidência chega por esta impossibilidade temporal, quando já se acumulavam evidências sobre evidências da fraude na construção do seu currículo. Mas aqui, o que temos e aquilo que tenho falado é, sobretudo, da tragédia pessoal deste homem. Mas no Contracorrente, feita a introdução à tragédia enorme, porque tudo isto acaba com suicídio, é sobretudo falarmos do que está a acontecer nas faculdades. Cambridge resistiu durante muito tempo a sinais que já chegavam de investigação, por parte do jornalismo, de que este currículo não tinha nada a ver com nada e Cambridge resistiu até o fim, acusou de racismo quem estava a fazer esta investigação. A Polícia Metropolitana de Londres vai acabar por perseguir os jornalistas e não a universidade, e tentar cercear a investigação de fraudes, fosse na universidade, fosse em relação ao próprio Arday. Portanto, aquilo que vamos encontrar é um mundo em que o mérito, que é aquilo que nós, em princípio, associamos às universidades, e onde sabemos, sim, sempre houve aquelas cunhas e aquelas acusações de favorecimento, mas não estava em causa a substituição do saber e da procura do saber por políticas de identitarismo ou de qualquer outra moda do momento. E é basicamente isso que nós hoje vamos ter aqui. Poderias perguntar-me, se quisesses: "Mas isso, Helena, é só em Londres?" Nos Estados Unidos, como sabemos, têm políticas muito mais ativas de promoção da diversidade, igualdade, inclusão, e que sabe que é por aí que têm entrado muitas destas coisas e destes currículos que suscitam mais dúvidas. Como é em Portugal? Entre os nossos convidados há quem, de algum modo, e também pessoas que têm escrito n'O Observador, vários dos nossos colunistas, o caso do Jorge Fernandes, do André Azevedo Alves, que defendem que em Portugal há também muito para observar, porque tudo isto, que é o ativismo destas políticas, soma-se àquele problema habitual da faculdade e da universidade em Portugal, é que é um mundo muito pequenino, muito fechado, que sofre de muito nepotismo, de muita endogamia e, portanto, sem casos trágicos e visíveis como este, teremos uma espécie de promoção da mediocridade, em que à antiga e velhíssima cunha e o culto da sucessão dos apelidos, se junta agora também esta avaliação dos candidatos por aquilo que eles são ou dizem que são, e não tanto por aquilo que sabem.

Vamos falar disso depois das 10h. Até já, Helena.

Até à 10h.