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Muito bom dia. Cristiano Ronaldo e Georgina vão casar nos próximos dias e será na Madeira? Não sabemos, mas temos duas certezas: se tal acontecer, Portugal enquanto destino de turismo de romance vai reforçar-se. A outra certeza é que a economia adora casamentos, 900 milhões de euros por ano e impacto em 40 subsetores de atividade, fazem dos casamentos uma atividade a que não faltam pretendentes. Helena Matos, bom dia.
Bom dia.
Os tempos estão para quem quer dar o nó?
Tudo indica que sim. Aliás, todos os anos milhares de portugueses casam. Também é certo que vários milhares se divorciam. E também temos aquele provérbio ambíguo, ou diz o povo: "Quem pensa não casa", mas também quem casa não pensa. Temos sempre esta ambiguidade dos provérbios. Eu tenho a dizer que este assunto acabou por começar a revelar-se uma enorme surpresa pra mim. Lembrava-me dos apelos durante a pandemia, quando ficamos todos confinados, das associações do setor a dado momento para que se pudessem voltar a celebrar casamentos, tendo em conta não apenas o problema emocional das pessoas que passavam a vida a adiar o seu casamento, mas o tremendo impacto econômico que o fato de não se poder celebrar as festas estava a ter pra economia e pra vida de milhares de pessoas, muito para lá dos noivos. Mas no meio de toda aquela confusão que tinha sido as escolas, o ensino, as outras atividades, acabei por não prestar grande atenção ou talvez não ter dado relativa à importância que de facto isto tem. E eu descobri, para preparar este programa, que sim, tem como pretexto o possível casamento de Ronaldo e Georgina, que se pensa que a acontecer, acontecerá na Madeira, nos próximos dias, porque temos aqui o problema das datas dos campeonatos, mas também poderá não ser assim. Não consegui confirmar se há dois pisos do Savoy que estão reservados neste momento. Nós temos aquela questão da afixação dos banhos. Tem tal escrito, não sei como é que Ronaldo e Georgina ultrapassam isso. Mas aquilo que sim, terá um impacto grande, sobretudo na Madeira, como configuração deste tipo de destinos de casamento. Se note, o outro arquipélago, os Açores, mas já lá iremos, é neste momento. Desconhecia completamente. Uma pessoa passa a vida a falar de política e de não sei o quê, pois há outras coisas que acontecem no país.
Há mais vida, não é?
Há mais vida para lá de tudo isso. E aqui temos a agradecer à Luísa Loura, da Pordata, que até convidamos para vir ao programa. Ela não podia, mas o assunto a entusiasmou e ela foi mandando dados. No ano passado, 37.714 portugueses casaram, aproximadamente um quarto não era a primeira vez que o faziam. Portanto, temos de perceber que há quem repita e repita. Há um dado que é muito interessante: os noivos são cada vez mais velhos. Aos olhos, aliás, de algumas décadas, podemos dizer que os noivos estão mesmo velhos. Porque a idade média das noivas agora são os 34 anos, a dos noivos mais ou menos 36. Ou seja, eles têm mais 10 anos do que tinham os noivos da geração de 60. Curiosamente, a diferença etária entre noivos e noivas mantém-se, porque nos anos 60 elas tinham 24 e eles 26. Agora elas têm 34 e eles têm 36. Estamos a falar de idades médias. É claro que os portugueses já casaram mais, mas neste momento podemos dizer que temos uma situação estabilizada. O número de casamentos celebrados varia muitas vezes também em função da flutuação da população e, portanto, se a população aumenta, teremos mais casamentos, se temos menos população temos menos casamentos. De facto, há aqui um ano que é realmente diferente de tudo, que é o ano 2020, em que o número de casamentos celebrados cai pra metade, e em que é claro que as celebrações decorreram de uma forma absolutamente diferente. A crescer estão os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, que apesar, claro, de serem poucos, têm um crescimento muito acentuado. Estamos a falar de mil e poucos, 1.063 casamentos. Ou seja, mesmo assim, pode parecer muito pouco, é muito mais do que aquilo que se celebrava em anos anteriores.
Contrasta com os 266 de 2010.
Claro. Depois temos aqui uma redução muito significativa dos casamentos católicos. É curioso, reduz o número de casamentos católicos, mas todo o imaginário do casamento católico está lá. Temos os vestidos brancos, os ramos, todo um conjunto de momentos, circunstâncias, que associávamos ao casamento católico e que agora vamos encontrar nos outros casamentos. Tenho uma grande dúvida e isto tem a ver, já que os puscei de manhã, porque nos últimos casamentos a que fui não consegui perceber o protagonismo desta figura, que era o grande sonho da minha geração. E eu cumpri-o várias vezes, que é ser a menina das alianças. As meninas das alianças, pra minha grande tristeza, não têm hoje a visibilidade que tinham pra quem nasceu na década de 60.
Também há menos crianças, não é?
Por isso mesmo, deviam estar ali. Tu desculpa. O que há agora, temos muito aqueles casamentos em que temos coreografias muito inspiradas, não sei se no lado espanhol, se no lado norte-americano, que são as madrinhas, os padrinhos, e hoje a visibilidade daquele conjunto de madrinhas e de padrinhos, muitas vezes com coreografias, um dress code. Aliás, os convites, além do branco, que não se recomenda por causa da noiva, também já vem muitas vezes não usar esta cor por causa das madrinhas. A pobrezinha da menina das alianças é que eu não sei, mas nós temos em estúdio quem nos sabe explicar muito bem o que está acontecendo à menina das alianças. Agora, o que para mim foi absolutamente surpreendente, e isso também tem muito a ver, eu e a Helena Garrido fomos trocando algumas mensagens, é que nós estamos a falar de uma atividade econômica, mas com impacto noutros setores. Por exemplo, de repente uma pessoa percebe que muito do patrimônio das antigas quintas só existe porque existe quem faça festas de casamento. Sim, também se fazem lá muitos eventos, muitas outras festas, mas a parte dos casamentos é muitíssimo importante. Nós temos, aliás, neste momento, também uma vantagem em Portugal, e aí chegamos ao Ronaldo e à Georgina, que é a configuração de Portugal ou a afirmação de Portugal como um destino para o chamado turismo de romance. Portanto, estamos, na minha opinião, felizmente, a passar do turismo das despedidas de solteiro e de solteira, que é um turismo muito engraçado, mas que às vezes com aspectos muito difíceis de compaginar para quem vive naqueles sítios, e com o bom senso, com várias outras coisas. E neste momento temos a afirmação deste turismo, e por quê? De casamento mesmo. Porque temos um clima muito bom, somos um país seguro temos, dizem os entendidos, mas os nossos convidados irão explicar isso, que eu disse, não sei. A mim, tudo isto me parece uns preços exorbitantes, mas enfim, teremos uma boa relação qualidade-preço. Eu não duvido que a relação seja boa entre a qualidade e o preço, mas o preço às vezes é espantoso. Muita gente vem casar em Portugal, da Irlanda, do Reino Unido, dos Estados Unidos, e onde é que querem casar? Querem casar no Algarve, em Lisboa, no Vale do Douro e os Açores. Os Açores são neste momento um caso de enorme sucesso internacional, com uma procura muitíssimo acentuada de casais estrangeiros. A Helena Garrido tem depois ali até uma questão para levantar, que já aqui esteve ontem, no Contracorrente, que é, por exemplo, uma decisão de uma companhia aérea de deixar de voar para os Açores.
Aquilo que falámos ontem.
Pode impactar neste setor. Por exemplo, o custo médio de uma cerimônia para casais estrangeiros nos Açores rondará. Custo médio, quer dizer, pode chegar a ser muito mais. Entre 30 a 50 mil euros nos Açores. Eu estou a ver os teus olhos a brilhar, estás já a partir, já a fazer as contas, João. Estás já a fazer as cotas. Escusas de passar isso.
Mas espera lá, 30 a 50 mil euros pelo casamento em todo? Não, não percebi.
Quer dizer, depois as pessoas em geral ficam mais uma semana, João.
Mas isso parece um bocado barato, não?
Sim. Mas há quem pague muito mais. Mas pronto, eu trouxe aqui estes valores de um custo médio para tentar, sobretudo aqui-
Pois é médio, é como a história da galinha, não é?
Sim.
Se nós comermos uma galinha, formos as duas a buscar uma galinha, e dar metade para cada uma, eu vou ficar à fome.
Mas há quem diga, nomeadamente os wedding planners, que se fazem casamentos que podem chegar a seis zeros.
Exatamente.
Pronto.
Espero que dure muito tempo esse casamento.
João, isso é assim, tu és um homem que não se aguenta, porque tu tens essa capacidade de desconcertamento.
Temos que ser racionais. O casamento é um investimento, não é?
Em abono da tua tese, há uns economistas norte-americanos que fizeram um estudo, mas de certeza que há outros que dizem precisamente o contrário. Mas estes fizeram um estudo, estamos a falar a sério, em que dizem que às vezes quanto maior o custo, mais elevada a probabilidade de divórcio. Estamos a falar daqueles dos muito, dos milhões. E basta pensarmos alguns casamentos recentes que movimentaram isso e percebermos que se calhar é provável que acabe tudo naqueles divórcios.
Os Bezos, como o casamento do Jeff Bezos.
Exatamente. Mas não é isso que nós vamos desejar ao Ronaldo e à Georgina.
Não.
Pronto. Depois temos aqui um casamento. Agora estamos a falar aqui os casamentos dos portugueses. Sim. Em geral, cada casamento comum implicará aos casais, nós pensamos: "É o copo d'água, é isto, é aquilo." Pelo menos 10 fornecedores de serviços. Porque nós temos muita coisa. É claro, podemos pensar, nós pensamos logo no copo d'água, os vestidos, mas há setores para os quais isto se tornou vital. Por exemplo, a fotografia, a música, as floristas, as flores. Depois temos os cabelos, as maquiagens, mas pode dizer: "Ah, as cabeleireiras que sobreviviam." Sim, mas por exemplo, a parte da fotografia já seria um rombo muito grande perderem este setor, até porque neste momento não fazem apenas as fotografias, fazem vídeos, depois têm drones, têm essas coisas todas. A parte da música, há cada vez maior animação musical, não apenas a playlist dos noivos, há mesmo animação. E depois, há cada vez um maior gosto e maior interesse por lados personalizados, coisas personalizadas, cartõezinhos personalizados, detalhes que são personalizados. Portanto, há aqui muito um lado Muito detalhe. Presumo que tudo isto dará muitos nervos e muito trabalho, mas que é muito significativo. Nós muitas vezes olhamos para estes setores de atividade e pensamos: "São os casamentos." Mas de repente, a pessoa descobre que está numa atividade econômica muito importante, que consegue captar investimento estrangeiro, que é disso que estamos a falar. Portanto, acho que vale muito a pena, a pretexto deste provável casamento entre o Ronaldo e a Georgina, perceber o que está a acontecer no mundo dos casamentos em Portugal. Sim, também teremos, o que eu acho que será um assunto que se colocará no casamento do Ronaldo e da Georgina, mas todas as opiniões que procurei dizem que se deveria também ter muito em conta nos outros casamentos que o casamento é um contrato. E muitas vezes as pessoas casam sem perceber que há muitas outras coisas que têm de ser atendidas. Há formas diferentes de contrato, há convenções antenupciais, há deveres que se criam quando as pessoas se casam e muitas vezes, entre a paixão e a festa, esquece-se tudo isso.
As letras pequenas da vida.
Sim. Mas depois às vezes ficam assim muito grandes. Mas sobre tudo isso falaremos mais à frente. Tenho que te dizer, o estudo dos economistas, o título em português seria: "E outros contos de fadas". Que diz que quanto maior a despesa, mais forte a probabilidade.
Esperemos que esse estudo esteja bem feito e não seja confundir correlação com causalidade.
Sim. Exatamente. Mas isso fica para ti e para o João.
Vamos abrir a conversa aos nossos convidados em estúdio. António Brito, consultor da organização de eventos, foi durante 30 anos o dono da feira Expo Noivos. Ana Hilário é fundadora da Created Living, uma empresa que organiza também casamentos. Bom dia aos dois. Ana Hilário, vou começar por si. Os portugueses não olham a meios e a custos na hora de pagar um casamento ou são contidos?
Primeiro, obrigada. É um prazer estar aqui. Eu acho que não é só os portugueses, mas também os internacionais. Tem uma mistura das duas coisas. Depende do casamento, depende do casal, depende de muita coisa, a quantidade de convidados, mas também o que é que eles querem criar no dia tão especial, porque hoje em dia as coisas também já estão a mudar, não só a idade dos noivos, mas também o impacto que têm as redes sociais e a internet. O acesso a muita informação. Acho que também há maneira de poupar dinheiro e adicionar detalhe e criar uma experiência diferente e única, não só para os noivos, mas também para os convidados.
Uma das curiosidades que eu tenho é quando é que isto começou?
Uma boa pergunta. Eu acho que para aí há uns 15 a 20 anos.
Terá sido após pandemia, mas não me parece que foi após pandemia.
Acho que foi antes.
Porque era foleiro fazer casamentos assim, agora passou a ser fashion.
Normal, exato. Eu acho que tem a ver com as redes sociais, o acesso que toda a gente tem a várias imagens, vídeos.
Terá sido quando?
Para aí há 15 anos, quando começou a haver.
Na sua perspetiva.
Ou seja, quando tu dizes, Helena, casamentos assim é o quê? Casamentos mais visuais, mais arranjados?
Os casamentos hoje, como a Helena disse, envolvem várias atividades, vários setores de atividades e são desenhados ao detalhe. Custam muito dinheiro alguns, mas no mínimo são 20, 30 mil € os valores mínimos que eu encontrei, mas vocês dirão, mas podem chegar aos 500 mil. E isto significa muito detalhe com noivas, com celebrantes, até nova profissão, porque os casamentos não são católicos e depois pode haver uma celebrante que faz a cerimônia toda, tudo coisas que custam bastante dinheiro. Podem durar dois ou três dias e não são só os casamentos indianos que podem durar dois ou três dias. Mas a minha curiosidade é saber qual foi o momento em que isto passou de piroso a super fashion.
Bom dia.
Talvez devíamos apresentar a nossa-
Já apresentei António Brito.
Muito obrigado.
Foi durante 30 anos o dono da feira Expo Noivos, o que significa que esta atividade fervilha já há pelo menos 30 anos.
Exatamente, era isso que eu queria chegar. Aliás, na realidade, aquilo que poderíamos dizer que talvez tenha sido o marco histórico da indústria do casamento em Portugal, nasce precisamente em 1990, 1994, quando a primeira feira foi realizada precisamente em dezembro de 1994.
Mas o próprio fato, desculpe interrompê-lo, de se considerar que se poderia fazer uma feira queria dizer que alguma coisa estava a mudar.
Exatamente. O que é que acontecia naquele momento? Na realidade, provavelmente, estamos aqui e nos lembramos, no momento, a organização do casamento partia muito da questão dos pais e dos padrinhos e partia muito do passa palavra. Vais casar naquele local porque eu já casei lá, veste esse vestido porque foi o da minha irmã, da minha mãe, da minha avó, era muito tradicional. E portanto, ainda não era uma indústria, não era um negócio. E na realidade, o que é que acontecia? Nem tão poucas empresas estavam preparadas para ir de encontro à oferta O que acontece a partir desse momento? Acontece o que acontece em todos os ciclos econômicos. A partir do momento em que há uma determinada procura, em que há um número de casamentos substanciais, em 94 havia 70 mil casamentos por ano, e empresas que tampouco estavam preparadas para sair das suas portas e ir à procura dos noivos, eram muito mais receptivos e ficavam à espera que alguém fosse bater à porta. Acontecia isso no mundo da moda. Conhecemos empresas, todos nós, que infelizmente já faliram, mas que eram referências, como era o Tito Cunha, como eram os grandes armazéns do Chiado. Tudo isso eram empresas muito reativas que ficavam à espera, precisamente porque eram recomendadas para abrir ou sair.
Mas acha que foi na década de 90 que começou?
Foi no final da década de 90.
Começou há 30 anos?
No final da década de 90. A partir daí começa a evoluir e o peak, se podemos chamar, onde existe o grande boom, é no ano 2000. Isto por quê? Porque aparecem aquilo que na altura não existiam, que eram as quintas. O que existia nesse momento era casamentos em hotéis, era casamentos em restaurantes, que era aquilo que era tradicional.
Mas não havia este negócio, por exemplo, a profissão aqui da Ana?
Não.
Não existia? A Ana é uma wedding planner.
O fenômeno wedding planner em Portugal não existia. Aliás, ainda hoje, e a Ana saberá melhor do que eu, ainda é uma profissão muito paralela ao próprio mercado dos casamentos, porque os noivos tradicionais portugueses têm o hábito de contratar diretamente. Hoje, felizmente, porque o conceito wedding planner é um conceito muito brasileiro e muito americano, muito anglo-saxónico, em que nós depositamos um determinado valor num determinado investimento e o wedding planner gera. E nós portugueses, porque também sempre fomos muito agarrados, e na verdade, esse é um fenômeno, sempre os noivos tratavam diretamente, estavam preocupados, sim, com a questão do custo, iam à quinta, compravam o vestido, tinham a recomendação, faziam todo esse trabalho e esse era o fenômeno na altura da Expo Noivos, era melhorar essa performance, isto é, colocar a oferta e a procura no mesmo espaço e durante três dias eles poderiam organizar um casamento. E esse foi, sem dúvida, um fenômeno.
Mas interrompemos a Ana que estava a fazer-
Claro. Pegando precisamente na questão do início da época.
Quando é que isto começou? Pelo menos na sua experiência.
Mas também acho que agora nos últimos 15 anos, com as redes sociais, concordo. Antigamente as noivas, e hoje em dia também há noivas e noivos, que querem organizar eles próprios, eles é que vão lidar com essas pessoas todas, essas empresas todas. Mas ao mesmo tempo, estou a notar, no geral, o mercado português, não só com os portugueses, mas também os internacionais e por mundo todo, que estão à procura de um casamento, um dia diferente do que antigamente. Porque antigamente, quando eu casei, também foi mais ou menos a mesma coisa. Casavam-se na igreja, eu casei-me na igreja, depois procurei um salão de festa e é aquela coisa, palavra passa palavra, mas era, no meu ponto de vista, mais um casamento igual quase aos outros. Cada um é diferente, eu sei, mas acho que hoje em dia já não é bem o caso. Os noivos querem um momento único.
Um dia memorável.
Memorável pra eles e pros convidados, pra ser diferente dos outros. Não é preciso ser grandioso, mas ao mesmo tempo querem criar momentos especiais. E eu acho que isso tem a ver também com o acesso que os noivos têm à informação e a ideias diferentes do que havia antigamente. Antigamente não havia os drones, não havia aqueles vídeos, aquelas câmeras que giram à volta do casal e criam imagens e memórias, tanto os noivos e os convidados vão levar com eles pra sempre.
Mas um wedding planner, o que ele faz? Pode fazer mais coisas, menos coisas. Por exemplo, ajuda a noiva a escolher? Qual é que é o papel que tem, por exemplo, na escolha dos fornecedores? E se percebe a parte da fotografia, da música, mas, por exemplo, escolher um vestido é uma coisa muito pessoal, não é? Acompanham a noiva?
Se for necessário. É assim que eu funciono. Eu primeiro tenho uma reunião com os noivos pra perceber o que eles querem pro dia e quanto tempo têm, porque às vezes temos pouco tempo pra planear, outras vezes é um ano e meio ou dois anos pra planear.
O que é que recomenda? Um ano e meio, dois anos?
Sim, alguns ficaram noivos agora e só se vão casar em 2028.
E já planeiam o casamento com essa distância?
Porque agora está a ficar mais difícil encontrar uma data e disponibilidade de certas quintas, espaços, depende, palácios, isso também é muito complicado, porque não é só pra casamentos. Hoje em dia também há aqueles eventos corporativos. No geral, é mais durante a semana e os casamentos é mais no fim de semana, mas os noivos também têm que estar abertos, se querem mesmo aquele espaço, se calhar não é o fim de semana, é durante a semana.
Durante a semana, descobri eu, têm substanciais descontos.
Exato.
Substanciais descontos.
Depois torna-se mais complicado, se tem muitos convidados, se é altura fora de férias normais, férias, mas também podem poupar dinheiro, terem menos convidados, assim dessa maneira.
Ana, deixa-me só pegar um pouco naquilo que estava a dizer.
Tem duas horas, por favor.
E na verdade, aquilo que está a dizer, essa evolução toda ao longo dos anos, é um facto, sem dúvida nenhuma, até porque as próprias empresas evoluíram, a sociedade evoluiu e tudo isso. Mas eu acho que há um fenômeno social extremamente importante em tudo isto e que a Helena ainda há pouco referiu. Hoje, a idade média dos casamentos, estamos nos 36 anos no homem e nos 34 na mulher. O que isto quer dizer? Quer dizer, na realidade, em que as pessoas optaram pela sua vida profissional em detrimento da sua vida familiar. O que isto permitiu? Permitiu uma estabilidade econômica, uma capacidade de investimento muito maior do que na realidade era 20 anos atrás.
Isso significa que os casamentos são mais luxuosos?
Não direi que são mais luxuosos. O luxo é uma noção muito ambígua. São muito mais rigorosos, se podemos assim dizer. Isto é, as exigências dos noivos são muito maiores do que eram há 20 anos.
Têm ideias muito concretas de toda a cerimónia.
Exato. Querem ser únicos, como a Ana disse bem, e memoráveis, e são extremamente exigentes e rigorosos com aquilo que pretendem, porque à partida pensa-se que se prepararam durante uma série de anos para dar o passo. Isto respondendo um bocado à sua pergunta da questão da menina das alianças, muitos deles são os próprios filhos que já vão levar as alianças. E portanto, a substituição da menina das alianças às vezes passa precisamente por isto. Muitos destes casais já têm filhos, já vivem juntos há muitos anos, já têm uma vida em comum e aquilo é uma festa, é uma partilha e é um momento sublime em que eles querem demonstrar à sua família e aos seus amigos tudo aquilo que eles conseguiram atingir e tudo o que eles querem mostrar. A questão do luxo é um pouco relativo, mas é um facto e tem muito a ver com esta alteração social e económica da nossa sociedade.
Só uma coisa, quando começou com a Expo Noivos até agora, aquilo terá começado com muito menos participantes, muito menos inscritos, não é?
Sim, eu estava a dizer. O mercado nasce nos anos 90. Na altura, a primeira Expo Noivos tinha 54 empresas. Nós procurámos sempre ter a diversidade dos setores necessários para ir de encontro às empresas. Na altura, os wedding planners não existiam por uma razão muito simples, porque havia um bypass das empresas para os wedding planners, isto é, vocês contratavam as empresas, tinham uma base de comissão e logicamente revendiam, mas depois havia um bypass dos noivos que iam diretamente às empresas e o negócio acabava por se perder. Hoje vocês prestam muito mais um serviço do que uma contratação, e essa é a evolução. Chegámos ao ano 2000 com 180 empresas, foi quando foi o grande boom das quintas. Depois houve um fenómeno que, logicamente, quando a economia cresce, aparece sempre alguém que naturalmente olha para as coisas e diz: "Epa, tem tantos impostos pra gente cobrar". E então houve umas situações da ASAE e das Finanças, porque havia muitas quintas que não estavam licenciadas. Foi o boom das quintas. Apareceram centenas de quintas por todo lado. Tinham um terreno, montavam uma tenda e faziam uma quinta.
Porque para muitas das famílias que têm as quintas, este setor é a possibilidade de manterem a quinta recuperada.
Sem dúvida. E essa era uma realidade. E muitos deles tinham terrenos. Então olhavam pro mercado e diziam assim: "Vamos montar aqui uma tenda e vamos fazer casamentos". E havia procura. E o que acontece? Acontece que as empresas não estavam preparadas e havia muito engano e a própria autoridade tributária naturalmente olhou e percebeu que havia ali um enorme mercado não regulado.
E vi-se o problema da animação musical com a Sociedade Portuguesa de Autores.
Também houve situações dessas, exactamente. A questão da ASAE, as quintas tiveram grandes problemas com a ASAE com o tempo. E o que acontece nos anos 2002, 2003, há uma quebra muito grande das quintas, só ficaram aquelas quintas que estavam legalizadas, que naturalmente tinham capacidade para poder trabalhar, e é bom, e hoje é um mercado em que, nesse momento que eu lhe falei do ano 2000, onde houve um acréscimo e um boom muito grande do número de empresas relacionadas com casamento, estamos a falar de 60 mil casamentos que eram feitos. A feira logicamente tinha um número de empresas.
É interessante que é 50, 60 mil casamentos, mas hoje o volume de negócios deve ser maior do que os 50, 60 mil.
Sim, claro. Eu lembro nós fizemos três estudos económicos, um sensivelmente em 94, 95. Estávamos a falar de uma média do volume médio do casamento cerca de €10 mil por casal.
Isto nos anos 90.
Exato. É importante definir os parâmetros. O que quer dizer os €10 mil por casal ou por casamento, neste caso? Os €10 mil por casamento correspondem a uma base de 100 convidados e logicamente de 10 produtos ou serviços que estejam diretamente relacionados com o casamento, isto é, a quinta, o catering, o vestido de noiva, a fotografia, o vídeo, os convites, a lua de mel, os 10 princípios básicos. Isto é exponencial. Quando nós estamos a falar de 45 subsetores, é exponencial. E portanto, na altura eram 10 mil. Nós fizemos um outro estudo, se bem me recordo, em 2026.
Eu vi alguns estudos vossos no início do século.
Exato. Nós fizemos um quando a feira fez 25 anos, estávamos em 22, 23 mil, e aliás, acho que o último já ultrapassava os 30 mil. Mas tem a ver com aquilo que eu estava a dizer há pouco, com a alteração social e económica. As pessoas têm mais capacidade para investir, têm mais dinheiro e portanto, logicamente, estão dispostas a pagar mais. E também é assim a economia de mercado.
E também há uma outra questão, Ana, diga-me uma coisa, quando alguém chega diante um wedding planner, o que é que quer?
Quer ajuda.
Quer paz.
E quer menos stress, exato. 100%. E eu acho que tem a ver com a idade que estamos a falar. Tem mais poder financeiro, mas ao mesmo tempo estão a trabalhar e não querem estar a gerir 15 empresas, 20 empresas, porque é a média entre 15 a 20 com quem eu tenho que lidar, e não querem ter esse estresse. Com o que tem de lidar alguém que vai organizar um casamento? É óbvio, nós pensamos imediatamente no catering, no vestido de noiva, mas o que há mais?
Está muito baixo, não é?
Como se diz em inglês, "the world is your limit, your oyster". Tem tudo. Desde como é que vai correr o dia. De manhã, cabelo, maquiagem. Antes disso, claro, o vestido, os sapatos, se vão ter damas, os bridesmaids e os groomsmen, os padrinhos.
A joalharia.
Isso é outro assunto.
Mas por quê?
Por quê?
Pensei que era mais simples.
É mais simples, mas depois há tanta variedade.
Que é muito detalhado, não é isso?
Exato. Mas há muitas noivas que querem as coisas mais simples também, mais elegantes.
E se chove, não chove? Está calor?
Depende da altura do ano. Se querem casar no inverno, podemos ter um dia de sorte que não chove ou podemos ter um inverno como o inverno passado, que choveu três meses seguidos.
E o que isso implicou para os casamentos?
Tínhamos que ter um backup plan.
Plano B.
Plano B. C, D, exato. E depende do sítio onde estão a pensar, porque numa quinta tem o espaço interior, mas também tem a parte exterior e estar já a planear: "Ok, o copo d'água vai ser lá dentro para estar um pouquinho mais seguro", mas depois ter a parte tipo festa lá fora, com muito calor, alguns espaços não têm ar-condicionado, por isso é contratar ar-condicionado para ter isso preparado, isso é mais um custo. E você estava a me perguntar como é gerir tantos elementos. É pedir o orçamento, perceber qual é a visão dos noivos para o dia e perceber quais são as empresas que conseguem também ter a decoração, as flores, os tipos de flores, se quer natural ou falsa, a que horas acaba a quinta ou o espaço para fazer o setup e depois desmontar. Algumas quintas querem tudo feito e toda mundo saindo tipo às duas da manhã, porque tem outro casamento no dia a seguir.
Pode até haver dois casamentos acontecendo no mesmo sítio, porque uma das coisas que eu reparei-
Não no mesmo dia, depende do sítio.
Porque alguns dizem que só há um evento por dia naquele sítio.
Sim, pois isso aumenta o custo, porque alguns espaços têm várias salas e para terem essa exclusividade, tem que pagar ligeiramente melhor para não ter essa confusão de haver outro evento e depois virem pessoas atirar um copo de champanhe que estão a passar ali.
Ana, para termos uma ideia da dimensão da atividade, a Ana é dona de uma empresa, Created Living. Está nisto sozinha ou tem colaboradores?
Tenho uma equipa pequena.
Quantas pessoas?
Três.
Três pessoas.
Mas subcontratam?
Diga?
Subcontratam.
Sim.
Portanto, é a Ana e mais três pessoas a planear casamentos. Quando os noivos vos abordam, já trazem uma ideia de quanto é que querem gastar no casamento ou isso é um tema que é discutido?
Sim, também é uma das primeiras perguntas que eu faço, porque eles têm uma ideia, vão ter 100, 150 convidados, mas depois quando começam a fazer os convites, o número pode aumentar, que está a ser o caso agora com o casamento que estou a organizar. Começou com 120, mas já está 160 no espaço de uma semana, porque vem pessoas de fora. Mas sim, no geral, têm uma ideia.
E esse casamento que está a organizar é para ser celebrado quando?
Em abril do ano que vem.
Já falta pouco.
Já falta pouco. E por acaso não é sequer casamento, é bodas de prata, mas os noivos querem mesmo celebrar.
Porque hoje também há muito esse segmento, não é? Das pessoas que celebram 25 anos de casamento, 30. E diga uma coisa, isto a propósito até muito do possível casamento que inspirou este programa, do Ronaldo e da Georgina: cláusulas de confidencialidade.
Isso é muito importante. Alguns noivos não querem partilhar imagens nenhumas, também pedem aos convidados para não tirarem fotografias, não partilhar. Isso é muito importante nos contratos de todas as empresas e fornecedores. Vai se vendo mais, principalmente com casais que podem ser, não quero dizer famosos, mas figuras públicas ou pessoas que têm grandes empresas e querem manter. Também pode ser o segundo casamento, querem também manter essa privacidade para as pessoas mais chegadas.
Sim, é curioso isso que está a dizer da privacidade, porque, por exemplo, um país que tem um mercado de casamentos de uma dimensão extraordinária, que é a Espanha, aquilo que se tem revelado nos últimos anos é que sim, grandes casamentos das figuras ligadas à tauromaquia, que eram os grandes casamentos de Espanha, os toureiros, a aristocracia, os futebolistas, mas com o passar dos anos, o que notamos é que estão lá os futebolistas, estão lá os toureiros, mas vê-se, por exemplo, com a família Botín, que é o Santander, para dizer de uma forma mais prática, casa em quintas de altos muros onde se entra com carros de vidros fumados. Portanto, há também este lado, de repente, quais é que são os grupos que mostram os seus casamentos, que não são sempre os mesmos.
Isto aqui sim acaba por abrir as portas a outros nichos de mercado, o que é interessante. Por acaso, eu penso que a Ana disse bem, o casamento acaba por ser um contrato, portanto, se é um contrato, é um advogado que tem que o fazer. E, portanto, é mais uma atividade, é mais uma profissão.
Mas vocês não têm casamentos que as pessoas nem casaram, ou seja, é só a festa?
Sim, tem.
E por isso é que quando se diz que são 35, 36 mil casamentos por ano. Podem ser mais. Quer dizer, casamentos no sentido de festa, de evento com impacto econômico, podem ser bastante mais. Têm uma ideia se isto tem aumentado ou não?
Não há números. Com certeza a Ana saberá melhor do que eu, porque provavelmente também organiza casamentos de estrangeiros, mas isso acontece frequentemente com um fenômeno que nós temos nos últimos 10 anos, que é aquilo que nós chamamos o wedding blessing, no fundo, que são a maior parte de estrangeiros do Norte da Europa, que vêm casar
A Portugal. Por quê? Porque os custos são muito mais baixos, da relação qualidade-preço. O custo do casamento, trazer o charter de lá com 300 convidados, garantidamente custa-lhe muito mais barato aqui, do que fazê-lo em Londres ou fazer em Belfast ou fazer noutra cidade qualquer. E portanto, nós temos um fluxo muito grande, só que esses casamentos não são registrados, porque não são casamentos efetivos. Mas, por outro lado, há um outro mercado emergente que apareceu também relativamente perto. E um mercado que eu trabalho, porque eu trabalho também em termos de consultoria na área de organização de eventos e, portanto, também com empresas de casamentos, e trabalho muito no Brasil, tem muito a ver com o mercado dos brasileiros em Portugal. As pessoas, às vezes, não têm a noção. E atenção, estamos a falar de um nível de casamentos completamente diferente daquilo que é o nosso. É um casamento mais reduzido, logicamente não vão trazer 300 convidados, de classe A ou A+, com poder de compra, que logicamente vêm do Brasil casar em Portugal, porque Portugal é um país com história. E então vêm à procura do quê? Daquilo que não têm. Castelos, pousadas, história, princesa, a história da princesa.
Uma outra indicação que me dão é que está a haver um boom de casamentos indianos em Portugal e esses casamentos indianos, de pessoas, de famílias, que em geral até nem são da Índia, são pessoas que são inglesas, então a poucas horas de viagem de Lisboa, são de fato de elevadíssimo valor acrescentado, para falar economias, porque são casamentos de três dias, muito luxuosos e que podem chegar a valores da ordem dos €500.000. Já tiveram alguma experiência disso?
Eu penso que há empresas inclusive especializadas nisso aí. Ou é como wedding planners especializadas precisamente em captar, atrair e organizar casamentos para indianos.
Mas há um boom também? Verificam do vosso ponto de observação que há um boom?
Quando o mercado dos casamentos está, de repente, como estava a dizer, cidadãos brasileiros. Depois temos indianos, depois podemos ter suecos, isto depois também terá o seu impacto naquilo que se lhes tem de oferecer. Não é?
Portugal é um destino de casamentos. Falo deste mercado brasileiro. Na altura, os brasileiros quando vinham à Europa, vinham para quê? Vinham para casar em Itália, nas vinhas, tudo isso que era moda, era chique. E hoje escolheram Portugal como mundo novo. E na realidade é isso que acontece. Portugal hoje acaba por ser, pela sua promoção, por aquilo que é, por aquilo que nós temos. E não tem a ver com a questão de preço, tem a ver com qualidade de serviço e pela capacidade que nós temos, um wedding destination tremendo.
E quando vêm casar a Portugal, socorrem-se de empresas portuguesas ou trazem já tudo preparado dos países de origem?
Sim, o mercado brasileiro é um mercado muito atípico neste sentido. O mercado brasileiro é um mercado que trabalha 99% com wedding planners.
É?
É.
No geral, sim.
É um mercado muito focado em wedding planners.
À semelhança do americano.
À semelhança do americano, e muito à anglo-saxônica dos ingleses.
Portanto, é wedding planners de lá.
O wedding planner de lá, que tem contato com o wedding planner daqui.
E é fácil, Ana, este contato?
É mais fácil do que estar aqui.
Mas portanto, ao ter de articular de repente com um casamento que vem do norte da Europa ou que vem da Índia, ou seja, certamente que as pessoas, seja do ponto de vista gastronômico, da própria organização, porque aquilo que nós estamos habituados no casamento português em Portugal, é certamente diferente daquilo que as pessoas têm como expectativa num casamento entre brasileiros ou entre indianos. Não é?
Exato.
Quais são as principais diferenças? Onde é que nota ali? O vestido de noiva é talvez o mais consensual, não?
Com as brasileiras ou com os indianos?
Liga.
Com tudo. Houve algumas perguntas aí.
Sim, são imensas.
Imensas, agora não sei onde começar. Eu acho que lidar com o wedding planner, vá, do Brasil ou de outro país, principalmente quando é um casamento grande, pode facilitar. Não, depende também do wedding planner, depende como é o casamento, a quantidade de pessoas que vão ter, o que eles querem exatamente para o dia. Por isso, pode ajudar ou não, tal como tudo, depende da pessoa. Mas em relação aos vestidos e essas coisas todas, cada casamento é diferente. E uma das razões que muitas pessoas de fora vêm para Portugal é por causa da nossa cultura, por causa da nossa comida, que é muito melhor, na minha opinião, do que a italiana e a francesa e até a espanhola também.
Eles aceitam as nossas propostas gastronômicas?
Exato. E querem mesmo ter experiência de comida portuguesa. Já organizar uns casamentos no Alentejo, ter comida alentejana autêntica, não é daquela comida assim de hotéis, assim mais básicas.
Qual foi o pedido mais insólito que recebeu até hoje, Ana e Ilaria?
Tive que assinar um contrato agora, não posso estar a divulgar essa informação.
Diga uma que não tenha contrato.
Trazer um cantor lá do Brasil, que eles tinham a ideia de ter aqui um cantor específico. Isso foi um bocado complicado em termos de datas, de voos, porque também já foi um pedido um bocadinho mais em cima da hora.
Chega a esse detalhe, trazer o cantor do país.
Sim, e ter comida, trazer comida, uns bolos especiais da Itália.
Da Itália.
E depois outro casamento que o noivo era português e a noiva era espanhola. Presunto e coisas assim, não podia ser presunto português, tinha que ser presunto espanhol, porque é diferente.
Jamón.
Pois, exato.
E as noivas, em geral, trazem já o vestido. Quer dizer, tudo se compra cá, menos o vestido, que vem.
Já tive das duas maneiras. Sim, já tinham vestido de lá. Também depende de onde é o país. Se for na Europa, é mais fácil.
As duas internacionais também.
Exato, Pronovias e outras.
Sim, aliás, a Pronovias chega a Portugal num
Em 2000, 2000 e pouco, que é quando se percebe que esse mercado deve ser muito importante. Temos as grandes marcas espanholas de vestidos de noiva, porque fecharam aquelas lojas portuguesas, de cunhas e tudo isso, e vemos chegar a Pronovias.
Já estamos em agosto, Helena Garrido, os casamentos são a nova moda em Portugal?
Pelos vistos, já são há algum tempo. Eu diria que isso começa nos anos 90, mas neste momento, aquilo que nós verificamos é um reforço significativo e sobretudo a entrada de Portugal no mercado dos destinos de casamento, que é um negócio de grande valor acrescentado. Nós temos aqui fundamentalmente três fatores: a recuperação dos casamentos como evento. Que nos anos 80 era uma piroseira casar e fazer casamentos. Isto também é reação à geração anterior. E por isso é que estava a perguntar também quanto tempo já passou, porque as mudanças de geração geralmente são 25 anos, o que significa que podemos entrar em refluxo daqui a uns anos, mas isso é um detalhe. Depois há o aumento do casamento dos cidadãos estrangeiros em Portugal, que pode estar relacionado com a imigração, mas também com a globalização, digamos assim, com muitos portugueses que foram trabalhar para o estrangeiro, que podem ter arranjado namorado. O exemplo que a Ana acabou de dar, de português com espanhol, este tipo de casamentos em que há pelo menos uma pessoa que é estrangeira.
Deixa-me abrir aqui um parêntesis, já agora. Isso é um problema, Ana, ou é um desafio, casar pessoas de diferentes nacionalidades?
Eu acho que não. Acho que é uma oportunidade de juntar duas culturas diferentes.
Mas dá mais trabalho, porque há expectativas diferentes.
Também. E depende, mais uma vez, do que o casal quer.
Sobretudo à hora da refeição, escolher o catering.
Sim, um bocado isso e as tradições, porque depois há tradições tanto na igreja ou antes do copo d'água e depois é só um dia de casamento, são dois ou três. Isso depois varia bastante. Torna um bocadinho mais complicado em termos de organizar e mais elementos, mas é interessante. Eu gosto muito.
Helena, te interrompi, desculpa.
Eu também interrompi.
Neste caso concreto, o que é interessante que se está a passar é um aumento muito significativo deste segmento enquanto setor de atividade e que está relacionado também com o turismo. Aquilo que nós, por exemplo, ontem discutimos, que é criar um turismo de maior valor acrescentado, há aqui, sem dúvida, turismo de maior valor acrescentado, sobretudo com estes tais destinos de casamentos que podem ser valores muito elevados. Não há valores, de facto, a Expanor costumava fazer estudos sobre a dimensão deste mercado. Os valores estimados, aquilo que é o valor, por exemplo, que a Helena referiu dos 900 milhões de euros, são valores estimados através de uma conta de multiplicar muito simples, que é 40 mil casamentos vezes 30 mil. É mais ou menos o que dá mil milhões de euros ou um pouco acima de mil milhões de euros. Mas eu diria que este valor estava bastante subestimado. Há um estudo de 2004 que já dizia que este setor pesava 1% do PIB.
Exatamente.
1% do PIB hoje seria mais de 3 mil milhões de euros.
Seria para aí metade do Monte Europa, talvez.
Do quê? Do investimento do Monte Europa? Depende da dimensão.
Não, do valor do PIB.
Sim, mas atenção, estamos a falar de volume de negócios. Nós quando fazemos é para ter uma referência. Não é o valor acrescentado todo, mas o volume de negócios em si pode andar em torno dos 3 mil milhões de euros, até porque vai ser muito difícil estimar alguns destes valores. As estatísticas dificilmente apanham algumas coisas. Nós estamos a fazer estimativas com os casamentos, já vimos que há pessoas que vêm cá, por exemplo, casais que casaram no país de origem e vêm cá apenas fazer a festa. Eu, pelo menos, já tive experiências desse gênero, em que escolhem fazer a festa aqui. O que é muito interessante é a oportunidade que isto abre para um tipo de negócio que eleva Portugal para um patamar de valor acrescentado muito mais significativo. Tem um impacto, estes casamentos internacionais, que aí sim, além dos brasileiros, o que me dizem é que há aqui um boom muito significativo de casamentos de indianos, que geralmente os casamentos indianos duram três dias e são famílias indianas de elevadíssimo poder de compra, que trazem os convidados.
Podem alugar, isso já aconteceu em Espanha, por exemplo, alugar determinado tipo de edifícios históricos ou zonas para vários dias.
E mesmo em Portugal, alugam um hotel, podem alugar um hotel por três dias. Eu penso que terão também essa experiência.
Não há muitos espaços aqui em Lisboa ou em Portugal, em termos de tamanho, que cabe 700 pessoas, 700 convidados. Por isso também temos que ter isso em conta e o impacto que tem virem tantos convidados de fora O impacto na economia de hotéis, restaurantes.
Transporte.
Transporte. E depois aproveitam, já que estão em Portugal, para fazer mais uns dias, mais uma semana ou isso, ir pro norte ou pro sul, pro Algarve, Alentejo. Por isso o impacto que tem na economia não é só nesses dois ou três dias de casamento. E depois é impossível calcular exatamente o impacto que vai ter na economia portuguesa.
Também lhe pedem isso para depois gerir a agenda dos convidados que ficam pós-casamento ou que chegam pré-casamento?
Sim, eu gosto de organizar coisas, mas também gosto de fazer uma lista de recomendações de sítios pra onde irem, onde ficar, zonas pro norte, pro sul. Portugal é pequenino, mas é grande ao mesmo tempo, que tem muita coisa pra ver. E sim, eles pedem também informação e ideias, não só pro grupo dos noivos, dos pais, dos padrinhos, mas também de alguns convidados que querem aproveitar e tornar isto umas férias.
Micro, Helena.
Espaços para casamentos de 700 pessoas. Em Lisboa, por exemplo, ou no Porto.
Ou até no Algarve, não é?
Que espaço é que temos que possa levar 700 pessoas?
Alguns hotéis aqui em Lisboa.
Há hotéis, claro.
E depois alguns conventos. Convento do Beato também é grande, cabem lá muitas pessoas. Palácios.
Mas onde para dormirem?
Para dormir, hotéis. Exato.
Basicamente referem o Penha Longa, referem também o Pestana, que penso que será o Pestana da Praça do Comércio, não é?
Pois, o Pestana Palace não cabe tantas pessoas, é mais pequeno. E alguns hotéis, o Época Pestana.
Algumas quintas têm capacidade para isso.
Algumas quintas também.
Há quintas com capacidade?
O Roceralta capacidade pra mil pessoas.
Para acomodar mil pessoas, não a dormir, para celebrar o casamento.
Só pra celebrar o casamento.
Se estamos a falar dormir, logicamente tem que ser em hotéis.
Depois também já organizei autocarros para levar os convidados lá de Lisboa, de alguns hotéis, para quintas.
Esse é um fenómeno curioso, eu lembro-me que há uns anos atrás, estávamos a falar de novos nichos, novas empresas que entraram no mercado, e quando se implementou, já foram alguns anos, a questão das taxas de alcoolemia. Então apareceram algumas empresas precisamente de transportes a oferecer esse tipo de serviço, e procurado inclusive pelos noivos de transportar os convidados, principalmente depois da festa, trazê-los aos hotéis ou à casa, precisamente por causa da questão da alcoolemia.
A capacidade multiplicadora deste setor, sobretudo se envolver os casamentos de estrangeiros, é brutal, não é? Porque a quantidade de setores de atividade que isto pode abranger é muito significativa.
É ilimitado, quase.
Sem dúvida.
Exatamente.
Mas eu acho que, e a Ana saberá, porque lida mais do que eu, eu lido mais com as empresas, mas na realidade, eu acredito, sinceramente, que nós, os noivos portugueses, somos muito mais exigentes do que os casamentos estrangeiros.
Acha?
Acha?
Acho.
Eu estou em coro.
Acho, porque pra eles tudo é novo, pra eles tudo é novidade. Pra nós, não. Nós já sabemos o que queremos. E portanto, estamos habituados, nós, pela nossa cultura, pela nossa forma de estar, somos muito mais exigentes e temos tempos de comparação. Depende muito do nível de casamento.
É, eu não digo os americanos, são bastante exigentes.
Exato. Mas se formos olhar para aquilo que começou, pelos casamentos que vinham do norte da Europa, de Inglaterra, da Irlanda, da Alemanha, tudo isso, eram pessoas de classe média e baixa. Pessoas de classe média e baixa que vinham casar no Algarve pelo clima e pela gastronomia.
É verdade.
E portanto, a exigência é relativa. Desde que se comesse bem, desde que toda gente ficasse feliz, era suficiente. Para eles o fish and fries, tudo que fosse acima disso era muito melhor. Nós não, nós não vamos nessa conversa, nessa história. E alguns mercados também não, como o mercado inclusive o brasileiro, ou inclusive o próprio mercado-
Sim, o americano e brasileiro, aparentemente, eles mais exigentes, e depois o indiano.
Claro, tem a ver com o nível cultural.
É uma especialização lá, há vários tipos de cerimônias.
Exatamente. Eu acho que isso foi talvez também uma grande mudança, todos estes aspetos sociais que estamos aqui sim falar, principalmente a questão da idade, influenciou de sobremaneira o nível dos casamentos. Aliás, hoje há uma especialização e uma profissionalização do setor que não existia há 20 anos atrás. E um conhecimento e um relacionamento que não existia. E é um dos aspetos extremamente importantes, por exemplo, as próprias empresas começaram a ter um determinado nível de desenvolvimento, não só no produto, mas principalmente no serviço, que é o nosso grande diferencial, essa nossa hospitalidade, a nossa profissionalidade, a nossa forma de sermos recetivos e de recebermos as pessoas e de os acompanhar. Isso é único, é o nosso grande diferencial, e é aquilo que fica na memória das pessoas, e aquilo que na verdade fica na memória do casamento. E essa questão, hoje as empresas começaram a se adaptar. Hoje é lógico que nós continuamos a ter um problema de mão de obra, é um facto, mas hoje as próprias empresas, porque também não são empresas de grande dimensão, começaram a se especializar, começaram a capacitar o seu pessoal, começaram, no fundo, a apresentar novos produtos. Isso é um trabalho que, por exemplo, eu faço na área da consultoria, precisamente para ir de encontro ao quê? Às necessidades dos próprios noivos, porque hoje os casamentos, criou-se uma forma de que os casamentos têm que ser diferentes, tem que ser temáticos.
O que você faz na área da consultoria não é parecido com o trabalho do wedding?
Não, porque eu trabalho diretamente com as empresas, ela trabalha com os noivos. Eu trabalho com as quintas Trabalho com fotógrafos, trabalho com a empresa de animação.
É fornecedor da Ana.
O fornecedor tem os seus fornecedores.
Trabalha de braços dados.
Exatamente. Trabalhamos todos no mesmo mercado.
Nos anos 80.
Mas essas empresas eram precisamente para isso, para elas tentarem melhorar o produto e para poderem oferecer tanto às wedding planners, logicamente, como aos noivos.
Sim, mas os noivos hoje. Eu lembro-me, todos nós temos as memórias daqueles casamentos no passado. O que mudou, por exemplo, no que se come, no que se espera encontrar? Nós hoje chegamos aos casamentos, houve sempre cuidados com as mesas, mas aquilo hoje é assim um...
Já não é bacalhau com natas.
Não é bacalhau com natas.
Nem bifinhos com champignon.
Não, mas cada época tem as suas coisas.
A torre de camarões sobreviveu aos anos ou não?
Também já continua.
É curioso, porque o camarão sobrevive, mas hoje o camarão não é um prato rico no casamento. Hoje o queijo é muito mais rico no casamento do que é o camarão. Na altura, tu tiveres camarão, era um casamento rico. Mas porque os preços são diferentes. Hoje, um queijo da serra é mais caro do que um quilo de camarão.
O que é que não pode faltar hoje no casamento?
Eu acho que hoje em dia começa tudo com a hora de coquetel, que não é só uma hora, são duas ou três, logo a seguir à cerimônia da igreja ou o celebrante, é ter o hora de coquetel para estender esse tempo até o jantar, que costuma ser um pouquinho mais cedo, mas um casamento na igreja, por exemplo, começa ao meio-dia, depois acaba perto da 13h, e depois vão para o sítio do copo d'água, têm lá já um coquetel à espera, um cupim, uns canapés. Isso agora já é quase exigido pelos noivos todos. Mas depois em relação ao copo d'água, já não é bufê no geral, é prato principal, no geral, peixe e carne, mas também depende do casamento, porque alguns noivos querem aquela comida tradicional.
O que é comida tradicional?
Depende da zona também.
Ah, comida relacionada com a zona portuguesa.
Pedem cozinha portuguesa?
Carne de porco à alentejana.
Carne de porco à alentejana.
Um pouquinho mais moderno hoje em dia, mas sim.
E depois tem as sobremesas e o bolo de noiva. Depois há sempre aquele bufê, a ceia, que é super importante.
E o que é super importante ter nas ceias?
Queijos, pão, coisas para absorver o álcool que está a ser consumido.
O que é coisas para absorver o álcool?
Pãozinho.
Muito pãozinho.
Sim, mas é um bufê de frutas, mais doces, porque a cultura portuguesa é muito doce. E bolos, pregos.
Agora há até aquela questão de vir, às vezes, carrinhos com hambúrgueres, muito esse tipo de experiências, não é?
E churrascos no final.
Churrascos. Churrascos no final.
Churrascos mesmo no final.
Mas é preciso resistir até à hora dos churrascos.
Muita gente que resiste.
Depois há a parte da dança.
E os estrangeiros também têm esse tipo de preferências, casamentos estrangeiros.
Sim. E depois há aquela coisa, tem uns casamentos-
Eu não estou a falar dos indianos, porque alguns exigem mesmo o menu indiano. E toda a decoração indiana
Depois há muitas quintas que o catering tem que ser através da quinta, não podem trazer comida de fora. Mas isso já faz parte dos pacotes, é já normal hoje em dia ter essa parte de coquetel.
Exato. O maior peso é a quinta e o catering. É quase 50% do custo do casamento.
É isso.
Muito bem.
Pode ser mais, com o bar aberto.
Falávamos aqui há instantes do luxo. O que é um casamento luxuoso, Ana Hilário?
Isso é muito relativo.
Ele pergunta com interesse.
Sim.
Com interesse próprio.
Quando é que você vai casar?
Eu já casei.
Mas nós achamos que ele está a pensar numa festa, exatamente.
Uma festa, uma festa dos 25 anos ou 20 anos. As bodas prata. Eu acho que o luxo é relativo, mas a parte de comida. A quantidade de comida, o estilo de comida, marisca é mais caro, não é só os camarões, sapateiras e coisas assim, lagostas, mas também o bar, as bebidas, quantos pacotes que estão incluídos.
Mas o luxo mede-se na comida? Ana?
Eu acho que isso é um elemento de luxo. E depois tem outros elementos, que é a decoração.
Sim, hoje é muito importante.
Flores naturais são supercaras. E depois, há noivas que querem uns arranjos gigantes em cada mesa, mais uns arranjos logo à entrada, depois querem pétalas de rosas no chão, ali naquela zona, e depois querem decoração lá fora, seja numa quinta ou até nalguns espaços, outro tipo de decoração, como mobília, sofás, mesas de coquetel, cadeiras especiais.
O que é que são cadeiras especiais?
Diferentes do que é disponível num hotel ou numa quinta.
Sim.
E se querem um tema específico com azuis ou cor-de-rosas, depois querem cadeiras a condizer, depois querem laços por trás das cadeiras, isso tudo aumenta.
E depois temos os casamentos temáticos.
Já lá iremos. Mas é a noiva. Ela é a figura principal.
No geral, sim. Não sempre, mas-
Na questão das exigências, da definição das características.
Não é sempre assim, mas é aquela cena, a princesa. E depois, como a média de idade da noiva e do noivo está a crescer, há mais tempo que estão a pensar neste dia.
Mas há um aspeto, um tipo de casamentos que ainda não falámos, que é os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, que também aumentaram e aumentou também a procura do estrangeiro em relação a esses casamentos. São muito diferentes dos outros casamentos?
Eu acho que a parte mais diferente é a parte da igreja. Como é que vão celebrar o casamento em si.
É sempre com celebrante, não é?
Exato. Mas depois do copo d'água, acho que não tem muita grande diferença entre casais do mesmo sexo e diferentes.
Quando aprovaram a lei-
Em 2010, não é?
Em 2010, foi no dia em que a Expo-Neve abriu, em 2010. E então a primeira pergunta que os jornalistas me fizeram, que é precisamente a pergunta que a Helena está a fazer: o que é que é diferente? E eu disse aquilo que digo hoje, se nós vamos dizer alguma coisa que é diferente, nós estamos a respeitar a liberdade das pessoas e a diversidade. Portanto, como tal, será garantidamente igual a qualquer casamento na sua gênese e organizado da mesma forma para que duas pessoas sejam felizes. E esta é a forma que nós temos que pensar.
Mas esse é outro segmento de mercado que se abriu, não é?
É, e sobretudo um mercado, era aquilo que eu dizia-
De grande poder de compra.
Com grande poder de compra.
Com grande poder de compra. O João ainda tem uma pergunta também para o poder de compra, que é os casamentos temáticos, não é?
Exatamente, que são uma tendência também agora.
Experiência. É assim, tudo que os noivos hoje procuram é experiência e tudo que seja diferente. Casamentos temáticos. Eu lembro-me aqui muitos anos atrás, os primeiros casamentos que havia uma quinta, passando a publicidade, a Quinta dos Combais que já não existe, que organizava casamentos medievais. E portanto, tudo aquilo que o nosso imaginário de rainhas, reis, princesas, cavalos, carruagens e tudo isso que está aí relacionado, inclusive com a própria gastronomia. E portanto, era algo que na altura, e era inesquecível, imemorável. Como sejam casamentos relacionados com viagens, que as pessoas têm muitas vezes, não sei se trabalham muito essa área, mas, por exemplo, eu tenho pessoas que conheço que a primeira pergunta que fazem com o Wedding Planner é: "Qual é o teu sonho?" Há futbolistas, eu adoro jogar futebol, adorava jogar no Estádio da Luz, por exemplo, ou eventualmente eu adoro música e portanto os estilos musicais. Então todo o casamento é construído nessa envolvência daquilo que é uma banda rock, daquilo que é uma viagem ao mundo.
Isso materializa-se em quê?
Desde a alimentação, desde o vestuário, toda a decoração do próprio evento, tudo é construído em função desse tema. E portanto, é aquilo que há bocado estava a dizer, a imaginação é o limite. E portanto, na verdade, tudo isso é possível. Hoje já não tanto, acho que já não tanto. Mas nasceu uma onda, que há bem pouco tempo, que era os casamentos na praia.
Exato.
Casamento pé descalço.
Pois, eu tenho essa dúvida. Isso é um mito ou existe mesmo? Casamento com o pé na areia, existe?
Exatamente. E que a gente oferece, inclusive vocês oferecem chinelos Havaianas para os convidados que irão ao casamento. Tudo isso é possível.
Mas ainda está na moda esse casamento pé descalço, como disse?
Aqui em Portugal acho que sim, na Austrália, então, onde eu cresci, também não há.
Porque tem muito a ver com o imaginário das pessoas e tem muito a ver principalmente com isto, é assim, o sonho. Há bocado na questão, estávamos aqui, qual é o papel principal, se é a noiva, se é o noivo ou se são os convidados. Mas na realidade, muitas das vezes, o design do próprio casamento pode ser idealizado pelo noivo, pode ser idealizado pela noiva, como uma forma de agradecer e de forma de oferecer ao seu parceiro ou à sua parceira aquilo que é o sonho para ele.
E na sua perspectiva, dos diversos setores, e a Ana poderá responder também, das diversas atividades envolvidas, qual é aquela que pode estar neste momento a dar maior margem ou aquela em que há menos oferta?
É difícil dizer essa questão.
Os alojamentos, por exemplo?
Sim, eu vou te dar um exemplo. Por exemplo, eu na altura, quando nós começámos, quando o mercado começou a se organizar, se assim podemos chamar, talvez seja a palavra mais correta. Nessa altura, aliás, o típico era o restaurante e o hotel. O hotel deixou de ter importância durante mais de 10, 15 anos. Ninguém casava em hotéis. Hotel já não era moda, já não tinha graça, a comida era sempre igual para toda a gente. E portanto, os hotéis acabaram, porque o core business do hotel também não é casamentos. Nos últimos 10, 15 anos, voltou os hotéis a perceberem que este nicho de mercado era importante para eles, e principalmente os hotéis de quatro e cinco estrelas. Então começaram a desenvolver-se naquele mercado. Eu lembro-me de trabalhar aqui há uns anos atrás com alguns hotéis lá embaixo no Algarve, a criar precisamente o próprio produto, e foi aí que começou a história dos casamentos na praia. Lá embaixo, inclusive em Lagos, o próprio hotel desenvolveu muito essa área. E hoje, principalmente no segmento alto, segmento A, A+, já voltou um pouco aos hotéis. Mas as quintas continuam a ser rainhas no meio desse contexto.
E Ana, na sua perspectiva, o que tem mais dificuldade em contratar?
Dificuldade é o espaço.
Pois, ainda continua a ser.
É o espaço em termos de datas, porque os noivos já têm uma data específica na cabeça. E juntar essa data com a disponibilidade da igreja ou de outro espaço onde querem celebrar o casamento antes.
E há regiões em Portugal que estão sob maior pressão?
Sintra.
Sintra?
Sintra, Óbidos. Sim. Os Açores também, mas acho que à volta.
Depois querem ir fazer as fotografias na praia lá alaga.
E a pé dos palácios.
O Douro também.
O Douro. Sim, o Douro também está. O Alentejo está a crescer, mas eu acho que sim, o Douro.
Douro, Douro Vinhateiro, claro. Sim.
E em relação às margens, eu acho que em termos de maquiagem Cabelo e até os fotógrafos, acho que a margem está a crescer, porque há mais procura e tem que bloquear o dia inteiro pra maquiagem por causa do casamento.
E em Portugal esses preços são muito baixos quando se compara com os preços que são praticados.
E hoje em dia, por exemplo, a fotografia já não é só a fotografia do dia do casamento.
Não.
É a fotografia-
Hoje tem um fenômeno completamente diferente da nossa altura, porque na nossa altura, pelo menos quando eu casei, o negócio do casamento era vender fotografia aos noivos, não era?
Sim.
Aos noivos não, aos convidados.
Às convidadas.
Hoje ninguém vende fotografia às convidadas. Hoje vende-se o pacote aos noivos. Se os convidados quiserem, problema deles, peçam aos noivos.
Têm o link.
Exatamente, ou têm o link e descarregam.
Sim, mas tem a sessão de fotografia antes.
E tem o vídeo pro próprio casamento.
O negócio passou a ser esse, é os noivos.
Outra coisa interessante também, que é neste planeamento, é fundamental fazer um site para os noivos confirmarem a presença, escolherem as músicas, dizerem se são alérgicos a algum tipo de alimentação.
Charma, tu passaste por isso, Helena.
Passei por isso, exatamente.
É toda uma experiência nova.
Sim, completamente.
E vocês também constroem o site, mas eu acho que há aplicações muito simples pra fazer isso.
Fantástico. Estamos a falar do casamento, que é um contrato. Chamamos pra esta discussão o Paulo Saragoça da Mata, que é advogado. Bom dia, Paulo.
Olá, bom dia.
Explique-nos aqui, numa aula de Código Civil para totós, o que é isto do casamento. É um contrato, claro, mas com muitas nuances.
É verdade. Antes de mais, deixe-me soltar uma opinião inicial pra compreender se algumas das afirmações que vou fazer. Pra mim, o casamento, contrato jurídico, está completamente anacrônico. É uma figura que não faz nenhum sentido tal como está hoje em dia, por variadíssimas razões. Antes de mais, é um contrato que serve pra oficializar a relação de duas pessoas, diz a lei, que decidem viver juntas, constituir família e, naturalmente, terem aquilo que nós chamamos um mútuo auxílio, uma comunhão de vida. No entanto, associa-se ainda, por uma razão histórica de milênios, um regime de bens ao casamento, criando problemas absolutamente desnecessários, que são também aqueles que enxameiam os tribunais e que criam conflitos familiares, sociais, etc.
Então, bom dia daqui, Helena Matos. Então, o que é que está a defender?
O que estou a defender foi algo que defendi em 1993, 94, quando fiz o meu primeiro trabalho acadêmico pra entrada na carreira acadêmica, na faculdade de Direito. É que o contrato de casamento deve ser um contrato sueno entre duas pessoas pra oficializar a relação dessas duas pessoas na tal comunhão de vida, que decidem viver juntas. Não tem que ter qualquer reflexo patrimonial, porque já existe na lei geral, no Código das Obrigações, o regime da compropriedade de bens. E tem umas regras de constituição e dissolução muito mais fáceis.
Portanto, acha que, sendo assim, porque muitos casamentos ou alguns acabam em divórcios ou noutras situações.
A grande maioria, salvo erro.
Temos depois também situações em que, por exemplo, pode morrer um dos cônjuges e temos ali problemas de heranças. Portanto, acha que se devia dissociar a questão patrimonial da questão do vamos ser felizes para sempre?
Exatamente. E até por uma razão, sabe o que eu diria? Isto é uma tradição de milênios, de que o casamento implicava a transferência da propriedade da mulher.
Exatamente.
E juntamente com a propriedade sobre a mulher, depois deixou de ser propriedade, mas continuou a ser o poder paternal que se exercia também sobre a mulher, o poder marital, e havia associado, às vezes, aquilo que era a única coisa que fundamentava o matrimônio, que era o contrário, que era o patrimônio. Isso deixou de ser uma realidade. Há um outro anacronismo que posso explicar na fase da morte, se quiserem, da morte de um dos cônjuges. E portanto, isto é um anacronismo que tem que acabar com a máxima celeridade.
Mas isso não se resolve com, eu não sei se vou dizer exatamente o termo correto e rigoroso, o contrato pré-nupcial?
Não, não se resolve. Sabe por quê? Porque isso é como qualquer contrato. No momento do contrato, estamos todos bem e felizes, seja qualquer contrato, compra e venda de um carro, compra e venda de uma casa. Estamos todos felizes, tudo corre bem. O problema é quando começa a correr mal. Quando começa a correr mal, as regras são incompreensíveis.
Eu não sei se percebi bem qual é o problema. Quando nós casamos, o que é que estamos efetivamente a dar nesse contrato?
Estamos a dar várias coisas. Antes de mais, estamos a dar a nossa anuência a uma série de deveres, o dever de fidelidade, o dever de coabitação, uma série de deveres, o dever de filidade, que é o que gera também tantos divórcios a seguir, nada disso está aqui em questão. Portanto, o casamento faz todo o sentido na sua dimensão pessoal. No patrimônio vai sempre ter um impacto, é impossível não ter impacto. Dir-me-á: "É possível".
Mas que impacto?
Hoje é a separação de bens, não é?
Exato.
Então vou explicar. Os regimes de bens, que nós hoje em dia eu diria que temos quatro possibilidades, e não três. Ter a comunhão de adquiridos, que é aquela que se aplica caso as partes nada digam, é o regime supletivo, em que tudo o que está pra trás é próprio e tudo o que está pra frente do casamento será comum, se foi adquirido a título oneroso Se for gratuito, doações, já não tem problema, diremos nós. Não é bem verdade, porque muitas doações de bens trazem anexo um encargo. Basta que traga anexo um encargo, essa doação que tenha anexo um encargo.
Tipimi.
Exatamente, tipimi. Muito bem, é isso mesmo. E para isso, é óbvio que o outro cônjuge tem que ter alguma palavra a dizer. Mas além da comunhão de adquiridos, temos um regime que hoje em dia acho que só mesmo o brazar é que alguém escolha: o regime da comunhão geral de bens, que é uma comunhão geral de todo o patrimônio prévio e futuro, que não é permitido a pessoas que já tenham filho previamente. Depois, temos o regime da separação de bens. Este regime realmente reduz muitíssimo o problema patrimonial e até é imperioso para pessoas com mais de 60 anos. Depois temos o regime convencional, em que os noivos, por convenção antenupcial, podem ir buscar regras de cada um dos outros regimes, desde que seja legalmente possível, ou até criarem regras novas que não violem as regras imperativas da lei. Mas vejamos, por exemplo, a seguinte situação: a Helena casa-se em separação de bens e, portanto, os seus bens são seus, os bens do seu marido são dele. No momento da morte, ficciona-se uma comunhão que nunca existiu. Por quê? Porque o cônjuge, por força imperativa da lei, torna-se herdeiro do outro cônjuge.
Certo.
Isto, que era uma regra histórica que fazia todo sentido em 1978, quando o Código Civil foi alterado, deixou de fazer sentido a partir do momento em que os cônjuges deixaram de estar numa situação de desequilíbrio absoluto, como regra sociológica. Esta regra existia, deixa-me só dar a nota, por causa das mulheres serem domésticas ou viúvas de guerra, que ficavam na mais absoluta miséria. Aliás, era um problema social, era a prostituição das mulheres viúvas. Um problema social muito grave que Portugal vivia, e daí o legislador ir e salvar a situação dizendo: "O cônjuge é herdeiro, é herdeiro de primeira linha e é herdeiro legitimário, quer dizer, não pode ser afastado sequer por uma outra solução".
Claro.
Portanto, isto é uma regra que não faz nenhum sentido hoje. Claro que o legislativo não altera as regras do casamento, porque não é um assunto que dê votos. Se era um assunto que dê votos, não havia mais isso.
Diga-me uma coisa, tudo isso que tens estado a referir, e há outras questões, acha que as pessoas, aqueles 30 e não sei quantos mil portugueses que casam todos os anos, acha que têm essa preocupação no momento?
Não, não têm, Helena. Lá está, era o que eu dizia há pouco. Nós quando iniciamos qualquer contrato, estamos satisfeitos, estamos felizes. Um contrato de sociedade, os sócios juntam-se para fazer uma sociedade, para produzirem e cultivarem laranjas. E nesse momento está tudo bem. E está tão bem ou tão mal, que até utilizam muitas vezes aquelas sociedades com os pactos sociais feitos na hora, que já existem na internet. O problema é que isso são soluções de pronto vestir mal. Por quê? Porque não estão, por definição, previstas uma série de regras que são próprias daquela atividade, próprias para aqueles sócios, para a sua maneira de ser e relações. E, portanto, nesse momento as pessoas casam, porque o objetivo é casar. E depois também temos a experiência sociológica, todas as pessoas casam, não morre ninguém. Antigamente, ainda havia o problema da indissolubilidade do casamento.
Pois é.
Agora, quer dizer, é um bocadinho como as doenças agudas letais passaram a ser crônicas. E, portanto, como passaram a ser crônicas, as pessoas deixaram de se preocupar com preservativos. E por isso, é um bocado isso, as pessoas não se preocupam com isto. Mas também diria que é típico, não se preocupam com a maior parte dessas questões legais, sejam elas de que natureza for. Nós não consultamos um advogado como vamos a um dentista. Nós vamos ao dentista para prever a doença dos dentes. Nós vamos a um advogado, já é na fase do arrancar o dente que está todo podre.
Isso quer dizer, e usando exatamente a imagem dos dentes, que me parece ser poderosa, que também mudamos, porque há algumas décadas as pessoas só iam aos dentistas quando tinham problemas com os dentes.
Exato.
O que posso concluir das suas palavras é que acha que talvez antes de casarem devessem ouvir um advogado?
Claramente. Vou até contar uma história muito breve. Eu tive uma estagiária, portanto, vista, que se tornou advogada, e eu disse-lhe sempre: "Oiça, você não vá casar, está para pronto a casar, você não vá casar em comunhão de adquiridos, é uma coisa absolutamente esfarrapada. Nem comunhão geral, você case em separação de bens que reduz em boa medida o problema". E um dia ela chega muito triste ao escritório e diz-me: "Sabe de uma coisa? Eu vou mesmo ter que casar em comunhão geral". Eu disse: "Vai ter que casar em comunhão por quê?" "Porque o meu noivo diz que se não for em comunhão geral, não casa."
Então, não casa.
Esta frase, para mim, não era uma campainha, era um carrilhão a tocar.
Exatamente. Se fosse a minha filha, não casava, já se percebeu.
Se fosse minha filha, eu dizia: "Desculpa lá, só vais casar contra a minha vontade, que não é uma cerimônia boa, porque isso é mesmo um contrato só patrimonial". Está vendo? E é isso que eu acho que nós retiraríamos muitíssimo de conflito social, de conflitos nos tribunais, de conflitos familiares, se retirássemos a dimensão patrimonial. E ficava a ser um casamento, um contrato puro e simplesmente pessoal.
Paulo, desfaçamos aqui uma dúvida. Foi referido aqui ao longo do programa que há muitos casamentos que são celebrados em Portugal, enfim, que nem são bem casamentos, são cerimônias ou festas. Têm valor legal ou não?
Não. O casamento tem uma característica muito interessante, porque por regra, o registro do contrato é condição de eficácia, ou seja, para produzir efeitos perante terceiros. Ora, o casamento exige um registro, que é um registro condição de validade. Ou seja, sem registro não é sequer válido.
Registro, ou seja, tem que estar escrito e reconhecido por um representante do Estado.
Tem que estar escrito.
Portanto, não vale aquele discurso de: "Está gravado, filmado, há testemunhas." Isso não existe.
Não existe. Aliás, era comum há uns anos, não sei se ainda é, aqueles casamentos, as pessoas que iam para Las Vegas casar em um cassino.
Isso é desfile.
Isso. Outros faziam o casamento debaixo d'água, na Polinésia Francesa, uma série de coisas. Isso não são casamentos nenhuns, não são casamentos coisa nenhuma, nem sequer são suscetíveis de ser transcritos em Portugal, porque como sabem, dois portugueses podem casar no estrangeiro. A questão é: enquanto um casamento feito em Portugal perante um oficial português é registrado, é inscrito, os que são feitos no estrangeiro são transcritos em Portugal. Tem que ser feito de acordo com as regras jurídicas da jurisdição em que o casamento ocorre, respeitando princípios básicos da lei portuguesa, que nós chamamos uma ordem pública internacional do Estado português. O Estado exige que certos requisitos sejam cumpridos, por exemplo, casamento entre irmãos. Mesmo que no país em que fosse ser feito o casamento no estrangeiro fosse admissível o casamento entre irmãos, esse casamento nunca podia ser transcrito em Portugal. É um contrato muito rígido, muito solene, carregado de obrigações, gerador de imensas consequências pessoais e patrimoniais e por isso tem que ser registrado. Aliás, um dos requisitos obrigatórios, e que tem que ter muita cautela, é garantir a liberdade, a não coação de qualquer dos elementos, qualquer das partes do casamento.
Paulo Saraiva Gonçalo de Matos, sem lhe querer roubar muito mais tempo, até porque sei que está a procurar ter férias. Há aqui uma questão de tudo o que ouvi dizer. Diga-me uma coisa, o contrato de casamento é um dos mais fortes que assinamos na nossa vida ou o mais forte?
E os outros?
Sim?
Bom, perdemos a ligação com o-
Não, estou aqui.
Sim, Paulo. Não ouvimos a resposta.
Mas disse sim ou disse não?
É um dos mais fortes da nossa vida, seguramente. Aliás, será o contrato que, a meu ver, exigiria maior reflexão. Não sei se conhecem aquele ditado popular, a minha mãe está sempre a dizê-lo: "Quem pensa não casa, quem casa não pensa." Portanto, eu acho que sim, é um dos contratos mais fortes que existe. Tem tantas consequências que exige uma reflexão profunda. Se me pergunta se acho que essa reflexão profunda ocorre, não acho, sinceramente não acho. Ouvi um bocadinho da emissão antes de me chamarem. É engraçado porque também se transformou em um grande negócio, como é um grande negócio a morte. A morte também é um grande negócio. E penso que todo esse envolvimento sociológico, midiático dentro das famílias potencia muito a irreflexão. Por uma razão, porque o hábito social é: as pessoas têm que casar. Antigamente, até havia uma idade para casar, principalmente as senhoras, se não casassem até determinada altura estavam, como se dizia, encalhadas, já não casariam. Era uma vergonha para a família toda. Não leva a mal a expressão, mas há todo um folclore à volta do casamento que também induz a menor reflexão.
Paulo Saraiva Gonçalo de Matos, muito obrigado por terem encontrado tempo na sua agenda.
Sempre é um gosto.
Muito obrigado, agradeço. Esta questão legal, António Brito e também Ana Hilário, sobre o regime de bens do casamento, é uma questão que quem procura se coloca, Ana Hilário?
Pode repetir a pergunta? Estava a tirar aqui.
Se a questão legal em torno do contrato de casamento se coloca quando organiza o casamento.
Os vê preocupados?
Acho que sim.
Talvez eu poderia acrescentar aqui uma coisa ao João. A questão de quem é que vai pagar isto.
É uma questão que eu não costumo perguntar aos noivos propriamente, diretamente, mas sim, temos essa conversa em termos de custo, mas também em termos de contrato, isso é uma coisa super pessoal, e eles é que têm que decidir, esse não é o meu papel para estar a dar conselhos nem dicas, mas posso também dar contactos de advogados para eles falarem.
Trabalha com advogados?
Sim, claro. Tem que ser.
Que aconselham?
Que aconselham e depois eles falam.
Mas vê-se que é o momento onde colocam algumas luzes, às vezes.
Vamos ver, quem paga o casamento? Eu acho que hoje em dia quem paga o casamento são os noivos.
Pois, porque antigamente eram os pais.
Exatamente.
Da noiva. Sim ou não?
Exatamente.
Era mais antigamente.
Sim, era mais antigamente, depois começaram a dividir a conta. Porque eu lembro-me, e voltamos à mesma questão social. Hoje os noivos têm mais idade, têm mais poder de compra e portanto eles já têm capacidade para poder pagar. Antes, não. Eu ainda me lembro, há bons anos atrás, aliás, embora nós sejamos um país pequeno, mas culturalmente somos ligeiramente diferentes. Eu lembro-me, em Lisboa, ver os noivos nas feiras a visitarem os próprios stands, a negociarem sozinhos, e só no último dia é que iam os pais ou os padrinhos a ver a feira, porque logicamente podiam fechar os negócios No Porto era completamente diferente. No Porto eram os pais que iam, e os padrinhos, e a gente assistia, eles diziam: "Eu gosto deste azul", e o pai ou a mãe ou a madrinha diziam: "Não, tu gostas é do amarelo, porque quem paga sou eu e, como tal, tu vais levar o amarelo". Havia essa influência. Hoje, não. Hoje eu acho que são os próprios noivos, podem ter ajuda dos pais ou dos padrinhos, ou de quem nós entendermos. Hoje até há crowdfunding para casamentos. Já existem diversas soluções. Existem soluções de crédito. Trabalhei com alguns bancos aqui há uns anos que criaram soluções de crédito especificamente para casamentos. Há tudo aquilo que é possível imaginar. Mas eu acredito que hoje sejam muito mais os pais do que os noivos.
Não vão sair daqui. Eu sei que a Helena tem uma pergunta, mas não vão sair daqui sem eu vos perguntar uma coisa: alguma vez apanharam aqueles casamentos em que um dos noivos diz não ou não aparece?
A senhora sabe melhor do que eu.
Felizmente, ainda não.
Mas é o susto da vida, não é?
Sim, para toda a gente, principalmente a noiva ou o noivo.
Mas há histórias.
Já ouvi, mas não aqui em Portugal. Acho que é mais noutros países.
Eu na Feira assisti a situações de irem com um noivo e saírem com outro.
Ah, mas eu pedi isso logo no princípio do programa.
Como a gente costumava dizer sempre, era um bocado o slogan: "Os Noivos conseguem encontrar tudo, até o noivo ou a noiva, se procurar bem". E já vi situações dessas, de discussões, entre noivos, porque voltamos à questão, gosta do amarelo, tu gostas do azul, cria-se uma discussão e outras situações que acontecem, e eu já vi entrar com uns e sair com outros.
É muito interessante isso, porque Ana, o momento de seguir-
São fenómenos sociais.
Mas no dia do casamento?
Não. No dia do casamento, em todos aqueles que eu fui, cumpri o objetivo.
É engraçado sublinhar isso, porque também é o momento em que muitos noivos se conhecem ou não, o momento em que organizam o casamento.
Conhecem-se com a convidados.
Foi assim que eu conheci o meu marido, por acaso. Num casamento. Não dele.
Sim, mas eu dizia, o noivo e a noiva conhecem-se melhor no momento em que partem para a organização do seu próprio casamento.
Ah, sim.
É um teste também à própria relação, não é?
Isso é um teste, mas é por isso que eu também facilito essa parte, tiro o estresse e os noivos podem aproveitar o processo todo e no dia aproveitam e estão mais relaxados.
E já sentiu durante a organização de um casamento para um determinado casal que aquilo ia acabar rapidamente ou não?
Rapidamente, se calhar, não, mas um dia mais tarde ou mais cedo.
Não vai funcionar.
Mas também é o estresse. Estou ali para ajudar, mas há sempre aquele estresse e depois os pais do noivo ou da noiva, ou as madrinhas, padrinhos, ou os amigos, ou pessoal da família que também estão a dar a opinião deles.
Muita opinião.
Exato.
Muito bem. Olhando para o futuro, o que é que vai marcar a indústria dos casamentos, porque é uma indústria. Quais são as grandes tendências? Ana, o que é que a gente vê para os próximos anos?
Eu acho que vai continuar a aumentar a quantidade de noivos que vêm de fora para se casarem em Portugal.
É um segmento em expansão, não é?
Eu acho que sim, em Portugal, e não só na parte de casamentos. Estamos a ver isso no mundo de casas, de imobiliária. O mercado cá em Portugal está a ser dominado também por estrangeiros a comprarem cá casa. Por isso os preços estão a aumentar e os casamentos também. O casamento hoje em dia, o preço das coisas há 15 ou 20 anos era muito diferente.
Aliás, eu vi declarações de uma wedding planner que dizia que antes fazia 200 casamentos por ano e que agora faz 20, porque está a trabalhar para o outro segmento. Isso obtém mais valor e escusa de estar a fazer os tais 200 casamentos.
E também são mais exigentes.
E depois a quantidade de horas que se...
Quanto tempo é que se trabalha em média para preparar um casamento?
Uma boa pergunta. Ainda não fiz as contas exatamente, mas são centenas de horas, principalmente para aqueles casamentos que é daqui a um ano ou dois, que costumam marcar mais cedo, mas é muita hora a falar com fornecedores, orçamentos, visitas, provas das ementas, provas de vestidos. Muita coisa.
Muita coisa.
O mercado nacional, você estava a dizer que o mercado estrangeiro está em expansão, deve estar com uma boa dinâmica, porque depois isto é um passa palavra, é muito rápido. E o mercado nacional está a identificar alguma retração?
Eu acho que está igual.
É porque os portugueses também podem ir casar para o estrangeiro.
Também. E também há, de certeza, muitos portugueses virem para fora casarem-se, mas eu acho que os portugueses também estão a exigir mais, como você estava a falar há bocado, estão a exigir mais em termos do que é que eles querem no dia do casamento. A quantidade de convidados, se calhar, é mais baixa, mas só que o orçamento por cabeça está a aumentar.
Isso que era.
Uhum.
Eu lembro na altura nos anos 2000 e tal, que a média de casamentos era de 300 pessoas. Hoje andará nos 100, 120, acho que já aumentou ligeiramente, mas andará por aí. Essa era a questão. Mas a Helena falou de uma coisa que eu acho que é extremamente importante nesse aspeto, que é o turismo. E o valor acrescentado que este mercado traz. Sem dúvida, hoje o turismo é nicho. Hoje deixamos de ter aquilo que é o turismo de massas, porque isso toda a gente tem, vender praia e vender sol todo mundo tem. E hoje nós cada vez temos mais que nos especializar em turismo e no turismo de nicho. E esta questão acaba, na realidade, de atrair uma componente extraordinariamente importante, que tem a ver com os casamentos e com aquilo que reflete no impacto económico no pós-casamento E, portanto, esse turismo é um turismo de qualidade, exige maior especialização, maior profissionalização e, sem dúvida nenhuma, os casamentos trazem muito mais à economia do país, e principalmente os casamentos estrangeiros. E aquilo que é o consumo, porque no fundo, isto acaba por ser avaliado no consumo, que são extremamente importantes pro nosso PIB. E é um aspecto importante. Quando estava focado a perguntar da questão de nós casarmos no estrangeiro, nós não falamos aqui de uma coisa que é extremamente importante, que é o conceito de lua de mel. Porque eu lembro-me na altura, isto há 20 anos, o destino preferido de lua de mel era a Madeira, e hoje a Madeira, como destino de lua de mel, provavelmente não é o local ideal e as pessoas procuram Repúblicas Dominicanas, Balis e tudo isso. Hoje também há um outro fenômeno que muitas agências de viagens trabalham, que é o turismo de lua de mel. As grandes agências de viagens que nós temos em Portugal e multinacionais focam-se muito neste negócio, que é um negócio extremamente importante.
Em que os noivos casam aqui e fazem a lua de mel aqui.
Exatamente. Ou lua de mel aqui ou vão fazer lua de mel fora, depende dos programas que eles têm. Nem imagina a quantidade de programas que a maior parte das agências de viagens, como as grandes agências de viagens, passando a publicidade, portuguesas, têm para oferecer precisamente aos próprios noivos. E isso é outro valor que logicamente estamos a falar mais 1000, 2000 ou 3000 € que temos que acrescentar precisamente ao volume total do negócio.
Nós temos falado só de questões muito positivas. Há aqui outros aspectos, que é, por exemplo, as restrições que existem. Falta de mão de obra. E o aeroporto de Lisboa condiciona muito. Também sentem isso, que o aeroporto de Lisboa condiciona muito a expansão deste negócio. Ou ninguém vos fala disso?
Depende também, porque eu já ouvi vários convidados quando vêm de fora e passam pelo aeroporto de Lisboa, algumas experiências menos boas de filas.
E a questão que é, e os Açores, que a Helena falou no início, têm ideia como é que está a evoluir o negócio dos Açores?
Como destino de lua de mel?
Como destino de lua de mel. São coisas diferentes.
Está em ascensão, é isso?
Crescimento, sim.
Eu, que há um ano atrás trabalhei no estado de Alagoas, no Brasil, convidado pela Secretaria de Turismo, e me convidaram para eu avaliar o destino Alagoas como destino de casamentos, especialmente pros casamentos europeus. E, na verdade, nós temos muito mais qualidade e muito mais vantagens do que naturalmente eles têm lá. Mas tem uma coisa que é uma vantagem competitiva, que é o destino de lua de mel. Toda aquela região norte, litoral norte, litoral sul, Maceió tem condições maravilhosas para fazer casamentos, mas logicamente os preços são muito mais elevados do que os nossos, porque têm outras obrigatoriedades, mas como destino de lua de mel, é um potencial tremendo que ainda hoje não está explorado. E, portanto, esse sim, esse pode ser o outro foco que, logicamente, em termos de agências de viagens, virão procurar e que há muitos noivos que já estão à procura desses destinos.
Muito bem, estamos a ficar sem tempo. Eu não queria que a Ana Hilário fosse embora sem responder esta pergunta. Qual foi o casamento mais caro que organizou até hoje?
Em termos de custo?
Sim.
Vou dizer, mas não vou dizer quem foi. 130 mil.
130 mil euros.
Será certamente muito mais. Então, só pra fechar este programa, o casamento de Georgina e Ronaldo, que provavelmente vai ter lugar na Madeira. Eu estive a procurar confirmar as notícias durante o programa. A imprensa inglesa está a ser particularmente vocal nessa matéria. Não sei qual será o orçamento para um casamento dessa dimensão, mas certamente que será aquele que algumas pessoas que trabalham nesta área gostarão de pôr no seu currículo. Calcula-se que o impacto na afirmação da Madeira como destino ganhará, ou seja, de alguma forma, Georgina e Ronaldo poderão estar a contribuir para o melhor desempenho da Madeira, caso o casamento venha a acontecer. Há também aqui esta nova tendência, que é por um certo secretismo a que algumas figuras se dão. Portanto, nós temos também, em termos de casamentos, e nós fomos falando disso aqui um bocadinho ao longo do programa, desde o tempo do casamento que era feito em casa dos pais da noiva, com cozinheiras que eram reputadas e que vinham fazer esses casamentos, e que também tinham que ser marcadas com muita antecedência. Naquelas aldeias, elas já estavam marcadas com um ano, dois anos, três anos de antecedência. Houve um homem, aliás, que foi muito célebre na televisão portuguesa e que começou também por fazer esses casamentos, que era o chef Silva. Portanto, tinha toda aquela prática, toda aquela técnica. Há muitas vezes pessoas que foram cozinheiros em momentos que implicavam certo tipo de logística de infraestrutura. Estou a falar do século passado, os cozinheiros que vinham do exército, das Forças Armadas. E depois houve aquelas grandes empresas de casamentos, sem as quais não se percebe o que foram os anos 70 em Portugal, na periferia de Lisboa, aqueles casamentos mais populares, as Mina Belas da vida. Portanto, é muito interessante pra perceber o país que éramos. E, portanto, acho que foi um programa feliz, certamente, e desejamos as maiores felicidades à Georgina e ao Ronaldo. Casem-se eles quando quiserem e onde for, mas certamente, seguindo aqui os conselhos do Saragoça da Mata, com muita, muita convenção antenupcial e certamente também com algumas lágrimas da mãe de Ronaldo.
Ana Hilário, muito obrigado. António, também. Helena, estamos de regresso amanhã para mais um Contra Corrente. Até amanhã.
Obrigada