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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Para participar, só tem que ligar para nós 910 002 4185, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos o seu áudio através do WhatsApp. Luís Soares.

Nunca os portugueses pagaram tanto por 1 L de gasolina e, sobretudo, por 1 L de gasóleo, mas quem vive numa grande área metropolitana não precisa propriamente de olhar para os números do consumo dos combustíveis, que estão a subir, para ter percepção de que há cada vez mais trânsito. Estes primeiros dias de chuva reforçaram ainda mais essa percepção. Como é que podemos explicar que mesmo com o gasóleo a 2,30 €/L, os portugueses não troquem o automóvel pelo transporte público? Este é o ponto de partida para o Contracorrente de hoje. Bom dia, José Manuel. Hoje já estás aqui em estúdio, às vezes fazes a viagem um pouquinho mais tarde.

Exatamente.

Tens sofrido muito para chegar aqui ao Observador?

Tem estado um pouco mais complicado e agora começou a chover um bocadinho, pronto.

Complica mais ainda.

Complica mais. Voltaram as aulas, mas eu creio que não vai haver grande solução rapidamente. Por quê? Primeiro que tudo, de facto, há uma grande mudança no preço, que conta mesmo no bolso das pessoas, quer dizer, ou pelo menos deverá contar. Estamos a falar de um preço que passou de 1,70 € 1,80 €. Eu ontem estive a ver os preços do gasóleo, que é o que está mais caro, na região da Grande Lisboa, por exemplo, no concelho de Lisboa, creio que só havia uma bomba de gasolina abaixo de 2,30 € e podia chegar a quase 2,38 €. Aliás, descobri uma coisa curiosíssima aqui no site do preço dos combustíveis da Direção-Geral de Energia e Geologia, que é que no eixo que eu faço todos os dias, que é a A5, portanto, Lisboa-Cascais, há uma bomba que fica ali em Oeiras, e o preço é diferente de um lado e do outro, da autoestrada.

Nas autoestradas há sempre duas bombas.

Quem vem a chegar a Lisboa paga mais do que quem vai a sair de Lisboa. Pelo menos ontem era o que estava, hoje não consegui ver ainda. Ontem era o que estava. Eu não consumo, porque eu venho de carro, uso um automóvel elétrico e, aliás, ainda pensei que fosse o aumento do número de carros elétricos a circular que pudesse justificar haver tanto trânsito. Só justifica parcialmente. De facto, nós estamos com cerca de um em cada quatro automóveis que estão a ser vendidos são elétricos, portanto, há uma tendência claríssima para substituir o carro a gasóleo ou gasolina por carros elétricos, mas mesmo assim, a circular, representarão ainda menos de um em cada nove. Talvez ainda menos do que isso. Admito que em alguns eixos nas áreas metropolitanas isso já seja diferente, mas não consegui encontrar estatísticas. Agora, o problema não é saber se, de repente, há mais trânsito porque há mais carros elétricos. Isso não justificará tudo. O que há são razões estruturais que permitem perceber, um: temos mais pessoas a viver nas áreas metropolitanas.

É logo uma primeira explicação.

É logo uma primeira explicação. Temos mais emprego e esse emprego concentra-se muito nas áreas metropolitanas. Não é só, mas também. E portanto, basta ter estes dois fatores pra ter mais deslocações pendulares. Isto é, deslocações casa-trabalho. E isso em regiões, por exemplo, como Lisboa, acentuou-se na última década, década e meia. Tivemos no princípio desta última década e meia a crise e, portanto, menos emprego, menos pessoas, menos transportes, mas a partir do momento que houve a recuperação, isso não se corrigiu. Uma das coisas interessantes de verificar é que nós vemos que, por exemplo, os transportes, poderiam dizer: as pessoas não estão todas a ir para o automóvel, também há mais rendimento, não vão ir para o automóvel. Quer dizer, estão e não estão. Porque se é verdade que o trânsito aumentou e o consumo de combustíveis aumentou, os dados são indiscutíveis para este ano. O combustível, o que está disponível era só até o final de julho, mas já dá para ver, até porque julho teve os dados mais elevados do preço dos combustíveis que tinham sido em março, naquela altura em que tinha começado a guerra no Golfo, agora em setembro já bateram os recordes todos. E não se vê perspectivas, aliás, as coisas podem piorar muito por causa de problemas que são estruturais da Europa. Depois falaremos um pouco melhor disso. Isto é incrível o que eu vou dizer. A Europa depende de diesel que importa dos Estados Unidos. Dos Estados Unidos. O diesel vem de barco do outro lado. Há um problema com o diesel refinado na Rússia por causa da guerra. Fala-se muito do Golfo, mas curiosamente no Golfo, no que diz respeito aos hidrocarbonetos, à saída de gás e petróleo, não está regularizado, mas está bastante mitigado, neste momento. Agora, o grande problema é não termos refinarias na Europa, refinarias na Rússia ou há boicote ou estão a ser atacadas e, portanto, dependemos muito de gasóleo e de gás que vem dos Estados Unidos. Isso é outra história. Esta semana, aliás, um texto muito interessante do Pedro Santa Clara aqui no Observador, quem for ler aquilo fica bastante elucidado sobre o que a Europa tem feito a esse nível ou não tem feito. Feito este parêntesis, nós temos aqui uma situação em que temos os transportes, por exemplo, do centro de Lisboa e do centro do Porto a perderem passageiros. A perderem não é muito significativo, mas pelo menos a não crescerem nos últimos dois, três anos, Carris e Metro de Lisboa e STCP. O Metro do Porto é diferente, mas o Metro do Porto não é só o centro do Porto, é uma rede maior e que está em expansão E temos também a procura de alguns meios pesados, como por exemplo a CP na zona suburbana, a estagnar. Mas depois há claramente algumas soluções que, pelo menos durante um período, ajudaram a aumentar a procura dos transportes públicos. Por exemplo, nestas grandes áreas, o passe Navegante. O passe Navegante basicamente agrupou um sistema de passes que se tinha se tornado imensamente confuso.

Era preciso saber exatamente quais eram as zonas para poder usar.

As zonas e tal, porque agrepar município a município, depois quando saía disso era uma grande trapalhada. Era uma acumulação de decisões tomadas ao longo de 40 anos. O passe social apareceu logo pouco depois da revolução, penso que é de 1976. Já tem 50 anos. Depois foram-se acumulando passes e o passe Navegante ajudou a resolver este problema. E outra medida que também é um sucesso, podemos considerar um sucesso, que é a substituição, ou melhor, não é substituição, porque as empresas são as mesmas, mas o agrupar da oferta na zona metropolitana de transporte, em maior parte ele é privado, são empresas privadas, na Carris Metropolitana. Agora a marca é única, é uma maior coordenação e o aumento de procura nessa área é bom. Agora, não há soluções quando nós temos urbanismo que não ajuda. Temos muitas pessoas que não são suficientemente servidas em condições por uma rede de transportes. Podemos dizer que há a rede de transportes, mas quando eu de repente preciso usar três modos para chegar entre a casa e o trabalho, é um horror. E isso é a vida de muitas pessoas. Têm que chegar a um sítio, depois mudam para ir para outro. Isso é complicado. E depois tem ainda outro fator, que é continuar a agravar-se a dessintonia dos municípios que oferecem emprego para os municípios que oferecem habitação. Por exemplo, em Lisboa, onde isso é mais evidente é no Conselho de Lisboa, mas também já no Conselho de Oeiras. Há muito movimento pendular a caminho de Oeiras. No Porto é um pouco diferente, até porque a cidade do Porto em termos de dimensão e população é bastante menor que a cidade de Lisboa, e portanto, aí o equilíbrio é de tipo diferente, mas não há milagres para isto. Enquanto tivermos este desequilíbrio e enquanto houver também uma diferença muito significativa no custo da habitação entre o centro de Lisboa, há outros conselhos com preços muito semelhantes, como Cascais ou Oeiras, mas depois conforme nos vamos afastando do centro, os preços baixam. Isso também não ajuda a resolver este tipo de problemas. Nós não temos solução, a não ser pagar, e portanto as pessoas acabam por continuar a andar de automóvel, sobretudo se acrescentarmos a isso ainda um outro fator, é que nós não temos, ao contrário, por exemplo, do que existe noutros países, uma rede de transportes escolares que ajude a que as pessoas não tenham que andar a levar os filhos às escolas e ir buscá-los às escolas. Ainda aqui há pouco tempo falámos aqui disso, a propósito dos horários que muitos pais têm para ter que levar as crianças à escola. Penso que até foi aqui o Bruno que falou disso, precisamente. E tudo isso faz com que, de alguma forma, mesmo apesar do preço, o automóvel seja quase que uma prisão para as pessoas.

Nós falamos disso tudo depois das 10. Até já, Zé Manel.

Até já.