Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Hoje o José Manuel Fernandes parece que está um pouco mal-disposto. Ontem foste pra cama já zangado? O que se passa, José Manuel Fernandes?
Bom dia. Ontem fui pra cama cansado e um pouquinho zangado, para não dizer um pouquinho desesperado, porque acho que as autoridades não estão a lidar bem com esta crise do coronavírus. Eu quase todos os dias enfrento algumas críticas, também alguns elogios, mas as críticas têm sido ou por considerar as medidas insuficientes, ou achar que elas chegam um pouco atrasadas, ou então, sobretudo, por dar conta de muitas carências que há nos nossos serviços de saúde. Mas de uma forma geral, devo dizer que tenho procurado ser comedido, porque tenho medo de uma altura em que há muita gente a fazer muito esforço, de ser injusto. Esta é uma crise muito complexa, ninguém pode pretender saber qual é a melhor solução e por isso optei muitas das vezes pelo benefício da dúvida. No entanto, agora confesso que começo nalgumas coisas a perder a paciência.
Mas José Manuel Fernandes, o que te enervou especialmente?
Ontem estava a ouvir a conferência de imprensa do primeiro-ministro e o meu opinar é que criticou logo uma coisa que era bastante a despropósito, que foi a referência que ele fez aos bancos. No meio, parece um detalhe, mas o diabo muitas vezes está nos detalhes, é nos detalhes que os políticos se revelam. Aquela frase a dizer que os bancos são vilões, foi de facto muito infeliz, mas eu confesso que houve uma outra frase, que achei muito assustadora, que foi ter ficado a saber que só agora, repito, só agora, o governo vai criar um gabinete de crise. Ora, há meses que devia haver um gabinete de crise. Há meses que sabemos que isto é uma crise enorme, e se na altura tivesse sido criado, provavelmente um comitê para comandar o combate ao coronavírus, não teríamos assistido a tantas partes gagas como aquelas que assistimos ao longo das últimas semanas. Eu acho que, por exemplo, provavelmente não teria havido aquela torpeza enorme que houve com o Conselho Nacional de Saúde Pública. No fundo, eu acho que António Costa admitiu que estamos a viver uma altura em que o céu nos está literalmente caído em cima das cabeças, como diria o Asterix. Mas temos o Ministério da Saúde para um lado, o da Economia para o outro, a administração interna a aparecer aqui e acolá, e a não ser ele, ninguém está bem a saber ou sequer é capaz de dizer como é que vai evoluir a doença.
Sim, porque em muitas alturas o que parecia é que só víamos a Graça Freitas e a Marta Temido, as duas que literalmente carregavam o peso do mundo.
Exatamente. E acho que é preciso ser muito mais para perceber que isso não chega, que é pouco. Aliás, via-se na cara delas. Mas este sinal, como disse, é só um sinal. O mais importante, mais uma vez, é que o governo optou por ir, eu vou usar uma expressão talvez pesada, mas restou de pés um pouco atrás daquilo que os portugueses já estão quase todos a fazer, em vez de tomar medidas mais draconianas para o país ir à frente. Muita gente aplaudiu, achou que era o que se devia fazer, porque no fundo é isso que está bem, é ir devagar, devagarinho. Ora, eu duvido, e até duvido por ver o que está a acontecer noutros países, e nomeadamente em Itália. Se virmos bem, de facto, é o que o governo tem feito quase sempre. Tem quase sempre seguido a opinião pública. As escolas começaram a fechar antes do governo as mandar fechar. As empresas começaram a mandar as pessoas para casa em teletrabalho antes do governo dizer que era isso que deviam fazer. Foi o Presidente da República que impôs o estado de emergência. Costa resistiu enquanto pôde resistir. No fundo, o governo tem dado sempre atrás, fazendo de conta que vai à frente. Ora, eu acho que isto tem é que acabar, e se calhar a reunião de hoje de manhã do Conselho de Ministros é uma boa altura para isto acabar. Por isso, eu queria fazer uma sugestão, deixar aqui um conselho a todos os membros do governo.
Que conselho é esse, José Manuel?
O conselho é que, se ainda for a tempo, leiam os dois primeiros editoriais da Economist 2. A Economist não sei se já chegou às bancas, mas já está on-line e portanto, o segundo editorial é sobre economia, sobre o que está a passar na economia. Eu já falei muito disso desde a semana, não vou repetir muito aquilo que eu aqui disse. É ler o que põe na revista, é ver se percebem o que está em causa e verem que aquilo que estão a fazer é pouco. Mas o primeiro editorial, que eu acho que é o que inspira a capa, acho que é o mais interessante, é o mais original, e que talvez ajude a que se perceba que não se pode arrastar os pés e que não se pode, sobretudo, ficar a meio da ponte. Que, no fundo, têm que fazer escolhas, e este aspeto é muito interessante e é muito perturbador. É mesmo sentir a certeza que estão a fazer as escolhas certas.
E o que tem mais de especial esse editorial que lêste?
O que esse editorial explica, e explica bem, são as diferenças entre a estratégia de mitigação e a estratégia de supressão da doença. Até agora pensávamos que primeiro se fazia a mitigação e a supressão vinha a seguir, era uma espécie de sequência. No fundo, ele diz que não é bem assim. No fundo, ele diz que, se calhar, são duas estratégias diferentes e que a primeira pode ter um custo em vidas muito elevado, mas poupa a economia, enquanto a segunda pode salvar mais vidas, mas terá sempre um custo económico inimaginável. Mas ou segue um caminho ou segue o outro. Quer dizer, conciliar os dois ou ficar a meio da ponte e cair no rio é que não pode ser. Mas não se pode hesitar, não se pode ficar por meias-medidas, não se pode ficar a meio caminho. E eu temo que seja um pouco o que Portugal está a querer fazer e foi o que a Europa andou a fazer durante muito destas semanas. E os resultados desastrosos são aqueles que estão à vista. Portanto, aquilo que eu apelo é que se escolha.
Mas, José Manuel Fernandes, é uma escolha muito complicada, muito difícil.
De acordo. E estar nos sapatos de quem tem que escolher é muito difícil, mas quem não quer fazer escolhas difíceis não vai para o governo. Eu acho que António Costa até aqui tem sido muito habilidoso nesta arte de liderar o país, digamos, às arrecuas, empurrado pelas circunstâncias, mas criando essa ilusão que é ele que vai à frente. Como disse, eu tenho hesitado nas críticas, porque as escolhas são difíceis, porque há pouca informação, porque temos uma doença em que é muito fácil errar. Mas agora que já começo a ver demasiada navegação à vista, demasiado improviso e demasiado compromisso, acho que a questão difícil é saber se temos mesmo de fechar o país como os italianos ou se vamos poder continuar assim. Eu acho que cada dia que passa parece mais evidente que não podemos continuar assim e que cada dia que passa é mais um dia perdido. Talvez com o comitê de crise já pudéssemos ter mais certezas. Sem comitê de crise, ficamos apenas com a intuição de António Costa e com a hipocondria de Michelle Couto de Sousa. Ora, isso é muito pouco.
Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la on-line ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.