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Está na hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta segunda-feira. Depois, pra entrar em direto, só tem que ligar pra nós: 91 002 41 85, número que também pode usar pra nos enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp, se preferir. Deixe os seus comentários nas redes sociais ou no site do Observador. Carla. Faz hoje 50 anos que tomava posse o primeiro presidente da República eleito democraticamente, António Ramalho Eanes. Tinha apenas 41 anos e o Portugal de então era certamente muito diferente do Portugal de hoje. Mas há também muitas realidades ou, se preferirmos, muitos problemas que se mantêm, mesmo que sob novas formas. O general Eanes é, de todos os nossos presidentes, o que mantém melhor imagem pública, o que também faz parte da sua singularidade e do seu mistério. É sobre esse tempo de há 50 anos e sobre o que recordamos da vida e do mandato de Ramalho Eanes, que vamos falar hoje no Contracorrente. Bom dia, José Manuel. Tens memória deste dia há 50 anos?

Deste dia exato, não. Para ser franco. Mas tenho memória daquela campanha eleitoral, tenho memória daqueles dias e, de alguma forma, também tenho memória de um país que evoluiu bastante, sem dúvida. Está muito diferente daquilo que era, e isso até se percebe, se quer, na forma como decorreu aquela campanha eleitoral, por comparação com as campanhas eleitorais dos dias de hoje, como também pela maneira como, para todos os efeitos, o país é diferente. É muito curioso. Eu estive a ouvir, por exemplo, o discurso de tomada de posse de Ramalho Eanes, aquele que foi pronunciado precisamente há 50 anos. E é curioso, nós aliás vamos tentar ouvir esses sons depois no programa, como algumas das suas mensagens podiam ser ditas hoje. Por exemplo, ele refere-se à saúde, ele refere-se à habitação, ele refere-se ao estado da educação, ele refere-se à corrupção. Há temas que são sempre recorrentes. Mas depois nós quando olhamos para os números, para a evolução do país, verificamos que em muitos aspectos o país está radicalmente diferente. E também vale a pena meditar um pouco porque é que estando tão radicalmente diferente, e devo dizer que em muitos aspectos está radicalmente diferente para melhor, não tenhamos dúvidas, há a mesma percepção de que tudo está por fazer, que é um país adiado, que é um país cheio de problemas, o que também tem, naturalmente, um lado de verdade, porque nós estamos sempre a comparar-nos com outros e com a evolução dos outros. Para teres uma ideia, por exemplo, não tinha esta ideia tão precisa, o nosso PIB per capita, uma medida de riqueza nacional, de riqueza de cada pessoa, triplicou nestes 50 anos. Quer dizer, fazendo o crescimento médio, não é nada de outro mundo. O PIB per capita português tinha triplicado não em 50 anos, mas em 20 anos, nos 20 anos anteriores ao 25 de abril, por razões que têm a ver, sobretudo, com a abertura da economia à Europa no período final do Estado Novo. E este apenas triplicar nestes 50 anos tem muito a ver com o que se passou, sobretudo no século XX, isto é, com os últimos 25 anos. Os primeiros 25 anos são bem melhores. E nós temos coisas em que hoje estamos melhores, taxa de desemprego, por exemplo. Temos coisas em que, estando hoje melhores, estamos muito pior do que estávamos na altura, apesar de na altura se falar da situação da economia. Por exemplo, em 86 ainda não havia o problema da dívida pública em percentagem do PIB, que é uma coisa que hoje tanto falamos. Mas quando, por exemplo, o Ramalho Eanes, o presidente, falava na altura dos problemas de saúde e de estado de saúde, é um país muito diferente. Só para teres uma ideia, na altura, a taxa de mortalidade infantil era um pouco mais de 33 óbitos por cada mil nascimentos. Hoje estamos em menos de três. Estamos entre uma das melhores taxas do mundo. Nós vamos dar outras indicações, mas mais do que indicações apenas estatísticas, que às vezes são fáceis de obter, importa perceber o registo, o tom. E desse ponto de vista, é interessante perceber até que ponto, na altura, Ramalho Eanes foi, de facto, um presidente que, vindo do 25 de abril, era muito também o presidente do 25 de novembro. Por exemplo, no seu último comício em Setúbal, ele diz: "Estamos aqui em Setúbal, estamos num país livre, estamos num país livre por causa do 25 de abril e do 25 de novembro". Repara, isto em Setúbal é muito importante dizer, numa campanha eleitoral que tinha sido ainda com um grau de mobilização, por um lado, como já hoje não vemos, mas sobretudo com um grau de tensão incomparável, absolutamente incomparável. Houve tiros, houve um morto em Évora, houve imagens que ficaram famosas, o Ramalho Eanes de pé, com as mãos nas ancas, dando um pé às balas, literalmente um pé às balas, porque são tiros ao mesmo tempo em cima do tejadilho de um automóvel. Há também imagens muito concretas. Quer dizer, coisas que nós hoje ouvimos e dizemos: "Mas o que aconteceria hoje a um candidato se dissesse uma coisa dessas?" Por exemplo, em Beja. Repara, estamos no Alentejo, tínhamos acabado de sair do período revolucionário, é um Alentejo ainda com muitas terras ocupadas e nessa altura houve apupos. Há sempre muita tensão no Alentejo entre os apoiantes e os adversários, e os contestatários, e ele nessa altura diz: "Vão estudar, vão trabalhar", e depois há um silêncio, percebe-se que deve ter havido uns assobios no fundo, e ele diz: "Não percebo por que houve reações ao 'vão trabalhar', isto é um país de trabalhadores". Quer dizer, hoje se alguém dissesse isso, eu acho que era trucidado no minuto seguinte. Eram coisas que não se podiam dizer. Ele no discurso, por exemplo, na Assembleia da República, atacou a comunicação social.

A sério? Vamos recordar alguns desses sons.

Vamos recordar isso tudo, porque de facto vamos recordar e vamos ouvir um pouco isto. Ouvir e recordar e lembrar o país e depois também, naturalmente, lembrar o papel que Eanes teve, porque Eanes é uma figura muito singular na nossa democracia. Como tu recordaste, ainda hoje é o presidente mais bem-visto, o que tem muito a ver com a forma como ele tem-

O não político também.

O não político, a forma como ele interveio no pós-25 de abril.

Sim.

E nestes 40 anos em que ele não foi presidente.

É isso mesmo. Fez 50 anos, vamos recordar Ramalho Eanes. Até já, José Manuel. Faça parte do Contracorrente, ligue 91 002 41 85 e entre em direto logo a seguir ao jornal das 10. Se não puder, envie-nos a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou então deixe os seus comentários nas nossas redes sociais ou no nosso site.