Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

O Contracorrente. José Manuel Fernandes quer voltar a falar hoje no Contracorrente da pandemia, mas também da campanha eleitoral. E tudo porque dizes que estás farto de ouvir repetir discursos sem sentido. Estás a referir-te ao que em concreto, José Manuel? Bom dia.

Bom dia. Estou a referir-me, sobretudo, à opção do Bloco e Marisa Matias, mas também de Ana Gomes, com a requisição civil dos hospitais privados e de hospitais sociais e cooperativos. Ontem houve debate no Parlamento e Catarina Martins quase não falou de outra coisa, repetindo um conjunto de mistificações, ou mesmo de mentiras, sobre o que se está a passar. Marisa Matias também não perde uma oportunidade pra pedir a requisição civil e Ana Gomes, que sinceramente penso que nem mede bem as consequências daquilo que diz, também alinha na onda e o dogma basicamente é simples. O dogma é, e cito Catarina Martins: "Colocar toda a capacidade instalada da saúde do país, privado e social, sob a alçada e, esta é a palavra-chave, articulação do SNS." Por outras palavras, aquilo que Catarina Martins quer, e Marisa Matias quer, e Ana Gomes também quer, é que o Estado dê ordens. E entre parêntesis, quero dizer que o Estado não sabe dar ordens, porque se há uma coisa que esta crise nos tem demonstrado é que mesmo dentro do SNS, se há problemas, um dos problemas que existem é precisamente de articulação. Portanto, aquilo que eles querem que o Estado faça, que é a articulação, o Estado já não é capaz de fazer dentro do próprio Estado. E aquilo que estas senhoras nos pedem, no fundo, é pra instalar a confusão que existe já dentro do Estado, também no sistema social e também no sistema privado.

José Manuel, mas por que dizes que há enormes falhas de articulação no SNS?

Todos nós as conhecemos, neste momento todos os hospitais estão cheios. É muito difícil coordenar esses esforços e, portanto, já ninguém consegue ajudar ninguém. Simplesmente, nós sabemos, vemos as ambulâncias a fazer filas à porta dos hospitais. Agora, no verão não foi assim. No verão não era assim e no verão não havia todos os hospitais cheios. Lembras-te o que aconteceu no verão? No verão, quando era possível ter feito coordenação, as coisas terem ocorrido relativamente bem. Falámos disso aqui, eram os profissionais dos serviços que tinham que ir para o telefone, ligar para os colegas e perguntar: "Tens vaga? Posso mandar pra aí?" E depois, tinham que andar arranjando ainda ambulâncias, tinham que andar a ver quais eram os bombeiros que podiam levar os doentes de um lado para o outro, e depois tinham que ir eles levar os doentes. Quer dizer, isto não é articulação nenhuma, isto é brincadeira.

Pois, mas o Bloco e o primeiro-ministro deram a entender que os privados estão a disponibilizar muito poucas camas pra COVID.

O que o Bloco e o primeiro-ministro não dizem, porque não sabem, ou talvez porque não perguntam, é que nos hospitais sociais e privados há muitos doentes COVID, que foram pra lá diretamente. Vamos lá ver. Em Portugal, os doentes não vão para os privados e para os sociais depois de virem do SNS, muitos vão lá pelos seus pezinhos diretamente. Portanto, não há só doentes reencaminhados pelo SNS. Por exemplo, este domingo, o Hospital da Luz, em Lisboa, que é um dos maiores hospitais privados, estava ocupado a 100%. E estava a fazer obras à pressa pra abrir um piso novo pra acolher mais doentes logo na segunda-feira. Eu sei, por exemplo, porque passou-se perto de mim, com uma doente que foi detectado COVID este fim de semana e que recomendaram que não fosse pro hospital da zona, público, porque era um daqueles que ela viu na televisão, as ambulâncias a fazer fila à porta. Ela andou a tentar, telefonou pra vários hospitais privados ver se podia entrar e só conseguiu em um, que por acaso é o novo Hospital CUF Tex, que acabou de abrir e, portanto, é novo, é grande e ainda havia vagas, mas não sei se haverá ainda. Os hospitais também estão batendo o teto. Também não vão ficar cheios como os públicos. Só que, sei é que só ontem, e também sei é que só ontem o primeiro-ministro anunciou que o hospital de campanha de Lisboa ia começar a funcionar. Eu pergunto: por que só ontem? Já falamos aqui disto. Ele estava montado, estava pronto. Por que se fala em requisição civil quando ainda havia um hospital de campanha por abrir? Um não, se calhar há mais. Não será que o problema é outro?

Estás a sugerir que o problema é outro.

Claro que estou a sugerir que o problema é outro. Estou a sugerir? Não, tenho a certeza que o problema é outro. É que faltam médicos e faltam enfermeiros. Aliás, eu não estou a inventar. A ministra ontem, durante o debate que houve no Parlamento, quando penso que foi o Cotrim Figueiredo lhe disse: "Então por que não vão pro Hospital Miranda do Corvo, ao pé de Coimbra, onde já está tudo também a começar a arrebentar? Andar num hospital novinho em folha, todo equipadinho, com ventiladores a apanhar pó. Por que não utilizam essa capacidade instalada?" Ela disse: "Aquilo não é um hospital, são paredes e camas." Porque faltam médicos e enfermeiros. Claro, faltam médicos e enfermeiros, mas faltam em todo lado. Faltam em todo o sistema. Faltam no sistema público, faltam no sistema privado, faltam em todo lado. A sobrecarga neste momento é brutal. Os que estão no terreno têm imensa dificuldade já em fazer as escalas, porque uma das coisas que as pessoas se esquecem é que quando de repente há um médico que fica doente, é preciso substituí-lo. E há médicos a ficar doentes. Eles também apanham COVID. Aliás, por maioria de razão, não estão todos ainda vacinados. Temos notícias de alguns que inclusivamente já depois de terem apanhado a primeira dose, ficaram doentes. A maior parte dos médicos estão a trabalhar horas a mais. Vimos isso neste testemunho famoso, que tanta polémica deu nos últimos dias. O Estado vai requisitar o quê, quando já há sobrecarga por todo lado? Estas pessoas não sabem realmente do que estão a falar. Agora, se tivesse havido planeamento com antecedência, talvez tivesse decorrido melhor, só que não houve esse planeamento. Toda a gente sabe que nunca se planeia nada a sério em Portugal e que neste caso não se quis planear. O nosso SNS já agora, tem o mesmo nome que o NHS inglês, mas é uma enorme ilusão. O nome é parecido, mas depois há muita coisa que é diferente.

E queres dar um exemplo, José Manuel?

Eu acho que vale a pena. O NHS britânico está dividido em vários, são quatro, porque aquilo é Reino Unido, mas o de Inglaterra, por exemplo, é gerido por um instituto autónomo, que responde diretamente não ao governo, mas ao Parlamento. Tem o mesmo presidente, que é um senhor chamado Simon Stevens, desde 2014. Entretanto, já mudaram vários governos. Vê lá a estabilidade, é uma coisa que funciona com estabilidade. É esse instituto que planeia e coordena tudo. Aqui não. Aqui temos ministros e administrações regionais de saúde politizadas, cada um para seu lado. Somos um país muito mais pequeno que Inglaterra, mas temos tudo divididinho, porque assim é que funciona. Os hospitais depois fazem o seu melhor, mas cada um atua por si, como sabemos, depois push uns para os outros. Mais, em março, repito, em março, o ministro da Saúde deu instruções ao diretor do NHS para começar a contratar os privados com tudo o que fosse necessário e o tema nem levantou discussão. Fez e pronto. Ou seja, lá é um serviço profissional, gerido por profissionais, competente, que realmente trata de coordenar e articular todos os serviços de saúde. Todos. Por cá, nós temos uma espécie de salve-se quem puder, que começa dentro do próprio SNS. Por isso, eu não tenho dúvidas. Insistir na ideia da requisição civil, neste momento é puro terrorismo político. Mais, é populismo que explora um preconceito contra tudo o que é privado, porque ainda existem muitos setores da opinião pública que acham que o lucro é uma espécie de pecado. Mas é sobretudo muito desonesto, porque ou mostra ignorância sobre o que se passa no terreno, ou revela má fé, ou pior do que isso tudo, é as duas coisas ao mesmo tempo.

José Manuel Fernandes regressa daqui a pouco para analisar a campanha eleitoral. Quanto ao "Contra Corrente", amanhã nova edição depois do jornal das 20:00. Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou em 98.4, no Grande Porto.