Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Hoje parece que José Manuel Fernandes, em vez de estar contra a corrente, quer vir gozar com quem trabalha. Então, queres fazer de Ricardo Araújo Pereira, é isso?

Bom dia. Não, acho que me faltam pelo menos uns 20 centimos.

O menos.

20 centimos e outros talentos, digamos assim. Não, eu hoje quero mesmo falar do gozar com quem trabalha, mas foi porque ontem esteve lá o primeiro-ministro e acho que ele foi lá mesmo gozar com quem trabalha, ou diria eu, que foi lá gozar um pouquinho com os portugueses.

Calma, é um programa de humor.

Sim, é um programa de humor, mas eu acho que há coisas que não têm graça nenhuma. Eu já aqui disse algumas vezes que António Costa dava, porventura, entrevistas demais, que aparecia demais. Abrimos a televisão e ele está sempre lá. Não há dia que não haja acontecimentos midiáticos. Primeiro-ministro para aqui, para acolá, um pouco por todo lado, sempre a falar. Parece que só ele é que pode comunicar sobre a história da pandemia. E ontem, por exemplo, logo de manhã, mais uma entrevista, desta vez a um jornal espanhol, o "La Vanguardia", e digamos que a entrevista tinha algumas frases que, a meu ver, não estavam nada bem. Primeiro, ele começou por dizer que a Grande Lisboa, e cito: "Os problemas da Grande Lisboa não têm nenhuma relação com o centro da cidade". Ora bem, eu acho que isto não é bem verdade. Porque quem vive na periferia de Lisboa, onde é que trabalha? Trabalha muitas vezes precisamente no centro de Lisboa. Depois, eu acho que aqui há outra vez aquela falta de empatia que muitas vezes o nosso primeiro-ministro tem. Porque ele não pode dizer, como ele disse: "Não se trata de Lisboa, mas de alguns bairros de municípios vizinhos". Ou seja, além de ser de novo mentira, porque há bairros que são mesmo em Lisboa. Isto é tratar os bairros da periferia como se tivessem lepra. Há bairros de primeira, que são os de Lisboa, e os bairros de segunda, que são os outros. Eu sei que tudo isto é para defender a Champions, até porque o "La Vanguardia" é um jornal de Barcelona. Só que quando diz que não há motivos para ninguém se preocupar porque a Champions será no centro da cidade, de novo, não é exato. Um dos estádios da Champions fica a apenas três estações de metro, três, de um desses bairros problemáticos. Eu estou a falar do estádio do Alvalade, que é apenas a dois quilómetros de distância da freguesia de Santa Clara.

Não me digas que foste medir ao mapa.

Por acaso até fui confirmar ao mapa, porque eu conheço bem Lisboa, mas quis ver exatamente qual era a distância. Mas o problema nem é esse. O problema é que António Costa acha que pode dizer qualquer coisa e seguir em frente como se não fosse nada com ele. Ontem, por exemplo, no tal programa do REP, teve uma nova oportunidade para emendar a mão e pedir desculpa aos profissionais da saúde por ele ter dito que a Champions era um prémio pelo seu trabalho. Mas de novo, em vez de pedir desculpa, que era o que ele devia ter feito, voltou a pôr-se a dizer piadas.

De que piadas é que estás a falar?

Olha, disse que tinha sido mal entendido, isto é, não tinha nada a pedir desculpas, e que o problema é que ele come muitas palavras. E então disse assim: "A minha mulher dá-me muitos conselhos. Não comas demais, não comas fritos, não comas doce e também não comas palavras. Eu tenho que escolher. Já comi palavras, tenho de experimentar." Quer dizer, eu acho que isto é mesmo brincar um pouquinho com coisas sérias, porque, no fundo, ele continua a pensar que os profissionais de saúde não tinham nada que ficar zangados com aquilo que ele disse naquela fantochada daquela cerimónia. Ele não percebeu ainda a sensibilidade do problema. E se quer que diga, eu até acho que estas graçolas não têm graça nenhuma, mas nem foi o mais grave que ele disse naquela entrevista, porque quando comparadas com o que ele disse sobre um assunto muito sério que foi o assalto a Tancos.

Aí o primeiro-ministro disse que estava contente porque finalmente o caso vai chegar ao local próprio, que é o tribunal.

Exatamente. Só que ele disse também uma outra frase, e essa outra frase é que eu acho bastante complicada. Eu tomei nota porque acho que vale a pena repeti-la palavra por palavra. A frase é a seguinte: "Tenho de reconhecer que é um argumento muito original, que é o argumento que o crime verdadeiramente grave não foi o roubo das armas, mas o crime verdadeiramente grave foi recuperar as armas." Eu acho esta frase uma frase extraordinária. Ora bem, nós em Tancos temos dois crimes. O primeiro foi o roubo das armas. É um crime de banditagem puríssimo, não há dúvidas sobre isso. Mas depois há um segundo crime, e o segundo crime foi conspirar para fazer reaparecer as armas, salvando os ladrões e ao mesmo tempo humilhando a Polícia Judiciária. E tudo isto com o conhecimento do ministro da Defesa, pelo menos de acordo com aquilo que é a acusação. Portanto, para que o roubo tivesse acontecido, já tinha que ter havido pelo menos negligência no Ministério da Defesa. Depois, para encobrir tudo, altas patentes combinaram um esquema que viola todas as normas do Estado de direito, um esquema que aparentemente envolveu o ministro, mas o nosso primeiro-ministro acha que esse crime, afinal de contas, não foi assim tão grave como isso.

Não foi bem isso que ele disse.

Não, desculpa, acho que foi exatamente isso que ele disse. Acho que José Manuel Lopes vai a julgamento responder pelos crimes de abuso de poderes, negação de justiça, favorecimento pessoal e prevaricação. Eu acho que isto não é coisa pouca. Ora, António Costa descreve o que se passou como sendo o crime de recuperar armas. Ora bem, o crime de recuperar armas é uma coisa positiva. Portanto, ele acha que o seu ministro vai a tribunal responder por ter feito uma coisa boa, que foi recuperar as armas, não por ter atuado à margem da lei, não por ter conspirado, não por ter sabido de um acordo que implicava que o autor do roubo escaparia em liberdade e sem ainda acontecer nada. Ora, o que é que me preocupa nisto tudo? Preocupa-me sentir que António Costa, no fundo, acha que os fins justificam os meios, porque no fundo é isso que está em causa. Ora, isto é preocupante, e é preocupante porque a democracia, num Estado de direito, os fins nunca justificam os meios. As regras é que nos dão segurança. No fundo, as regras é que nos protegem do poder discricionário. Portanto, há coisas que nem a brincar se dizem. E neste caso concreto, sobre Tancos, eu acho que Costa não estava a brincar, estava mesmo a falar a sério.

José Manuel Fernandes no Contracorrente, à conversa com Carla Jorge Carvalho, na Rádio Observador, online e sempre em podcast.

Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou 98.4, no Grande Porto.