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Hoje o Conselho de Ministros vai finalmente reunir-se para discutir o alívio das medidas restritivas que têm sido impostas ao país. Medidas que José Manuel Fernandes acha que já podiam ter sido levantadas há bastante tempo. Mas julgo que queres começar o "Contracorrente" a falar dos atrasos da Direção-Geral de Saúde, José Manuel.

Bom dia novamente. É disso mesmo que eu quero começar. Ontem soubemos, por exemplo, que havia um festival que devia realizar-se no Porto, que é o Norte Music Festival, que foi de novo adiado. Era para ser agora no final do mês e foi de novo adiado porque lhe faltava mais um parecer final da Direção-Geral de Saúde. Ou melhor, a Direção-Geral de Saúde estava a exigir uma coisa espertada, que era: quem tivesse comprado bilhete para os três dias do festival tivesse que fazer um teste à Covid todos os dias, mesmo tendo o certificado digital válido. Eu tenho um certificado digital válido, mas para entrar tinha que fazer, em cima disso, um teste à Covid todos os dias. Isto porque, aparentemente, a nossa querida Direção-Geral de Saúde, pelo menos foi aquilo que percebemos ontem, estará à espera da reunião de hoje do Conselho de Ministros para saber se pode ou não mudar aquilo que é uma norma antiga, que haverá ainda, o que é completamente absurdo. E isto levou a prejudicar, mais uma vez, o setor cultural, que tem sido super prejudicado neste processo. Mais absurdo ainda é o que está acontecendo nas nossas escolas. Ainda agora começou o ano letivo e já há dezenas de turmas enviadas para casa, em nome das regras sanitárias. Com essas turmas vão professores e, por isso, além das dezenas de turmas, há milhares de alunos afetados, o que não faz qualquer sentido.

José Manuel, como é que pode já haver tantas turmas enviadas para casa, se agora todos os professores estão vacinados e a maioria dos alunos também?

Eu acho que essa é a pergunta que toda a gente se está a fazer, mas é exatamente o que se está a passar. Nós hoje damos conta disso num trabalho aprofundado no Observador, que é sobre este tema, e as respostas que nos deram não têm, literalmente, pés nem cabeça. Também nas escolas, basicamente, a DGS está à espera do Conselho de Ministros, que hoje vai alterar as suas normas. E confesso que quando li isto, apeteceu-me ir ao site da DGS ver se aquele avô dos bigodes brancos que nos aconselhou a trocar compotas pelo Natal ainda era um dos principais responsáveis pela DGS, porque acho que uma coisa dessas podia vir da cabeça dele. E parece que sim, parece que ainda é, pelo menos o nome dele ainda lá está. Não digo que a responsabilidade seja dele, porque não é, seguramente, deve ser de todos, porque todos conhecemos as hesitações também da Dra. Graça Freitas e já percebemos como é que a DGS funciona. Mas acho que daquele organismo, de facto, neste momento, já não podemos esperar muito mais. Eu é que não me posso calar. Quantas vezes aqui falámos, por exemplo, daquele famoso estudo que a DGS devia ter publicado sobre o conceito piloto, onde foram feitos testes. E depois passou o verão todo. Aquele estudo era para ver se podíamos fazer atividades culturais durante o verão. Passou o verão todo e nada. O estudo nunca chegou a ser conhecido. Mas o que eu acho mais grave, repito, é o que está a passar nas escolas.

Tu receias que estejamos a entrar num terceiro ano perdido ou quase. É isso, não é?

É isso. Faz-me imensa impressão, mesmo muita impressão, porque a pouca sensibilidade que ao longo da pandemia se foram fazendo regras que tentavam sempre proteger os mais velhos. Eu compreendo, os mais velhos corriam mais risco, mas faziam isso muitas vezes tendo pouca atenção ao que estava a suceder aos mais novos. Em poucos países como Portugal, o que sucedeu aos mais novos foi tão mau, tão insensível. Por exemplo, no ensino básico, os nossos miúdos perderam mais aulas no ensino presencial, que é o que é essencial, do que na média da OCDE. Isso já era mau. Depois, pior: como todos sabemos, essas falhas no ensino presencial agravaram, entre nós, mais as desigualdades do que noutros, porque o Governo falhou clamorosamente nas suas promessas. Desculpa lá.

Aqui estão os nossos amigos habituais.

É sempre o protesto, sempre protestam exatamente na mesma altura, quando eu estou a protestar contra as desigualdades. E falharam clamorosamente nas suas promessas, como eu estava a dizer, foram promessas de apoio aos mais desfavorecidos, fornecer computadores, acesso à internet. Sabemos como isso correu tudo horrorosamente mal e como estes dois anos foram péssimos. O que tinha que ser feito para que corresse bem, não correu. Este ano as coisas tinham que correr mesmo bem. Devíamos estar a 120%. Chegamos a setembro, soubemos a confusão que houve com algumas normas para o início das aulas e estamos agora numa situação que é invejável no que respeita à vacinação da população, não dependia da DGS, incluindo boa parte da população escolar, não são todos, porque os mais novos não estão a ser vacinados, nem tinham que ser. Eu já aqui manifestei, num programa anterior, muitas dúvidas sobre algumas regras que continuam a ser impostas nas escolas, nomeadamente relativamente às máscaras e ao que isso pode implicar para a aprendizagem. Mas aquilo que me parece realmente chocante é que nada mudou nas regras relativas ao isolamento e à quarentena, o que é de facto incrível.

Mas o que queres dizer com "não mudou nada nessas regras"?

Quando a pessoa é contaminada, há regras que impõem o isolamento profilático de quem esteve em contato com essa pessoa. Ora, aquilo que se passa é que a DGS ainda está a aplicar as regras que estabeleceu há mais de um ano, quando ainda ninguém estava vacinado, o que é absolutamente louco. Parece que andámos a tomar a vacina para nada. Não foi isso. Aquilo que sabemos é que o risco de eu apanhar Covid, de qualquer um de nós apanhar Covid, se estiver vacinado, é mais baixo E o risco de transmitir também é mais baixo. Portanto, as regras têm que ser diferentes. Não faz sentido, por exemplo, continuar a mandar turmas inteiras pra casa. Uma das coisas que nos explicaram é: se o aluno que está contaminado estiver num determinado sítio da sala, quem está no outro sítio completamente oposto da sala, não tem que ir pra casa, não é obrigatório. Nada disso é tido em consideração. Quando epidemiologistas, por exemplo, como Manuel Carmo Gomes, que é uma das pessoas que nós ouvimos, defendem que estudantes completamente vacinados e sem sintomas, pura e simplesmente não devem ser considerados contactos de alto risco, quando foram expostos a um caso positivo, que é o caso, estamos a falar que eles não devem ficar em isolamento profilático. Será que a DGS vai ter isso em consideração? Eu não sei se deve ser a regra, mas eu acho que neste momento a gente deve dar mesmo prioridade à recuperação das aprendizagens, deve dar prioridade aos miúdos. Precisamos mesmo de regras novas, mais atentas às prioridades educativas e também à saúde mental dos mais novos. A maior parte dos países europeus, onde as escolas já reabriram, têm essas regras novas. E nesses países, por exemplo, as situações em que continua sendo necessário isolamento, porque continua a ser em alguns casos, já não é 14 dias, são 10 dias. Por que nós continuamos com os 14? Não sei responder. Na União Europeia, temos a situação paradoxal, que é de facto um paradoxo, de sermos o país com maior taxa de vacinação e o país com mais longos períodos de isolamento. Isto cabe a alguém? Só se for, como eu diria, pra nos penitenciarmos das compotas de Natal.

Lá vem agora com as tuas maldades.

Tens razão. Pra ser honesto, não acho que a culpa seja das compotas natalícias, nem do senhor dos bigodes. Sim, estou a meter com ele, mas é só pra... Não acho que ele tenha a culpa. A coisa, infelizmente, é verdadeiramente mais de política e é mais cínica. Esta semana falou-se muito do cinismo de António Costa, a propósito das críticas à Galp, e eu acho que com razão. Só que na definição destes timings pra esta libertação à portuguesa, que é uma libertação também um bocado fingida, estamos a assistir a um momento de exercício novamente de cinismo. Primeiro de tudo, lembra o que eu aqui disse a 31 de julho, há mais de mês e meio. Nessa altura, algumas das medidas anunciadas já podiam estar em vigor há muito tempo. Depois, lembra também que os especialistas da Infarmed tinham recomendado o levantamento das restrições em três fases, mas que o governo optou por duas. E isso foi uma forma de atirar com a segunda, com esta agosto, pro final de setembro, princípio de outubro. Isto é, fazer as coisas coincidirem com certos timings. Estávamos mesmo a ver no que isso ia dar. O plano era fazer coincidir o grande anúncio com as eleições autárquicas. É exatamente o que vai acontecer. Tivemos a reunião do Infarmed na semana passada. Habitualmente, a reunião do Conselho de Ministros era no dia seguinte. Não foi no dia seguinte, foi 10 dias depois. Pelo caminho, temos sido obrigados a suportar medidas que já não são em vigor em muitos países, que têm taxas de vacinação piores que as nossas. Por quê? Não faço ideia. Não era preciso ter mantido, por exemplo, a ficção do conselho de andar com máscara nas ruas até meados deste mês. Por quê? Não faz nenhum sentido. Por exemplo, uma coisa completamente idiota: continuar a exigir o certificado Covid nos restaurantes apenas aos fins de semana. E eu pergunto, por exemplo: que diferença faz a frequência de um restaurante algarvio em agosto, onde só vão famílias de férias, com a frequência de restaurantes ao fim de semana, onde vão habitualmente famílias de fim de semana? Qual é a diferença? Nenhuma. Mas, obviamente, isto são apenas alguns exemplos das regras absurdas, labirínticas, que temos suportado. A sensação que tenho é que os portugueses já se têm vindo a aliviar das restrições, não é a sensação, tenho a certeza, mantendo, claro, um nível prudente de cuidados, mas sem ligarem às regras mais estúpidas. Aliás, hoje foram conhecidos alguns números e esses nos confirmam que o país já desconfinou muito. Neste momento, por exemplo, a mobilidade dos portugueses já está praticamente ao nível da pré-pandemia. Acho que há só um ponto percentual abaixo do normal, segundo uma empresa que estuda metadados. Ou seja, os portugueses andam à frente do governo, como aliás andaram tantas vezes durante esta pandemia.

Pois, mas, José Manuel, mesmo assim são capazes de ficar aliviados com o anúncio do fim de muitas restrições a partir do dia um de outubro. E isso será sempre um trunfo eleitoral.

A minha crónica de hoje chamava-se precisamente "Com papas e empoles enganam os tolos". Desculpa ter de usar estes termos, mas acho que contra um clima que foi criado no último ano, ano e meio, pouco se pode fazer agora. Principalmente, acho que os partidos da oposição não deviam estar cá só agora a anunciar eleitoralismo, como ontem andou Rio a fazer, agora é tarde demais. Se queriam ter razão, e eu acho que neste momento até têm razão, mas se queriam ter razão, deviam ter pedido em julho o levantamento das medidas, pelo menos de algumas medidas. Podiam ser coerentes, podiam ter tido essa coragem. Não tiveram. Portanto, agora calem-se. Tudo o que tem corrido menos bem nesta pandemia não é só responsabilidade do governo e das autoridades. É também responsabilidade de quem achou que patriotismo era deixar de ter sentido crítico. Não era. Deviam ter tido mais sentido crítico. Enfim, coisas que me tenho farto de repetir, mas que agora entram por uns olhos adentro, mas é bom recordar. Vamos ver como é que isto vai.

Vamos ver. Já lançaste a discussão para os nossos ouvintes, que vão poder participar, basta inscreverem-se pelo número de telefone que temos divulgado e vamos começar a ouvi-lo já daqui a pouco. Para esta manhã convidamos também o Alexandre Homem Cristo, dedicado às questões da educação, e o advogado André Azevedo Alves. São os dois colunistas do Observador. Bom dia, bem-vindos aos dois.

Bom dia.

Bom dia.

Olá, bom dia.

André Azevedo Alves, deixa-me começar por ti, por esta análise mais política. Estamos a ter, de facto, aqui um calendário de desconfinamento eleitoralista?

Antes de mais, bom dia, só uma precisão O Fernando com o André Abrantes Amaral, o que só me honra, mas não sou advogado, nunca exercerei a classe. Sou professor.

André, houve mesmo aqui um lapso e tenho que lhe pedir desculpa. Peço desculpa e fica esta correção com o nosso pedido de desculpa.

Não, sem problema. Parece-me que há, de facto, aqui eleitoralismo, que também não é surpreendente. Face ao que tem sido a trajetória do governo e a postura do governo, acho que até o anúncio do desconfinamento ou desta nova fase de desconfinamento e o timing escolhido acaba por combinar com as declarações que têm sido feitas sobre o PRR. No fundo, acho que são duas faces da mesma moeda, porque é fazer coincidir o timing e a proximidade de eleições, por um lado, o alívio de restrições e, por outro lado, o anúncio de que vem aí dinheiro e a associação disso e a sugestão disso também, a associação às próprias eleições autárquicas e aos candidatos do Partido Socialista. Parece-me que há aqui algo que é mais ou menos consistente. Ao mesmo tempo, como o José Manuel Fernandes referiu, parece-me que a maior parte da oposição, nomeadamente o maior partido da oposição, o PSD, não tem muito a dizer neste momento. Aliás, eu recordo, é um bocadinho até pior, a meu ver, do que o José Manuel Fernandes referiu. Não é só não terem pedido alívio das restrições. O PSD, durante grande parte dos últimos meses, andou a pedir até, em muitos aspectos, mais restrições. Quem até pediu alívio ou exigiu alívio de medidas de forma mais consistente, creio que foi o PCP e a Iniciativa Liberal. Que até nas votações do estado de emergência foram tomando essa posição. No caso do PSD, isso não aconteceu. E também agora parece-me que não há grande moral, nem há grande margem para virem protestar com o timing ou dizer que poderiam ter sido anunciadas mais cedo. Que, efetivamente, me parece que deveriam ter sido anunciadas mais cedo. Vemos países como a Dinamarca, como a Inglaterra, com um alívio muito mais cedo e muito mais ambicioso, também na questão das escolas, não só da questão do isolamento de turmas, mas inclusivamente até da utilização de máscaras, nomeadamente para os alunos mais jovens, para as crianças mais novas, em que o impacto na aprendizagem é maior. Na questão também da utilização da exigência de certificados. Aí vamos bastante atrás, vamos bastante tarde, vamos ainda por cima coincidir com o timing das eleições por razões que são mais ou menos óbvias.

Mas sendo que quase sempre na história de combate à pandemia, o governo e as autoridades portuguesas têm sido mais conservadoras nas medidas. Comparando com outros países europeus, tem havido sempre uma vontade maior de impor regras.

Tem havido e acho que aí também é importante ou é relevante fazer a justiça ao governo, que me parece que aí também está a seguir em boa parte a opinião pública. Ou seja, há vários indicadores de que uma parte substancial da população apoia essas medidas mais conservadoras. Estou a pensar, por exemplo, ainda hoje não é obrigatório a utilização de máscaras para os alunos do primeiro ciclo e grande parte das escolas, tanto estatais como privadas, adotou a utilização obrigatória e até já tinha adotado antes de passar a haver o que agora passou, que é uma recomendação forte. E a recomendação forte, parece que o governo segue a percepção de que há essa inclinação. Também seria bom que o governo tentasse seguir as melhores práticas internacionais e seguir a evidência científica. Mas parece-me que essa postura também mais conservadora do governo acaba muitas vezes por responder ao que é a percepção da opinião pública e também que a explicação passa por aí.

E até vemos como, mesmo agora na rua, muitas pessoas continuam a utilizar máscara, não sendo já obrigatória. Alexandre Homem Cristo, bom dia também, bem-vindo ao Contra Corrente. Já falámos aqui nisto, as regras nas escolas ainda não mudaram e ainda não têm em consideração as altas taxas de vacinação que existem também já na comunidade escolar. Há o risco de termos um terceiro ano letivo consecutivo muito abalado pela pandemia ou mesmo perdido?

Bom dia. Nós vamos ter forçosamente um ano letivo que será abalado pela pandemia, vamos esperar que não seja por suspensão do ensino presencial, que seria particularmente prejudicial para os alunos e que tem sido nos últimos dois anos, mas por coisas como, por exemplo, aquilo que o André Azevedo Alves agora referia, que é a utilização das máscaras. Esta forte recomendação que hoje está nos referenciais das escolas para o primeiro ciclo, é uma recomendação que as escolas têm adotado na expectativa de, através do cumprimento dessa regra, conseguirem prevenir o encerramento do estabelecimento de ensino. Claro que depois isto não encaixa nas normas que estão em vigor e as escolas veem as turmas a serem isoladas pra casa e forçadas a ensino à distância na mesma. Eu sei de muitas escolas que fizeram esta introdução das máscaras em crianças tão jovens a contragosto, numa expectativa de que isso tivesse algum efeito, pelo menos em manter a escola aberta. Se isso não acontece, as escolas vão certamente reconsiderar a utilização das máscaras, espero eu Nomeadamente nos miúdos do primeiro e do segundo ano, que me parece particularmente prejudicial do ponto de vista da aprendizagem e do ponto de vista pedagógico. Agora, dito isto, o que é que nós podemos esperar para este ano lectivo? Podemos pelo menos esperar que agora, com as novas regras que estão anunciadas, as coisas possam correr melhor, mas já temos a certeza que começaram mal. Começaram exatamente como tinham acabado no ano lectivo passado e no ano lectivo ainda anterior. Ou seja, começaram numa lógica de que cada vez que temos uma situação de um caso positivo, a solução é suspender as aulas presenciais e isto não pode continuar a acontecer. Isto é completamente insustentável. O José Manuel Fernandes tocou neste assunto na sua abertura do "Contra Corrente", precisamente a lembrar que são factos, mas que nós temos que ter noção do ponto de vista comparado, até a nível internacional. Portugal no ensino básico, está entre os países que mais tempo teve as suas escolas encerradas. Isto não é um detalhe, porque nós agora sabemos que o ensino à distância não foi eficaz. Sabemos que, em particular, no caso português, foi muito ineficaz por razões logísticas, de falta de equipamento, porque o governo falhou no seu compromisso de garantir equipamento para todos os alunos que estivessem em ensino à distância. E também por razões sociais e de pobreza, porque não basta ter um computador para as famílias terem em casa condições para os seus filhos terem, de facto, uma aprendizagem proveitosa. E nós sabemos que as condições sociais em que muitos alunos tiveram a trabalhar nos últimos dois anos não foram as melhores e isso prejudicou-os muito. Não temos dados de perda de aprendizagem sobre Portugal, mas temos de outros países que nos mostram que a perda foi imensa e que em Portugal só podemos esperar que tenha sido ainda mais acentuada. E portanto, começar o terceiro ano lectivo de pandemia a repetir os erros do passado parece-me lamentável e parece-me sobretudo lamentável, porque desnecessário. Repare que nós em agosto ouvimos inúmeras personalidades, até partidos políticos, directores de escola. Eu creio que toda a gente antecipou que isto ia acontecer no início do ano lectivo, que é: nós estamos com uma realidade completamente diferente, níveis de vacinação muito elevados, somos os campeões da vacinação no contexto europeu e é um dos números que o país costuma anunciar com orgulho, mas depois temos regras que são as regras de quando nós saímos do lockdown de janeiro a março. As escolas começaram em março a trabalhar com umas regras, que eram regras apertadas, e são as regras com que os miúdos começam o ano em setembro, já com um índice de vacinação entre os docentes, o corpo não docente, até alunos. Eu acho isto completamente inaceitável. Eu compreendo que esta discussão, e era aliás o ângulo do José Manuel Fernandes e que o André Ezedio Alves completou de eleitoralismo. Parece-me evidente que há essa questão, essa dependência política da DGS nas orientações do governo e, portanto, uma submissão aos timings do governo. Mas acho que nós temos de dar aqui um, não diria um murro na mesa, mas temos que dizer que já chega, porque estes eleitoralismos podem ser táticas políticas mais ou menos convenientes, mas isto tem consequências brutais na vida das pessoas e, neste caso, na vida de crianças. Eu acho que as pessoas às vezes ignoram ou pelo menos olham para o lado. E nós vamos pagar muito caro estes erros, porque os miúdos que estão agora nas escolas, sobretudo no ensino básico, estão a perder muito tempo da sua aprendizagem e isso vai prejudicá-los imenso ao longo da sua vida adulta.

Com regras que continuam a ser o uso obrigatório da máscara dentro e fora da sala, a proibição de trocar, por exemplo, canetas ou borrachas, não há a utilização de micro-ondas, enfim, são uma série de regras que continuam exatamente iguais. Vamos ouvir os nossos ouvintes e vou convidar-vos também a escutarem estas opiniões. O Fernando Viana está a ligar de Viana do Castelo, está reformado. Bom dia.

Bom dia.

A sua opinião, Fernando.

Olhe, eu peço desculpa não estar enquadrado e o motivo da minha chamada não é o do programa, é só para ter a oportunidade e peço desculpa ao José Manuel Fernandes, que era com ele que eu gostava de falar e felicitá-lo, porque sou uma pessoa que o admira muito. E estou um bocadinho indignado que três e-mails que lhe mandei e para os vossos serviços ainda ninguém me respondeu de uma situação caricata que se passa com publicidade.

Fernando Viana, e terá de esperar então pela resposta do e-mail. Como compreendo, não temos espaço agora para ouvir essa reclamação, mas terá de aguardar e aproveitou essa oportunidade. Ficou aqui este apelo. Deixe-me despedir de si e chamar então o próximo ouvinte que se inscreveu para poder falar sobre o tema do Contracorrente de hoje, o presidente da Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla, Liga do Estoril, Alexandre Guedes da Silva. Bom dia.

Olá, muito bom dia. É a minha segunda intervenção de seguida.

É verdade.

José Manuel Fernandes consegue, de facto, pôr o dedo na ferida. E de facto, a DGS tem tido nesta pandemia um papel não científico. Ou seja, na realidade, há uma ciência que está por trás daquilo que é o pensamento da DGS, mas são as ciências da comunicação. Na realidade, o governo criou uma task force para controlar a comunicação da Direção-Geral de Saúde e nós temos assistido, nestes últimos meses, neste ano e meio de pandemia, a uma manipulação da ciência Em favor de uma determinada agenda, que é a agenda do Governo. Isto é preciso ser dito, eu gostava de ouvir os comentadores sobre esta minha opinião, mas todas as diligências, todas as tentativas que a Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla têm feito desde o início da pandemia para levar evidência científica, para levar informação credível à DGS e ao Ministério da Saúde, têm esbarrado nesta necessidade de seguir uma agenda midiática que não respeita as ciências que lidam com esta questão das infecções, com esta questão do controle pandémico, mas sim, única e exclusivamente, com as questões da comunicação e com as questões de manter no ar uma agenda que favorece um determinado pensamento. Este é o nosso sentir. Nós desde a primeira hora falamos nas máscaras, hoje ninguém questiona as máscaras, mas posso-lhes dizer que durante quase seis meses fomos ignorados nessa questão, desde março de 2020 até julho de 2020, ninguém nos queria ouvir. E na realidade, as máscaras foram um dos grandes garantes da segurança da população portuguesa. Muito obrigado pela oportunidade e gostava de ouvir o vosso comentário.

Claro que sim. Peço-lhe que assista um pouco mais ao Contracorrente. Alexandre Guedes da Silva, bom dia e obrigada. O próximo ouvinte está a ligar de Lisboa. O Gustavo Botiet é administrativo. Bom dia!

Bom dia. Eu queria mais uma vez referir que as pessoas nem sempre absorvem o tipo de regras que temos hoje em dia com a taxa de vacinação a aproximar-se dos 85%. A data de libertação era uns 70%, entretanto as metas primeiro eram achatar a curva em 15 dias. Quantas vezes é que já foram achatadas as curvas em 15 dias? Depois era 70% de inoculação, agora são 85%. Depois quando for 85%, vão manter as regras todas, as máscaras nunca mais desaparecem da obrigatoriedade. Noutros países da Europa já caiu tudo e as pessoas estão a viver normalmente e cá continuamos com a política hipocondríaca ad eternum. Isso pra mim é absolutamente chocante. Era só isso.

Gustavo Botiet, muito obrigada pela opinião. O José Batista está agora a ligar de Setúbal, do distrito de Setúbal, é reformado. Bom dia!

Olá, bom dia. Eu vou começar pelo seguinte . Agora falha-me aqui a palavra, peço desculpa. Eu peço desculpa, mas agora-

Mas perdeu completamente a ideia, e a opinião ou a palavra.

Não, eu já tomei. Eu vou dizer o seguinte: a matemática é a ciência do raciocínio. A dúvida é a ciência da inteligência. E de facto, a miséria, a pobreza, a ignorância e a estupidez, efectivamente, têm aqui vários associados, que são este governo, principalmente o António Costa, e depois uma grande parte da Direção-Geral de Saúde. O desconfinamento, eu confio muito que o confinamento da natureza e as manhas, propagandas e outras políticas que estão subjacentes a tudo isto pouco me importam. Eu peço desculpa por fazer uma introdução como fiz, mas consegui desenvolver o meu raciocínio. Um bom dia.

Bom dia também, José Batista, e claro que ficou claro o que nos quis dizer. Bom dia para si. Várias opiniões que chegam dos nossos ouvintes, mas a outra forma de participar no Contracorrente é também deixando comentários nas nossas redes sociais, que a Vanessa Cruz já esteve a ler.

Já estive a ler. Rui Afonso diz que é certamente indubitável a conivência da Direção-Geral da Saúde com o Governo, com medidas draconianas, discrepantes, que têm sido impostas aos portugueses, há muito deveriam ter sido atenuadas. Também Miguel Falcão e Silva, este ouvinte pergunta: "O que não dizer da DGS? Foram reativos em vez de proativos, houve inconsistência na tomada de decisão, há desfasamento da realidade e incapacidade de tomar uma decisão ou de fazer uma recomendação de forma autónoma e responsável. Desde logo", critica este ouvinte, "Graça Freitas, a Diretora-Geral da Saúde, diz que não tem coragem política ou a capacidade de assumir qualquer decisão, devia sair depois de a pandemia ficar resolvida." Temos também João Floriano, comenta a crônica de Alexandre Homem Cristo, o convidado do Contracorrente, diz que: "É uma crônica cheia de oportunidade. Andamos todos muito interessados nas autárquicas e escapam-nos factos da vida diária, como neste caso, do regresso às escolas. O grande teste à eficácia das vacinas chega agora em outubro, com o retorno completo à atividade diária. É inegável que a nossa imunidade está em baixo de forma e vem aí o período da gripe." É o aviso deste ouvinte, que está à espera que a libertação do uso de máscara ainda vá fazer correr muita tinta.

Vamos acompanhar também o que vai acontecer nessas matérias. André Azevedo Alves, ouvimos muito aqui críticas à Direção-Geral da Saúde. Ela está, de facto, demasiado próxima do poder político e nunca foi uma entidade independente na estratégia de combate à pandemia?

Parece-me que sim, que essa é uma avaliação bastante razoável. Temos visto isso em vários momentos, os timings de várias decisões, a forma como estas

É verdade que com poucas exceções, talvez no contexto europeu, a principal o caso da Suécia e também de alguns outros países nórdicos, isso não tem sido um exclusivo de Portugal. Nós temos visto, infelizmente, as autoridades de saúde e a DGS noutros países também muitas vezes virem atrás do que parecem ser orientações explícitas ou implícitas do poder político. Mas parece-me que no caso português tem sido, infelizmente, um mau exemplo a esse nível, por razões que podem ser compreensíveis, mas que ainda assim não são desejáveis. Queria só acrescentar uma coisa sobre o comentário que me pareceu muito importante do Alexandre Homem Cristo e concordar, embora me tenha focado mais na parte da análise política, que me parece que, de facto, sendo inegável o eleitoralismo, acho que devia ser prioritário, era bom que fosse prioritário também para os vários partidos políticos, de facto, a nível da escola, nós assumirmos finalmente medidas mais racionais, levantar um conjunto de restrições que são neste momento inexplicáveis e ter uma postura que permita proteger a aprendizagem das crianças, em especial das mais desfavorecidas, e que seja compatível com o nível de imunização que felizmente, neste momento, Portugal já tem.

E isso leva-nos exactamente para a questão que tinha ainda para o Alexandre Homem Cristo, tinha várias, mas já não vamos ter tempo. Se há, de facto, alguma apreensão sobre a forma como vai correr este ano lectivo, o que é que podemos esperar dos planos de recuperação de aprendizagens que também estão prometidos, Alexandre?

Primeiro, deixe-me só dizer uma coisa que há bocadinho não disse, que é importante para as pessoas que estejam a ouvir-nos perceberem que esta atualização das regras para o início do ano lectivo é algo que foi feito em quase todos os países europeus. E quando eu digo quase, é porque houve dois países que não o fizeram, foram Portugal e Roménia. E quando eu digo atualização, refiro-me aqui ao ter em conta os índices de vacinação da população para o ajuste das regras em ambiente escolar. Portanto, o que nós estamos a falar é obviamente um atraso injustificável e que aconteceu em Portugal e que não aconteceu nos outros países. Isto é o primeiro ponto. Agora, olhando daqui para a frente, o que é que podemos esperar deste ano lectivo e da recuperação da aprendizagem? Há um investimento das escolas na recuperação da aprendizagem, há um compromisso das escolas na recuperação da aprendizagem. Agora, se as condições materiais e de contexto da pandemia o vão permitir, é muito difícil. O plano de recuperação de aprendizagem tem uma duração de dois anos. Eu acho que é muito ambicioso acharmos que em dois anos se recupera o que aconteceu neste período, até porque o que aconteceu neste período foi sempre intercalado com idas para casa, idas para a escola e pelos vistos, nós estamos a começar este ano lectivo um bocadinho nos mesmos termos. Portanto, eu acho que quando olharmos para a recuperação da aprendizagem, o plano actual é de dois anos. Eu acho que nós temos que olhar para isto a cinco anos, pelo menos, porque temos que ter uma ambição maior. Há efeitos na aprendizagem dos alunos que nós ainda não conseguimos medir. Repare, é fácil, ou relativamente fácil, quando temos avaliações como exames nacionais, começar a perceber onde é que os alunos começam a ter mais dificuldades ou o que é que começa a falhar do ponto de vista de consolidação de conhecimentos. Isso acontece, por exemplo, no nono ano, onde há exames nacionais e onde nós vamos poder ter esses dados quando os exames do nono ano retomarem. Mas a nível do primeiro ciclo é tão precoce que nós ainda não sabemos o que é que realmente se perdeu. E eu desconfio que nós vamos passar muito tempo a falar da recuperação da aprendizagem e temo o pior nesse aspecto, porque eu creio que era preciso um investimento e uma forma de olhar para o acompanhamento destes alunos que as escolas ainda não têm condições para fazer, por falta de recursos humanos e por falta de condições também de circulação nas próprias escolas. Neste momento, com as bolhas e com todas as regras sanitárias que estão em vigor, creio que é muito difícil as escolas terem, de facto, os meios para apoiar os alunos. Havia um comentador, não sei se é ouvinte, se por escrito, acho que por escrito, que dizia que nós vamos ter agora uma prova de fogo com a gripe do inverno. Eu acho que nós vamos chegar a essa altura, de facto, com uma prova de fogo. E acho que é uma prova de fogo, não é só para o país, é para as escolas. Se nós voltarmos a fechar as escolas este ano lectivo, então aí, sim, temos que repensar todos os nossos planos de recuperação de aprendizagem, porque em vez de estarmos a recuperar aprendizagem, estamos a fazer um aumento do dano.

Será trágico aí nessa questão das aprendizagens. José Manuel Fernandes, estamos mesmo no último minuto do Contra Corrente. Ouvimos tantas opiniões, mas há esta ideia de comum, de que as normas com os níveis de vacinação do país parecem mesmo absurdas.

Sim, eu acho isso. Eu sou um grande adepto do plano de vacinação. Acho que desde o princípio devia ter explicado às pessoas que as pessoas mesmo vacinadas não estão 100% protegidas, estão muito mais protegidas

O risco de apanhar a doença é menor, o risco de quando apanham a doença terem uma forma grave da doença é muito menor, o risco de transmitirem é muito menor, mas a doença vai estar cá e vai ficar conosco. Nós temos que nos habituar a viver com ela e isso implica formas de comportamento ligeiramente diferentes daquelas que tínhamos, mas nós não vamos passar a ser bichos no mato. Eu acho que gradualmente, se andarmos na rua, seguirmos como as pessoas se comportam, se percebermos o que são os eventos sociais, percebemos que isso vai evoluindo. Agora, era melhor haver melhor comunicação e, sobretudo, regras mais claras. Elas estão a ser feitas noutros países. Há muitas áreas em que não precisamos de inventar. Há países que têm regras mais abertas sem terem o nosso nível de vacinação. Eu já não digo que nós vamos inovar, vamos inventar e vamos abrir tudo no sentido de que estamos já todos protegidos, que se calhar até poderíamos ir à frente dos outros, já que fomos à frente dos outros na vacinação. Mas pelo menos que vamos como os outros que estão um bocadinho mais atrás de nós já tiveram a coragem de ir. Façamos isso, porque isso é necessário para conseguir devolver às pessoas que ficaram para trás. E quem ficou para trás foram sobretudo os miúdos mais novos e mais pobres, que são aqueles para com os quais nós temos mais responsabilidades, se queremos ser uma sociedade de igualdade de oportunidades. Eu acho que isso é que é importante, é nisso que temos que pensar. Nós não somos uma sociedade que vive só para hoje, temos que viver para o futuro. Eu acabo por aqui, porque não quero levar o tempo.

Estamos a acabar o tempo. Vamos ver o que o Conselho de Ministros de hoje vai explicar. Pode ser que haja alguma luz nesse sentido. Quero agradecer ao Alexandre Homem Cristo e ao André Azevedo Alves, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, com os nossos pedidos repetidos de desculpa pela troca que lhe fizemos no início do "Contra Corrente". O José Manuel Fernandes está de regresso amanhã com um novo tema em discussão. Até amanhã.

Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou em 98.4, no Grande Porto.