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Assinalaram-se ontem três anos dos massacres do 7 de outubro em Israel, quando terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica invadiram o sul de Israel, mataram mais de 1200 pessoas em aldeias comunitárias e numa festa de juventude, e levaram para Gaza, como reféns, mais de 200 israelitas. Foi o maior pogrom dos judeus desde o Holocausto, mas quem ontem percorresse a lista das manifestações e encontros que um pouco por todo o mundo assinalaram a data, encontraria muito poucas referências aos massacres. Bem pelo contrário, a violência que deu origem à guerra parece ter sido esquecida, sendo substituída por uma agenda política que advoga mesmo o fim de Israel e que o faz cada vez com menos disfarces. Três anos depois do maior massacre de judeus, são os judeus que se sentem acossados, pois há sinais indesmentíveis de recrudescimento do antissemitismo. Hoje queremos saber como foi isso possível, se é apenas uma consequência da guerra de Gaza ou se há raízes mais profundas. José Manuel, bom dia. O mundo não compreende Israel ou é Israel que não compreende o mundo?
Se calhar as duas coisas são verdade, mas, porventura, a mais importante é a primeira. Nós podemos dizer que esta reação, tudo o que se passou, tem muito a ver com o que aconteceu durante a guerra, e foi uma guerra em que os meios de um lado e de outro eram diferentes, mas as dificuldades também eram diferentes e a atitude de partida também era diferente. E isso muitas vezes não foi tido em consideração nas análises. Mas a verdade é que quando nós escavamos um bocadinho, recordamos um bocadinho, vamos à memória, verificamos que logo no dia 7 de outubro de 2023, portanto, ainda estavam a surgir as primeiras notícias do que tinha acontecido, a reação de alguns grupos que ontem se manifestaram foi que o que tinha acontecido, aqueles massacres, os comportamentos selvagens que houve naquele dia e quem já esteve naqueles kibuts, já esteve naqueles locais onde a festa do Festival Nova, tem uma noção muito clara da brutalidade e da inumanidade do que ali aconteceu. Essas pessoas diziam que era um grande dia da resistência. E não estou a falar de países onde os árabes têm muita influência. Estou a falar de universidades em Nova York, estou a falar de movimentos em Londres, estou a falar de algo que se passou um pouco aqui à nossa volta, ainda antes, sequer, numa altura em que os soldados israelitas ainda estavam a tentar expulsar dos kibuts e daqueles territórios os que tinham invadido. Portanto, este é o ponto de partida, e é um ponto de partida que ganha outra dimensão se percebermos o que se passou aqui há uns dias, no Reino Unido, na conferência de um partido que está em ascensão nas sondagens. Vamos ver como é que o seu líder se porta agora numa eleição intercalar a que concorre em Londres. Estou a falar dos Verdes britânicos e que na sua convenção, todos os partidos britânicos têm convenções em setembro, outubro. Neste momento, são os conservadores que estão a celebrar a sua convenção. Os trabalhistas já tiveram e os Verdes tiveram também muito recentemente e votaram. Não foi uma maioria esmagadora, mas foi uma maioria muito significativa a favor de uma moção segundo a qual o sionismo, que é a defesa de que os judeus têm direito a uma pátria, é um racismo e, mais do que isso, que Israel deve desaparecer e do Jordão até ao mar deve apenas haver a Palestina. Ponto final, parágrafo. Isto foi assumido sem rebuços, sem dúvidas. É algo que nem sequer está de acordo com aquilo que foram sucessivas resoluções tomadas nas Nações Unidas desde 1947. Portanto, este é o ponto de partida, esta é a atitude que cada vez maior número de pessoas têm, que não se pode justificar apenas por frases, como aquela que António Guterres disse, que aqueles atentados, aqueles massacres, aqueles ataques não tinham acontecido num vácuo. Apetece dizer o mesmo em relação à invasão da Ucrânia, também não aconteceu num vácuo. A Segunda Guerra Mundial também não nasceu num vácuo. Nada nasce num vácuo. Tudo tem precedentes. A questão é saber que precedentes são esses e como é que nós olhamos para eles. E aquilo que nós verificamos, nomeadamente na maior parte das manifestações que ontem houve nas universidades e em muitas cidades da Europa e dos Estados Unidos, são manifestações que não são apenas contra o governo de Israel, o que seria absolutamente legítimo. São contra a própria existência de Israel, são muitas vezes dirigidas contra as comunidades judaicas. Há manifestações junto a comunidades judaicas, nomeadamente no Reino Unido, manifestações agressivas. Uma coisa absolutamente extraordinária é que há judeus na Europa que estão a sair dos seus países Para irem para Israel, onde caem mísseis vindos do Iraque, vindos do Irão, vindos do Líbano. Agora já não vindos de Gaza, mas preferem estar ali do que estar a viver na Europa. Eu acho que isso também faz parte da nossa incompreensão do mundo relativamente ao que é a resistência do povo judeu e a sua forma de encarar as adversidades. Há um dado recente que eu tive conhecimento e que me deixou particularmente surpreendido e que mostra até que ponto aquele país e aquela sociedade são diferentes. Neste momento, Israel é o único país desenvolvido, repito, o único país desenvolvido onde os índices de fertilidade estão acima de 2.1, que é o índice de reposição da população, estão mesmo perto de três. E quando se olha mais em detalhe, esses indicadores não vêm apenas daquelas comunidades que, em princípio, poderiam tradicionalmente ter mais filhos, que são, por um lado, a minoria árabe, há 20% de árabes a viver em Israel. Para o discurso de que é um Estado do apartheid, quando há 20% de árabes a viver lá, quando os árabes têm representação no Parlamento, quando há árabes no Supremo Tribunal de Justiça, por exemplo, não sei inclusivamente se o presidente supremo continua a ser um árabe, falar em apartheid é no mínimo surrealista. Ou então, digamos, do outro lado do espectro, os ultraortodoxos também têm cinco, seis, sete filhos, as famílias são muito numerosas. Não, aquilo que é sociedade laica, que ainda é majoritária e que tem um lado vibrante que se nota muito bem, sobretudo em Tel Aviv, aí os índices de natalidade também são superiores 2.5, 2.6. É algo que vai contra tudo que é tendência em todo o mundo ocidental. Sabemos, temos discutido isso aqui muitas vezes no "Contra-Corrente", é neste momento um tema que ocupa as preocupações e é espantoso como é que uma sociedade cercada, pressionada, em guerra, onde ter um filho é saber que ele daqui por 18 anos irá servir três anos no exército, se for homem, e dois anos, se for mulher, essa sociedade tem este dinamismo demográfico. Portanto, isto é difícil de compreender, é difícil de entender, é inclusivamente difícil de perceber, e acho que o mundo não percebeu o que significou para os judeus, para Israel, o que aconteceu a 7 de outubro. Quer dizer, as pessoas esqueceram muito depressa o trauma que foi 1200 pessoas mortas. E repara, são 1200 pessoas mortas, a maior parte das quais eram jovens, mulheres, naturalmente, os que estavam no Festival Nova, mas também os habitantes dos kibuts, a maior parte deles judeus de esquerda. Havia alguns militares, alguns policiais, mas muito poucos, eram quase todos civis. Se nós traduzirmos isto para, por exemplo, os Estados Unidos, os Estados Unidos, se tivessem tido um desastre semelhante, teriam sido 50 mil mortos. Portanto, eu acho que não há noção do trauma que isto representa numa sociedade e até que ponto é que isso fez mudar, e vamos falar um pouco disso, as próprias prioridades dessa sociedade, apesar de todas as críticas que possamos fazer ao seu governo, e ao facto de nestas circunstâncias eles irem ter eleições ainda este mês e poderem mudar de governo. Portanto, tudo isto é muito difícil de compreender pelas mentalidades dominantes em muitos espaços ocidentais, que preferem narrativas que são simplificadoras e que são, no limite, sempre antiocidentais. Portanto, o pecado também que Israel tem é ser uma fronteira do Ocidente, como ontem escrevia aqui no Observador o João Marques de Almeida. E vamos também ver o que isso significa, porque está aqui um lado de perceber o que é essencial nas nossas sociedades. Bem, como vê, temos muito para falar.
Três anos depois do 7 de outubro. Até já, José Manuel.