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José Manuel Fernandes, queria falar hoje no Contracorrente de sondagens. Bom dia, José Manuel.
Bom dia.
Até porque já começamos a ter algumas.
É verdade. Apesar de nestas eleições nós termos tido muito menos sondagens do que noutras. E eu acho que isto até é um sinal da crise que vai pela comunicação social. As sondagens são caras, não há dinheiro, não há sondagens. É pena, mas é assim. Mesmo assim, esta semana já tivemos algumas. O destaque vai para a de ontem, a da Católica, para a RTP e para o Público, mas também tem vindas da Pitagórica, que são diárias, as Tracking Poll, que saem na TSF, JN e TVI. Falta a maior de todas, que julgo eu que deve sair sexta-feira no Expresso. Mas mesmo assim há algumas tendências que acho que já dá para falar um pouquinho sobre o que se está a passar.
Então vamos falar delas, mas antes disso, achas que podemos confiar nas sondagens? Elas não se têm enganado quase sempre.
As sondagens têm um bocado de má fama, até porque falharam em algumas eleições muito importantes. A gente lembra-se do Trump, lembra-se do Brexit. Mas eu acho que em Portugal, por acaso, até têm funcionado relativamente bem. Eu estive a ver os números e fui ver. Em 2015, que foi as últimas eleições, a média das sondagens da última semana dava 39% para a PAF, e a PAF teve 38,5%. Para o PS dava 32%. O PS teve 32,3%, digamos que é praticamente certo. Nas presidenciais, logo a seguir, as sondagens, também da última semana, davam Marcelo com 52,5% e ele teve 52%. Também praticamente acertaram.
Pronto, então convenceste-me. Vamos lá ver o que dizem as sondagens agora.
Portanto, eu acho que já há algumas coisas interessantes. A primeira é que o PS parece mesmo longe da maioria absoluta. Eu diria que neste momento é mesmo quase impossível e por duas razões. A primeira razão é porque o PS está a cair nas intenções de voto e isso é uma coisa que acontece sistematicamente. A segunda é porque como o PSD está a subir, isso torna muito mais difícil chegar à maioria. Se o PSD se mantivesse nos 22, 23%, talvez bastasse ao PS uns 38 ou 39% para chegar à maioria. Mas como o PSD já está acima dos 25, 26, tudo indica que a fasquia fica mais alta, fica acima dos 40%. Ora, neste momento o PS está longe e está cada vez mais longe de chegar a essa fasquia. O segundo facto relevante é mesmo essa subida do PSD. Eu diria que a prestação de Rui Rio nos debates e na campanha está a mobilizar eleitores que das duas, uma: ou estavam escondidos entre os indecisos ou estavam escondidos entre os potenciais abstencionistas. Não diria que eram pessoas que estavam a votar noutros partidos, como PS, e que mudaram de opinião. Acho que sobretudo eram eleitores escondidos. Esta subida do PSD, eu acho que também mudou um bocadinho o eixo da campanha. Ela começou muito à esquerda, com o Bloco a dizer que era tudo entre o Bloco e o PS, e agora a campanha ficou um pouquinho mais normal, mais um debate esquerda-direita, como é tradicional. Mesmo assim, eu acho que isso não está a beneficiar muito o CDS.
Mas o CDS também costuma queixar-se das sondagens.
O CDS e a CDU, mas também fui de novo verificar e ver os números. Ora, desde 2002 para cá, a CDU não tem nenhuma razão de queixa. As sondagens acertam em cheio, às vezes até à décima, ou até beneficiam ligeiramente os comunistas. Já o CDS foi prejudicado duas vezes, nas quatro vezes em que concorreu sozinho, em 2002 e 2009. Em 2005 e em 2011, as sondagens acertaram. Portanto, vamos ver o que acontece este ano.
E em relação ao PAN, José Manuel Fernandes, já se percebe se vai mesmo crescer?
Ora, tudo indica que sim, o PAN vai crescer, mas talvez não tanto como cresceu nas europeias, mas deve dar para ter um grupo parlamentar. O interessante, no entanto, é que as últimas sondagens, quer as da Pitagórica, quer a da Católica, já começam a apanhar outros partidos. Portanto, o Iniciativa Liberal, o Livre, o Aliança e o Chega. Mas com uma diferença, apesar de não haver muita diferença no tamanho da intenção de voto. Aliás, as amostras são pequenas, estes partidos aparecem naquilo que se chama margem de erro. A vantagem vai para a Iniciativa e para o Livre, porque são aparentemente partidos com um voto mais urbano, mais concentrado em Lisboa e no Porto. Ora, como Lisboa elege 48 deputados e o Porto elege 40, estes partidos acabam por ter uma hipótese de eleger um deputado, coisa que o Chega e o Aliança têm mais dificuldade.
E assim chegamos aos três últimos dias da campanha. Ainda achas que pode haver surpresas?
Eu acho que surpresas muito grandes é difícil, apesar de poder acontecer, mas acho que esta dinâmica que nós estamos a assistir já se começou a formar no início de setembro e parece um bocado difícil alterá-la. Mas como ainda faltam algumas sondagens, sondagens importantes, vamos ver. Por isso eu diria que com ou sem furacão, até ao lavar dos cestos é sempre vindima, mas aquilo que o António Costa fez ontem, que foi quase que fugir da rua e do contacto com as pessoas arranjando uma desculpa, dá mesmo uma péssima imagem. Eu acho que é mesmo muito má imagem.
José Manuel Fernandes à conversa com Carla Jorge Carvalho no Contracorrente. Amanhã há mais, sempre a seguir ao Jornal das 8, aqui na sua Rádio Observador.
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