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E é o início de mais um Contracorrente, sempre com o José Manuel Fernandes. Já sabe que contamos consigo também, queremos ouvir a sua opinião, conhecer a sua opinião. O número é o 910 002 41 85. Carla Jorge Carvalho.
Durante muitos meses, a condução da luta contra a pandemia pareceu estar sempre nas mãos tanto do primeiro-ministro como do presidente da República, mas nos últimos tempos já não os vemos tão juntos. É por isso que José Manuel Fernandes quer tratar deste aparente afastamento no Contracorrente, pois parece-lhe que o presidente da República podia estar a desempenhar um papel mais ativo. Parece que achas que ele anda até calado demais.
Extraordinário. Mas é isso mesmo. Há menos de um mês, eu até fiz aqui uma crônica em que precisamente perguntava por que o Marcelo não se calava. "Porque não te calas?" Enfim, foi na altura em que ele fez aquela desastrada declaração sobre ser dia de futebol e termos de estar todos focados no futebol. Na altura, era um disparate e era uma forma de ele não falar sobre assuntos importantes, como por exemplo, a partilha de dados pessoais, que tinha acontecido na Câmara de Lisboa, ou a nomeação de um comentador político para o cargo de comissário das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Portanto, ele fugiu esses assuntos com o futebol. Mas era também uma forma de ele não falar do que era mais importante e o mais importante era a pandemia. Meses e meses a fio, ouvimo-lo falar a propósito e a despropósito sobre a doença, o vírus, confinamento, desconfinamento, as máscaras, como é que ia tomar banho, não ia tomar banho, Natal, as vacinas, enfim, tudo e mais alguma coisa. E devo dizer que algumas vezes falou bem, sobretudo quando falou de forma institucional, quando fez algumas comunicações formais, mas outras vezes também falou mal, quando fez quase como um comentador de tudo e de nada.
E por isso tu achavas que ele se devia calar nessa fase, mas agora parece que já não pensas o mesmo, é isso?
Eu, na altura, achava que ele devia estar calado sobre futebol. Infelizmente, ele continuou a fazer comentários despropositados, Ramado Sanches, pra aqui, pra ali, por exemplo, mas agora também defendi que ele não devia calar-se sobre assuntos graves que estavam a acontecer em Portugal. Ora bem, um presidente como o Marcelo, que todos os dias aparece nas notícias, quando se cala é porque consente. Esse é que é o problema. Ora, o que me preocupa neste momento é que interpreto o seu silêncio como consentimento. E eu acho que é um consentimento forçado, porventura um consentimento cúmplice, mas é um consentimento. Ora, isso não é bom. Não é bom, claramente, porque já não há sintonia entre o presidente e o governo sobre a forma de conduzir o combate à pandemia. Marcelo, por exemplo, defende que se modifique a matriz de risco. Eu também defendo, já aqui fiz isso várias vezes. Marcelo dá a entender que gostaria também de ter um desconfinamento com outras regras. Marcelo claramente já não dá cobertura a tudo que o governo decide. Aquilo que lamento é que não o faça com mais clareza e mais frontalidade. Eu acho que o país ganharia com isso.
Achas, portanto, José Manuel, que o país ganharia com mais confronto, é isso?
Eu acho que mais clareza e mais frontalidade não implicam necessariamente mais confronto. Mas vejamos alguns exemplos dos choques dos últimos dias. Primeiro, tivemos a declaração do Marcelo de que com ele não haveria mais recolhos no desconfinamento e que quem decide são os políticos, não são os especialistas. Ora bem, eu devo dizer que não posso concordar mais com essa ideia de que quem decide são os políticos, com essa ideia de que os políticos vão se esconder por trás dos especialistas. Agora, mesmo considerando, por exemplo, que era arriscada a ideia de que não iria haver nenhum recuo no desconfinamento. Seja lá como for, tratou-se de um sinal de navegação. Com ele, não haveria mais estados de emergência. Ora bem, com isto, naturalmente, criou-se um problema com o governo, mas também criou-se um problema ao próprio Marcelo. O governo passou a não poder, por exemplo, fechar as pessoas em casa, como fazia com o estado de emergência, que ele começou a ser criativo. E foi criativo já com a circa de Lisboa, onde eu acho que ele pisou o risco. Eu acho que já mesmo violou a Constituição, mas como sabes, não tenho nenhuma dúvida que com o recolher obrigatório do último fim de semana, houve mesmo uma grosseira violação da lei fundamental. Nunca o governo podia ter dado esse passo para mais um passo que acho que foi inútil. E o que fez o presidente? O presidente fez um comentário inócuo. Disse que o governo estava a desenvolver um caminho diferente, alternativo, no combate à pandemia. Para dizer inanidades destas, eu acho que não precisamos de ter um constitucionalista no emblem.
José Manuel, o que ele podia ter feito?
Eu acho que ele podia ter feito várias coisas, algumas delas não sei se fez, se não fez. A primeira, que eu não sei se ele fez ou não fez, era informar-se junto do governo sobre as medidas que estavam a ser preparadas. Para todos os efeitos, ele fala ou devia falar com António Costa, designadamente numa altura destas. Se soubesse que iam ser tomadas medidas como aquela, que é inconstitucional, deveria ter avisado o primeiro-ministro dessa inconstitucionalidade e devia ter dito qualquer coisa, devia, por exemplo, ter dito que ele podia ter ido mais longe. Podia ter lhe dito que tornaria pública as suas divergências. Eu recordo que Mário Soares opôs-se várias vezes publicamente a medidas do governo de Cavaco Silva, publicamente, e o mundo não veio abaixo por causa disso. Sendo que nessa altura o governo tinha maioria absoluta e desta vez Costa não tem maioria absoluta. Eu acho que não chega enviar recados sibilinos. Acho que os recados têm que ser claros. Não chega pedir explicações a Costa por ter ido para isolamento já com as vacinas tomadas, como Marcelo fez. Como está à vista de todos, o governo continua a ignorar a convocação do presidente, porque ainda ontem o ministro do Ambiente também foi para isolamento e, aparentemente, não acontece nada. Ou seja, Costa faz gato e sapato de Marcelo, a DGS faz gato e sapato de Marcelo, não quer saber das preocupações de Marcelo, toda a gente faz o que bem entende e Marcelo fica a falar sozinho. Aliás, isso também já tinha acontecido com aquela cena do Virgílio Cabrita, não é?
Aquela cena, estás-te a referir quando Marcelo tenta que Cabrita comentasse o acidente na A6.
Exatamente. Todos vimos, todos assistimos. Aquilo foi quase um atirar do ministro borda fora. Foi quase um defenestrar de Cabrita. Só que no dia seguinte, António Costa veio dizer que não havia remodelação nenhuma, portanto esquece, tira essa remodelação da agenda, porque o Cabrita estava pedra e cal. É uma questão de olhar para a agenda de Marcelo e ver que é uma espécie de agenda dos tristes. Num dia vai despedir-se dos atletas olímpicos, noutro dia envia condolências a um bombeiro que morreu na A5, noutro dia dá luz verde a dois acordos de Portugal com a Costa do Marfim e com a Argélia. Ontem, por exemplo, inaugurou uma estátua aos profissionais da saúde na Madeira, mas digamos que está um bocado remetido a um papel secundário.
Mesmo assim, ainda disse que há mais vida para além da pandemia.
Pois disse. Foi naquela cerimônia com os atletas olímpicos, mas não o disse com aquela severidade que fizesse com que parássemos, ficássemos a olhar e ficássemos a pensar: "Espera lá, o presidente está a enviar um recado ao governo, isto tem mesmo que mudar. Tem que mudar qualquer coisa". Tanto assim foi que logo a seguir António Costa também veio dizer: "Ok, eu também acho que há mais vida para além da pandemia" e ao mesmo tempo que disse isto, assustava o país com a quarta vaga, ou seja, meteu outra vez Marcelo no bolso. Eu tenho que ser direto. O presidente não pode achar que numa altura em que as coisas se complicam e em que é necessário falar, eu direi, um bocado mais grosso, tudo se resolve com recados, recadinhos, palmadas nas costas, como nos últimos cinco anos. Se é preciso falar claro e falar grosso, é preciso falar grosso, é preciso falar, eu diria, olhos nos olhos dos portugueses. É preciso falar-lhes como ele soube falar, por exemplo, no 25 de Abril ou no 10 de Junho. E há motivos para isso. O presidente é um constitucionalista e sabe que a Constituição está a levar trato de polé. Se não sabe, tem a obrigação de saber. Ele não pode impedir a publicação de portarias. Não pode. As portarias chegam diretamente do Conselho de Ministros para o Diário da República. Mas pode pegar nelas e enviá-las para o Tribunal Constitucional. Eu sei que é uma medida muito drástica. Eu sei que não tem efeitos a curto prazo, mas tem um efeito político poderosíssimo. Mas não é bomba atômica, não cai governo nenhum. Mas justificaria, por exemplo, uma comunicação formal ao país. Já várias vezes disse e repito: Marcelo foi eleito por uma maioria reforçada. Tem, por isso, legitimidade reforçada. Tem o direito e o dever de atuar, não apenas para corresponder às expectativas do que o elegeram, mas para respeitar o juramento de, peço desculpa por repetir a palavra, mas respeitar e fazer respeitar a Constituição. Foi o que ele jurou.
Foi assim que tomou posse.
Foi assim que tomou posse. Não vai haver nenhuma crise política se ele fizer isso. Não vai haver, porque ninguém quer que haja, não quer ele, não quer o governo. O próximo orçamento não vai deixar de ser aprovado, já toda a gente percebeu isso. Já tudo está feito com o PCP para ser aprovado. Infelizmente, o PSD também não vai despertar da sua dormência, porque já nada o acorda, nenhum choque de anfetaminas ou de qualquer coisa desse gênero o vai acordar. Mas ao menos podia ser que os portugueses percebessem que isto não está tudo eternamente nas mãos do governo e do PS, que alguém lhes dá um choque. Mais, podia ser que percebessem que, de facto, há mais vida para além da pandemia e para além do confinamento e para além do PS, digamos assim.
Está lançado o tema deste Contracorrente e já vamos começar a ouvir os nossos ouvintes, que já estão inscritos. Mas antes disso, ouvimos primeiro o António Costa Pinto, é politólogo, é investigador coordenador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. António, muito bom dia.
Muito bom dia.
António, há de facto aqui uma dessintonia nova entre o presidente da República e o primeiro-ministro em relação à estratégia de combate à pandemia?
Não creio, ou pelo menos não creio que ela seja muito importante. Ou seja, quando nós observamos as relações entre Marcelo e o governo, neste caso o governo em funções do Partido Socialista, e eles estão praticamente desde o início do primeiro mandato do presidente da República até hoje, com o Partido Socialista no governo, nós vamos observando que as duas diferenças, creio eu, que Marcelo introduziu foi, em primeiro lugar, aquilo que eu tenho salientado muitas vezes, que é um estilo político muitíssimo interventivo sob o ponto de vista discursivo, muitíssimo interventivo sob o ponto de vista daquilo a que nós podemos chamar o ativismo presidencial. E, portanto, evidentemente, muitas vezes, Marcelo também sofre interpretações muito diversificadas sobre os seus silêncios, mesmo que esses silêncios sejam conjunturais. E o que o José Manuel Fernandes acabou de salientar justamente foi algumas críticas ao presidente da República por ausência de uma atitude mais firme perante uma série de questões que ele elencou. No longo prazo, o que nós observamos é que Marcelo, sob o ponto de vista da sua relação com os anteriores presidentes da República, é muito mais vigilante, comentador, moldador das atitudes governamentais, estejamos nós de acordo ou contra. Ou seja, em termos da sua relação com o governo, ele tem uma atitude de comentário, vigilância e intervenção praticamente contínua.
Mas António Costa Pinto, quando o Marcelo toma posse para o primeiro mandato e diz que a sua principal missão é descrispar a sociedade, e recorde-se, na altura estava a geringonça para a gestão. Essa ideia não terá colado demasiado o Presidente da República ao governo? E essa contraponte de poderes se tenha dissipado.
O que parece claro, e isso tem sido evidente, e eu muitas vezes tenho salientado que os poderes presidenciais e o semipresidencialismo em Portugal é muito mais flexível do que aquele que está na Constituição. Ou seja, o Presidente da República tem uma margem de manobra, se o quiser utilizar essa margem de manobra, muito significativa. O exemplo que eu costumo dar muitas vezes é que não está escrito em lado nenhum que o Presidente da República, por exemplo, não possa ser um líder partidário. Isto é apenas um exemplo. Nunca foi na democracia portuguesa.
Mas podia ser.
Não está escrito. Ora bem, Marcelo poderia até protagonizar, se quisesse, direta ou indiretamente, uma oposição a este governo em sintonia, por exemplo, com partidos de oposição. E isso não está e nem é anticonstitucional. O que eu quero sublinhar sob esse ponto de vista? O que me parece que é o fio condutor de Marcelo, desde praticamente o primeiro dia do seu mandato, é que Marcelo não quer protagonizar, a partir da Presidência da República, uma oposição ao governo em funções. E não quer, de algum modo, reorganizar, se quisermos, ou ser um conselheiro informal diretivo, por exemplo, da oposição a este governo. É bastante claro que isso preocupa. É claro que isso preocupa. A dificuldade com que uma oposição de centro-direita e de direita realiza a este governo, que remete, aliás, para as atitudes eleitorais dos portugueses. É a vida. Temos que a gerir, é a vida. Estejamos a favor ou contra.
Portanto, não vamos ter, e falámos tanto já sobre isso, não vamos ter um segundo mandato com estilo diferente, nem vamos ter uma força de bloqueio.
Não vamos ter um segundo mandato com estilo diferente. Evidentemente que Marcelo não hesitará, constituída na sua percepção, na percepção dele enquanto presidente da República, uma alternativa eleitoral a este governo, não hesitará em abandonar, eventualmente, os paninhos quentes. Porque eu creio que há um ponto, há duas grandes constantes na atitude de Marcelo, creio eu. Um grande ativismo discursivo, um grande ativismo presidencial e, ao mesmo tempo, um presidente da República que se mantém no fundamental equidistante. E isso muitas vezes aponta, evidentemente, para a estabilidade governamental. E esta estabilidade governamental é, sem dúvida nenhuma, o segundo pressuposto, creio eu, de Marcelo. Marcelo nunca será um garante, digamos assim, de eventuais riscos de instabilidade governamental. E eu creio que muitas das atitudes de Marcelo perante o atual governo remete, evidentemente, para a inexistência, percepcionada como tal pelos atores políticos, por nós próprios, comentadores, e por ele, sobretudo, de uma alternativa eleitoral à direita nesta conjuntura. Quanto aos episódios conjunturais, deixe-me só salientar, quanto aos episódios conjunturais, hoje fala, amanhã está em silêncio. Eu creio que a razão pela qual nós estamos, e o José Manuel Fernandes estava a criticar, no fundo, o presidente da República pela sua omissão em relação a muitos episódios de detalhe agora referente à crise pandémica, ao ministro da Administração Interna, etc, remete para algo que nós já nos esquecemos. Já nos esquecemos porque damos por adquirido. E o que damos por adquirido? É que Marcelo comenta e é um ator ativo da vida política nacional praticamente todos os dias, como nenhum presidente da República o fez no seu passado. Ou seja, é o estilo político altamente interventivo de Marcelo que faz muitas vezes que nós demos por adquiridos se ele falou hoje ou não falou a seguir.
E é só pensar no que foram os mandatos de Cavaco Silva do antes de hoje.
Sejamos claros. Nenhum presidente da República, no passado, independentemente de muitas vezes ter apelado e ter tido atitudes extremamente duras perante os governos em exercício, no seu dia a dia, realizou o que realizou perante o ministro da Administração Interna. E nós demos isso hoje por adquirido. Mas olhemos para Jorge Sampaio, olhemos para Cavaco Silva, isso alguma vez aconteceu. Ou seja, o presidente da República colocar um ministro ali diretamente na comunicação social e perante a sociedade portuguesa.
Sim, não deve haver memória. António Costa Pinto, sim, mesmo para terminar.
Antes justamente dos ouvintes entrarem
Eu creio que a atitude de Marcelo perante a pandemia, ao dar ao governo, neste caso ao não dar ao governo a alternativa de um estado de emergência, dizer: "Atenção, isto agora é para mudar e progressivamente regressar a uma situação de normalidade com uma pandemia que ficará endêmica", foi um ato simultaneamente arriscado, mas muito provavelmente é um ato em consonância com aquilo que vai ser, e já está a ser, a atitude da maioria dos governos europeus.
Aqui fica também esta nota de reflexão, António Costa Pinto. Agora sim, vamos então dar a voz aos nossos ouvintes. O Jorge Alves foi gerente de uma concessão de automóveis, está a falar do Seixal, é o nosso primeiro participante. Bom dia.
Bom dia, minha senhora. Primeiro que tudo, quero dar os parabéns à Rádio Observador por ser uma lufada de ar fresco nos meios de comunicação social em Portugal. Nós para sabermos alguma coisa de jeito daquilo que se passa e não passa no país, temos indiscutivelmente de ligar a Rádio Observador. Portanto, o primeiro aspecto é esta saudação e este muito obrigado pelo serviço que vocês desenvolvem. Em relação ao senhor presidente da República, aquilo que os portugueses ou uma parte dos portugueses pede, é que o senhor presidente da República use o seu magistério de influência e não permita que este governo, de uma forma demagógica, não verdadeira, engane os portugueses todos os dias com aquelas conversas de que está tudo bem, de que nós estamos no melhor dos mundos, de que todos os portugueses estão muito bem, de que a pandemia eles estão a controlar tudo e estão a fazer tudo. E isto não é verdade. Os portugueses estão a ser enganados e a conivência ou o deixar andar do senhor presidente da República, porque não usa a sua magistratura de influência, está a prejudicar e vai prejudicar os portugueses num futuro próximo. E eu lamento este comportamento do senhor presidente, porque quando foi eleito, os portugueses esperavam que não fosse apoiante do poder, nem não apoiante. Fosse uma pessoa que esclarecesse e que denunciasse as atrocidades que este governo todos os dias faz à democracia portuguesa. Portanto, era só isto que eu tinha que dizer.
Isso é que eu disse, Jorge Alves. Muito obrigada pelas suas palavras também, aqui a pedir que o Presidente da República exerça a magistratura de influência. O Ricardo Azevedo fala de Almada, é comerciante. Bom dia, Ricardo.
Muito bom dia. Olhe, em primeiro lugar, quero vos desejar os bons dias e principalmente dar-vos os parabéns pela vossa coragem de terem este programa, que vem demonstrar, pelo menos, que ainda não temos um governo 100% salazarista, pelo menos 90%, senão o vosso programa já não existia. Sobre o senhor presidente da República, acho que é uma estratégia política que ele está a usar, porque também se calhar está amainado para não poder exercer os poderes que lhe foram conferidos pelo povo português, que votaram nele, uma maioria bastante grande, em virtude da bazuca, em virtude da Europa, e ao mesmo tempo deixar este governo enterrar-se vivo com tanta mentira, com tanta aldrabice sistemática que é de abradar aos céus. Como é que é possível? E já agora também quero dar os parabéns ao senhor António Costa, que para mim e para muita gente, eu sou comerciante e nós comentamos na rua, esta estratégia dele política de ter ficado em confinamento, portanto, em isolamento profilático. Houve na altura que aconteceu o problema do senhor ministro da Administração Interna, que veio a comprovar o fato de ele nem sequer ter tido a dignidade de ter respondido ao jornalista que o interpelou quando estava a fazer a inauguração das obras de Loures, Odivelas. Foi uma estratégia boa. Não acredito como muita gente que ele tenha estado em isolamento. Foi uma estratégia, só ter sido uma coincidência, mas espero que o senhor presidente da República tome uma voz mais ativa e que dê mais força ao PSD, porque senão qualquer dia temos o Chega, que se calhar é a única força política que vai ter força para derrotar este governo. Para mim e para muita gente é um governo salazarista. Se calhar o Salazar ao pé dele é uma criança. Uma bom dia e obrigado.
Ricardo Azevedo, bom dia também. Muito obrigada por nos ter deixado aqui a sua opinião. José Manuel Fernandes, de facto, todos os comentários que temos ouvido até agora e quando se olha para a relação entre presidente da República e primeiro-ministro, falta aqui o outro vértice do triângulo, que é a oposição. E a oposição também que não permite ou não permitirá que haja ou que passe a haver um maior confronto entre São Bento e Belém.
Bem, eu sei que este aspecto é importante e é um aspecto que preocupa o presidente da República. O presidente da República tem percepção de que, no jogo normal de poderes que há numa democracia, é muito importante que a oposição seja um contrapeso ao poder de um governo e tem noção de que com a fórmula da geringonça, a oposição à esquerda ao governo do Partido Socialista praticamente desapareceu. E a oposição à direita está muito diminuída pelas circunstâncias em que se encontra o maior partido da oposição, o PSD. Sabe-se que Marcelo Rebelo de Sousa não morre de amores por Rui Rio, não acredita que Rui Rio possa levar o PSD a algum lado e está numa situação em que não crê que por ali possa surgir uma verdadeira alternativa. Só que eu acho que isso não o desresponsabiliza. Sobretudo porque já passaram muitos anos nessa situação e o presidente da República não pode ficar sentado em Belém, um bocadinho à espera: "Deixa ver o que acontece, a ver se surge qualquer coisa que me permita ter um tipo de atuação algo diferente." Para todos os efeitos, eu julgo que há uma responsabilidade e essa responsabilidade é aquela que faz parte de manter os equilíbrios do sistema constitucional, do sistema democrático. Eu nisto tenho que ser crítico de Marcelo Rebelo de Sousa, eu acho que em vários momentos recentes desse equilíbrio, Marcelo Rebelo de Sousa falhou. Falhou na questão da Procuradoria-Geral da República, falhou em momentos em que houve outras situações. Nessa ele teve intervenção direta, claramente. E nós agora ainda sabemos que a Procuradora-Geral está a ter intervenções hierárquicas no Ministério Público que são extraordinariamente contestáveis, e percebemos que há no Ministério Público uma situação bastante diferente da que existia com a anterior Procuradora-Geral. Nisso, Marcelo Rebelo de Sousa tem claramente responsabilidade. E nisso atuou em consonância com o atual primeiro-ministro e com a contestação de, não direi do maior partido da oposição, mas com muita gente que se pronunciou na oposição. Houve outros momentos, quando foi a altura da mudança no Tribunal de Contas, em que o presidente da República deu alguma cobertura também com aquela ideia peregrina de que só se exerce o mandato nesses lugares. E assim estendeu uma espécie de passadeira vermelha pra uma situação em que há, de facto, uma ocupação excessiva de lugares no topo do Estado por figuras que não são suficientemente escrutinadoras do poder socialista. É esse que está em causa. A questão tem a ver com o equilíbrio de poderes, que é uma questão central. Foi a questão que mais preocupou quem fundou a primeira república democrática, o António Costa Pinto sabe disso muito bem, que é a questão dos fundadores da República Americana, que está quase a fazer 250 anos. Como é que se limita o poder executivo? E neste caso, o poder executivo é o poder do governo, no caso americano reside no presidente da República, no caso português reside no Parlamento e depois emana do Parlamento para um governo. Esse poder está pouco limitado neste momento e tem um dos seus principais contrapesos na Presidência da República. E esse contrapeso tem que ser exercido. A forma como o presidente da República escolheu e exerceu, foi através da sua omnipresença no espaço público. Isso pode ter vantagens, mas tem desvantagens. E essa desvantagem torna-se evidente quando dessa omnipresença não resultam ações eficazes. Como eu referi, há momentos onde resulta uma cacofonia, muitas mensagens e não se percebe qual é a mensagem importante. O presidente quer mudar a forma como se está a conduzir o combate à pandemia. Então tem que ser mais claro sobre isso. O presidente da República não está de acordo com a forma como nós estamos a fazer os confinamentos e a desconfinar. Então tem que ser mais claro sobre essa matéria. O presidente da República acha que as mensagens sobre a vacina, apenas pedir esclarecimentos, tem que dizer que é errado, que aquilo não se pode continuar a fazer, estando presente no espaço público todos os dias.
E conhecendo bem o espaço público e como funciona o meio de âmbito.
Conhecendo bem o espaço público e como funciona, sabe que as coisas se apagam no dia seguinte, já ninguém se lembra. É necessário encontrar outros mecanismos, outras formas de ter outro peso. O problema é ele, de facto, estar todos os dias. Aquela questão que se passou com o Cabrita, de facto, como diz o António Costa Pinto, nunca ninguém fez aquilo a nenhum ministro, nunca nenhum outro presidente da República fez aquilo a nenhum ministro. Se Mário Soares, se Jorge Sampaio ou Cafago Cival fizessem aquilo a algum ministro, o ministro caía mesmo. Agora, o problema é que Marcelo faz tantas daquelas, que o primeiro-ministro se pode dar ao luxo de não fazer cair o ministro e não acontecer nada. Esse é que é o problema.
Estamos aqui a recolher várias opiniões dos ouvintes e também de quem participa nas nossas plataformas digitais. E Júlio Magalhães, estás a ler o que vai sendo escrito. Faz-nos agora aqui, por favor, um resumo das principais ideias.
Sim, há vários comentários tanto no site como no Facebook. O João Junqueira diz que Marcelo deve andar muito ocupado com a bola, juntamente com os amigos Costa e Ferro Rodrigues. Ontem na meia-final Espanha e Itália nem vestígios de Pedro Sánchez, Mario Draghi ou mesmo do rei ou presidente da República italiano. Esta é uma das críticas que se faz aqui. O António Lamas diz: "Nós não temos um presidente da República, temos o Marcelo, com a obsessão de ser popular, desvalorizou o cargo." Por outro lado, lembrando a saudosa Maria Josefa Nogueira Pinto, Costa sabe o que ele Marcelo, sabe o que ele Costa sabe. O Ruben Faria diz: "Marcelo ficou em silêncio quando surfetou que o criticassem por apenas dizer que é preciso apurar responsabilidades sempre que algo se passava. Agora já não se pode criticar?" Pergunta aqui o Ruben Faria. Já o Rui Lourenço diz: "Está em silêncio porque diz que fomos eliminados da Europa do futebol, acabaram-se os assuntos sérios dos quais se poderia pronunciar. Querem que fale de quê? Do Medina? De Tancos? De Cabrita? Da venda das barragens do Douro? Dos isolamentos profiláticos?" São estas algumas das questões e alguns dos comentários que estamos a ver tanto no site como no Facebook do Observador.
Porque está em silêncio Marcelo Rebelo de Sousa. Qual é a sua opinião? Queremos saber o que pensa. Ligue para as manhãs, 360, o número é o de sempre, é o do Contracorrente, é o 910 002 41 85. Ora António Costa Pinto, tem sido recorrente a referência à forma como o futebol vai ocupando aquilo que é o espaço político. Marcelo tem exagerado aqui? Sabemos que este campo é muito tentador na área política, mas tem havido um exagero até face ao Estado e aos problemas atuais do país.
Isso é recorrente, mas há uma coisa que vale a pena salientar. Os silêncios de Marcelo nunca duram muito tempo. Ou seja, a constante em Marcelo é o discurso e justamente não o silêncio. Eu gostaria de salientar uma segunda dimensão, justamente daquilo a que nós podíamos chamar o efeito presidencial a curto prazo, que será sempre mais interventivo até ao final do mandato deste governo. Ou seja, convém pensar que nós estamos numa conjuntura de incerteza, independentemente agora da conjuntura pandémica, que essa, apesar de si, introduz sistematicamente a incerteza na vida económica, social e até epidemiológica da sociedade portuguesa. Mas do ponto de vista político, nós vamos entrar novamente num ciclo de relativa incerteza. E Marcelo, enquanto presidente da República, não é inexperiente sob esse ponto de vista. O que vai acontecer ao PSD nas eleições autárquicas? E em função do que é que vai acontecer, se vamos ter este líder nas eleições legislativas ou vamos ter uma conjuntural entropia interna no campo do PSD. Marcelo não é estranho e não pode ignorar o aproximar de uma conjuntura crítica na oposição de centro-direita, porque terá com certeza efeitos nos pesos relativos destes, inclusivamente entre o PSD e os novos partidos à direita do espectro político. Depois, vamos entrar num final de mandato do Partido Socialista em que existem incertezas sobre qual será o efeito da bazuca no eventual crescimento económico, na eventual recuperação da economia portuguesa e dos efeitos eleitorais que isto pode ter, porque nós não temos nenhum elemento de desgaste eleitoral do Partido Socialista. Isto é muito impressionante. Não temos nenhum elemento de desgaste nas atitudes eleitorais dos portugueses perante o Partido Socialista. Pode acontecer depois de amanhã.
E atribui isso, António, também à oposição que temos?
À oposição que temos, sem dúvida, que está ainda em reorganização e não sabemos muito bem. Em 2019, tivemos os resultados que tivemos e neste momento, evidentemente, temos intenções de voto. Perdão, por exemplo, já se sabe, o Chega mais do que o 1,5% que teve em 2019, etc. Iniciativa Liberal. Portanto, temos um ambiente de incerteza à direita. Não vale a pena agora ensaiar a explicação. E temos um Partido Socialista que se transformou no eixo do sistema partidário português e que não ameaça sair de lá. Pode sair de lá daqui a dois meses, três meses, não vale a pena, não sei. Mas neste momento é muito impressionante a estabilidade das intenções de voto no Partido Socialista. Donde, em 2023, não está excluída a hipótese de termos uma conjuntura ou de grande incerteza de resultados eleitorais à esquerda ou à direita, mas tendo em vista, repare, vale a pena mais uma vez pensar que à direita nós já sabemos que não existem interdições, ou seja, que existirão com certeza, na perspectiva de vitória eleitoral, modelos de acordo parlamentar e de inclusivamente governos de coligação à direita, tal como acontece à esquerda do leque político. Portanto, reconhecemos que a associar à estabilidade das intenções de voto no Partido Socialista, que permanece a principal score eleitoral à esquerda no sistema partidário, com uma grande incerteza à direita, bem, reconhecemos que nesta conjuntura, Marcelo não quer ser o polo da vida política portuguesa, muito embora esteja em grande parte condenado a sê-lo. Porque nos próximos meses, para não dizer até
2023 até às eleições legislativas, Marcelo está condenado a ter um papel muito ativo na vida política portuguesa.
José Manuel Fernandes.
Mesmo que não queira.
Mesmo que não queira. E explicou aqui por quê. Olhando para esta perspectiva a curto prazo, há eleições autárquicas com eventuais consequências em lideranças de partidos, há a bazuca europeia e Marcelo estará também a medir esse calendário.
Parece-me óbvio. Até porque a bazuca europeia dá aparente tranquilidade a um governo que acha que tem dinheiro para distribuir, a um país que acha que tem dinheiro para receber. Toda gente pode ir ao banco, pelo menos há essa sensação.
Pelo menos o primeiro-ministro. O primeiro-ministro perguntou onde é.
Pelo menos o primeiro-ministro. Há muito essa expectativa de que se pode ir ao banco e, portanto, não há ansiedade. Eu acho que é uma ideia errada de quem vive uma certa bolha, porque há muita aflição e muito desespero. Soubemos recentemente que há 400 mil novos pobres e esses pobres não aparecem por aí, se calhar estão escondidos na abstenção, porque essa é a realidade que as sondagens também não mostram. Ou têm dificuldade em mostrar. As sondagens em Portugal sempre tiveram dificuldade em mostrar o fenômeno da abstenção, não captam bem esse fenômeno. O que é facto é que, neste momento, nem sequer os novos partidos que têm surgido no espectro político estão a apanhar a abstenção, estão a captar a abstenção. Eles têm subido, aparecem com resultados nas sondagens mais significativos, mas tem sido à conta dos partidos da oposição, não à conta do partido que está no poder. O PS, como disse o António Costa Pinto, parece com uma posição que, não sendo gloriosa no sentido de não estar acima dos 40%, não desce dos 37, 38%, e tem a posição que teve há seis anos e há dois anos, com alguma tranquilidade.
Com alguma estabilidade.
Com alguma estabilidade. E sobretudo, aquilo que é mais significativo, nunca o primeiro-ministro perdeu a posição de líder político com uma avaliação mais positiva logo a seguir ao presidente da República. E isso é aquilo que torna a sua situação também mais confortável. Isto pode modificar-se com algumas situações, porque as moratórias vão acabar, não acabaram já, foram novamente prolongadas porque a própria pandemia prolongou, algumas ajudas foram também prolongadas. Há situações que provavelmente podem agravar-se daqui a umas semanas, uns meses, há situações que se calhar vão vir ao de cima. Tudo isso pode acontecer, é verdade, mas por enquanto, o que é facto é que ainda não houve sinais dessa revolta, por assim dizer, e as pessoas vão andando, e os partidos da oposição não dão sinais disso. Alguma coisa acontecerá depois das autárquicas? Talvez. Mas é preciso primeiro que haja as autárquicas e as autárquicas são só no final de setembro, até lá vamos passar pelas férias. Hoje temos uma notícia sem dúvida preocupante sobre a falta de médicos de família, o número de cirurgias adiadas, o número de consultas adiadas. Tudo isto são sinais que nos chegam de um país que está de alguma forma adiado. Pessoas que têm que estar a sentir que um dos sistemas básicos de Portugal não lhes está a responder, que é o Serviço Nacional de Saúde. Se há estes números, correspondem a pessoas que têm as suas cirurgias adiadas, a pessoas que têm as consultas adiadas. Há muitas pessoas que não sabem que têm cancros a crescer, que têm outras doenças a crescer e, portanto, um dia destes vão saber, porque vão chegar ao médico que lhes vai dizer isso. Mas se calhar não vão revoltar-se contra o que correu mal neste período, vai haver alguém que vai dizer: "Pronto, é inevitável. Isto aconteceu." Nós esta semana tivemos aqui o José Miguel Júdice a dizer que havia muitas coisas que ele compreendia, porque nós, portugueses, aguentámos, apesar de tudo, protestos gigantescos, 48 anos de regime autoritário, de ditadura, por causa do medo. E que agora há novamente medo da doença e que isso também explica alguma coisa. Eu não sei explicar tudo. Agora, o que é facto é que uma boa parte daquilo que muitas pessoas falam, que é uma certa anomia, não é só explicável pela ausência de protagonistas. Aquilo que eu referia é que, apesar de tudo, um protagonista tão importante como o presidente da República, confrontado com estes sinais de anomia, podia ajudar a sacudir, animar um bocadinho o país, agitar um bocadinho as águas.
Não estamos para já nesta fase, o António Costa Pinto diz que não durará muito, porque não é típico do Marcelo.
Não parece que o Marcelo vá virar. Não é típico, de facto, dele.
António Costa Pinto, muito obrigada por ter estado conosco neste Contracorrente que chegou agora ao fim e até uma próxima oportunidade. Obrigada também a todos os nossos ouvintes. Há um novo tema em debate amanhã no Contracorrente com o José Manuel Fernandes. Até lá.
Eu sou o José Manuel Fernandes. Obrigado por ter ouvido este podcast. Pode subscrevê-lo ou partilhá-lo. A Rádio Observador, pode ouvi-la online ou em 98.7, na Grande Lisboa, ou em 98.4, no Grande Porto.