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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Se quiser entrar em direto para nos dar a sua opinião, só tem que ligar 91 002 41 85 ou enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo, 91 002 41 85. Carla. Todas as semanas, quase diria todos os dias, falamos da necessidade de mais investimento em defesa. Fala-se da importância da Europa deixar de estar tão dependente dos Estados Unidos. Fala-se até do investimento em defesa poder ser um instrumento para reconstruir uma indústria que tem fugido para a China e não só. Tem-se falado menos, sobretudo em Portugal, de como se faz uma política de defesa sem militares ou com poucos militares. As nossas Forças Armadas estão em mínimos históricos, pelo que regressam os debates sobre como atrair mais soldados e marinheiros, e até se começa a falar de novo do tema tabu do serviço militar obrigatório. O Parlamento vai discutir propostas da AD, do Chega e do PS. Alguns países europeus já mudaram radicalmente a orientação depois da invasão da Ucrânia, mas há muitas desconfianças entre os aliados e a perceção de que basta o presidente Trump anunciar que vai retirar 5 mil soldados da Alemanha para percebermos as limitações da arquitetura de defesa europeia. É tudo isso que queremos debater no Contracorrente de hoje. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

Oferecer carta de condução será suficiente para atrair mais jovens para as Forças Armadas?

Vamos lá ver. Pode ajudar, mas eu creio que nós temos que ver isto de uma forma mais estrutural e sem medos, porque uma das questões, obviamente, que o tema do serviço militar é um tema controverso, é um tema impopular, é um tema que as pessoas não gostam de tocar e é um tema que, para ser resolvido, não permite apenas cócegas, por assim dizer. Portanto, tem que se olhar para ele, ver o que está acontecendo em outros países, perceber quais são os desafios e tentar fazer alguma coisa. Tendo noção de que o que quer que seja feito, porventura, só tem efeito daqui a uns anos. Nós hoje temos, para teres uma ideia, sensivelmente, um décimo dos militares que tínhamos no fim do regime anterior, o que é normal em muitos aspectos. Nós tínhamos cerca de 230 mil e hoje temos 23 mil, à volta disso, talvez um pouco mais. É normal ter havido uma grande redução. Nós deixamos de estar em guerra, como estávamos na altura, em África, e estamos numa Europa que se quer de paz. Simplesmente, estamos num tempo também um pouco diferente daquele em que estávamos antes. Aqui o maior desafio é claramente o desafio colocado pela Rússia, porventura, num tempo não muito longínquo, pela China, e pelo fato de a Europa ter dependido, em muitos aspectos, do chapéu de chuva americano, do apoio americano, que tem desde a Segunda Guerra Mundial, e de isso já não poder ser dado como garantido nos termos em que foi até agora. Dir-se-á: "Mas vai haver uma guerra, vamos ser invadidos?" Para ser franco, ninguém tem garantias. Quem leu a imprensa internacional nos últimos dias, uma das grandes especulações é se a liderança russa não vai aproveitar o fato de estarmos num tempo em que há uma grande tensão entre a Europa e os Estados Unidos para fazer avanços, na expectativa de que alguns compromissos assumidos no quadro da NATO não se materializem. Estamos a falar de países onde os países aqui mais críticos são os bálticos, claramente. Os bálticos, até historicamente, são países que tiveram um período de independência bastante curto. Com exceção da Lituânia, e a Lituânia é uma história mais complicada, quer a Estónia, quer a Letónia, são países que basicamente só no século XX é que tiveram Estados independentes e até durante um período primeiro curto, cerca de 20 anos, depois foram outra vez absorvidos pelo império, na altura império soviético, não era império russo, mas era império soviético, e só há 30, 35 anos é que voltaram a ser independentes. E têm minorias russas importantíssimas, 30% da população, quer um, quer outro. Portanto, há aqui o tipo de argumentos que Putin gosta de invocar, até porque, por exemplo, nalguns desses territórios travaram-se batalhas míticas na história da Rússia. Enfim, no caso, tal como no território da Ucrânia e sabemos o que isso vale na cabeça de Putin. Portanto, há aqui grandes pontos de interrogação. Esses países, muitos deles, não só os bálticos, países aí próximos, já mudaram as suas políticas no que diz respeito ao serviço militar e desde a invasão da Ucrânia, já houve cinco países na Europa que reintroduziram o serviço militar obrigatório, com modalidades diferentes. Quase todos são os países mais próximos da linha da frente, digamos assim. Estamos a falar dos bálticos, da Escandinávia, estamos a falar também de mudanças na Alemanha, mudanças importantes na Alemanha, que podem, de resto, em alguns aspectos, servir para inspirar o que possa acontecer em Portugal. E só quem está mais longe, isto é, os países do Sul, Espanha, Itália, Irlanda, Portugal, é que parecem longe deste debate. E, porventura, não podemos estarAté porque se de alguma forma queremos usar o investimento em defesa como uma forma de alavancar o resto da indústria na Europa, é o que, por exemplo, está a tentar fazer a Alemanha, é o que estão a tentar fazer alguns construtores da indústria automóvel, que está em crise na Europa e em crise na Alemanha e que pode ganhar um novo fôlego se se reconverter como indústria de defesa, mas não se pode imaginar que isso é possível se ao mesmo tempo não tivermos soldados. E nós em Portugal temos, de facto, como tu referiste, mínimos históricos. Enfim, houve uma pequena recuperação entre 2024 e 2025, porque sobretudo com este governo, houve uma melhoria de algumas condições de entrada, mas estamos em níveis muitíssimo baixos. Nós hoje em dia temos praticamente números bastante impressionantes. Para teres uma ideia, entre 2015 e 2024, que são os últimos números que eu tenho aqui, o número de efetivos diminuiu cerca de 6 mil e é quase tudo no Exército. Há também um pouco de diminuição na Marinha, mas é quase tudo Exército. No Exército, a proporção entre oficiais e praças é quase um para um, portanto, há aqui um desequilíbrio muito grande, não é assim que devíamos estar. E portanto, isto não cria condições para termos umas Forças Armadas operativas. Agora, isto resolve-se com uma semana de defesa, em vez de termos um dia de defesa? Resolve-se com cartas de condução ou resolve-se com medidas mais integradas que não sejam apenas reforçados. Acho que vale a pena debater um pouco isso e é isso que vamos tentar fazer no programa.

Até já, general. Até já.

Até já.