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Muito bom dia. No Contracorrente de hoje vamos debater os sete anos de mandato de Marcelo em Belém e o ponto de partida para a análise é a entrevista de ontem. Queremos ouvir a sua opinião, o número de telefone é o 91 002 4185.

Depois de um silêncio de alguns dias, Marcelo Rebelo de Sousa deu ontem uma entrevista à RTP e ao Público, que assinalou os sete anos de mandato como presidente da República. Falou de uma maioria requentada, cansada, viu um governo gerir o dia a dia e não olhar para o longo prazo. Disse também que ele e o primeiro-ministro têm leituras diferentes da realidade. Um olha para o copo meio cheio, o outro para o copo meio vazio. Helena Matos, hoje é contigo a abrir o Contracorrente. Há um Marcelo novo nesta entrevista e depois de sete anos em Belém?

Não. Eu acho que é sempre o mesmo. Aliás, é o real Marcelo. Eu quero corrigir ali o João. Esta entrevista de sete anos de Marcelo, realmente nós esperávamos que fosse uma entrevista de balanço de mandato. A verdade é que o presidente não falou nada do seu mandato, não fez qualquer avaliação sobre o seu mandato. Esperar-se-ia até que lhe fossem feitas perguntas sobre essa matéria e é exatamente isso que eu acho sobre esta entrevista. O que nós tivemos ali foi o presidente, o comentador mais popular de Portugal, como se nunca tivesse saído do estúdio onde tanto conversou com o Júlio Magalhães, a falar num tom solto, leve e coloquial sobre o governo. Sim, estava ali, estava a falar sobre o governo. Não comentou, não apresentou qualquer reflexão sobre a forma como tem exercido, já está no seu segundo mandato, o cargo em Belém, muito menos equacionou as consequências que isso pode ter tido ou está a ter na presente situação, até da maioria cansada e requentada, no dizer dele. Portanto, eu creio que nós temos aqui várias questões. Eu não encontrei Marcelo presidente no sentido em que nós temos do exercício de poderes presidenciais. Encontrei, e disse-o aqui esta manhã, quando apresentei o vencedor, um homem com convicções, com palavras claras numa área, que nós sabemos que é aquela em que ele tem convicções, que é na área do catolicismo. Ele foi claro sobre o que discordava e concordava na posição da Igreja. Eu sei, e é certo, que há alguns meses ele disse algo que era mais ou menos o contrário, mas quando falou, falou com clareza. Depois temos um Marcelo que também é mais ou menos sempre claro, que é quando fala sobre questões de direito, isso acho que ele foi mesmo claro. Ele explicou que sete dias para a discussão pública deste pacote está uma coisa do outro mundo. Sobretudo, foi muito claro quando referiu o lado do afastamento ou do despedimento da CEO da TAP e também da administradora, em que ele diz que foi uma surpresa descobrir que afinal aquilo tinha tido a forma muito original juridicamente. E quando um professor de direito diz muito original juridicamente, isso não é bem um elogio. De uma renúncia acordada, depois diz: "Renúncia acordada, isso eu não sei o que é. A renúncia significa um ato unilateral da pessoa que se vai embora e por definição, não é um acordo. Não há no direito público esse tipo de acordos, há nos privados, mas não há no estatuto do gestor público" e até recordou que tinha sido funcionário da IGF. Portanto, na área do direito, o Marcelo é claro.

Aumenta-se um dos pontos de fragilidade do próprio parecer da IGF, porque a TAP considera que não aplicou, como no estatuto do gestor público, não existe a possibilidade de haver uma renúncia naquelas comissões. Não está previsto. Quando há omissões no estatuto do gestor público, vai-se para o regime geral. E no regime geral, aquele acordo já se torna possível. Por isso é que se calhar está a parte imaginativa disto. No regime geral, aquele acordo já se torna possível e vamos ver como é que as coisas acabam, porque talvez não haja discussão sobre isto, porque Alexandra Reis talvez não vá para tribunal, mas mesmo assim pode haver discussão do lado da Christine, que ela vai para tribunal, de certeza.

Portanto, iremos ver. Presumo que até quem terá ouvido com particular atenção as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa ontem terão sido os gabinetes de advogados que estão a assessorar as pessoas despedidas da TAP ou que acabaram a renunciar, como foi o caso da Alexandra Reis. Nessa matéria, o presidente é claríssimo. Depois, Marcelo Rebelo de Sousa, comentador, é sempre muito interessante, porque ele não se compromete com nada, desenha sempre cenários, explica os cenários, desenha os cenários, comenta os cenários, comenta os comentários feitos aos seus cenários e é, se quisermos, o homem que nós temos visto, que o Marcelo agora nos últimos tempos tem lançado possíveis candidatos presidenciais. Assim só como recordo, nas últimas semanas já tivemos Passos Coelho e Ana Gomes. Um em português, outro em inglês, que é para até dar um ar mais cosmopolita à coisa. E passa a vida a desenhar cenários, faz hipótese um, hipótese dois, hipótese três. Mas quer dizer, isso é interessante no Marcelo comentador, mas nós não o elegemos comentador Nessa perspectiva, eu tenho, pode dizer-se, quase que um problema de classe com Marcelo Rebelo de Sousa. Quando ele começa naquelas questões cênicas e dos cenários e não de comprometer-se e às vezes quase com um prazer perverso em perceber as consequências pessoais que as suas frases podem ter, e aí estou a pensar claramente nas suas declarações sobre Fernando Medina, o que o presidente quis dizer exatamente com aquilo? Ou seja, se o presidente tem conhecimento de algo de muito grave ou grave sobre Fernando Medina.

Que Medina devia olhar para o seu passado.

O que ele quis dizer com isso? Se é aquilo exatamente que quis dizer e se tem algum tipo de conhecimento, já deveria ter, de alguma forma, mostrado a sua preocupação junto do primeiro-ministro e do próprio ministro e não vir com recados para entrevistas televisivas. Se aquilo foi só um dizer que acha, como todos nós, temos de olhar para o nosso passado antes de ocuparmos um cargo, então aí, Fernando Medina e o primeiro-ministro têm todo o direito de se sentir muitíssimo desagradados neste momento. E quando eu disse que tinha um problema de classe com Marcelo Rebelo de Sousa, é que quando ele começa nestes exercícios em que ele acha que ora esvazia balões, ora espeta alfinetes em pessoas, eu só consigo imaginar um menino Rebelo de Sousa a brincar no seu quarto com os seus joguinhos de construções, a montar aquelas torres. E quando ele diz, em dado momento da entrevista, que não se lhe peça para abdicar dos seus poderes presidenciais, porque o Marcelo entende o exercício dos poderes presidenciais de uma forma que parece uma criança a brincar, que é: "Está aqui uma coisa construída, então vá, eu posso deitar abaixo? Não deito abaixo. Vou deitar abaixo. Ai, não faças isso! Ai, não, menino, não faça isso." Eu só imagino as criadas a correrem atrás dele pra não atirar com os pratos ao chão ou qualquer coisa. "Ai, não faça isso." E é um pouco isto, desculpem. Assumo, tenho, literalmente, um problema de classe com Marcelo Rebelo de Sousa. Eu só vejo ali uma criança que toda mundo achava extraordinariamente talentosa, brilhante, muito engraçada, que fazia sempre coisas fabulosas, umas traquinices, mas depois simultaneamente era muito bom aluno e que se divertia a ameaçar coisas sem aparente maldade, ou que deitava uma coisa ao chão, ou que partia isto, ou que partia aquilo. Eu lembro-me, houve há muitos anos, claro, depois do 25 de Abril, como é óbvio, uma caricatura em que nós víamos o Marcelo criança. Não faço ideia de quem era a caricatura. Existe aquela ideia de que Salazar morreu na sequência de uma queda de cadeira. A coisa é um bocado mais complicada. Teria havido já um quadro de doença, mas a queda da cadeira teve ali um momento decisivo. E então era Marcelo Rebelo de Sousa, criança, e alguém lhe dava uma serra, um serrote, em que estava sentado um protagonista político, até não sei se o próprio Marcelo Caetano ou qualquer coisa assim, e alguém lhe dizia: "Serra, serra." E ele a brincar. Portanto, há aqui quase que um lado lúdico e uma certa futilidade que o tornam pessoalmente fascinante. É muito interessante, é um excelente conversador, um excelente comentador no sentido de entretenimento. Não era um homem de análises profundas e eram muitas vezes muito mal fundamentadas, mas é, sem dúvida, um grande sucesso em termos midiáticos e percebe-se, até pela sua transversalidade. É uma pessoa muito importante do ponto de vista do contato humano. Agora, nada disso tem a ver com a Presidência da República. E aí chegamos a uma das coisas que eu acho que foi um dos grandes vazios desta entrevista. Eu esperava que os entrevistadores lhe fizessem alguma pergunta sobre como é que ele via o exercício destes seus sete anos em Belém, até porque neste momento ele já está a entrar, de alguma forma, naquilo que há de ser a contagem decrescente para sair de Belém. Em que medida é que ele, quando se auto avalia, considera que pode ou não ter contribuído para que o país ficasse melhor ou pior, para, de alguma forma também, uma reconfiguração do espaço político. É óbvio que, sobretudo à direita, Marcelo é muito interventivo. Ele vê a si mesmo como uma espécie de reconfigurador da direita. Vemos como hostilizou inicialmente o PSD de Passos Coelho, depois como agora tenta pôr o Chega fora da equação, como simultaneamente tenta intervir no PSD de Montenegro. Portanto, nós vemos aqui esse lado, mas nada disso tem a ver com o que nós esperávamos de Marcelo presidente. Até porque, e eu acho que há aqui quase que uma dolorosa ironia, porque este homem, que já algumas vezes foi interrogado sobre isto e falou, ele acha que o seu grande adquirido quando foi eleito presidente da República, e por antítese com Cavaco Silva, ele nem precisa dizer que é por antítese com Cavaco Silva, mas que era a pessoa que tinha vindo trazer os afetos a Belém. Que a par com o primeiro-ministro, que era otimista, ele também era otimista. Agora acho que não está otimista, mas ele era otimista e o primeiro-ministro era otimista irritante. Agora só o primeiro-ministro é que é otimista. Ele deixou de ser otimista.

Ele vê o copo meio vazio.

Agora vê o copo meio vazio. Marcelo é, e não sendo Passos Coelho, um homem muito inspirado a criar imagens e frases políticas, de facto ele é um cata-vento, mas é um cata-vento que sabe sempre de onde está a soprar o vento. E neste momento percebeu que o vento não está a correr a favor de Fernando Medina, nem de António Costa, e portanto ele ontem teve aquele tipo de intervenções. Não se lhe peça, não se espere que ele alguma vez será frontal e direto com alguém. Amanhã, muito provavelmente, vai sentir uma necessidade de compensar aquilo que disse de Fernando Medina e vamos vê-lo num grande elogio rasgado. Mas voltando à questão da sua avaliação como presidente, ele que tinha a forte convicção que a paz social, a descrispação no país, é uma coisa que se consegue dando abraços e beijos, e andando de um lado para outro numa enriquietude constante e beijando e abraçando, neste momento em que o país está crispadíssimo, em que temos um sindicato de educação que anuncia já uma greve até o final do ano letivo, em que os transportes estão parados, em que o SNS está em degradação, em que a justiça ainda viu serem exponenciados os seus maiores problemas, o que o presidente, que se via como um descrispador, o homem dos afetos, tem para dizer neste momento aos portugueses? Os afetos resultam? Não resultam. E portanto, eu acho que gostaria de ter ouvido Marcelo a avaliar-se a si mesmo e a ser confrontado com a questão: em que medida é que o facto de ele não ter exercido os poderes presidenciais como os seus antecessores o fizeram em termos de acompanhamento/escrutínio dos governos, e nisso estou a integrar Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva, que tiveram uma atitude de acompanhamento e escrutínio dos governos, muitas vezes até da sua área política, colocando exigências, colocando questões, fazendo apreciações. E, neste momento, como é que ele se vê a si mesmo, ele que literalmente abdicou desse poder, referindo sempre como o único dos poderes presidenciais que ele entende, que é o poder de dissolver a Assembleia da República. Portanto, como se fosse sempre o eterno filho dos Rebelo de Sousa a brincar com a sua torre de construções e a dizer se deita ou se não deita abaixo. Eu teria esperado mais da entrevista no sentido de entrevista sobre Marcelo ele mesmo. Quanto a Marcelo ele mesmo, continua o Marcelo que nós conhecemos sempre, mas que não é presidente da República, é comentador, é um convicto católico, é um muito eficaz professor de Direito. O presidente da República é que não vi para grande problema da República, porque o problema de Marcelo não exercer os seus poderes presidenciais é que a República tem sofrido uma forte erosão. Portanto, como se percebe, eu tenho uma avaliação muito negativa do desempenho de Marcelo em Belém e olhando para Marcelo e ouvindo, eu tenho a certeza que ele é mais inteligente que outros presidentes da República que nós tivemos, é mais interessante, é uma pessoa mais abnegada e generosa, é, porventura, um dos que tem uma formação na sua área mais sólida. Nós já tivemos presidentes da República que praticamente não sabiam grande coisa de coisa alguma, mas é certamente, de todos os que estou a falar da democracia e dos presidentes eleitos, aquele que mais contribuiu para a degradação da República e creio que a entrevista de ontem o confirmou.

E que, na tua opinião, Helena, não é uma entrevista que fique marcante para a história.

As coisas marcam e também marcam, não é?

Mas não será definidora, por exemplo, de uma mudança, de uma demarcação em relação ao governo. Não me parece que isso possa acontecer.

Ah não, de demarcação em relação ao governo, sim.

Até à próxima entrevista ou até à próxima declaração.

Era o que perguntava. Poderá ser definidora de alguma viragem?

Se António Costa lhe ler os olhos, diz.

Não, eu acho que a entrevista de ontem teve, enfim, concordo com tudo o que disse a Helena. Vou acrescentar dois detalhes que acho que são muito típicos. Há uma passagem extraordinária que é quando ele fala da TAC.

Ah, sim.

Que é quando ele diz que os erros cometidos têm o mesmo efeito que uma TAC. Deixa-me correção. Eu não sei se ele faz muitas, não, mas a TAC, quer dizer, todos os cuidados que passam por radiologia deixam alguma coisa, mas é completamente minimal. Aquilo é próprio de um hipocondríaco, que é o que ele é. Quer dizer, evidente que não convém ir fazer TACs, nomeadamente à cabeça, todos os dias, como é óbvio. Mas eu acho que a marca que deixaram estas crises é bem superior à marca de uma TAC. Outro aspeto que também não deixei de achar curioso foi a forma como ele, sem dizer abertamente isso, disse que não havia alternativa à direita. Ora, essa alternativa à direita houve nos Açores, enfim, está agora em crise, mas houve nos Açores E um dos patrocinadores dessa alternativa nos Açores foi o próprio Presidente da República, que na altura não teve estados d'alma relativamente ao PSD assinar aquele acordo de instância parlamentar com o Chega. Ou melhor, ele tinha um estado dalma, sabia que não queria dissolver a assembleia, estava já no fim do mandato anterior, não queria essa crise e portanto agiu daquela forma. Agora, de repente, uma situação que até do ponto de vista formal pode ser mais sólida do que a dos Açores, ele acha que já não é solução. Eu acho que basicamente ele está a defender-se para não ter que ser confrontado com uma dissolução. Se bem que, no meu ponto de vista, a construção dessa alternativa ao Partido Socialista está longe de estar construída. Pelo contrário, está muito longe ainda.

E nesse aspecto, Marcelo está a ler bem a atualidade política.

Nesse aspecto, Marcelo está a ler bem a atualidade política, mas não pela razão que ele lá diz. Só que as outras razões ele não podia dizer, apesar de do lado de analista político, ele não tem a liberdade que eu tenho para dizermos isso. E por isso acho que estes dois momentos são apenas duas anotações.

Sim, depois falarás mais, mas ficamos aqui com estas primeiras impressões da Helena Matos e do José Manuel Fernandes. E agora queremos ouvir a Raquel Abecasis, comentadora, colunista do Observador. Bom dia, Raquel. Bem-vinda.

Olá, bom dia.

Como é que viste a entrevista? O que é que destacas?

Eu estava a ouvir a entrevista e estava a pensar, como jornalista, que longe vão os tempos em que nós nos esforçávamos imenso para tirar grandes títulos a entrevistas a presidentes da República. E digo isto, um bocadinho na linha também do que dizia a Helena Matos, pelo à vontade com que o Presidente da República opinou sobre tudo, sobre todos os assuntos, fez as suas críticas sem nenhum cuidado que sempre nos habituámos a ver naquilo que eram declarações do Presidente da República. E isso conduziu-me também a tentar perceber o que é este nosso cenário. E eu acho que nós temos na cena política nacional, uma coisa única que é um Presidente da República que me parece que só sabe viver com um primeiro-ministro e um primeiro-ministro que só sabe viver com este Presidente da República e ambos são dois jogadores exímios. Fazem até lembrar, eu não me lembro agora dos nomes, aquela dupla famosa de jogadores de xadrez que havia na Rússia.

Karpov e Kasparov.

Exatamente. Parecem Karpov e Kasparov, todos os dias a fazerem as suas jogadas de xadrez para ver quem é que controla o jogo e quem é que consegue a vitória final. Foi isso que me pareceu aquela entrevista. Acho que Marcelo Rebelo de Sousa dedicou-se a fazer o comentário do dia sobre quase todos os temas no ponto em que estavam, ou seja, aquilo que é uma crítica que ele faz ao Governo, este governo que ele diz cansado ou esgotado e que diz que governa no curto prazo. Eu acho que o Presidente da República também exerce a sua função no curto prazo e acho que isso é pena, até pelas características que conhecemos a este Presidente da República. Ele é verdade que é acima de tudo um comentador, um observador e um criador de factos políticos, mas é também alguém com uma preparação. E isso sim, eu acho que é uma pena estes mandatos presidenciais não trazerem isso, porque eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa faria bem e teria um papel muito importante se conseguisse fazer um outro olhar sobre o país a longo prazo, sobre os caminhos que deveríamos percorrer, sobre as apostas que deveríamos fazer. E sobre isso nós nunca ouvimos nada ao Presidente da República. E acho que é pena, porque acho que ele tinha capacidade para o fazer. Acho até que se preparou toda a vida para ser Presidente da República num contexto desse gênero. E isso é uma coisa que não vemos nunca.

Nem com a preocupação com o PRR, Raquel, não te parece que aí há essa preocupação a longo prazo?

Não, porque acho que é mais uma vez uma preocupação de curto prazo, é perceber como é que estão a ser aplicadas as verbas. Quer dizer, não há um desígnio, não se vê nas declarações nesta entrevista, mas nunca no Presidente da República. E vimos isso noutros presidentes da República, melhor ou pior, mas eu acho que esse é um papel muito importante que o Presidente da República, de facto, não tem poderes executivos, não precisa de se preocupar com o dia a dia e com as medidas concretas que têm que ser aplicadas e portanto pode criar objetivos, estabelecer metas, numa altura que estamos a viver de enormíssima contestação social e com todos os problemas que vêm desde a guerra, da inflação, da saída do Covid. O país precisa de ter um horizonte largo para onde olhar e esse papel deveria competir ao Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa tinha capacidade para o fazer se parasse um bocado, mas ele não para e portanto só consegue falar do dia a dia. E portanto, de facto apanhou o ar do tempo, fez duras críticas ao governo, mas também sabemos que essas críticas só serão consequentes se as coisas se deteriorarem muito e portanto ele deixa todas as portas abertas para não abdicar dos seus poderes presidenciais. Mas os poderes presidenciais vão muito mais longe Do que aquilo que é a forma como ele tem exercido esses poderes. E eu acho que aquilo a que assistimos ontem foi a uma vulgarização do papel do Presidente da República, porque tudo aquilo que ele ali disse, e foi um pouco esse o exercício que eu fiz, colocado na boca de Cavaco Silva no seu tempo, ou mesmo de Mário Soares, que tinha um conceito mais alargado da forma como podia fazer apreciações ao exercício do governo. Aquilo que ele ontem disse, colocado na boca de um outro presidente da República qualquer, nós hoje de manhã estávamos com uma séria crise política. E a verdade é que não estamos. António Costa assistiu à jogada de ontem de Marcelo Rebelo de Sousa e eu acho que hoje ou nos próximos dias teremos a jogada de António Costa e assim vamos andando até que o Presidente da República tenha a certeza absoluta de que há uma alternativa, coisa que ontem fez questão de dizer que não há, o que também não deixa de ser curioso.

Foi importante, no entanto, ouvir Marcelo criticar a forma como a Conferência Episcopal Portuguesa reagiu ao relatório da Comissão Independente. Marcelo ainda não tinha sido tão claro e tão duro nessa crítica.

Eu acho que foi claro e acho que tem razão, mas também aí acho que Marcelo Rebelo de Sousa devia-se ter falado mais cedo, porque vivemos uma semana penosa, depois daquela conferência de imprensa deprimente da semana passada. E acho que Marcelo foi, de facto, muito claro, mas foi muito claro associando-se não só àquilo que é a opinião geral do país, mas também àquilo que é a opinião geral dos católicos, que se manifestaram ao longo da semana e que se têm vindo a organizar para que a Igreja dê uma outra resposta e tenha uma outra objetividade a enfrentar esta crise muito séria que o relatório da Comissão Independente trouxe para cima da mesa. E, portanto, acho que Marcelo Rebelo de Sousa fez bem naquilo que disse, mas ao falar no timing em que falou, também se veio juntar a uma opinião dominante. Tinham sido mais importantes, do meu ponto de vista, estes comentários tivessem sido feitos logo na sequência daquela conferência de imprensa.

Enfim, foi quase uma semana depois da declaração de ontem de Marcelo Rebelo de Sousa. Posto isto, Raquel Facílis, como é que prevês que vão ser os próximos três anos de presidência de Marcelo Rebelo de Sousa?

Isso acho que vai depender muito daquilo que for a evolução política e daquilo que vier a acontecer.

Se acontecer alguma coisa patológica, para citar o Presidente.

Exatamente. Eu acho que ele está à espera de alguma coisa patológica, e eu também, como vocês sabem. E, portanto, eu acho que os próximos meses até às eleições europeias são determinantes para perceber se essa patologia se confirma ou não, e também o que é que acontece no resto do espectro político. Mas enfim, os factos que temos em cima da mesa, não só com esta questão da TAP, mas também com uma outra série de investigações que estão em cima da mesa, e não é por acaso também que Marcelo Rebelo de Sousa aproveita a fragilidade em que está o ministro das Finanças, porque convém lembrarmo-nos que não tem só a ver com este caso da TAP, esse, aliás, até será o menor dos seus problemas, mas há investigações neste momento a decorrer que podem recair sobre o ministro das Finanças e até sobre o primeiro-ministro. Há quem especule e anteveja que algumas das investigações que estão a decorrer, nomeadamente em relação à Câmara Municipal de Lisboa, o exercício dos anteriores mandatos, possam trazer problemas não só a Fernando Medina, mas também a António Costa. E eu acho que Marcelo Rebelo de Sousa sabe isso, e é por isso que também é tão claro quando diz que não lhe peçam para abdicar dos seus poderes presidenciais. E, portanto, vamos ver se a tal patologia surge ou não e em que timing é que surge. E eu acho que isso irá definir também o que é que será este final de mandato de Marcelo Rebelo de Sousa.

Raquel Facílis, muito obrigada pela tua análise. Bom dia, bom fim de semana. O olhar da comentadora e colunista do Observador à entrevista de ontem de Marcelo Rebelo de Sousa, dizendo até que está a haver uma vulgarização do papel de Presidente da República. Temos ouvintes, temos mensagens de áudio e temos também as nossas redes e as nossas caixas de comentários, João.

Sempre muito agitadas. Cláudio Evaristo escreve que Marcelo está umbilicalmente ligado a António Costa e a pior decisão por ele apadrinhada foi o regresso às 35 horas semanais na função pública. Pena que ontem, escreve Cláudio Evaristo, não tenha sido escrutinado e lembrado o aviso do presidente do envio para o Tribunal Constitucional, caso a despesa aumentasse. Carlos JC escreve que como português sente-se envergonhado com muitos comportamentos de Marcelo Rebelo de Sousa. O presidente ridicularizou completamente o cargo de Presidente da República, escreve este ouvinte. Quanto a Hugo Tavares, escreve que Marcelo comenta o acessório, não comenta o indispensável. Dele esperariam os portugueses trazer a tão almejada esperança. Ao invés, o que trouxe e ficará na história como o pior presidente do pós 25 de abril, foi o descrédito nas instituições e o esvaziar da esperança no futuro de um país que, segundo Hugo Tavares, tinha tudo para ser o melhor país do mundo.

São as primeiras opiniões dos nossos ouvintes. Temos mais, já fomos ao telefone, mas temos uma mensagem do Carlos Chaves, assim é que é, de Castro Daire. Vamos ouvir essa apreciação do ouvinte.

Muito bom dia a todos A entrevista a que assistimos ontem do nosso Presidente da República mostrou, mais uma vez, um presidente que é e foi responsável pelas políticas de empobrecimento que os governos socialistas e de extrema-esquerda nos têm infligido. Tentou também uma manobra de descolamento dessas mesmas políticas e desses governos. Quanto a mim, correu mal. Mas o meu ponto principal é o papel da comunicação social. Ficou mais uma vez claro que a comunicação social não confronta, não escrutina, não pede contas, não corresponsabiliza estes atores políticos das consequências dessas mesmas políticas que estão a criar um ambiente social muito complicado e que estão claramente a prejudicar o nosso país. A comunicação social também é corresponsável pela situação de empobrecimento a que todos estamos a assistir.

Um olhar muito crítico do Carlos Chaves à comunicação social, não confronta nem escrutina. Bom dia, José Caetano, estudante na Universidade do Porto, mas está a falar de Famalicão. Bom dia.

Bom dia. Sim, estou a falar porque hoje não consegui ir à universidade, porque não tem comboio e estou com um problema no pé, não consigo conduzir, portanto, tive de faltar às aulas, infelizmente.

Hoje faltou. José Caetano, pelo menos está a ouvir-nos. Viu a entrevista de ontem.

Eu tenho 30 anos, sou estudante de Ciências de Nutrição na Universidade do Porto e sou neto de Isabel Pinharanda, que foi a antiga diretora da Fundação José Lazar e que conhecia a mãe do atual presidente da República, inclusive andou com ela no colégio. Intitulo-me um exemplo claro do que é ser vítima do socialismo. Por quê? Fui cuidador informal da minha avó, que foi mais do que a minha obrigação. Cuidei da pessoa que me cuidou. Substituí-me a este Estado, que diz ser melhor que a Roménia, e cuidei da minha avó, que descobri mais tarde que tinha demência devida a micro AVCs. Como cuidador informal da minha avó e com a degradação do seu estado de saúde, não só mental, mas físico, tive de me dirigir inúmeras vezes ao hospital. Passei por duas eras, a era do Passos Malandro, que deu cabo dos serviços públicos, até a era do salvador da pátria, o repositor de rendimentos António Costa. A degradação dos serviços foi evidente ao longo dos anos. E para quem teve que recorrer a estes serviços, ainda foi mais evidente. Antes de Costa, em três horas íamos à urgência e voltávamos para casa. Depois de Costa, passamos 12 horas nas urgências, até que tive um episódio de cortar-me o fôlego quando a minha avó chorou a pedir-me para sair dali, que estava cansada, com dores de estar numa cadeira. Em 2020, antes da pandemia, a minha avó teve um AVC. Esteve cinco horas numa maca para ser atendida a primeira vez. Demorou duas semanas para fazerem uma TAC até darem o diagnóstico. Após muita insistência minha de que o estado dela não era normal. Após este diagnóstico, ela foi encaminhada para uma unidade de cuidados continuados, da mensalidade de € 950, o Estado apenas pagou €50. Saiu dessa unidade para uma casa de repouso, onde passou o seu último ano de vida. Dessa unidade, veio num estado lastimável de desnutrição, de falta de higiene e evidentes maus-tratos. Fez agora em 24 de fevereiro, um ano que faleceu. Dela herdei um prédio em Camassas, em Lisboa, com quatro apartamentos, dois deles com rendas abaixo de €300 e dois deles com rendas abaixo, imagine-se, de €50. Assumo que sou mais pobre que os meus pobres inquilinos. Aqui demonstra a degradação de três dimensões da nossa sociedade, feita pelo governo socialista: saúde, Segurança Social e habitação. E a minha avó, que é mais vítima do socialismo do que eu, antes de Passos Coelho ser falado, já dizia que Marcelo mudava de opiniões como quem muda de cuecas. E dizia-me o seguinte: "O que esperar mais de quem nega as suas próprias origens? Sabes porque ele se chama Marcelo? Porque o seu padrinho foi Marcelo Caetano. E sabes quem é o pai dele? Baltazar Rebelo de Sousa, impulsionador dos cuidados de saúde primários em Portugal. Portanto, um homem que recusa as suas origens por ter vergonha do seu passado, diz bem o que ele é no presente. Porque se o presidente não tivesse vergonha, não deixava o PS intitular-se o pai do SNS, porque as bases do SNS foram criadas em 1961 pelo seu pai. Eu tenho muito orgulho de ser neto de Isabel Pinharanda, com pensamento social-democrata, mas que contribuiu com coisas boas para o país durante o Estado Novo, como ser responsável pela distribuição de casas sociais na zona de Alvalade. O Presidente da República é o principal responsável por este país estar como está, porque estendeu a passadeira ao comunismo mascarado de socialismo. Eu, quando acabar os meus estudos, vou ser mais um imigrante. Vou zangado com um país que maltratou a minha avó e que pagou sempre os seus impostos a horas. É este o meu testemunho.

José Caetano, muito obrigada pelo seu testemunho e percebemos que foi difícil para si. É curioso, Helena, porque falavas aqui do problema de classe quando olhavas para Marcelo Rebelo de Sousa e o nosso ouvinte José Caetano diz que ele recusa as suas origens. Há aqui também esta característica do presidente Ter passado por dois regimes e ter uma família ligada.

Mas esteve sempre com a opinião dominante. Uma das questões que se percebe, a relação de Marcelo Rebelo de Sousa com o pai, no próprio período do pós 25 de abril, tem alimentado algumas histórias entre aqueles que os conheceram, isso provavelmente depois devidamente verificadas ou não, e algumas delas talvez sejam mais fantasia que outra coisa qualquer. Mas serão explicadas. Mas há talvez uma certa má consciência em relação a algumas questões. Eu recordo alguém que tinha muitas críticas em relação a Marcelo Rebelo de Sousa, e que exatamente questionava essa questão. Não é o ter de defender aquilo que os pais fizeram ou que o pai fez, mas esta ideia que parece que não esteve lá. Ele está sempre com a opinião dominante, e este lado muito de explicador é algo que nós encontramos, por exemplo, nas coisas que ele escreve em 74, 75. Hoje, muitos anos depois, Marcelo tem um grande discurso sobre o PREC, o combate e a democracia. Mas quando nós vamos ver o Expresso, que era onde ele estava em 1975, os artigos são um pouco como a entrevista de ontem. É: se Cunhal decidir o país, não sei o quê. Se Mário Soares, o país assim.

Bastante analítico.

Sempre a desenhar cenários, o país naquele estado. Mas ele desenhava cenários e tinha um prazer lúdico naquilo. E há sempre um pouco este lado. Agora, voltando à questão das origens de classe. É curioso que as pessoas, e nós percebemos isto aqui neste nosso ouvinte, quase aquela dor de perceber que Marcelo, em relação à questão do SNS, não tem a coragem muitas vezes de dizer a verdade.

Mas usou muito a bandeira do cuidador. Foi uma causa, não foi uma bandeira. Foi uma causa de Marcelo no início do primeiro mandato.

Sim, mas há coisas em que Marcelo, de facto, ainda está no Estado Novo. Debaixo desta capa dos afetos, dos abracinhos, dos beijinhos, é um pouco uma perspectiva até muito assistencialista, muito a ideia que vai ali o senhor presidente do conselho que dá uns abraços, e que beija. Nesse sentido, ele continua lá. Não é por um presidente dar muitos abraços e muitos beijinhos que nós passamos a viver melhor. Nós precisamos de um presidente que esteja atento à forma como é feito o cálculo das pensões, por exemplo. Precisamos de um presidente que esteja preocupado com o número de horas e o impacto que vai ter o número de horas que se trabalham na função pública. É impensável que o Marcelo não percebesse o impacto que as 35 horas iam ter. Isso é muito mais importante que o presidente chegar ao pé de nós e nos dar abraços. É um pouco esta perspectiva que eu acho que, nesse sentido, Marcelo continua muitas vezes a ser o filho traquinas do Baltazar Rebelo de Sousa, embora digam que ele é muito mais parecido com a mãe do que o pai.

Ele próprio faz questão de dizer isso.

Pois, mas sem ter percebido duas coisas. Uma, que às vezes nós temos de ser capazes de ser mais coerentes em relação aos nossos pais, e algumas pessoas têm ficado chocadas até hoje pela forma ligeira como ele trata a memória do pai, mas, por outro lado, continuando a achar como o tempo de 1950, que já não são os anos 60, que é o tempo do pai dele. Que se chega lá, o senhor presidente do conselho vem aí. É um pouco esse imaginário que ele ainda tem.

Que ainda existe. José Manuel Fernandes, há pouco, a Raquel Albuquerque de Assis dizia que existia uma dependência entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, em que um já quase não consegue viver com o outro. Enquanto está aí, um sem o outro.

Não, eu acho que as coisas pioraram muito. Houve circunstâncias para que isso acontecesse. Reconheço que em alguns casos, mas não houve desde o princípio. A pandemia só aparece no segundo mandato de António Costa. Vão tendo noção do que se passou no primeiro mandato. A Helena falou do caso das 35 horas. Nós conhecemos, na semana passada, um estudo muito importante realizado pela Universidade Nova de Lisboa, pelo Peter Barros e por outro professor, que é muito elucidativo, confirma aquilo que todos desconfiavamos. Isto é, que a perda de rentabilidade e as horas a mais, o número de contratados e número de horas extraordinárias, que foi necessário para compensar as 35 horas no Serviço Nacional de Saúde, faz com que todos os milhares de milhões, porque são milhares de milhões de euros, que este governo passa a vida a encher a boca que pôs no Serviço Nacional de Saúde, na prática, se traduzam em número de horas trabalhadas idêntico ao que existia antes, para manter o mesmo serviço. Só que em sete anos, o Serviço Nacional de Saúde evoluiu. A população está mais velha, passamos por uma pandemia, tivemos todos os efeitos disso. A própria medicina evoluiu, há tratamentos novos que naturalmente são mais dispendiosos e que às vezes exigem mais recursos humanos para fazer esses simples tratamentos. E aquele depoimento incrível que acabamos de ouvir aqui, ainda estou um pouco tocado.

Sim, foi do José Caetano.

Do José Caetano, a dizer que quando acabar se vai embora e a contar o que se passou quando ele foi cuidador da avó dele, é muito o retrato do país O presidente ontem disse que não sentia que se traduzisse na opinião pública. Eu não sei se ele está a medir bem a opinião pública, com toda a franqueza.

Ele disse, posso citar: "Ainda não há um clima de contestação generalizada."

E fazia depender do desemprego. Fazia depender esse clima de contestação do desemprego.

Primeiro, o desemprego não vai subir muito. Basta verificar que nós, para atender às necessidades de mão de obra, estamos a importar mão de obra. Portanto, o desemprego não vai subir muito, é só uma questão de importar menos e ajusta com alguma rapidez e alguma facilidade. Portanto, não vai ser por aí. E além disso, eu não sei bem o que ele define como clima de contestação generalizado. Eu aqui há uns tempos referi aqui algo que tem a ver com os tempos do seu padrinho, Marcelo Caetano, os anos finais do seu padrinho, Marcelo Caetano. Com quem, aliás, pelo que sei, tinha, na altura, alguma cumplicidade. Marcelo Caetano é uma figura mais complexa do que muitas pessoas muitas vezes definem como tal. É uma pessoa que começou muito à direita no Estado Novo e, por assim dizer, a certa altura oposto ao Salazar, a certa altura teve um papel no universitário. Era casado, e isto não é um detalhe, com a filha de uma figura muito importante da tradição da esquerda republicana. No fim da vida, ela teve problemas de saúde graves, foi um bocado complicado. Tudo isto pra dizer o quê? O que eu recordei? Recordei que o João Sogueiro, que faleceu há pouco tempo, uma vez numa conversa ou num colóquio, já não me recordo, disse que sentia estarmos a viver um momento de impasse, como um momento final do Estado Novo. Atenção, não havia contestação generalizada na altura. Marcelo Caetano, o mesmo Marcelo Caetano que foi derrubado em 25 de abril, umas semanas antes tinha ido a um estádio de futebol, o Estádio da Alvalade, aqui em Lisboa, e sido aplaudido quando os microfones disseram, quando os alto-falantes disseram: "Está aqui o seu presidente do Conselho." A contestação é evidente no dia seguinte, porque tudo foi diferente. Havia ali uma válvula que se soltou e tudo foi diferente, e eu tenho memória muito viva disso, porque passei esses dias na rua. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Mas ao mesmo tempo, nos dias anteriores, eu às vezes desesperava-me com a apatia do povo português, apesar daquilo estar bloqueado e de muita gente sentir isso. Portanto, não é um indicador que se deva seguir. Os agentes políticos não estão lá para estarem à espera da contestação generalizada, até porque a contestação generalizada pode criar outro tipo de problemas. Como estamos na União Europeia, eu diria que não derivamos facilmente pra um regime autoritário, mas podemos ter outras derivas, mais populistas, por exemplo. Nós já vivemos muito populismo nos últimos anos. A paralisia do país, em muitos aspectos, tem a ver com o populismo da solução da geringonça, que em muitos aspectos foi completamente populista. Até me arrepiei outro dia quando vi outra vez a história do virar a página do Fernando Medina. Parece que já não há outro discurso. E perceber que quando nós olhamos para virar a página e vemos o estado do Serviço Nacional de Saúde, virar a página foram 35 horas, e as 35 horas levaram a que nós sejamos hoje mais mal servidos, é não ter consciência do que se está a passar. Portanto, Marcelo, é impossível dizer, ele de alguma forma foi sempre cumplice com isso. Não quer dizer que não tenha tentado influenciar, e tentou muitas vezes nas conversas que teve com António Costa. Não quer dizer que não tenha mandado algumas leis pra trás, e mandou bastantes, algumas até mais que alguns dos seus antecessores. Mas nunca teve a frontalidade de tentar influenciar o povo português num sentido diferente. E muitos anteriores presidentes fizeram isso. Mário Soares fez isso. O próprio Cavaco fez isso. Cavaco um pouquinho menos de jeito, mas Mário Soares claramente. Eu acho que o Jorge Sampaio fez, às vezes, no mau sentido, como aquela famosa frase: "Há vida além do déficit."

Sim.

Mas são coisas que todas elas ficaram. Agora, como aqui já toda gente disse, o presidente perdeu o poder da palavra por falar demais.

Sim.

Aquela entrevista dada pelo Ianles, dada pelo Mário Soares, dada pelo Jorge Sampaio, tinha feito cair um governo, sem dúvida nenhuma.

O governo não vai cair por causa desta entrevista, mas Marcelo claramente afasta-se mais do governo depois disto.

Afasta-se mais do governo, mas eu não sei por quanto tempo e de que maneira, porque houve alturas em que nós temos essa intuição. Ele está a afastar-se do governo, alguns discursos, alguns recados, mas ele tem muito receio daquela velha máxima: "Quem se mete com o PS, leva." E ele não gosta de levar. Não gosta de correr esse risco. Na minha perspectiva, ele se quiser ficar minimamente na história, tem que correr esse risco, porque ninguém fica na história sem correr riscos. Nós temos que ver uma coisa: os níveis de popularidade não são tudo. Há muitas pessoas que tiveram terríveis níveis de popularidade e foram eleitos presidentes. Mário Soares foi eleito presidente depois do Partido Socialista ter tido 20% nas eleições, pior resultado de sempre, e depois de ele ter dirigido um governo de austeridade, que foi o governo do segundo acordo com o FMI, e não tem comparação a austeridade desse tempo que eu vivia. Não tem nada a ver com o que se passou agora há 10 anos atrás Cavaco Silva foi sempre visto como uma pessoa que não era popular e é o único português que ganhou quatro eleições com mais de 50% dos votos. Nunca nenhum outro conseguiu isso. Houve vários com duas presidenciais, que naturalmente aí é preciso ter mais de 50% dos votos. Aí houve vários, mas nunca ninguém ganhou, mesmo nas eleições que deram maiorias absolutas, quer a de António Costa, quer a de José Sócrates, tiveram 50% dos votos, não tiveram. Ele teve duas vezes. Não se pode viver só com a espuma dos dias, com o que aparece na comunicação social, porque há um outro país. E esse outro país não é só o país das selfies. Uma coisa que me faz muita impressão é que Marcelo tem qualidades intelectuais e humanas pra ser diferente. Mas tem aquele lado do Mr. Jekyll e Mr. Hyde, que há ali um combate permanente. Ele tem essas qualidades humanas e, por exemplo, eu lembro-me, e nós até acho que temos aqui uma fotografia dessas afixadas na nossa redação, quando ele vai abraçar aquele senhor depois dos incêndios. E que o senhor está a chorar com a vida destruída. Esse senhor já morreu, como toda a gente sabe.

Está mesmo atrás desta parede cinzenta.

Nesta parede. Isso é o Marcelo genuíno, o Marcelo é assim. Atenção, o Marcelo é assim, o Marcelo é uma pessoa que eu não sei se ele fará isso comigo, porque agora se calhar está zangado, mas eu sei que fez com muitos jornalistas, com quem ele tinha uma relação relativamente distante. Se eles estavam internados num hospital, doentes, com uma doença grave, ele aparecia no meio das suas 300 mil ocupações. E ele aparecia a fazer outras coisas desse gênero.

A falar à família dos jornalistas que morreram, como eu conheço o caso.

Sim, a consolar a família. E acabava a consolar os outros doentes da enfermaria.

Sim. Ele tem um lado humano admirável em muitos aspectos. É uma pessoa de cuja inteligência ninguém duvida. Ele foi várias vezes o melhor aluno do país. Ao que diz a lenda, nem sequer era marrão, como se costuma dizer. Sobre essas matérias, não há dúvida nenhuma. Agora, ao mesmo tempo que faz isso, sempre teve uma atração irresistível para quando era adolescente, ir pela rua fora, pôr palitos nas campainhas pra elas ficarem a tocar.

Ou seja, ele esgota-se no momento. Ele vai dar o abraço ao senhor a Pedrógão. Mas depois não consegue fazer o acompanhamento das medidas anunciadas para os incêndios. Aí baixa-lhe a exigência. Eu creio que temos de perceber o seguinte, Marcelo referiu isso ontem na sua entrevista, o primeiro-ministro tê-lo-á convidado pra ele ir fazer uma série de visitas/viagens para perceber como está a ser aplicado o dinheiro do PRR. Marcelo parece preocupado com a questão europeia, como todos os presidentes portugueses. Sabe bem como dependemos da União Europeia. Muita da sua preocupação passará por querer que consigamos, em termos europeus, mostrar que estamos a aplicar bem as verbas do PRR e que estamos a ter um bom desempenho dessas verbas do PRR. Isso parece-me ser evidente e claro. Depois temos o Marcelo criador de factos. A dado momento da entrevista, ele começa a dizer que esta crise agora não se pode de maneira nenhuma comparar em termos de contestação social com a de 2018, porque em 2018 foi muitíssimo superior. Comparando os dados de avisos de greves e pré-avisos de greves, não se pode dizer que tenha sido pior. E mais, nós neste momento temos uma situação de bloqueio do país. E sobre isso, ele dará um grande abraço às pessoas como eu na estação de Benfica, porque eu já lá nem vamos, não andamos de comboio, se eu precisar, beijinhos às senhoras todas, mas depois não consegue fazer um escrutínio ao governo e também aos parceiros sociais, em termos daquilo que é a necessidade de nós termos transportes públicos que funcionem. Eu acho que aqui ele esgota-se no momento, no momento da afetividade, da emotividade. Agora, não lhe peçam para racionalmente acompanhar as coisas. E o Presidente da República é um cargo de racionalidade.

O Manuel Alves é engenheiro.

Deixa eu só dar uma pequena nota.

Sim, Manuel Alves, só um bocadinho.

Só uma pequena nota. Eu não gosto muito desta forma como ele está a fazer esta questão do PRR. Por quê? Porque o PRR não é aquilo que devia ser, ponto um. E em segundo lugar, mais importante do que o PRR, é o que o país consegue fazer pra além do PRR, porque nós não podemos passar a vida de mão estendida na Europa.

Fica essa nota sobre o PRR. O Manuel Alves é engenheiro e está a ligar de Lisboa. Bom dia, Manuel Alves.

Muito bom dia. De facto, aquilo que me chamou mais a atenção na entrevista do senhor presidente, quando ele se referiu se acontecia uma situação desgraçada no final do ano, então já não está a acontecer agora. Em 2018, tivemos uma causa externa, que agora é evidente a questão da guerra gerar a inflação, mas há causas internas que se arrastam há décadas e que não são resolvidas. Nós temos agora uma situação, por exemplo, na saúde, com a questão das urgências e também os médicos de família, as listas de espera intermináveis e que muitas vezes põem em causa um tratamento eficaz. E não se vê saída. Aliás, vimos agora, creio que foi ontem, uma greve dos médicos, a contestatar muito, de uma forma que eu não vi antes. Não sei se é um pouco a imitar os professores, pareceu-me um pouco isso, mas com razões profundas Nos transportes já sabemos o que é e vale a pena darmos um esclarecimento sobre essa matéria. Todos conhecemos o atraso que há no plano ferroviário nacional, que é absolutamente inacreditável. Veja o que se passa, por exemplo, com a Linha da Beira Alta. No ensino, acho que a coisa foi pior, porque ele está a interferir diretamente nas negociações entre o governo e os sindicatos. Quer dizer, ele foi falar da questão do tempo de serviço. Qualquer dia dava vontade do ministro da Educação chegar e dizer: "Senhor presidente, tem aqui o dossiê, faça favor. Então o senhor negocia com os sindicatos." Ele não pode interferir. Eu quando falo, por exemplo, nessa situação, houve um jornalista que perguntou: "E então e as outras carreiras?" A mim contam-me que as carreiras gerais, os quadros superiores, para atingirem o topo da carreira, levam 140 anos. Não me enganei. São 14 posições remuneratórias, cada uma em média leva 10 anos, são 140 anos. Os professores sobem de escalão em quatro anos. Nas outras carreiras da Administração Pública, são em 10. Tem que ter uma noção genérica sobre estas coisas. Na Justiça, então, o tempo interminável de espera. Isso é um motivo, no caso do civil, das questões até fiscais, etc. As empresas não investem em Portugal. Eles não investem, estão pessoas a perder com isso empregos, qualidade de vida, etc. Na inflação, a gente vê o exemplo de Espanha, os produtos básicos, o IVA está à taxa zero. Nem copiar sabem. Eu acho que o nosso presidente não se pode limitar a falar ou ser muito vago em termos de prazos ou metas. Ninguém está interessado que o governo caia amanhã, mas tem que se pôr barreiras nisso. Nós arrastamos continuamente, ano após ano, e as coisas não se resolvem, aliás, agravam-se. Muito obrigado, bom dia.

Obrigada, bom dia. Aqui a análise do que o presidente está à espera. A situação já é muito complicada nesta altura no país. O Manuel Couto é diretor comercial e liga de Santo Tirso. Bom dia.

Sim, bom dia.

Bom dia, Manuel.

Eu só queria dizer o seguinte: o Marcelo Rebelo de Sousa, que por acaso é presidente eleito pelo povo, e nós temos um problema com o nosso povo, ainda não conseguiu perceber que há pessoas que têm jeito para ser presidente e outras não. Marcelo Rebelo de Sousa há bocado compararam aí com o Karpov e o Kasparov. Esses pelo menos pensavam, cada vez que iam fazer uma jogada, pensavam na jogada e às vezes demoravam dias para fazer jogadas. O Marcelo Rebelo de Sousa não pensa, o Marcelo Rebelo de Sousa fala e depois pensará a seguir, e depois anda a corrigir tudo aquilo que andou a dizer anteriormente. E vai assim, e vai sendo presidente. Eu se tivesse que jantar com alguém entre o Cavaco e o Marcelo, eu jantaria com o Marcelo. O Marcelo é efetivamente um bom homem. Agora, para presidente, Marcelo não serve, não vale nada. Marcelo fala demais, fala por tudo e por nada, é efetivamente fofinho. Eu digo que ele fala sem pensar e é um verdadeiro vendedor da banha da cobra. E todos os dias, porque neste país há dinheiro para tudo, menos para o ensino, para a saúde e para a justiça. De resto, arranja-se dinheiro para tudo. Qualquer empresa, Efacec, TAP, bancos, não há problema nenhum. Arranja-se o dinheiro, nem que seja ir à dívida. Para o Estado, que efetivamente eu não sou de esquerda, mas defendo o Estado, não há dinheiro. Não há dinheiro para os médicos, não há dinheiro para os professores, não há dinheiro para a justiça. Quer dizer, cabe na cabeça de alguém um tribunal não ter água? Cabe na cabeça de alguém que, ainda ontem, numa escola, vi que as pessoas estão cheias de frio, com os miúdos com as mãos metidas no meio das pernas porque nem o aquecimento podem ligar? Isto não é um país normal. Marcelo Rebelo de Sousa devia descer à Terra, não é só visitar os doentes. Ele como voluntário e como bom homem. Ele é um bom homem, isso eu não discuto. Agora, pensar melhor o país, ser mais contrapeso ao governo, reunir-se mais com eles e à porta fechada dizer as coisas que ele deve dizer. Eu também não defendo que ele venha dizer mal do governo para as televisões. Mas à porta fechada, nas reuniões que ele tem de quinta-feira, tratar de criticar o governo, de puxar o governo para cima e de fazer com que o governo governe. É isto que eu tenho a dizer. Peço-lhe imensa desculpa. Estou um bocado nervoso.

Não sei de quê, Manuel. Está obrigada.

Estou um bocado nervoso até por causa daquele testemunho há bocado, daquele jovem, porque é efetivamente verdade. Há muitos senhorios que estão pobres com inquilinos dentro das casas ricos e a rirem-se desta política de arrendamento.

Manuel Couto, muito obrigada. Obrigada, não tem que pedir desculpa. E aqui a sugerir que o Presidente da República, à porta fechada, nas reuniões de quinta-feira, faça outro tipo de pressão ao primeiro-ministro e ao governo. António Costa, o jornalista do jornal Eco. Bom dia, António, bem-vindo.

Muito bom dia, Carla. Bom dia.

Viste ontem o presidente com outro nervo, pelo menos na relação com o governo?

Olha, eu não diria exatamente outro nervo. A entrevista foi para sinalizar sete anos de presidência, mas no fundo, o segundo ano deste mandato. Mas eu arrisco dizer que Marcelo definiu o início deste segundo mandato precisamente com esta entrevista. Isto é, parece-me que começou aqui verdadeiramente o segundo mandato do Presidente da República. Depois ainda para cima de uns inéditos cinco, seis dias em silêncio. Coisa que nós não estamos habituados, porque o presidente tem por hábito falar todos os dias. Eu creio que o Presidente da República

E concluiu isso: está numa espécie de luta, numa corrida contra o seu próprio tempo. E é interessante que no meio da entrevista, talvez uma data tenha passado despercebida, mas foi dita por Marcelo e, portanto, percebe-se que Marcelo pensou nela, estudou-a e retira as consequências e a avaliação política dessa data. Nove de maio de 2025 é o dia em que terminará, na verdade, do ponto de vista político, a sua presidência, porque é o dia em que termina a capacidade para dissolver o Parlamento. O Marcelo trouxe essa data, que obviamente estava estudada, pensada, estava na cabeça do próprio. E eu creio que Marcelo Rebelo de Sousa está nesta corrida contra o tempo a olhar para esta data precisamente porque percebe, eu diria, duas coisas. Marcelo disse que o último ano, 2022, foi um ano perdido. Na verdade, olhando para a entrevista e vendo a entrevista com atenção, também poderia ter dito que os últimos sete anos foram perdidos. Eu cito só um exemplo: a habitação, quando o próprio presidente diz que o governo apresentou este diploma, que é discutido em sete dias, para fazer o que não foi feito em sete anos de governo. Mas depois também citou a educação, citou a saúde, podia ter citado a descentralização e, portanto, podia ter citado uma série de áreas em que os sete anos foram verdadeiramente perdidos. Marcelo constata isso, mas constata outra coisa. Acabou o tempo da reinvenção. Aliás, reconheceu numa pergunta do Manuel Carvalho ou de António José Teixeira, já não me recordo, dos jornalistas que conduziram esta entrevista, que é essa ideia de que tínhamos neste segundo mandato do governo, longo, de quatro anos e meio, uma oportunidade única de reinvenção. O próprio presidente já não acredita nela, já só vê o copo meio vazio e eu diria que não é um copo a encher ao longo dos próximos anos, é um copo a esvaziar ao longo dos próximos anos. Perante esta constatação, parece-me que esta definição de uma espécie de segundo mandato político tem um objetivo que é uma espécie de tentativa de reconciliação com o seu eleitorado natural. Marcelo Rebelo de Sousa também se percebe que não acredita propriamente em Luís Montenegro. Enfim, diz que quem está na roda dança e é Luís Montenegro que está na roda para dançar, mas a sua convicção ou a convicção com que antecipa a capacidade de Montenegro e do atual PSD darem a volta e conquistarem uma maioria não apenas aritmética, mas política, e que o PSD se afirme claramente perante os seus adversários à direita para ser um partido de oposição liderante, é tão limitada que Marcelo, eu diria, que terá concluído que o melhor é começar a fazer uma oposição não para deitar o governo abaixo. Eu não creio que Marcelo queira deitar o governo abaixo antes do prazo. Aliás, ele disse: não há que prever as europeias que o governo terá caído, só se acontecer um cataclismo qualquer durante este próximo ano que torne insustentável o regular funcionamento das instituições.

António, mas também deu a entender que se nessa altura das europeias António Costa tentasse fazer o mesmo que Durão Barroso, não ia acontecer.

Isso sim, exatamente. Eu diria que a única condição verdadeiramente objetiva, factual, em que Marcelo assume que termina a legislatura é se António Costa decidir ir para Bruxelas ou para um cargo europeu. Mas numa situação normal, o que me parece é que Marcelo Rebelo de Sousa percebe uma coisa. Podemos ter aqui duas avaliações, uma das condições de governabilidade e políticas neste mandato de Marcelo, e depois as econômicas. Percebe-se que este ano vai ser um ano outra vez perdido. O governo sugeriu 2022 no dia a dia. Obviamente, percebe-se que este ano vai ser um ano de gestão do dia a dia, porque a situação econômica verdadeiramente vai apertar. A poupança que foi feita na pandemia esgotou-se em 2022, a perda de rendimentos vai continuar a acelerar, os juros vão aumentar provavelmente mais do que se estava à espera. O Euribor a 12 meses, em média, já está nos 3,5% e vai ultrapassar os 4% rapidamente nas próximas semanas. Marcelo terá concluído uma coisa: a situação econômica vai ser difícil e a recuperação, que haverá, nomeadamente mecânica por via do contexto europeu, não vai ser a tempo de o próprio sair no final de seu mandato ou nesta data, em meados de 2025, como um presidente que não deixa de estar colado a uma situação de estagnação e de oito ou nove anos perdidos. E, portanto, começa aqui a ensaiar este distanciamento e quem sabe a pairar com esta imagem ou com esta possibilidade ou esperança, talvez do próprio Marcelo Rebelo de Sousa, o que é uma ironia tendo em conta o passado, de recuperar Pedro Passos Coelho para um novo ciclo político.

Essa era a questão que tinha também para ti, António. Marcelo terá essa tentação de orientar quer o futuro do PSD, quer o próximo ocupante do Palácio de Belém?

Não tenho dúvidas. E ele tenta todas as semanas, nomeadamente com as declarações oficiais e oficiosas que vai fazendo, por exemplo, no Expresso. Portanto, com muitas intervenções, umas enormes, noutras com Fontes Belém, a condicionar e com a leitura e com a tentativa de trazer Passos Coelho para este horizonte político. Agora, como o próprio diz, as condições para isso dependem, em primeiro lugar, da capacidade de Luís Montenegro de se afirmar. Isso não está nas mãos de Marcelo, porque quem está na roda é Montenegro. Agora, a convicção ou a esperança ou a expectativa De que Montenegro seja capaz de criar uma alternativa, apesar da situação econômica em que vamos estar. Nós entramos nestes primeiros três, quatro anos e fizemos a média de 2020. Apesar deste crescimento de 30 anos, o governo obviamente esquece da queda de 2020, que foi uma queda dos últimos 40 ou 50 anos, da queda da economia. Portanto, a média é muito pobre, com perda de rendimentos. Eu diria que já é mais ou menos seguro dizer que estes primeiros cinco anos desta década vão ser mais ou menos estagnação como foram os últimos 20 anos. Ora, isto põe Marcelo Rebelo de Sousa numa situação particularmente difícil. É um presidente popular, colou-se ao governo, ainda ontem até tinha aquela expressão: "Até não estou a pôr muita mão por baixo do governo", ele podia ter acrescentado "como de costume". E não estava. Eu percebo que não estava. Mas não é para retirar, eu não creio que seja para retirar essa condição de governabilidade do senhor António Costa de cá para cá. É verdadeiramente para, eu diria, reaproximar-se e não terminar o seu mandato colado a uma geringonça num primeiro mandato que poucos resultados trouxe, e a uma maioria absoluta que, por paradoxo, ainda menos resultados está a trazer.

Sim. Quando dizes, António, que o segundo mandato do Presidente da República começou ontem à noite, isto quer dizer que as tais reuniões de quinta-feira, aqueles encontros semanais entre o presidente e o primeiro-ministro, vão passar a ser diferentes mesmo?

Eu francamente não sei. Não sei se isso vai passar dentro das reuniões, ou se as reuniões vão ser mais ou menos as mesmas e do ponto de vista mediático, Marcelo vai ser mais fiscalizador. Mas diria de uma forma absolutamente tática, não exatamente a procurar olhar para o país e para o futuro, mas no seu próprio interesse e na forma como vai sair visto pelos portugueses. Repara, Carla e José Manuel, ontem na entrevista não se falou de crescimento econômico, não se falou de emprego, não se falou de perspectivas e de um Portugal a aproximar-se do pelotão da frente, daquele objetivo que Marcelo tinha posto, creio que há dois anos, e que, por exemplo, o presidente Cavaco tinha dito que ele elege num artigo no Observador, se a memória não me falha, de voltarmos a estar entre os primeiros 15 da Europa em termos de PIB per capita. O Marcelo, nesse sentido, esta entrevista, como eu dizia, de uma espécie de um segundo mandato e de uma corrida contra o tempo, também é uma entrevista de alguém que está convencido da impossibilidade de dar uma volta a isto. E portanto, agora, diria não foi só o último ano que foi gerir o dia a dia, e até paradoxalmente, isto até pode surpreender alguns dos nossos ouvintes. A pandemia, obviamente, foi muito má, mas vamos lá ver, ao contrário do que diz Marcelo, os primeiros quatro anos do governo foram de um contexto econômico e de juros baixos absolutamente excepcional no quadro global e no quadro europeu. Portanto, parece que o governo só enfrentou adversidades, enfrentou a pandemia como todos os outros, e nós sabemos com que resultados, e enfrentou a guerra como todos os outros. Mas os primeiros quatro anos foi de uma dinâmica em que já vinha de crescimento dos últimos dois anos do governo de coligação e com juros absolutamente baixos. Centeno estava sempre a recordar-nos que os juros baixos já nos tinham poupado, e no primeiro mandato, 3 mil milhões de euros em despesa pública. Portanto, o governo teve essas condições, desaproveitou-as, e agora Marcelo, eu ia dizer, estava a faltar a expressão, resignado. Eu diria que é um presidente resignado à condição de que tem que conviver com António Costa, não gosta muito, mas é o que tem, não tem alternativa e quer perceber como é que pode terminar o seu mandato, de tal maneira sem ficar colado a uma situação econômica e social que nos próximos 12, 18 meses vai ser obviamente e infelizmente mais difícil para todos os portugueses.

E é esse então o destino de Marcelo.

Não é a melhor mensagem.

Não, é que há. António.

É que há, exatamente. É o que temos.

Obrigada, António Costa.

Bom trabalho. Obrigado.

Para ti também e bom fim de semana e vais andar no "e o Vence Tourée" por cá na Rádio Observador este fim de semana. Para já fica a análise, não só à entrevista de Marcelo, mas aos desafios para os próximos anos. Nas redes, João Miguel, nas caixas de comentários, nos e-mails, vamos a isso.

Vamos a isso. Maria Pinho escreve no Facebook do Observador, aliás, faz uma análise curta e quase psicanalítica do Presidente da República, escreve Maria Pinho que Marcelo é profundamente inseguro. Jorge Gaia escreve que Marcelo vive no país das maravilhas maravilhosas, é o país do quem quer casar com o agricultor. Rui Lourenço pergunta: "Com a exceção dos analistas, alguém tinha algum interesse genuíno em ver a entrevista a Marcelo? Era certo e sabido que ia ser o discurso habitual de Miss Universo." Tiago S. no site do Observador escreve: "Quando é que alguém tem a coragem de perguntar a Marcelo por que é que recusou estes anos todos colocar-se uma vez que fosse nos sapatos da sua base eleitoral original e a perguntar se o país está no caminho certo? Por taticismo, por temer ser reeleito, por pavor ao conflito político? Marcelo é hoje um problema de regime." Ana Crespo de Carvalho escreve uma série de argumentos para não estar a gostar do mandato do Presidente da República e conclui com uma pergunta, atentem, por favor, à sintaxe: "O que fazer de Marcelo nos próximos três anos?"

Pergunta que fica. José Carvalho está no Porto. Bom dia.

Olá, bom dia. Eu estou a ligar só para fazer uma pergunta que é sobre um assunto que eu considero que é muito grave e não vejo nenhum órgão de comunicação social falar. Trata-se da revisão constitucional que o PS e o PSD querem levar a cabo. E há uma série de declarações do antigo bastonário da Ordem dos Advogados e também do próprio antigo presidente do CDS, que agora esqueço o nome, e que vão ser altamente atentatórias dos direitos, liberdades e garantias. A própria Joana Amaral Dias já entregou uma queixa-crime em relação a todos os partidos que estão na Assembleia da República, porque falam de tudo, mas depois não falam daquilo que é mais importante que é a mordaça. E pior que isso, pior que a mordaça, é a detenção discricionária sem ordem judicial. E o PSD nisso é tão ou mais incisivo que o PS. E eu não percebo porque é que ninguém fala nisso. É um manto de silêncio conivente que eu não entendo. Se por acaso o senhor José Manuel Fernandes ou o Rei Matos tiverem alguma coisa a dizer, eu não sei se o editorial vai ter a responsabilidade deles, mas é realmente muito estranho que uma coisa tão grave está para acontecer e que nenhum partido na Assembleia da República fala disso. Não sei se me estão a ouvir.

Sim, e estranha. Estamos sim. Estranha esta ausência de debate sobre o assunto.

Um manto de silêncio conivente absoluto e total sobre um assunto que é do mais alto. Aliás, inclusivamente, também o senhor José Manuel Fernandes, noutro dia vinha a falar do Telegraph File, em Inglaterra. E que nós sabemos, por que ninguém fala, por exemplo, que o antigo bastonário da Ordem dos Médicos congelou o parecer do presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria em relação à não recomendação de vacinação de menores de 18 anos. E depois só avançou com isso quando o presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria, não sei em que condições, foi obrigado a dar o dito por não dito. Há uma série de coisas que eu não entendo porque é que não vêm na espuma dos dias aí na Rádio Observador. Eu tenho pena, porque eu há quatro anos ou cinco dessintonizei a TSF, recuso-me a ouvir a rádio mais marxista-leninista e globalista que eu conheço. Mas pronto, era isso. E não sei se por acaso posso ter a resposta em relação à pergunta, se alguém me pode responder a isso.

Zé Carvalho, obrigada. José Manuel, tens falado algumas vezes da tua preocupação em relação à forma como podem seguir as alterações à Constituição, que estão a ser discutidas nesta altura. Não sei se partilhas da mesma preocupação do nosso ouvinte e podemos ligar ao papel que o Presidente da República pode ter aqui.

Não, partilho, mas infelizmente acho que o Presidente da República vai ter um papel, se o tiver, é negativo. O que está em causa na revisão constitucional e onde há acordos aparentes, se bem que com formulações diferentes da parte do PS e PSD, é facilitar as condições em que, por razões sanitárias, se cria um regime de emergência com limitações graves às liberdades individuais. Na Constituição atual, isso é bastante limitado e obriga à intervenção quer do Presidente da República, quer da própria Assembleia da República. É possível eventualmente ter que fazer alguma evolução, o mundo muda. Eu sempre achei que a Constituição tem que evoluir. Agora, fazer essas mudanças da Constituição em função do que se passou na pandemia, com base em exemplos que a maior parte das vezes foram exemplos... O que motiva isto? Motiva isto, por exemplo, algumas pessoas que foram confinadas contra a sua vontade e que recorreram para os tribunais, depois de terem visto os tribunais darem-lhes razão. Eu quero que os tribunais continuem a poder atuar sobre isso e não tenham a desculpa da Constituição. Quero que haja mais discussão, já falámos muito disso quando falámos aqui na semana passada de um ano de pandemia.

De três anos de pandemia.

Três anos de pandemia, tens razão. Eu costumo falar que quando tenho que me referir a alguém sobre um acontecimento, digo: "Isso foi antes ou depois da pandemia?"

Antes ou depois, acho que todos nós temos essa referência já.

Uma espécie de barreira temporal. Primeiro, há uma regra geral que é não se deve legislar a quente, fazer uma revisão constitucional a quente, pior ainda. E depois, esta orientação no sentido de uma limitação aos direitos, liberdades e garantias, em função de crises que, podendo ser graves, nós hoje à distância vemos que às vezes houve coisas que foram mal feitas. Dando mais liberdade para fazer coisas mal feitas, parece-me mal. No mínimo, a intervenção do Parlamento nestas situações mais complicadas, e o Parlamento tem comissões permanentes, se tiver que reagir depressa, reage depressa. Se as coisas estiverem agilizadas nessa direção.

Sempre foram durante a pandemia, nunca foi ali um entrave.

Durante a pandemia nunca houve problema nenhum, nunca foi um entrave. Acho que estamos a criar Restrições desnecessárias e perigosas. Tendo a concordar com o José Carvalho. Enfim, não temos falado muito do assunto, porque António Costa não está a buburar, como se costuma dizer, está em Vinha d'Alhos. Vamos ver o que é que sai.

Pronto, já falámos da confuração e agora das Vinha d'Alhos. Helena, tu há pouco falavas de Marcelo como o professor de Direito e aí ele consegue ser claro.

Sim.

Mas mesmo assim, nestas matérias, o José Manuel explicou porque também não se tem falado tanto dela, mas nestas matérias ele tem utilizado esse estatuto e essa mais-valia que pode ser?

Usa em intervenções agora. Aliás, muitas vezes eu acho que o fato de Marcelo ser constitucionalista não tem ajudado. Ou seja, é menos humilde que os outros presidentes nessa matéria.

Recorre menos ao Tribunal Constitucional.

E faria sentido que ouvisse. Marcelo, sete anos depois, é um homem que aquilo que se propunha não é aquilo que foi conseguido. Marcelo chega com uma narrativa em 2016, eram os chamados virar de páginas, o que também tem a sua coordenação com António Costa.

Acabar com a crispação política.

Acabar com a crispação política. E então nós temos uma frase do seu discurso de tomada de posse é: "Temos de cicatrizar feridas destes tão longos anos de sacrifícios, no fragilizar do tecido social, na perda de consensos de regime, na divisão entre hemisférios políticos". Eu não sei se estávamos em 2016, só que em 2023, nós temos uma maior divisão entre hemisférios políticos, nós perdemos vários consensos de regime. Ganhámos um, que é a necessidade das contas certas e que realmente se abandonou aquilo que fez durante algum tempo, era uma espécie de Botas bem-pensante no país, que havia vida para lá do déficit, que também sabia que Cristo não sabia nada de finanças, nem constava que tivesse biblioteca, nem essas coisas assim que jandas. E, portanto, a grande lição, mas é uma lição porventura até mais aprendida por António Costa do que por Marcelo, é que nós temos que ter contas certas para apresentar em Bruxelas. A forma como conseguimos essas contas certas não interessa, mesmo que tenha sido muito através de tributação indireta, mas o que conta é que nós vamos ter contas certas. E, portanto, nesse sentido, eu acho que isso se tornou um consenso de regime. Aquilo que era uma coisa que à esquerda do PS era questionado, deixou de ser questionado com António Costa. Presumo que se irá manter como consenso de regime, dada a nossa extraordinária dependência em termos europeus, e portanto, enquanto a Europa exigir contas aparentemente certas, nós aí estaremos e esse tornou-se um consenso. Depois temos a questão do fragilizar do tecido social, que o presidente dizia em 2016 que tínhamos de cicatrizar as feridas destes tão longos anos de sacrifícios, e em que o tecido social, já frágil per si, tinha ainda ficado mais ferido, com feridas abertas, que teríamos de cicatrizar. Só que em 2023 nós temos o tecido social fragilíssimo. Temos uma divisão enorme entre hemisférios políticos. O presidente também dizia que tudo que tinha era tudo indesejável, coisas que tinham acontecido antes e agora que era urgente recriar convergências. Marcelo tem um tipo de discurso, ele não tem, em geral, não sei quando escreve em Direito, mas quando escreve politicamente, ele não consegue, não faz, quase nunca, frases que tenham uma estrutura complexa, ou seja, em que uma oração, as chamadas subordinadas subordinantes. Nunca é assim. Ele tem uma construção de discurso, vão desculpar-me, muito infantil, que é nós quando somos pequeninos, trabalhamos por coordenação, que é uma espécie de sinal mais. Portanto, nós dizemos: "Eu fui à loja, comprei rebuçados e pastilhas e chupa-chupa e farinha e um bolo e uma bola". Quando nós estamos a trabalhar, em termos de discurso dos alunos, uma das coisas que é desejável e expectável é que eles consigam passar desta estrutura de discurso de "e, e, e, e", tens de deixar de só fazer contas de somar. Temos que passar a fazer contas de multiplicar e dividir. Em termos de construção de frase, é passar para as subordinadas e para as subordinantes. Marcelo tem uma estrutura de discurso a este nível de adição, não de complexidade. E portanto, o que ele faz, e isso nota-se até muito aqui que é tudo indesejável, precisamente em anos, que era o que viria pra frente, em 2016, em que urge recriar convergências, redescobrir diálogos, refazer entendimentos, reconstruir razões, é sempre por adição. Isto em termos de discurso funciona muito bem. Se uma pessoa vai fazer um discurso político ali com uma série de, quer dizer, houve quem conseguisse, mas não era bem político, era o Padre António Vieira. Eram estruturas extremamente complexas de discurso, mas era num outro tipo de produção de discurso. O Marcelo fala nestes tempos midiáticos e aí o seu próprio discurso é muito adequado, porque como ele vai sempre dizendo: "Vamos recriar convergências, redescobrir diálogos, refazer entendimentos", ele vai sempre por acumulação e parece que acaba ali até num clímax. Todos os políticos fazem isto nos seus discursos, só que ele faz isto parágrafo a parágrafo, porque é assim que ele constrói os seus discursos. Se lerem os discursos do presidente, mesmo os mais importantes, não há espaço para grandes reflexões ou ponderações. Ele faz tudo ali por uma acumulação de propósitos, geralmente coisas muito positivas, que ele vai colocando ao lado umas das outras como quem dispõe camisas no armário. Sempre cores, aqueles armários que estão sempre naquelas fotografias.

Bonito Pantone

Sim, e nunca tem uma peça que destou os senhores. Vai ali dos pretos e brancos.

Não são os meus armários.

Pois, eu tento, mas a coisa nunca vai lá. Portanto, é este tipo de discurso. Houve aqui quem tivesse referido a questão, e isso preocupa-o claramente, que é o que dele vai ficar para o futuro. O que é que vai ficar? E muito provavelmente, eu acho que ele é, sem dúvida, o presidente que pior legado tem até agora dos presidentes eleitos. Não porque não tivesse talento, não porque não tivesse conhecimento, não porque não tivesse competência, mas porque lhe faltam duas coisas essenciais. Uma delas é a chamada coragem. Coragem no sentido de ser capaz de não ser amado. Eu ontem referi a questão agora que vai com o António Costa pelo país fora prever as obras. E já sabemos o que é que vai ser. Ele não consegue, não era suposto que fosse destratar o primeiro-ministro. Mas ele não consegue fazer as perguntas que lhe digam a verdade. Ele faz as perguntas que lhe dizem aquilo que ele gostava de ouvir. Isso é terrível e conduziu a esta circunstância em que se encontra, em que na verdade aquelas coisas fazem grandes títulos, os jornalistas adoram falar de alfinetadas, mas a presidência não é uma questão de alfinetada. A outra questão eu acho que resulta mesmo de tudo aquilo que ele é em termos de personalidade, que é acreditar que as situações se resolvem por intervenções de caráter emocional e não por um exercício lento, continuado, quotidiano, regular de observação do regular funcionamento das instituições. Não há aqui passes de mágica, que há abraços que resolvam as coisas, declarações espantosas que resolvam. E portanto, o reverso desta falta de frontalidade de Marcelo é a multiplicação dos jogos de bastidores. Eu hoje de manhã, até porque acordei bastante cedo, estive a ler o Expresso com atenção, os diferentes artigos em que os diferentes Marcelos falam e mandam recados. Marcelo presidente, Marcelo reconstrutor da direita em Portugal, Marcelo que cria cenários para reconfigurar a esquerda. Aliás, ele é tão bom comentador, que quando acha que as pessoas não estão a perceber bem aquilo que ele quis, já se comenta a si mesmo. E então? Houve aquela questão com a Ana Gomes, em que ele disse aquelas coisas, quem sabe, Ana Gomes vinha a ser não sei o quê.

Primeira presidente mulher.

Está lá explicado no Expresso porque ele já fez aquilo. E quem senão ele? Quem é a fonte de Belém, senão ele? É aquela fonte de água que já fez.

Por que ele já fez aquilo? Essa parte não. Por que ele já fez, lançou?

Mas é espantoso, é ele mesmo. Ele que acha que está a minar a candidatura do Santos Silva lançando uma nova candidatura à esquerda, como quando foi da Pintasilgo Cousanha. É ele que está a falar ali. Ao pé da minha casa há uma coisa que se chama Associação Espírita de Portugal. Eu há uns dias, devia de entrar aqui para ver o que aqui se passa. Mas não sei. O Expresso é uma subseção da Secção Espírita de Portugal, e já temos o Marcelo numa página a comentar o Marcelo da outra página. E realmente não me tinha ocorrido, confesso-vos. Esta da Ana Gomes. Isto é absolutamente espantoso e é um deleite. Só que o homem está em Belém, não está no estúdio da TVI. Se ele estivesse no estúdio da TVI: "Já viste o que o Marcelo disse? Bem visto." Só que não é isso. Ele candidatou-se ao cargo de Presidente da República e nós neste momento temos em Portugal uma degradação da República, do funcionamento das suas instituições, um governo aparentemente bloqueado, um Estado que está incapaz de ser capaz de regular o melhor funcionamento já das suas instituições e das suas corporações. E o presidente comenta-se.

José Manela, estamos com três minutos.

Diz lá que não está bem visto isso da candidatura da Ana Gomes para minar a candidatura do Santos Silva.

Não sei se vai resultar, mas é ele. É um jogador que eu gosto, aquele jogador que nós gostamos imenso de ver jogar, mas nunca remata à baliza.

Não me tinha lembrado disso.

Brinca na areia, faz muitos dribles, faz dribles que até deixa os adversários sentados no chão, desorientados, mas de facto não é aquele jogador mortal. Às vezes aqueles que parece que não existem no jogo e quando está no jogo, marca gol. Os que não sujam os calções como o Nenê.

O Nenê. Estava a pensar nele.

Vocês sabem, senhores.

Diz lá.

Ia puxar para o António Costa, que tivemos aqui o jornalista, dizer que o Marcelo está numa corrida contra o tempo para se reconciliar com o seu eleitorado.

Ele vai tentar fazer isso, mas pelos vistos não é desta forma, porque não é ziguezagueando que estas coisas acontecem, é sendo um bocadinho mais coerente. O que é algo que é sempre difícil nele. Já me aconteceu várias vezes esperar, por exemplo, por discursos importantes e depois não foi nada. O ano passado, por exemplo, no 25 de Abril. O que é que ele vai dizer este ano no 25 de Abril? Começa a ser muito relevante. Aquele prazo que o António Costa, jornalista, aqui deu.

9 de maio de 2025.

9 de maio de 2025, está na cabeça dele desde sempre, desde este segundo mandato. Porque ele sabe que é o momento em que, perdendo a bomba atómica, fica muito manietado. Quer dizer, pode mandar umas leis para o Tribunal Constitucional e pouco mais. E como ele já deve também ter a noção de que influenciar pela palavra é difícil e que tem pela frente alguém que não faz as suas vontades. Ele, ao princípio, ainda conseguia demitir ministros, agora já não consegue. Agora, aparentemente, já não consegue. Há alguns que resistem, apesar de muitas coisas que ele vai dizendo.

Estás a pensar em Gomes Cravinho?

Estou a pensar em Gomes Cravinho e estou a pensar no que era da Administração Interna. O Cabrita. O Cabrita, obviamente, ele gostava que ele tivesse saído mais cedo e Gomes Cravinho, ele gostava que nem sequer tivesse entrado para o governo. Reparemos, eu não me tinha apercebido, pensei que era só uma gafe do Gomes Cravinho, a questão de o Lula ir à sessão do 25 de Abril foi iniciada por Marcelo Rebelo de Sousa, porque ele quando foi ao Brasil, fez esse convite formal. Agora o próprio Cravinho tem que descalçar a bota. E ele fez isso sem falar com ninguém, achou que era uma coisa consensual. Ele às vezes tem essa ideia que ele está muito sintonizado com o país e não está, não percebe. Porque se ele percebesse que era polémico, ele tinha fugido de fazer isso. Quer dizer, ele às vezes tem entusiasmos que o levam um pouco demais. Ele deve, para variar, entusiasmar-se outra vez.

Homem de Deus, se eu tivesse nadado à frente de um crocodilo ou jacaré ou lá o que fosse, nem sabes o que eu dizia, nem quem eu convidava.

Mas ele nadou porque não teve uma aflição, não caiu ao mar. Espero que ele não se lembre de fazer isso no Amazonas para ser comido por piranhas.

Depois destas imagens, vamos descansar.

Uma bela imagem, vamos ver uma maneira de acabar.

O "Contracorrente" volta na segunda-feira. Bom fim de semana.