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O IPMA diz que esta vai ser uma quarta-feira de céu pouco nublado ou limpo, um pouco mais nublado apenas no Porto, mas também ainda com algumas abertas para esta quarta-feira. 20 °C é a máxima esperada nas duas cidades. Já de seguida, 08h13min, Contracorrente com José Manuel Fernandes.

José Manuel Fernandes, hoje quer falar no Contracorrente de uma freguesia dos Açores. E não é por razões turísticas, pois não? Bom dia.

Bom dia. Não é, de forma alguma, por razões turísticas. A freguesia de que quero falar é uma freguesia muito especial, chama-se Rabo de Peixe. Não sei se algum de vocês já esteve lá, em Rabo de Peixe.

Não.

Não, pois. Eu não me esqueço a primeira vez que fui a Rabo de Peixe. Nunca poderei esquecer o que senti quando entrei naquela aldeia. Foi há muitos anos. Muitos anos mesmo. Foi em setembro de 1984, vê lá tu, e foi durante uma campanha eleitoral nos Açores, que eu estava lá a trabalhar. Ia só eu e um repórter fotográfico. Quando entrámos os dois naquelas ruas, fomos logo imediatamente rodeados por um bando de miúdos seminuos, crianças muito pequeninas ainda, a pedir tudo, esmola. E o que mais me impressionou é que, ao mesmo tempo, andava um homem naquelas ruas a borrifar a calçada com desinfetante e a criançada continuava a brincar, até brincava debaixo da chuva do borrifador, enquanto o homem prosseguia como se não fosse nada com ele, concentrado na missão de matar moscas, baratas, sei lá mais o quê. Quer dizer, uma imagem que não me sai da cabeça, continuo a ver aquela imagem ainda hoje e garanto que ao longo da minha vida passei por muitos outros locais de enorme pobreza, mas ali era diferente. Eu senti desde o primeiro momento que havia qualquer coisa de pior, de malsão naquele ambiente.

Queres explicar melhor o que é qualquer coisa de pior? Em que sentido?

Eu nesse dia estive muito pouco tempo na freguesia. Até porque cheguei um pouco já ao fim da tarde, mas reparei logo numa coisa: é que havia uma quantidade enorme de bairros sociais e eram de todas as épocas. Pela arquitetura, percebi que tinham ali começado a ser construídas habitações sociais ainda no tempo de Salazar. E depois foram continuando. Eu fiquei tão impressionado que comecei logo a fazer perguntas, aliás, a começar logo por Mota Amaral, que na altura ainda era presidente do governo regional. Ainda voltei a Rabo de Peixe durante essa reportagem, nessa viagem. Depois voltei mais tarde, noutras ocasiões que estive nos Açores. Nunca deixei um pouco de acompanhar o que ia acontecendo e fazer perguntas. E ao longo dos anos fui formando a ideia de que o problema de Rabo de Peixe não é faltarem ajudas do Estado. Ali sempre houve imensas ajudas públicas. O problema de Rabo de Peixe é mais complicado e aquilo talvez é o que eu possa chamar uma cultura de pobreza que passa de geração em geração e que é uma cultura de pobreza e de dependência.

O que é que isso quer dizer, uma cultura de pobreza e dependência?

Não é muito fácil explicar o que é, porque é um bocadinho a acomodação a um mundo onde não se vive bem, mas também onde não se morre de fome. É um mundo onde não existe ambição, onde só se deseja viver um bocadinho como os pais e os avós viveram, na mesma casa ou na mesma rua, ir pescar no mesmo barco. Viver naquela promiscuidade, que sempre foi a única coisa que aquelas pessoas conheceram. E depois ter a certeza que haverá sempre um subsídio, porque sempre houve, tenha ele o nome que tiver, e ficar assim. Eu estou a falar disto até porque, de repente, voltou a falar-se muito de Rabo de Peixe por causa do rendimento mínimo dos Açores. Já sabes por que é. Por causa do acordo do Chega, porque o acordo prevê reduzir o número de pessoas dependentes do rendimento mínimo. E aliás, Rui Rio também já disse que não compreende como é que nos Açores há, proporcionalmente, mais do dobro de pessoas a viver com rendimento mínimo. Eu acho que conhecer um pouco esta cultura da pobreza, que tem destruído, na minha perspectiva, porque isto está a destruir gerações e gerações de habitantes de Rabo de Peixe, talvez ajude a perceber porque é que há tanta gente a receber o RSI nos Açores. Aliás, há uma história que se passou com Jorge Sampaio, que é bem significativa do que isto significa.

Que história é essa, José Manuel?

Olha, Jorge Sampaio, como sabes, é um entusiasta. Era, e acho que ainda é, um entusiasta do rendimento mínimo. Ele esteve em Rabo de Peixe em 1999, portanto, logo a seguir a haver rendimento mínimo, que tinha acabado de ser criado pelo governo de Guterres. Só que teve aquilo que se chama um choque. Por quê? Porque um dos problemas de Rabo de Peixe é as famílias terem demasiados filhos. Aquilo são, de facto, muitas crianças por agregado familiar. Filhos que depois as famílias não conseguem sustentar nem educar. Ora, quando Sampaio lá foi, uma das coisas que ele constatou foi um paradoxo, que foi que em 1997, que foi o ano em que foi criado o rendimento mínimo, tinham nascido 83 crianças na freguesia. Em 98, que é o primeiro ano em que as pessoas recebem o subsídio, nasceram 194, mais do dobro. Ora, perguntas: por quê? Qual foi a explicação que lhe deram? Porque as regras do rendimento mínimo dessa época pagavam mais 15 contos, isto é, 75 € por cada filho. Portanto, isto foi o chamado incentivo perverso.

Agora, José Manuel, a questão é se as coisas ainda serão assim hoje.

Infelizmente eu suspeito que não terão mudado muito. E digo isto por quê? Porque eu li uma reportagem do Público. O Público está muito alarmado com as propostas do Chega, portanto foi logo a correr fazer uma reportagem para Raposeiros, para nos mostrar, aparentemente, a tragédia que será para as pessoas do rendimento mínimo. A história que escolheram para a capa do jornal é uma história de uma jovem que tem 21 anos, mas já tem dois filhos e acha que não pode trabalhar. É essa a história que é lá contada, porque tem esses dois filhos e o marido é toxicodependente. Pelo seu testemunho, o seu destino é ficar assim, é viver de subsídio, não se sabe até quando, ela não dá nenhuma ideia de até quando, até se calhar virem mais filhos. Não há ali nenhum horizonte, porque ela não tem nenhum horizonte. Dar uma volta qualquer à vida não parece sequer passar-lhe pela cabeça. E eu sei, porque isto é um bocadinho aquilo que sempre senti quando fui a Raposeiros, é que é assim que muitas das pessoas pensam, que muitas pessoas veem a sua vida. Quer dizer, se o mar der alguma coisa, ótimo. Se der pouco, logo se vê. Ir à escola e estudar é uma coisa que verdadeiramente não se leva a sério, apesar daquilo ter escolas com boas condições. O único futuro para os homens é um mar que sempre será pobre, porque ali nunca foi rico. Para as mulheres, parece ser casarem com um pescador e depois ficarem na aldeia e, como ela diz, a olhar para o mar de que tanto gostam, uma coisa romântica. E voltei a encontrar este retrato nessa reportagem. Voltei a confirmar a ideia de que o rendimento mínimo, em vez de ajudar a retirar as gentes de Raposeiros da pobreza, ainda tornou essa pobreza mais endémica e mais teimosa. Alimentou-a, em última análise. Eu não quero que seja à bruta, nem num ar de quatro anos que um problema destes se resolve. Não é com receitas ideológicas draconianas, senão o contrário. Mas aquilo que me custa é que a primeira vez que entrei em Raposeiros e vi aquele espetáculo horrível que descrevi atrás, que parecia saído de um filme de Fellini ou Rossellini do pós-guerra, foi há 36 anos. Não foi ontem, foi há 36 anos. Passaram 36 anos e parece-me que nada ou quase nada mudou. Para mim é tempo de mais. E isto é intolerável. Não podemos exibir Raposeiros de rendimento mínimo como uma grande conquista social e quer que tudo fique igual, quando no fundo isto é um grande fracasso. É um enorme fracasso.

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