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Bem-vindos de regresso ao "Conversas à Quinta". Hoje regressamos para um clássico, para um programa que temos feito todos os anos: livros. Livros para ler em férias ou para se ler mesmo fora de férias, porque algumas das sugestões que hoje aqui trazemos talvez sejam pesadas para ler na praia, pelo menos. Mas enfim, nem toda a gente vai à praia, há sempre as tardes de verão que são muito apetitosas. Precisamente porque nós temos sempre também uma preocupação com a atualidade, vamos falar de alguns livros que ajudam a perceber os tempos que vivemos, particularmente o que se está a passar na Ucrânia e perceber também um pouco a Rússia. E para isso vamos começar por uma sugestão que o Jaime Gama trouxe.
Com este livro de Antony Beevor, "Rússia: Revolução e Guerra Civil 1917-1921".
Por enquanto só em inglês, não tem ainda tradução portuguesa.
Ainda não. Mas Beevor é um grande historiador, é um historiador militar, é um discípulo de John Keegan em Sandhurst e que se desenvolveu, apesar de ele ter colaboração com várias universidades inglesas, como um historiador dedicado à publicação. Tem o livro famoso sobre Stalingrado.
Stalingrado, a Queda de Berlim também.
O D-Day, a Queda de Berlim. Um livro muito importante, escrito em duas partes, isto é, reescrito numa edição mais atualizada sobre a Guerra Civil de Espanha, a disputa internacional por Espanha, que é porventura um dos melhores livros sobre a Guerra Civil de Espanha. E agora neste livro, ele procura analisar muito em detalhe toda a problemática do fim do Império Russo no fim da Primeira Guerra Mundial e primeiro a queda do Czar na Revolução de Fevereiro e depois o advento do regime bolchevique na Revolução de Outubro e a forma como se dá, em primeiro lugar, a consolidação do poder bolchevique na Rússia e depois, em 21, a criação da União Soviética, misturando o controle do Partido Bolchevique e também o Exército Vermelho, e as negociações que são feitas em todo esse espaço na área da Finlândia e dos Bálticos, em relação à Polônia, depois em relação ao Império Otomano e ao Cáucaso. É um livro muito importante porque é um livro em que a área de reflexão se sobrepõe geograficamente no território da Ucrânia e descreve a criação da Ucrânia como república soviética por Lênin e o que isso representa na confrontação com a Polônia, na guerra digamos anti-russa.
Na altura com sede em Kharkiv.
Sim.
Com sede quer dizer, com capital em Kharkiv.
Na organização das forças contrarrevolucionárias a sul, com os ex-tsaristas a atacar quase Moscovo, e também todo o problema da intervenção aliada a partir de Arkhangelsk no norte da Rússia e também as ações que são feitas mais a leste. Portanto, é um livro muito interessante e é um livro que tem grande atualidade, porque estão aí questões que vêm depois a ser novamente afloradas no decurso da relação União Soviética-Alemanha hitleriana e no final da própria Segunda Guerra Mundial. E, portanto, perceber esse período, como se posicionam as forças, até como se decompõem, por exemplo, nesse caso, o vasto espectro das forças políticas na Ucrânia, designadamente no campo contrarrevolucionário e no campo revolucionário, é de uma extrema importância. E ler este livro é obter uma chave muito interessante daquilo que vêm a ser desenvolvimentos futuros e que de alguma forma afloram nas questões que hoje temos estado a discutir. É um livro que vai marcar a atualidade.
Sim, é um livro de que eu tenho tido referências excelentes. Eu trago dois livros também sobre esta área, um deles é "A Porta da Europa: uma história da Ucrânia". Este livro tem sido referido como provavelmente o livro mais completo editado nos últimos tempos sobre a história da Ucrânia. Ele é uma edição recente, foi traduzido para português há muito pouco tempo. Permite-nos perceber vários períodos bastante críticos. Primeiro que tudo, como é que tudo começou com os Rus e os Vikings na zona de Kiev, como é que depois a Ucrânia vai nascendo, como é que vai sendo uma zona de influência dos vários impérios, e mesmo antes de ser impérios, o Principado da Polônia e da Lituânia, ou melhor, a união da Polônia com a Lituânia, e como a fronteira foi sempre passando de um lado para o outro. Sendo que precisamente nesse período, que é abarcado pelo livro da Rússia, Kiev muda de mãos uma dúzia de vezes num ano. Aliás, há um romance do Bulgakov Precisamente sobre esse período, que é inimaginável. Nós agora estamos a olhar para este conflito, vemos os exércitos evoluírem às vezes um, dois, três quilômetros por dia. Nesse período da guerra civil, iam e vinham com grande frequência. Portanto, seguindo um pouco mais para diante, abordando basicamente o período que vem desde a independência até o final dos anos 30, temos "A Fome Vermelha", um livro que já tem meia dúzia de anos, mas foi agora traduzido para português. É de Anne Applebaum. Anne Applebaum é uma jornalista e historiadora. Ela atualmente é colaboradora de Atlantic, onde tem, de resto, escrito alguns artigos bem interessantes sobre este conflito na Ucrânia. Um deles penso até que já foi traduzido e publicado no Expresso. E este livro abarca, sobretudo, a grande fome dos anos 30, o Holodomor. Mas não só. Permite perceber, por exemplo, como é que foi a relação complexa dos ucranianos com o próprio regime soviético, mesmo antes de Lênin ter feito aquilo que, de alguma forma, foi um compromisso, porque no início, naqueles períodos logo a seguir à Grande Guerra, houve ali uma grande indefinição, uma parte da atual Ucrânia ficou na Polônia, os exércitos passavam de um lado para o outro e os ucranianos eram quase sempre sacrificados, até que houve, de facto, o grande sacrifício do Holodomor. Não é o primeiro livro sobre a grande fome, o livro clássico é "Harvest of Sorrow", um livro publicado nos anos 80, mas este livro beneficia, sobretudo, da abertura dos arquivos ucranianos, dos arquivos de Kiev. Os arquivos de Moscou abriram e voltaram a fechar, portanto, não há a mesma capacidade. É um livro escrito por alguém que ainda por cima tem uma vantagem. Anne Applebaum é americana, mas é casada com um diplomata polaco. Viveu na Polônia durante alguns anos. Ela tem outros livros importantes. Tem livros sobre como é que se transformou a Europa de Leste na Europa comunista, como é que a União Soviética se expandiu e foi provocando golpes de Estado, revoluções e ocupações naqueles países todos que depois vinham a fazer o Pacto de Varsóvia, e o livro talvez mais famoso dela, que é sobre o Gulag, e que é um levantamento muito exaustivo do que foi o Gulag. Como jornalista, é um livro que se lê com uma extraordinária facilidade, porque é um livro muito fácil de ler. E já que falamos do Gulag, também há algo que convinha recordar, não é? Já me garanto.
Eu trouxe aqui o-
Um clássico dos clássicos.
Trouxe um clássico porque vi que foi, aliás, por curiosidade e talvez porque estamos exatamente numa hora de falar muito da Rússia, do comunismo e do regresso dos chamados pós-marxistas. E achei interessante porque este livro é uma tradução já do russo.
A primeira edição em português foi uma tradução dos franceses.
Exatamente.
É uma tradução dos franceses, nunca ficam tão boas.
Normalmente, aliás, nós apanhávamos sempre as traduções do russo, vinham sempre traduções francesas, e os franceses, aliás, eu sei por algumas experiências, são imaginativos, às vezes são um bocadinho imaginativos, até às vezes para melhorarem um bocadinho a forma.
Europa América, não era?
Já não me lembro de quem era, mas atraiçam um bocadinho o conteúdo. E, de facto, tem o mérito de ser um clássico. Solzhenitsyn com o Pasternak, foram os grandes reveladores do que era, de certo modo, o mundo comunista. O Pasternak, como era protegido, o Stalin tinha um certo bigan por ele, protegeu-o sempre. O Pasternak, penso que nunca esteve preso. Aliás, como o Bulgakov, o Bulgakov também o Stalin mais ou menos protegeu. O Solzhenitsyn, não.
Apesar dos livros não serem publicados.
Exatamente, apesar de os livros não serem publicados, sobretudo aquele fabuloso "A Margarida e o Mestre". Portanto, eu achei que era interessante relembrar um bocadinho, de facto, mais uma vez, o que é que foi, de facto-
É um livro autobiográfico
...o mundo. Exatamente. E o que é que era o mundo comunista, porque nós estamos outra vez numa altura em que muitas vezes se volta a repegar, de certo modo, estas ideias, as ideias marxistas-leninistas, como se não tivesse já havido experiências. E portanto, eu acho que é sempre interessante a gente lembrar que já houve experiências concretas, já houve os tais casos do socialismo real e que a ideia que muitas vezes nos querem passar é que foram homens maus, como o Stalin, que estragaram, de facto. E estes livros têm a vantagem de nos lembrar essa realidade e talvez não fosse tanto. Quer dizer, naturalmente, era capaz de ser sempre a mesma coisa que ia acontecer.
Bem, para completar esta meia dúzia de livros, ou quase, temos mais uma sugestão do Jaime Gama. Agora, aparentemente não seria sobre isso, sobre o problema dos cereais.
Estão também muito na moda.
Portanto.
Os cereais.
Porque os cereais da Ucrânia e do sul da Rússia são cruciais neste conflito também.
Sim, é um livro de um professor da Universidade da Geórgia, Scott Reynolds Nelson O oceano de cereais. No fundo, o que o autor procura explicar? Procura explicar como, depois da guerra civil nos Estados Unidos, a agricultura dos cereais no norte, mais mecanizada, prevalece sobre a agricultura esclavagista do algodão no sul. E isso é um fator que vai ser julgado como um fator de domínio internacional dos Estados Unidos, porque os cereais são sempre objeto de uma enorme disputa entre impérios, envolvem sempre zonas de produção, rios pra circulação de mercadoria, portos e domínio marítimo para projetar essas exportações. E os Estados Unidos, na verdade, introduzem-se no mercado europeu dos cereais com as confrontações europeias, as disputas europeias, a chegada do trigo dos Estados Unidos aos portos de Hamburgo e também da Itália, dão uma capacidade mais competitiva à Alemanha e à Itália. E isso choca com o Império Otomano, com o Império Austro-Húngaro e também a disputa com a Rússia, porque a Rússia dominava muito toda a sua zona cerealífera a sul, desde o Dom até a Absarábia, a grande importância do Porto de Odessa, a sua capacidade exportadora, o financiamento da nova indústria cerealífera do Império Czarista com o financiamento francês e também a circunstância de, por exemplo, na zona que era a Ucrânia, que era um grande sul da Rússia, nessa ocasião já não existir servidão rural, porque, por um lado, havia os cossacos, que se tinham liberto da servidão e constituíam repúblicas autônomas que depois negociavam, havia alemães, havia judeus.
Muitos deles importados. Os alemães tinham sido importados pela Catarina, no tempo da Catarina a Inda.
Sim, é um objetivo metódico de desenvolvimento econômico e de transferência de tecnologias de produção. É interessante verificar que a própria família do Trotsky, em Kherson, era uma família rica, produtora de cereal.
Mais do que culacos. O que a gente chamaria culacos.
Em cima de culac. E o próprio Trotsky chamava essa zona a Ucrânia americana, ou a Rússia americana, mais propriamente, porque era uma zona que emulava com o que estava a ser feito nos Estados Unidos, já com a agricultura mais mecanizada, que é uma agricultura cerealífera também que dentro dos Estados Unidos tem que conquistar acesso ao mar, seja pelos rios, seja pelo ferroviário até aos portos pra vir pra Europa. E depois a ligação ferroviária na Europa entre Königsberg e Odessa, Berlim até Bagdá, a ideia desse comboio até Bagdá. Portanto, por quê? Porque o cereal é o que vai permitir duas coisas: a industrialização, por um lado, e a urbanização por outro. E redefine os circuitos do comércio internacional, rebalanceando o poder dos impérios. Portanto, o trigo tem uma grande importância porque é um cereal mais competitivo que os cereais tradicionais europeus. Não é tão rico. Por exemplo, há estudos biométricos como o operariado alemão diminuiu de tamanho com o consumo do trigo americano, mas de facto permitiu dar à Alemanha uma capacidade de jogo nos poderes europeus muito grande.
Curiosamente, neste livro da Annie Applebaum conta-se um episódio passado também, enfim, não exatamente nessa zona, mas é quase, porque precisamente no período da guerra civil ainda, o Lênin mandava recolher cereais, porque era preciso pra sustentar a revolução. E um dos primeiros choques entre Stalin e Trotsky dá-se precisamente não em Kherson, mas naquilo que é hoje Volgogrado, depois viria a ser Stalingrado, que na altura tinha outro nome, que eu nem me recordo o nome da cidade, onde Stalin fez a primeira experiência de brutalidade usando o Exército Vermelho, e Trotsky não gostou, achou que era demais. Não, ele também era bastante bruto. Mas enfim, os métodos usados nessa requisição que estamos a falar, de basicamente chegar ali e deixar as pessoas a morrer. Portanto, é disso que falamos quando falamos desta grande fome, era de chegar àquela gente e tirar toda a comida, e as pessoas ficavam lá a morrer. Continuando em coisas que se passaram há um século, há um século também apareceu o fascismo.
É verdade.
E o Jaime Nogueira Pinto tem aqui algo pra recordar isso.
Ora bem, há um século exatamente, vai agora fazer no dia 28 de outubro, vai fazer exatamente os 100 anos da marcha sobre Roma e da chegada de Mussolini, chamado pelo rei Vittorio Emanuel, para constituir governo. E como eu acho que em Portugal, e um bocadinho no resto do mundo, o fascismo aparece como uma coisa mais ou menos insultuosa. Aliás, havia um escritor fascista francês, que era o Maurice Bardèche, que dizia: "Somos sempre o fascista de alguém". Portanto, a gente mesmo vê dentro, mesmo na própria esquerda, as pessoas que se acusam naquela altura, por exemplo, em que chamavam os soviéticos, sociais-fascistas.
O MRP até tinha uma declinação que é mais longe, havia os sociais-fascistas e os neo-sociais-fascistas.
Neo-sociais-fascistas. Ora bem, este livro é um livro interessante, eu penso que neste centenário vão aparecer bastantes coisas
Porque essencialmente o que é-
Diga lá, não disse o nome, como é que se chama?
"La Costruzione dello Stato Nuovo: scritti e discorsi di Benito Mussolini". Isto é uma antologia de discursos e de escritos do Mussolini. Mussolini, aliás, era um personagem muito interessante, porque é um homem que vem de esquerda, vem mesmo da extrema esquerda, socialista, com um pai socialista, daqueles socialistas à antiga, muito anticlerical e uma mãe católica e religiosa, professora primária. E ele tem, de facto, aquela cultura dos militantes socialistas daquela época, que era uma cultura grande. Era um homem de cultura. Aliás, escrevia, falava e lia quatro ou cinco línguas e os seus textos teóricos são bastante bons. Esta antologia de discursos é uma série. É possível ver que o fascismo chega ao poder num quadro constitucional. A Marcha sobre Roma é uma espécie de golpe de Estado, mas que é aceito pelo poder. Portanto, o fascismo negoceia com a monarquia, com a Igreja Católica, com a indústria, etc. Negoceia com todos os poderes, com as próprias Forças Armadas. É esta fase da instauração e aqui estão os princípios. No fundo, é uma espécie de socialismo nacional e revolucionário, que era o que era no princípio. Como está no centenário e vai ser uma questão bastante discutida, por acaso trouxeram-me este livro agora de Itália e achei interessante lembrar e recomendar.
Continuamos há 100 anos, mas agora para pensamentos mais filosóficos, José Megal.
Sim, é um livro de um historiador da cultura, filósofo alemão, Wolfram Eilenberger, "O Tempo dos Mágicos". Tem uma muito boa tradução em português e analisa o período da República de Weimar entre 19 e 29, portanto, fim da Primeira Guerra Mundial e consolidação do hitlerismo na fase inicial. Ele analisa, em particular, os trajetos biográficos de Ernst Cassirer, Walter Benjamin, de Wittgenstein e também de Martin Heidegger.
Heidegger seria o único desses que acabaria por se ligar de alguma forma ao nacional-socialismo.
De alguma forma, espiritual forte.
Forte, sim. Aliás, uma relação estranha, porque ele também tinha uma relação com a Arendt.
Sim, era uma relação sentimental.
Mas que depois perdurou, depois da guerra.
Sim, há muito hoje escrito sobre isso e tem sido publicada a própria correspondência entre ambos. Mas este livro também faz o estudo à Áustria com o caso Wittgenstein, Alemanha, Benjamin, Cassirer, Heidegger, e depois a relação desses com Londres e com os Estados Unidos, visto que alguns deles acabaram depois exilando-se na Suíça.
E tem Santa Clara, por fora.
Estados Unidos. E portanto, o que este autor vai buscar numa história cultural muito bem feita, é uma comparação de vidas e de trajetos biográficos inserida em todo este contexto nacional alemão, austríaco e ocidental, inglês e americano, apanhando bem o que esteve em jogo neste intenso período da vida internacional e a sua correspondente no campo cultural, no campo das reflexões filosóficas. É uma tradição muito boa da cultura alemã contemporânea, a da produção destes livros de história cultural de qualidade. Por exemplo, o livro sobre Humboldt é um caso desses. As biografias de Lutero são outro caso, que nem todos às vezes acabam por ser conhecidos em português, porque as traduções são poucas, mas que temos a sorte de poder ler em português numa belíssima tradução e numa edição das edições 70.
Continuando a falar de filosofia, decadência.
Decadência.
Não em português, em francês.
Não, em francês. Este é "Le Retour de la Décadence", é de Pierre-André Taguieff, que é um ensaísta bastante interessante. É mais um ensaísta do que é um pensador, mas tem feito muitas reflexões. Este livro, aliás, saiu este ano. Este tema da decadência é um tema muito recorrente no pensamento europeu. Aliás, o Nietzsche talvez seja, para além do famoso Gibbon e do Montesquieu, que já no século XVIII se viravam muito para a decadência do Império Romano, porque era um tema que está muito ligado. Este livro do Taguieff é a decadência neste momento, portanto, no fundo, é muito a questão de toda esta ofensiva, há quem lhe chame "wokeismo", há quem lhe chame a questão da filosofia da identidade de género, etc. Mas é uma análise de tudo isso e de um certo trauma que isso traz às sociedades europeias e americanas. A ideia de que é um movimento Que tem muitas raízes neste pós-marxismo vindo da América. De certo modo, a ideia de Taguieff, que é a ideia de muita gente desta linha, é que estes pós-marxistas colonizaram algumas universidades americanas e depois esse movimento veio via Estados Unidos e o Reino Unido também, e está a chegar à Europa, onde encontra alguma resistência. E na Europa é mais aquela problemática, muito francesa também, da questão da identidade nacional, da questão da imigração, da imigração culturalmente diferente da matriz cristã. Portanto, é um livro interessante, que chama a atenção, chama-se "Penser l'époque post-progressiste". É um livro, de certo modo, enfermado por um certo pensamento ou de certo pessimismo antropológico e uma consideração dos riscos para a cultura e para a civilização deste momento.
Bem, da filosofia pro ensaísmo, do ensaísmo para um ensaísmo quase político e agora doméstico. Eu trago aqui um livro que acabou de ser publicado, "A Bolha: uma direita antipopulista". É um livro de Ricardo Márcio. Ricardo Márcio é um dos poucos acadêmicos que em Portugal se tem debruçado sobre a direita. Ele tem ensaios sobre a história da direita logo no pós 25 de abril, portanto, nesse período. Recentemente, tem uma obra sobre o nascimento do CHEGA, o fenômeno do CHEGA, como é que ele apareceu. E agora ele vem nos falar de quê? Vem nos falar, no fundo, de uma geração intelectual, de pessoas que começaram, sobretudo, ligados ao jornalismo, e depois à blogosfera, e que estiveram próximas, em alguns casos, do CDS, noutros casos do PSD. Passaram inicialmente pelo "Independente", a seguir pela uma revista muito efêmera chamada "Atlântico", e hoje escrevem em sítios variados, nomeadamente aqui no "Observador", mas também no "Expresso", também no "Público". Estou a falar de quem? Estou a falar de pessoas como, numa vertente mais jornalística, o João Miguel Tavares, numa vertente mais intelectual, o Pedro Mexia, o Pedro Lomba, numa vertente mais política, o Miguel Morgado, o Rui Ramos. Todas estas pessoas que procuraram refletir sobre o papel da direita em Portugal e criar um espaço intelectual para aí, mas, segundo Ricardo Márcio, numa forma de pensar diferente do populismo do CHEGA, longe do populismo do CHEGA. É um livro que em muitos aspectos é quase uma reportagem, não é um ensaio no sentido de se fazer grandes conclusões sobre o espaço desta direita. Talvez a sua expressão orgânica recente com mais destaque tenha sido uma coisa chamada Movimento 57. 57 invocava, pra quem não se recorda, o momento da criação da Aliança Democrática, que no fundo é o sonho de uma direita unida, a direita que foi unida por Sá Carneiro, Francisco Louçã e Rui Rio. É um livro que eu acho bastante interessante e que nos permite conhecer um conjunto de pessoas, muitas delas que andaram muito próximas, amigos, ajudavam-se uns com os outros, depois de vez em quando zangavam-se também. Mas que tem um grau de densidade intelectual diferente apenas do mero combate político. "A Bolha". Vamos passar agora para um domínio algo diferente e talvez para memórias. Eu gosto imenso de memórias e há aqui umas memórias de Jorge Calado, que o Jaime Gama nos trouxe.
Este livro que acaba de ser editado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, " Mocidade Portuguesa". Jorge Calado é muito conhecido, é um distintíssimo professor do Técnico, que depois também derivou pra reflexão cultural, pra gestão cultural, pra fotografia, pra crítica de arte, de música. Ganhou o prêmio da Universidade de Lisboa, tem um talento firmado em todas essas áreas e abalançou-se a escrever um livro de memórias, as suas memórias de infância, o Pedro Nunes, depois do Técnico, Oxford. E com uma estrutura de memórias, autobiografia muitíssimo interessante, porque analisa lugares, analisa relações familiares, analisa colegas, analisa a vizinhança e fá-lo com extrema sensibilidade. Há muitos livros sobre Lisboa e muitos livros memorialísticos que têm Lisboa como pano de fundo e o país. Porventura, há uma referência grande que é o "Século Passado", de Jorge Silva Melo, aliás, vizinho, na Artilharia Um, de Jorge Calado. Este livro constitui um testemunho bastante importante do ponto de vista pessoal e um livro indispensável para compreender esta geração e o seu trajeto.
Eu trago um outro livro, que não sendo um livro de memórias É um livro que eu achei muito interessante. Aliás, é uma reedição, o livro chama-se "Um Almoço de Negócios em Sintra", Gerrit Cronjé. Este livro já tinha sido editado nos anos 90, salvo erro, foi agora reeditado pela Guerra e Paz. Quem é este senhor? Este senhor é um escritor holandês que se mudou para Portugal, primeiro para uma povoação em Trás-os-Montes, depois para uma povoação na Beira Alta, e que faz aquilo que eu acho sempre bastante fascinante, que é contar o que é o choque de um estrangeiro que vem viver a Portugal, e o que ele vai descobrindo entre o fascínio e o horror, porque há sempre um lado de fascínio e um lado de horror, e que tem alguns apanhados particularmente interessantes. Quer dizer, este almoço de negócios, esse episódio do almoço de negócios em Sintra, é uma descrição que eu diria quase perfeita do que é um almoço de negócios em Portugal. Portanto, como ele diz: "Um almoço de negócios em Portugal é uma comuzaina de cinco pratos diariamente repetida, que precede outra quase idêntica, essa das 19h às 23h." Aqui eu já me virei a pintar riso.
Já foi outros tempos.
Isto já tem algum tempo, já não é tão intenso.
Já não é assim. Sobretudo que não se fala de negócios. Coisa mais estranha.
Em que o último prato apresenta o atrativo de com ele nos barrer totalmente a ideia do gênero de negócios que nos levava a reunir.
Normalmente, nos almoços de negócios nunca se falava de negócios, senão no fim, a perguntar uma pessoa à outra: "Quem é que na tua coisa trata de não sei o quê?"
Mas isto é apenas um aspecto. Há aqui coisas muito interessantes sobre escrituras, sobre compra e venda de casas, sobre obras. E é uma visão muito fresca, aqui não é cinto nenhum. Ele apaixonou-se por Portugal, tanto que viveu cá. E por isso é muito interessante, muito engraçado e dá-nos talvez passagem para um outro livro, também de alguma forma, novamente sobre Lisboa, que é "Lisboa Vista por Dentro."
Este é mais Lisboa, Lisboa do que o livro de Jorge Calado. É também de outro engenheiro, não professor do técnico, mas engenheiro civil do técnico e durante muitos anos técnico do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, onde apoiou os gabinetes de recuperação dos bairros históricos. João Appleton, depois consultor de várias empresas na área da patologia de edifícios e da reabilitação em Lisboa, é um profundo conhecedor da cidade de Lisboa. Como engenheiro, como engenheiro civil, portanto, alguém que acompanha quase desde a arqueologia, quase desde a geologia e depois que também domina a história da edificação.
Agora pergunto, eu que não conheço o livro, porque apanha desde, provavelmente, a Gaiola Pombalina.
O livro é uma excursão sobre a cidade de Lisboa, em que são visitados, quase também num percurso autobiográfico como cientista e como técnico de reabilitação. Começa na Mouraria, Alfama e o Castelo, Baixa-Chiado.
Imensos da gaiola.
Baixa a São Paulo, Bairro Alto, Estrela e Lapa, Avenida Liberdade e suas margens, Avenida Novas, Almirante Reis e Alvalade. O João Appleton é uma pessoa muito sensível e que conseguiu transpor esse seu conhecimento de engenheiro civil para uma reflexão artística e para um grande amor à cidade de Lisboa. Há muitos livros sobre Lisboa hoje, o clássico do José Augusto França, os livros muito conhecidos de grandes autores. Este livro é prefaciado também por uma especialista em Lisboa, que é a professora Raquel Henriques da Silva, especialista na história do urbanismo, das exposições públicas da Câmara e das autoridades sobre o espaço municipal ao longo da história, o que também tem muito interesse para estudar a cidade de Lisboa. Portanto, um grande livro, de um grande engenheiro, de um engenheiro com grande cultura e quis aqui deixar um testemunho autobiográfico que eu penso que merece também ser lido, porque quem gosta de Lisboa vai seguramente gostar muito deste livro.
É seguramente o meu caso. Antes de irmos para uma área mais de romances e de ficção, eu ainda queria deixar aqui, enfim, já sabem que eu quase sempre trago alguma coisa editada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e desta vez trouxe dois. Não trouxe um, trouxe dois. Um é uma reedição, mas uma reedição, não uma mera reedição, uma reedição com uma parte nova sobre a economia portuguesa, do Luciano Amaral. As últimas décadas. Eu já tinha lido a primeira edição deste livro, este é um dos primeiros ensaios da fundação. Eu não sei que número é que foi, mas penso que está entre os primeiros 10 da fundação, quando isto saiu pela primeira vez. E eu li-o na altura, era um livro pessimista. É um livro que tinha sido escrito meses, praticamente meses antes da chegada da Troika. Era um livro pessimista sobre a economia portuguesa e este livro não se tornou muito otimista, mas eu acho que continua a ser muito realista. Faz-nos um retrato Do que mudou, do que não mudou, das surpresas. Tem aqui uma definição engraçada sobre a última década e aquilo que mudou na última década. Ele dizia que uma das hipóteses era nós assistirmos em Portugal a um milagre à irlandesa, se viesse muito capital. Ele diz que, de facto, veio bastante capital, mas não foi um milagre à irlandesa, foi mais um milagre à marroquina ou à tunisina, com o turismo. E naturalmente tem problemas, designadamente no que respeita à produtividade, à riqueza. É um livro que não é só pra economistas, é um livro sobre Portugal. E depois há outro livro que a mim me apaixonou particularmente, "Galiza, Terra-Irmã de Portugal", de Ramón Vilas. Não sei se não será o primeiro autor não português a ser publicado nesta coleção de ensaios. É um historiador espanhol que nos fala, de facto, de uma terra-irmã. A minha paixão particular por isto é porque eu nos últimos anos tenho feito várias vezes os caminhos de Santiago e portanto percorrido a pé partes da Galiza e aquelas partes que não se veem se nós formos de automóvel. E este livro ajuda a perceber onde é que a Galiza se funde com Portugal no seu início, onde é que se separa a sua relação com Castela e a Espanha e Leão também, a sua identidade, o seu autogoverno, aquilo que neste momento lá corre bem. Um livro pequenino, 100 páginas, mas bastante interessante. E agora, pro fim, talvez coisas mais propriamente de romance.
Ora bem, eu também um bocadinho, porque sei que aqui os meus companheiros normalmente não gostam muito da ficção, portanto procurei trazer aqui mais alguma ficção. Bom, este primeiro é um livro que penso que está a ser agora muito falado. É um livro de um grande escritor.
Um clássico.
Um dos maiores escritores franceses. É um inédito do Celine. De um grande clássico, Louis-Ferdinand Celine. Louis-Ferdinand Celine foi revelado por um romance escrito e publicado em 1932, "Voyage au bout de la nuit", que foi um romance que na altura foi um bocadinho como o "Ulisses" do Joyce. Foi um romance revolucionário. Quer dizer, as técnicas de narrativa, tudo isso foram consideradas na altura revolucionárias. E o Celine, entretanto, que na altura até foi muito elogiado, até porque o "Voyage au bout de la nuit" começava com ele que tinha sido combatente na Grande Guerra, tinha sido ferido, e portanto fazia uma descrição bastante brutal da Grande Guerra e de certo modo o romance até parecia como um romance pacifista, digamos. Portanto, a esquerda gostou muito. Também alguns autores católicos também gostaram muito do "Voyage au bout de la nuit". Quer dizer, teve uma espécie de recepção. Mais tarde, Celine enveredou, ainda nos anos 30, antes da guerra, por uma linha muito antissemita, publicou vários panfletos antissemitas e de uma grande brutalidade, uma grande violência. Depois, durante a ocupação, foi bastante bem visto por alguns, mas nem por todos os alemães. Por exemplo, o Ernst Jünger achou tudo aquilo um bocado paranoico e registou. Mas ele no fim, em 44, foi para o exílio. Aliás, já falamos aqui uma vez, escreveu aquelas famosas "Memórias de um sem nome", que é uma coisa muito divertida da viagem dos colaboracionistas franceses pra Sigmaringen. E mais tarde, esteve na Dinamarca, depois voltou pra França já com uma anistia. Ora bem, e quando ele fugiu, e é a questão de onde aparece este livro, "Guerre", que foi agora editado e está sendo um grande best-seller na França. Uma série de manuscritos dele desapareceram. Ele diz que lhe foram roubados por um judeu, que era contabilista dele, e que os manuscritos desapareceram e reapareceram há relativamente pouco tempo. Estão agora a ser reeditados, eram cerca de seis mil páginas do original e este romance "Guerre" é muito Celineano. É um romance curto, passado exatamente na Grande Guerra e que tem aquele lado todo do Celine, que é sempre um lado no limite do sórdido, no limite da morte e da vida. E se não fosse ele escrever tão bem, de facto. É um bocadinho como um escritor cubano que eu gosto muito, que é o Pedro Juan Gutiérrez. Que são escritores que se não fossem escreverem tão bem, de facto os livros eram pura pornografia ou pura porcaria, quase. Mas de facto é um livro muito interessante e que se lê muito bem.
Já me garanto mais dois romances.
Ora bem, também França, Celine, e agora temos aqui aquele que pra mim é a grande, a única revelação do romance francês dos últimos 30 ou 40 anos, que é o Michel Houellebecq, que agora já está aqui traduzido em português, o seu último romance, na Alfaguara. "Aniquilação." O Houellebecq, de facto, pra mim e penso que pra muita gente, é de facto um escritor extraordinário, com uma capacidade narrativa. Também às vezes tem um bocadinho coisas quase delirantes, mas é muitíssimo bom como narrativa. E é, sobretudo, um grande retratista, é um grande contador da atualidade, do mundo atual, dos seus problemas, das suas taras. E também, ao mesmo tempo, não é puramente um pessimista. Ele tem, de facto, no fim, sempre uma certa Eu, aliás, não acho, ao contrário de muita gente que considerou o "Soumission", que é um livro em que ele fala muito da questão do Islão e um certo domínio até do Islão. Eu acho que isso, de certo modo, é quase um livro secundário. Mas este é, de facto, um livro muito interessante. É passado um bocadinho numa França atual, com personagens bastante tirados desse tipo de personagens, quer políticos, quer sociais, de uma certa elite, com os seus costumes, com as suas derivas, com tudo. É um romance grande em todos os aspectos, é um grande romance e é um romance grande, mas que eu acho que é bastante bom para férias. E também, já agora, tenho aqui um outro escritor de que eu gosto muito, o Arturo Pérez-Reverte, que é um romancista.
Esse autor mesmo de best-sellers.
É um autor de best-sellers. Tem um personagem que eu gosto muito, não sei se vocês conhecem, o Falcó. Aquela trilogia do Falcó, passada na altura da Guerra Civil. E este romance tem a característica de ser um romance imaginado na famosíssima Batalha do Ebro, que é uma batalha de 38, da Guerra Civil de Espanha. E ele seguiu uma técnica muito interessante. Ele não faz uma cópia da realidade, quer dizer, este fundo é a batalha no Ebro, com uma certa geografia da Batalha do Ebro, mas os personagens são inventados. Não é aquele romance em que a gente tem uns personagens meios reais, meios inventados. Não, os personagens, de certo modo, é inventado. É uma espécie de microguerras. Ele vai dando a descrição de personagens do lado nacionalista e personagens do lado republicano, vai os pondo em confronto e vai contando a história e o destino deles. E é um romance que se lê muito bem. É um romance, como há bocadinho estava a dizer, é um romance pesado pra praia, como Zé Manel aqui dizia. É um romance pra praia, mas se tiver capacidade. Devia haver daqueles leitores antigos que havia dos conventos, para poder distribuir.
Essa ideia é sua.
Mas que vale a pena.
Para o fim ficou, não sei se devo chamar uma joia, um bombom, porque é um livro delicioso que trouxe aqui o Jaime Gama.
É um livro sobre um fotógrafo da Ilha de São Miguel.
Fotógrafo. Ninguém ouviu falar?
Ninguém ouviu falar, mas eu fui ver o livro.
É desconhecido, mas vai ser muito projetado. São fotografias tiradas entre 63 e 75 e está muito bem editado por especialistas universitários, Maria Manuel Albergaria, Margarida Medeiros e João Leal. Laudalino da Ponte Pacheco. É um homem que nasceu em 1921, morreu em 1998 e foi fotógrafo amador e profissional, porque ele tinha cinco irmãos, um pouco doente, não foi trabalhador agrícola. Os pais eram feitores de uma grande casa agrícola, não foi trabalhador e foi desde cedo vigilante numa fábrica de tabaco. E em 1954, um irmão de Montreal, no Canadá, oferece-lhe uma máquina fotográfica. E ele transforma-se num fotógrafo. Primeiro, para tirar as fotografias para a imigração, para os bilhetes de identidade, para o passaporte, e depois começa a fazer reportagens dos casamentos, das coroações, das matanças de porco, das festas, dos enterros, dos batizados, dos nascimentos, e começa a ser um grande repórter. E hoje é um grande espólio que está na Santa Casa da Misericórdia desta freguesia da Maia, que é na costa norte da Ilha de São Miguel, e é um patrimônio admirável. Estas fotografias são muito boas, porque são fotografias que captam a evolução dessa freguesia, uma freguesia que tem uma componente rural, piscatória, uma componente agrícola, de pecuária, de indústrias e serviços. E está aqui a história da evolução dessa população com a imigração, com as vicissitudes das más condições de vida.
Um microcosmos de São Miguel.
Um microcosmos e que é capturado com uma riqueza fabulosa neste fotógrafo realista, espontâneo, sem escolas de fotografia por detrás e que deixa um patrimônio único. E eu estou certo que este livro, estudado por quem aprecie boa fotografia, é o testemunho de um espólio que está ali guardado e que é fundamental para a compreensão da nossa vida, digamos, desde que ele recebeu a máquina fotográfica, portanto, desde 54 até ao ano em que morreu. Portanto, Laudalino da Ponte Pacheco, o fotógrafo da Maia, na Ilha de São Miguel, nos Açores.
E pronto, terminamos. Doze e meia de sugestões para estas férias, umas mais próprias para ler na praia, outras nem por isso, mas mesmo assim todas elas interessantes. O "Conversas da Quinta Estrada" regressa dentro de uma semana.