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Olá, eu sou José Manuel Fernandes. Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio online e também em FM, 98.7 na Grande Lisboa, 98.4 no Grande Porto. Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Semana passada tivemos aqui o bispo de Pemba, Dom Luís, e estivemos a falar sobre a situação no norte de Moçambique. Foi uma conversa em que falámos sobretudo do que se passa naquela região. Recordámos a violência extrema na província de Cabo Delgado, as vagas de refugiados que estão a vir de norte para sul, a situação muito difícil que está a ser testemunhada por aquele bispo e a forma como ele tem vindo a procurar chamar a atenção da comunidade internacional e também toda a dificuldade que está a ser vivida pelo povo naquela parte do território moçambicano. No entanto, ficaram muitas pontas soltas, muitos temas em aberto, nomeadamente procurar compreender melhor o que ali se passa. Sendo que é uma região do Moçambique onde há alguns anos foram descobertos importantes recursos naturais, designadamente gás, onde houve uma expectativa grande de que Moçambique pudesse tornar-se um país com mais riqueza. É evidente que isso ainda não se materializou. Moçambique continua a ser um país extremamente pobre e na região não há nenhuma tradução disso para quem lá vive. Em zonas onde se cruzam diferentes tensões. As tensões, por um lado, religiosas, porque é uma zona de fronteira entre o cristianismo e o Islão, um Islão agressivo que vem do norte. E também há as velhas tensões das várias linhagens tribais que em África estão muitas vezes presentes e continuam presentes e nunca desapareceram completamente. Muitas vezes interrogamo-nos sobre aquilo que realmente está na origem destes problemas, sendo que, no caso de Moçambique, houve durante muitos anos a agravar tudo isso, não só uma prolongada guerra civil, como a seguir à guerra civil, um regime político que não estabilizou completamente, no sentido em que tem vindo a ser abalado nos últimos anos por casos de corrupção, que inclusivamente chegaram a Washington e aos Estados Unidos. Tudo isso nos leva a regressar hoje ao tema de Moçambique e ao tema do que se passa na província de Cabo Delgado. Jaime Gama, muitas vezes nós falamos do que aqui se passa e apontamos unicamente o fator jihadista. É uma explicação completa ou não? Semana passada pareceu-me notar, quando falámos disso, que o Dom Luís não quis, pelo menos de uma forma muito explícita, tirar toda a responsabilidade do que está a passar para um jihad, para o Daesh, para os grupos que vinham do norte e que viriam da Somália e que viriam de outras regiões e que teriam influência, inclusivamente o Daesh da Nigéria e do Congo.
A situação no norte de Moçambique é uma situação muito complicada, porque tem atrás de si um vasto conjunto de ligações, de elos, de tradições que sempre a tornaram num foco de tensões potenciais enormes. Seja para os árabes, que ali atuaram chegados de norte pelas ilhas, baseados também no suaíli como língua veicular para fazer comércio, para fazer tráfico de escravos, para ter algum controle. Quer dos portugueses, quando se estabelecem em Moçambique, basicamente de norte, até começando a norte de Moçambique e depois descendo para a ilha de Moçambique e fazendo da ilha de Moçambique o seu centro de irradiação para toda aquela zona. Quer até dos próprios alemães, quando se estabelecem na África Oriental alemã. Essa zona é sempre uma zona muitíssimo complexa. Isto para não falarmos nos movimentos dos povos africanos que também tiveram incidência na zona. Os próprios grupos Zulu chegaram à zona, até chegaram à zona depois dos árabes e dos portugueses terem chegado a essa zona. Ainda há vestígios de Angones em Cabo Delgado. E isso revela de que maneira esse mundo é complexo. E as confissões religiosas também, obviamente, acompanharam essas progressões e essas movimentações Em norte de Moçambique há um grupo, que é o grupo costeiro árabe swahili, que consegue estabelecer uma relação muito importante de conexão com um povo que está mais perto do Niassa, que são os Ajauas. E esses Ajauas representam um pouco naquela zona o que representam os Ovimbundus em Angola. São caçadores, são comerciantes de marfim e são comerciantes de escravos, e são os grandes aliados dos árabes para esse tipo de negócios na zona. São, portanto, grupos étnicos rivais. Os Macuas que ali estavam presentes têm também a sua postura e os Makonde, que são um povo transfronteiriço, a parte maior está na Tanzânia, é um povo de planalto, é um povo agrícola, é um povo onde depois se estabelecem as culturas da borracha, têm um sentido forte de resistência a todos esses outros povos vizinhos e também aos povos vindos de fora. E religiosamente acaba por se dividir: uma parte é cristã, outra parte é muçulmana. Porque é que os Makonde resistem? Resistem porque não querem ser escravizados, mas, por outro lado, também quando descem às planícies, às feiras e aos mercados e vêm até à costa, não deixam de praticar algumas modalidades de captura e de esclavagismo, e sobretudo captura de mulheres, o que os torna também, na zona, um povo que se é certo que receia os outros, também é receado pelos outros. O islão, quando ali aparece, é um islão costeiro, é um islão ligeiro, é um islão veicular.
Portanto, é um islão mais comercial. Não é um islão de jihad.
Não, é um islão até que tende a pactuar com os poderes, sejam eles quais forem, sejam os poderes portugueses, sejam os poderes alemães, sejam depois até da independência os poderes da FRELIMO, porque a FRELIMO no seu início é muito anticatólica e faz uma política de quase supressão da Igreja Católica. Os islâmicos que têm uma confissão religiosa com menos património físico conseguem alhear-se um pouco dessa querela, mas mais à frente, quando a Igreja Católica negoceia uma reconciliação com a FRELIMO, os islâmicos entram em polarização e, sobretudo, quando no islão surgem estes movimentos mais radicais, porque não podemos também deixar de ver no que se está a passar no norte de Moçambique uma tensão entre correntes islâmicas. Os imãs tradicionais sempre tenderam a negociar e a estar em bons modos de vida com os poderes estabelecidos. Estes grupos são grupos mais radicais, mais jovens, foram formados para outras zonas, portanto, também há uma polaridade entre os grupos islâmicos. Alguns dos massacres que têm sido feitos no norte de Moçambique por estes grupos mais radicais, são massacres contra os grupos islâmicos mais moderados, cujos imãs aceitaram fazer milícias de autodefesa articulados com o poder governamental. Portanto, temos que ver que estas situações são situações que sempre têm que ser analisadas ao detalhe e situações que merecem ser aprofundadas em termos de informações. Por outro lado, não podemos ignorar que por vicissitudes históricas e até geográficas, a FRELIMO sempre se ligou muito aos Makonde. A FRELIMO tem a sua origem no sul, nos Tsongas, e a sua raiz no norte é pequena. Liga-se aos Makonde. Essa ligação perdura. E perdura até à atualidade. Há uma elite Makonde no seio da FRELIMO, tinha uma forte componente no segmento militar, passou a ter uma forte componente no setor dos negócios e uma forte componente no governo de todo o norte de Moçambique, o que obviamente também dá terreno a que os outros grupos étnicos excluídos, essas correntes que queiram aproveitar esse abandono do norte, a ideia de que todos os negócios que chegam são feitos com gente do sul e com estrangeiros, tenha um campo propício para proliferar. Isso é o que acontece. Portanto, há aqui uma situação que carece de uma análise minuciosa. Por exemplo, na Primeira Guerra Mundial, quer os Makonde, quer os Ajauas, foram muito penetráveis à propaganda alemã e foram grandes aliados das colunas e das infiltrações do general alemão Lettow-Vorbeck durante um período imenso. Depois, as condutas, obviamente, têm variado. As tensões entre esses grupos também persistem. Dos próprios povos costeiros que habitam as ilhas e a orla litoral do norte de Moçambique, não se vê muito representado nessa subjugação dos Macondes para a governação do norte de Moçambique, como se estivesse perante uma espécie de nova companhia majestática no norte de Moçambique, agora a cargo dos Macondes, mas ao serviço, como é explicado localmente por esses argumentadores, ao serviço do poder de Maputo. Portanto, há aqui um terreno fértil em que para analisar bem, se tem que ir um pouco atrás da violência que está no terreno para entender as condições que levaram a que uma situação que estava apaziguada renascesse e se reorientasse com este tipo de clivagens. Quem quiser ter uma visão exclusivamente militar da situação não vai muito longe. Todos os poderes instituídos em Maputo ou com os olhos de Maputo, mesmo quando essa era a posição dos portugueses, tendem a deslocar a capital de Moçambique para Nampula, mas não mais para norte, e depois tendem a gerir uma espécie de vazio estratégico de Nampula até à fronteira, que é para ser controlado de uma forma vaga, de uma forma longínqua, mas não de uma forma muito efetiva, dada a impossibilidade de estabelecer alianças num terreno que é muito propício a estas clivagens e a estes operadores.
Muito complicado. Jaime Filipinto, este puzzle, este embrincado que o José Gamão nos acaba de descrever, coloca problemas complicadíssimos ao governo de Maputo e à FRELIMO. A FRELIMO não tem aqui uma situação que possa resolver com facilidade.
Moçambique teve sempre um problema, também indo atrás, sempre complicado na perspectiva da sua força militar, porque quando foram os acordos de paz de Roma, previam um exército formado pelas duas partes que então assinaram esses acordos de paz, ou seja, pela FRELIMO e pela RENAMO, previam um exército de 30 mil homens, que seria composto igualmente por contingentes de ambas as partes. Ora, logo no início não foi possível arranjar esses 30 mil homens, porque não houve, nem do lado da FRELIMO, nem do lado da RENAMO, um número suficiente de elementos que quisessem ficar nas Forças Armadas.
Mas não houve porque não queriam, não havia pagamento.
Não queriam. Não havia pessoas, não havia voluntários, não quiseram, as pessoas estavam fartas. Não sei se por estarem fartas de guerras, uns e outros. Não quiseram constituir. Portanto, o exército ficou desde logo diminuído em relação a esses números. E depois, também penso que houve ali, exatamente como acontece muitas vezes depois de longas guerras, houve um certo frenesi da paz e, portanto, as Forças Armadas de Moçambique estiveram sempre nesse aspeto subequipadas, digamos assim. Depois também há um outro problema aqui neste momento. Desde 2012, que a paz que tinha sido assinada em Roma e que tinha funcionado durante muitos anos, o presidente Chakwama, presidente da RENAMO, sentiu-se de certo modo maltratado, marginalizado e como se lembrarão, decidiu voltar, não diremos primeiro, não foi inicialmente um voltar à guerrilha, mas foi um voltar pro mato. E depois ali no centro de Moçambique, começaram a reaparecer algumas ações de guerrilha e alguns ataques e uma certa interrupção, porque Moçambique tem sempre um problema muito complicado em termos geopolítico-geográficos, que é um país que por aquela sua grande extensão, é muito refém da sua geografia. Tem grandes cursos d'água, que são perpendiculares ao oceano, e tem praticamente as comunicações norte-sul, também por causa do sistema orográfico, que são bastante fáceis de interromper. Moçambique, nesse aspecto, tem ali três ou quatro pontos críticos onde atuando se corta o país. E Chakwama voltou a fazer isso durante 2012, 2013, 2014, e o presidente Nyusi até teve nesse aspecto uma coragem política, que foi ele próprio que foi falar com ele, onde havia aquelas coisas, quem fala com quem, e conseguiram de facto um acordo. E houve outra vez um cessar-fogo. Depois da morte de Lakama, com um problema ligado a um coma diabético. Depois dessa morte de Lakama, a sucessão foi bastante contestada. E o atual líder, Ossufo Momade, foi bastante contestado por uma ala do partido, o partido dos militares, dos antigos guerrilheiros, que se queixa de que não foram bem tratados, que não foram integrados nas Forças armadas, que não foram integrados nas forças de segurança, na inteligência militar, nessas áreas todas. Portanto, paralelamente a este problema no norte, há também esta situação. Depois, o país apostou tudo nestas grandes reservas de gás natural. Ora, o gás natural encontra-se precisamente na área onde nos últimos três anos têm vindo a ocorrer todos estes atos de terrorismo e de agressão, etc. Isso também tem levado as companhias não a desistir, mas a andarem mais devagar. Até porque embora as companhias petrolíferas e de energia estejam muito habituadas a atuar neste tipo de environment, também pensam duas vezes os riscos e os custos do ponto de vista de seguros, do ponto de vista da própria proteção do seu pessoal, etc, que implica uma situação deste tipo. Portanto, não é nada fácil e eu penso que será bastante difícil. Depois, a FRELIMO não reagiu muito bem à ideia de pedir apoio externo e isso também, de certo modo, se percebe. É uma cultura política de uma certa autossuficiência e de um certo orgulho nacional e reagiu bastante a isso.
É uma situação que é muito difícil, porque não é fácil tratar.
Até porque na zona não há tropas.
É uma situação que dificilmente se resolve.
Não há tropas. Além de que essas intervenções estrangeiras também têm sempre um problema: é que normalmente os terroristas matam soldados.
Nós vamos discutir isso agora na segunda parte do programa. Interrompemos agora para o nosso intervalo. Regressamos dentro de alguns minutos. Estamos de regresso ao "Conversas à Quinta" e estava precisamente a falar sobre os cenários de uma possível intervenção internacional. Jaime Nogueira Pinto estava a especular sobre essa hipótese, mas num cenário em que temos um terreno muito dividido, reticulado, por um lado, étnico, por outro lado, religioso, complexo, em que temos uma presença no terreno do próprio governo, que é difícil, em que temos os interesses das petrolíferas também ao barulho. Uma intervenção internacional, sobretudo no quadro atual, parece algo não só arriscado, como difícil, como ainda por cima, habitualmente, estas coisas fazem-se lideradas pela antiga potência colonial, que neste caso seria Portugal. E Portugal, a última coisa que me parece com vontade de fazer é ir para o norte de Moçambique. Não lhe parece, Jaime Nogueira Pinto?
Claro que sim, mas não sei qual seria, por exemplo, a reação da opinião pública. Parece-me, nesse aspeto, difícil. Uma coisa será, por exemplo, envolver alguns conselheiros militares, mas normalmente nestas coisas os conselheiros, acaba por quase toda a gente ter. O problema é, de facto, o envolvimento direto de forças de chamada botas no chão. É evidente que essa questão do envolvimento da ex-potência colonial militarmente. A francofonia não é outra coisa. Na antiga África francófona, na maior parte dos casos os franceses nunca deixaram, ficaram sempre. Até porque bem sei que foi uma relação diferente, foi uma saída voluntária, negociada, não foi intermediada de uma guerra longa, que foi o nosso caso. Mas, modo geral, vê-se hoje que essas coisas estão um bocado ultrapassadas. Agora, o problema que eu vejo é as consequências políticas cá. Hoje em dia há uma grande relutância em utilização, na maior parte dos países europeus, tirando talvez a Inglaterra e a França. A Inglaterra por ter uma tradição militar muito especial e muito voluntária. E a França porque tem elementos como a Legião Estrangeira. A maior parte dos outros países europeus é muito difícil as opiniões públicas aceitarem baixas, sem ser em termos de defesa do próprio território ou quando muito resgate de cidadãos nacionais em perigo. Fora disso, a aceitação de baixas ou do risco de baixas é bastante difícil. Eu sei que nós temos estado em várias missões internacionais, inclusive algumas com baixas, inclusive algumas como no Afeganistão, mas são coisas relativamente marginais e discretas. Agora, não sei, eu vejo muito difícil. Na região também não vejo fácil encontrar forças, porque embora os sul-africanos tenham voluntariado para fazer algo Não sei onde é que vão buscar essas tropas. E numa altura em que a África do Sul, por exemplo, está um bocadinho paranoica, e com algumas razões, porque a Covid está a ter uma incidência muito grande. É aquele país da região onde há uma maior incidência da Covid. É um país também muito dividido politicamente e de certo modo etnicamente. Não sei. Não vejo hoje o mundo tão fácil esse tipo de intervenções como era antes.
Já me parece. Nós na semana passada tivemos aqui o bispo de Pemba, para isso tivemos a colaboração do eurodeputado Paulo Rangel, que tem vindo a desempenhar um papel importante na sensibilização do Parlamento Europeu para esta situação. Outros líderes europeus também já manifestaram a sua preocupação, é o caso, por exemplo, do presidente Macron. No entanto, acha que a possibilidade de uma intervenção, de algum tipo de ativismo maior da comunidade internacional é um cenário possível, ou na realidade a situação em Cabo Delgado vai como outras situações, de resto noutras partes do mundo onde há situações parecidas, onde há situações em que ocorrem regularmente massacres. Estou a me recordar, por exemplo, do que se passa em algumas regiões do Congo, o que se passa no Boko Haram, na Nigéria, o que se passa noutras áreas também da Indonésia, não levam a que de repente a comunidade internacional mobilize forças especiais para mandar para lá, porque apesar de tudo, primeiro é preciso que os próprios governos peçam ajuda e depois que haja essa disponibilidade.
O governo de Moçambique, no princípio, não quis pedir ajuda, tentou recrutar as companhias mercenárias Wagner russas que estiveram no terreno e tiveram grandes dissabores militares. Depois houve mercenários sul-africanos e depois houve um pedido ao governo francês, inglês, americano e também, finalmente, à União Europeia. A União Europeia que me parece ter sido quem respondeu, respondeu de uma forma cautelosa, diz que está disposta a examinar, a elaborar um programa para desencorajar a violência. A expressão é "desencorajar a violência e o radicalismo em Cabo Delgado", com três componentes: uma componente da ajuda humanitária, uma componente de desenvolvimento para restaurar uma certa harmonia social e ir ao encontro das questões que muito afligem do desemprego jovem. E, por fim, também um programa de treino e de apoio logístico, mas nunca um programa de colocação de tropas no terreno. Isto também marcha a par de uma certa flutuação quanto ao posicionamento das petrolíferas, porque a norte-americana estava um bocado retraída, é certo que era a administração Trump, porque ia vir ao terreno também a presença de uma das estatais chinesas petrolíferas e as inibições que o governo americano tinha sobre isso. Depois também a China não devia ver com muito bons olhos a presença da companhia indiana nesses projetos. O atual presidente de Moçambique estudou na Índia e tem essa ligação. A África do Sul, a companhia petrolífera e energética da África do Sul está em grande turbulência com o processo de privatização, parece ter também desistido desses investimentos. E a África do Sul tem também o problema do que fazer ao antigo ministro das Finanças de Moçambique em matéria de extradição e quanto ao processo internacional, quanto ao processo que existe nos Estados Unidos, sobre esse caso do desaparecimento de dois bilhões para construir uns navios de patrulha costeira e de pesca que desapareceram, desapareceu o dinheiro. E, portanto, também enquanto não houver um esclarecimento desse grande problema financeiro internacional, Moçambique vai ter alguma dificuldade em gerir o enquadramento geral de todo este dossiê. Esse problema também paira sobre tudo isto. Portanto, a União Europeia dá o passo que é o de uma cenarização de programa. Tem elaboradas algumas linhas gerais, mas ainda não avançou mais do que isso, e penso que as negociações prosseguem. E vários governos europeus também já deixaram claro que não querem ter participações unilaterais diretas, querem diluir a sua participação no contexto da participação da União Europeia. Os Estados Unidos nada disseram, outros países nada disseram. Portanto, estamos neste pé em matéria de tentativa de maior envolvimento da ação internacional num dossiê em que até há poucos meses eram as próprias autoridades de Moçambique que mais afastavam qualquer espécie de abordagem que não fosse uma abordagem doméstica.
Portanto, temos uma situação claramente em que muito dificilmente haverá uma solução, dificilmente se vê próximo uma solução militar. Sendo que olhando um pouco mais, abrindo um bocadinho o olhar para a região, na África Na África Austral, não é só em Moçambique que há problemas. Os problemas começam primeiro no Sahel, mas depois vêm por aí abaixo, não é?
Sim, sem dúvida. E nesta própria costa oriental de África, as questões da Somália, agora novamente na Etiópia, que parecia um país em paz e onde renasceu também uma guerra localizada de alta violência, todos os problemas com que se tem defrontado é essa orla e uma certa conexão entre os radicalismos islâmicos dessa área, o radicalismo islâmico na zona dos Grandes Lagos e tendo como centro a província oriental do Congo, que é islâmica, e tudo o que se passa na África Ocidental em matéria de radicalismo islâmico e na Nigéria. E a circunstância de ter havido uma contenção maior desses movimentos no Iraque e na Síria, com derrotas do radicalismo sunita, essa circunstância leva a que esses movimentos, sobretudo o Estado Islâmico, projetem os seus militantes para investimentos operacionais nestas outras áreas onde os seus militantes facilmente encontram aliados locais para desenvolver este tipo de incursões. Portanto, nós temos que ter a noção clara de que há aqui um sistema de vasos comunicantes e se a coisa é mais esbatida num dos lados, vai renascer noutro e tudo indica que a África seja o terreno para onde vão aflorar essas compensações de perdas que o radicalismo islâmico está a sofrer em outros lados.
E vindo mais para sul, Jaime Nogueira Pinto. A situação, até se chegar cá abaixo à África do Sul, também tem vários pontos de grande instabilidade.
Sim, e a própria África do Sul vai ser sempre uma espécie de descolonização adiada, porque o fim do apartheid não foi propriamente um movimento de descolonização, é um paralelo, porque foi o fim de um domínio legal imposto de certo modo autoritariamente, militarmente, securitariamente da comunidade branca e dos não brancos e dos não negros, todos negros. Teve depois aquilo que muitos observadores chamam uma descolonização incompleta, no sentido em que isso não foi, até porque foi uma das condições da negociação e por isso que a negociação também aconteceu nessa época, foi exatamente no plano econômico, isso não se deu. E, portanto, continua a haver tensões muito fortes. Houve uma certa radicalização, até porque surgiram movimentos, partidos para a esquerda do próprio ANC, que tem procurado ser uma espécie de centrão, que procura, por um lado, equilibrar os elementos brancos, os indianos e os mestiços, onde tem bastante influência o Partido Democrático, o ANC tem procurado equilibrar, mas só que também do ponto de vista de modelo político-partidário, deixou de haver uma bipolarização para haver forças políticas, quer à esquerda e agora também à direita, que têm crescido com agendas talvez mais radicais. E, portanto, a África do Sul também, neste momento, além de uma profundíssima crise econômica, sobretudo nas grandes empresas públicas e fatores de desemprego muito importantes e agora circunstancialmente uma agressividade enorme da Covid-19. A África do Sul também tem minorias significativas islâmicas, onde se desenvolveram, embora por enquanto sem grande presença terrorista, mas onde também se desenvolveram movimentos jihadistas militares.
Temos uma situação, de facto, bastante complexa. E voltando apenas um último olhar rápido, já que estamos nesta região, para Angola. Jaime Gama, a situação em Angola depois de toda esta evolução recente, nomeadamente tudo aquilo que foi feito para pressionar a família de Eduardo dos Santos. Tem a percepção de que destas manifestações que houve, que mostram que continua a haver descontentamento entre a juventude, tem a percepção de que João Lourenço continua a ter a popularidade necessária para pilotar o país num período em que a crise econômica aperta?
Eu penso que há situações em que não é tanta popularidade, mas é mais a capacidade para conservar o poder conta E penso que, pelo que eu pude observar, terá havido, em certa altura, um pacto entre aqueles setores que se manifestam e o próprio poder de João Lourenço para dar um certo sinal de que as coisas mudavam e de que as coisas abririam. Mas essa relação não é uma relação estruturalmente consolidada, é uma relação que tem interesses táticos de parte a parte. E naturalmente, quando se abre um processo de liberdade política e se autorizam manifestações, as manifestações depois têm uma lógica própria de desenvolvimento e é difícil contê-las na versão inicial com que se pactuou com os autores iniciais da usufruição de um início de liberdades públicas. Portanto, há sempre depois dinâmicas próprias. E penso que é aí em que estamos. Quer dizer, compreendo que seja difícil a situação do presidente de Angola, porque as condições econômicas, a condição sanitária, obviamente, as condições sociais não são as ideais. E creio que ele gostaria de mostrar uma diferença desse ponto de vista, uma diferença em que pudesse somar uma certa batalha pela moralização do sistema político-econômico com alguma abertura do ponto de vista dos grupos que também contestavam a situação anterior. Mas esse é um processo difícil, é um processo que está no terreno e naturalmente é um processo que exige sempre um sentido de diálogo de parte a parte. Não sei se esses pontos de diálogo se mantêm, estão a ser ativadas ou se as coisas marcham para uma nova etapa em que esses encontros são mais difíceis. De qualquer modo, é uma situação a seguir. É uma situação que não tem a complexidade destas situações onde o fator islâmico está envolvido, e isso marca também uma diferença. Angola é um grande país africano que está inserido em África de uma forma muito especial, porque, por exemplo, quando se pensa os problemas em Moçambique, temos sempre que pensar na vertical. E quando se pensa os problemas de Angola, tem que se pensar no sentido horizontal, leste-oeste, ou pelo menos no sentido do raio de um semicírculo, mas em que há uma fronteira quase que naturalmente definida, que sanitariza Angola das inclusões de problemáticas dos vizinhos. Mesmo que elas sejam muito grandes, mesmo que sejam intensas, elas não têm grande capacidade para fazer a invasão do espaço geopolítico angolano. São situações completamente diferentes. E a própria forma como as nações se formaram marca bem essa diferença. Portanto, Angola tem problemas muito especificamente complexos, mas que são absolutamente distintos deste que nós encontramos na costa oriental da África.
Ah, então. Bem, terminamos por aqui mais um "Conversas à Quinta". Regressamos dentro de uma semana com novos temas. Até para uma semana.